| Pablo Ferreira de Souza |
  |
pabloferreira
A ponte para o sempre
(Pablo Ferreira de Souza)
Um homem se aproxima de uma fonte límpida. Uma imagem, um Deus. Mas
não era aquilo uma guerra? "SI VIS PACCEN..." Lembra de sua
casa, mulher e filho. Cai por terra: as águas não se movem, não
indicam a direção a ser seguida.
Da fonte, seu reflexo novamente o fita. O uniforme, ainda que ensangüentado,
caía-lhe bem. A arma em punhos. O fogo, sob os olhos. Uma imagem, um
Deus. Santificadas eram as causas de sua guerra: precisava salvar os náufragos.
À outra margem, o território inimigo. - A compaixão, disse-lhe
o Comandante, é virtude dos fracos. Uma ponte alta une os dois lados:
o homem sabe de sua missão, e segue firme. Na entranha da mata fechada,
percebe uma presença. Ergue a arma, o sangue ferve, olhar se afia.
Espera.
De repente, a surpresa: um garoto, com não mais de seis anos, é
dono de seu próprio rifle, agarrada ao peito com um egoísmo inocente.
Corre em sua direção, procurando atravessar a ponte. O soldado
tenta, mas as mãos retraem-se, descumprindo sua missão, traindo
seu povo. Apesar disto, a compreensão paterna aguardada pelo garoto não
pode ser vista em seu rosto; porque está tão perdido quanto ele.
Ao longe, outros surgem de repente, mas a mão congela-se, dominada. Santificadas
eram as suas causas, mas, por Cristo, aquele garoto lembrava seu filho! O corpo
treme, os sentidos acusavam a presença inimiga. Em desespero, fita a
água sob a ponte há pouco alcançada: uma imagem, um Deus.
Que chama por ele.
Uma fisgada no peito e se entrega.
Na queda, desperta para seu reflexo morto, juntando-se ao mar de corpos vitimados
pela guerra.
1029 visitas desde 6/07/2005
|