| Nina Araújo |
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O Juá de Carlinda
(Nina Araújo)
- Toinho, que cabelo reco é esse menino?
- Foi Cazuza do Bitéu mainha, ele que fez! Me deu dois trocado mode eu
cortá.
- Ô consumição da moléstia!!! E tu fôsse se
vender por dois trocado, condenado?
- Tava precisando mainha, depois cresce, num sabe
- Apois cresce também esse cróqui que já vou lhe dá,
visse?
E Carlinda saía correndo atrás do moleque já tão
acostumado a correr as léguas descalço pelo solo agreste, dando
cavaco em pedregulhos e espinhos de mandacarú.
A mulher nunca pegava, mas fazia menção de ir para impôr
o respeito.
A birosca ela levava com pulso forte e boa comida, treinou duas sobrinhas na
arte de receber as pessoas, e ia levando a vida entre o trabalho duro e a esperança.
Aquela esperança dava-lhe uma alegria inconfessa,um frescor dos dias,
nunca foi mulher de ir atrás dos homens, às vezes não conseguia
evitar os agrados constantes, mas seu coração tinha dono, embora
não fosse de trancar a cara.
E se perdeu o grande amor da vida para aquela estrada longa, não ia também
sangrar o pulso nem botar a goela numa corda, como fazia um tipo de gente besta.
Mas aquele mascate tinha trincado o seu coração, e Carlinda sabia
que o miserável era bem capaz de voltar um dia como prometera, por isso
gastava seu descanso ali no tamborete debaixo do pé de juazeiro, olhando
a bicha dá passagem para os caminhões afoitos
Seu pai ensinou que o juá curava até doença ruim, lembrou
do irmão de seu avô Biú que no ano de mil novecentos e quinze,
bem desenganado pelos médicos da capital, com a tal tuberculose, voltou
para morrer em casa, e de tão desleriado se embrenhou no meio do mato
alto lá para os lados da serra, e vivia de comer juá e outros
frutos brabos, quando pensaram que o homem estava morto, ele apareceu vivinho
e curado da malvada.
- Ah, juazeiro que cura os males dos homens, traz aquele que levou o meu juízo
para longe de mim
Assim Carlinda passava as tardes serena e dengosa. E o menino zunindo como azougue
em volta da árvore.
- Volta aqui, moleque!! Se pego , arranco seu couro de peste
ôxi!
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