A Garganta da Serpente
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Veneno
(Marcelo Queiroz Braga)

As nuvens tinham um quê de gravura, mistura de pintura de almanaque com desenho tridimensional. Quando paradas de todo, saltavam aos olhos, oscilando entre planas e ostensivas.

Eu sabia olhar as nuvens e tirar conclusões certeiras. Choveria logo mais, estava escrito. E eu ainda não havia matado ninguém.

Passei na farmácia. Comprei os três medicamentos que, combinados na medida certa, transformar-se-iam num veneno eficaz. Exatamente o que eu precisaria.

A fórmula milenar era um segredo de família que me fora passado por um louco, que eu encontrara na rodoviária. A princípio, não acreditei em suas palavras bêbadas: "Você já viu esses remédios? Olhe só. É pegar um bocado deste, uma pitada daquele e um punhado do outro e... pronto!" Ensinou-me como moer os comprimidos e diluir as gotas para conseguir a fração exata de cada um dos componentes. Passou-me, também, a fatal medida que se deve colocar de cada medicamento.

Anotei por anotar. O louco pegou um ônibus logo depois de me revelar a fórmula.

Por não ter o que fazer, entrei na farmácia que havia na rodoviária. Segui à risca o que mandava a receita. Levei quatro horas para conseguir preparar um pequenino frasco do tal veneno.
Não cheirava a nada, era transparente e não manchou o sofá, quando, estabanado por herança, deixei cair algumas gotinhas no estofado.
Meu gato já começava a me tomar muito tempo - tempo que eu possuía de sobra. E eu precisava testar o produto em alguma coisa viva. Nunca tive planta em casa.

O gato bebeu todo o leite, sem afetar desconfiança. Em dois minutos, deitou no chão da cozinha, rolou de um lado para o outro, soltou um fraco grunhido e morreu. Olhos arregalados e boca semi-aberta. Parecia sorrir; simpático, como nunca dantes fora.

O louco de louco tinha pouco, ou quase tudo. Fato é que o veneno era mesmo fatal. O que eu faria então com o corpo do gato risonho?

Com a prática, aperfeiçoei o processo e passei a produzir o veneno no tempo recorde de uma hora e meia. E com a mesma eficácia. A limpeza urbana começou a ter muito trabalho com os diversos felinos simpáticos, que, toda manhã, apareciam sobre a lixeira de minha rua.

O curso de medicina me possibilitou verificar que o veneno não deixava vestígios nos cadáveres. Duas autopsias bastaram para a constatação.

Não pude chegar em casa antes dos primeiros pingos. Eram grossos. Espaçados. Olhei para o céu com cautela, para que os pingos não me entrassem nos olhos. A chuva ainda duraria o tempo necessário para que eu pudesse preparar minha arma. Eu precisava matar alguém.

Todo vício é um pouco hobby. Ou muito. Matar, para mim, tornara-se um hobby na exata acepção da palavra.

Viciei-me aos poucos. Antes de matar meu gato, minha lista só continha alguns muitos inseticídios. Nada de anormal. Com a morte de meu gato, senti um certo alívio, pois, como já disse, ele começava a tomar muito de meu ocioso tempo. Para me aprimorar na arte da feitura do veneno, fui obrigado a dar cabo de algumas dezenas de felinos. Mas o remorso que achei que sentiria ao matar não apareceu, e acabei me acostumando. Viciei-me, expressão mais adequada.

Hoje será a minha estréia. Meu primeiro homicídio. O pequeno frasco cheio de veneno já está bem acomodado no bolso interno de meu paletó.

Quando piso a calçada, já não chove mais. Eu poderia arranjar um emprego como meteorologista. Mas só tenho forças para pensar em minha grande estréia. O crime perfeito. Sem motivo, sem pistas, sem suspeitos. Um assassino anônimo matando anônimos. Nunca serei descoberto.
Caminho pelas ruas à procura de minha primeira vítima. Primeira de tantas outras.

Véspera de feriado. A rodoviária está lotada. Mas posso vislumbrar, em meio à multidão, um conhecido: o louco. Já não o via há alguns anos!

Uma idéia calma trespassa minha mente.

Vou ao seu encontro. Chamo por ele, mas ele diz não me conhecer. Não importa. Ante a ameaça aos meus planos, convido-o para uma cervejinha, acariciando levemente o pequeno volume que tenho no paletó.

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