| Maristel Dias Santos |
  |
Cafezinho
(Maristel Dias Santos)
A noite vai alta. Quase madrugada. O silêncio é total. Um silêncio
pesado. Ele ouve o silêncio. Como dormir ouvindo esse nada absoluto? Imagina-se
morto. Olhos abertos que nada vêem. As mãos postas sobre o peito
não sentem os batimentos cardíacos. Todo o corpo, pesado como
chumbo, afunda no colchão macio. Sente-se morto. Deseja estender o braço
esquerdo e tatear a procura o corpo da mulher, mas não consegue. De qualquer
forma, seria inútil. Não há ninguém lá. Ela
partiu. Sorria ao entrar no carro, atirando um último beijo. Ele se arrepende
de ter permitido aquela viagem. Está só naquele quarto morto.
Se, ao menos, pudesse abrir a boca, gritar, emitir algum som, as crianças
ouviriam do outro quarto e viriam... acenderiam as luzes e aquele torpor alucinante
acabaria. Gritar. Precisava gritar. Bobagem. As crianças não poderiam
ouvir. Lembrava-se, agora, de vê-las no banco de trás do carro.
Partiram também. E foi ele mesmo que incentivou o passeio: a visita à
vovó. Ah! Como se arrependia! Era a primeira vez que ficava assim, sozinho
e desejara tanto isso! Preparara por longos dias esse plano diabólico.
Aguça o ouvido. Algo estalou em algum ponto da casa. Depois, mais nada.
Podia ser Ritinha, a jovem criada que o havia seduzido. Ritinha, sim. Ritinha
era a culpada. Ela falara: "Venho bem cedo, amanhã. Fico com a chave.
Aproveito a casa vazia e faço uma boa faxina".E juntou, às
palavras, um olhar cúmplice. Ao amanhecer Ritinha viria e com ela aquele
cheiro estranho de suor e hortelã, aquele riso malicioso cheio de pérolas
brilhantes. Aquela pele marrom dourada, esticada, inflada por músculos
generosos e empinados. Ele desejava tocar aquela pele. Apertar nas mãos
aqueles seios pequenos e atrevidos que se moviam soltos dentro da blusa larga,
feita num tecido rústico, mas fino, quase transparente, puído,
gasto pelas incontáveis lavagens com água e sabão. Precisava
imobilizar sob o seu, aquele corpo elástico e rijo. Andava meio louco
de desejo. Era preciso resolver de vez, ou perderia o juízo. Ritinha
era a culpada. Não era ela que vinha sempre tirar o pó dos móveis
na sala onde, depois do almoço, ele sugava o charuto, tomando o cafezinho
servido pela esposa? E dobrava-se, esticava-se, subia na cadeira para alcançar
as prateleiras mais altas, exibindo, despudorada, coxas e nádegas exuberantes.
Ela se insinuava, tentava, seduzia, a diabinha. Agora, porém, ele morto,
nada poderia fazer se Ritinha entrasse no quarto. Estava morto. Morto de medo.
Onde arranjar coragem de olhar o contraste violento da brancura dos lençóis
com a pele de ébano da linda mulata? O silêncio esmagava-o. Todos
os sentidos paralisados. Somente os pensamentos giravam queimando, incendiando,
pressionando, destruindo seu cérebro. Imaginava os negros cachos esparramados
sobre o travesseiro habituado aos loiríssimos cabelos da mulher. Exultava
e, ao mesmo tempo, abominava a imagem. Num último e heróico esforço
tentou erguer-se. O corpo não obedeceu. Morto de medo e melhor que assim
permanecesse.
De repente, um leve estremecimento. Um movimento lá fora. Sons leves.
Só um leve trepidar, mais adivinhado que sentido e, rapidamente, num
crescente, dois, três, mil passarinhos despertando. Dentro do quarto,
a escuridão transforma-se em sombras sutis delineando, aos poucos, os
móveis, as paredes, o teto. Amanhece e ele sente-se ressuscitar. Estava
vivo, afinal! Olhou os pés, à sua frente, cobertos pelo lençol.
Quis mover o dedo maior e... conseguiu! Soltou as mãos e, um a um, os
músculos foram-se retesando. Esticou-se, virou de lado e depois de bruços
sobre o travesseiro da mulher. Cheirou-o, procurando sentir o perfume doce e
suave. Deu graças a Deus. Estava vivo e, com a noite, a loucura fora
embora. Desejou que Ritinha não viesse trabalhar. Que tivesse pego uma
gripe ou quebrado um braço ao descer do ônibus. Ritinha não
podia vir. É isso. Aproveitaria a ausência da patroa e ficaria
em casa, descansando. Sentiu o corpo relaxar. Estava exausto. Adormeceu.
Uma explosão! Sentou-se, num pulo. O coração disparado.
Olhou o relógio, na mesinha: oito horas. Atordoado, procurava identificar
o ruído que o despertara. Agora, outros sons. Barulho de água,
baldes e vassoura esfregando o chão lá fora. Era Ritinha. Viera,
afinal. Tudo bem. A loucura, o delírio passara. Iria tomar um banho e
sairia para o escritório. Sairia sem café. Tomaria o café
na rua. Permanecer na casa seria muito arriscado. Não, não ficaria
ali. Não com Ritinha por lá.
Saiu do banheiro renovado, confortavelmente envolvido num roupão. Acendeu
um cigarro e voltou ao banheiro para barbear-se. A loção, na pele
escanhoada, acabou de despertá-lo. Voltou ao quarto, sentou-se na cama
e procurou localizar Ritinha dentro da casa. Os sons vinham, agora, da cozinha.
Aí, um delicioso aroma de café recém passado encheu o quarto.
Na expectativa, imaginou se a pequena pantera não estaria atrás
da porta, com uma bandeja caprichada, sorriso de pérolas, suco, café,
seios dançantes, pão com manteiga, olhares maliciosos, pernas
e ancas. O barulho, agora, era de panelas e louça, sempre na cozinha.
O relógio exibia 9 horas. Acendeu outro cigarro. Caminhou pelo quarto.
Abriu e fechou gavetas. Parou diante do espelho grande e examinou-se: olheiras
profundas, pálpebras inchadas, mãos trêmulas. Natural. Resultado
de uma noite insone. Apagou o cigarro. Outra volta no quarto: 9h20. Lentamente
começou a vestir-se. Que vontade de tomar café, cheirar hortelã,
morder carne morena, beijar pérolas...
Deu o nó na gravata, vestiu o paletó, guardou cigarros, isqueiro
e carteira nos bolsos. Mais um olhar no espelho, outro no relógio. Quase
10horas. Melhor ir logo embora. Já estava atrasado. Saiu do quarto direto
para a porta da garagem. A mão no trinco e aquela vontade desesperada
de tomar café... Só um café. Um cafezinho só. Voltou.
Parou à porta da cozinha. Respirou fundo. O coração batia
descontroladamente. Abrir ou não abrir a porta da cozinha?
Abrir, claro! Afinal a vontade do café estava-se tornando insuportável.
Reuniu todas as forças, empurrou a porta e estacou lívido, olhos
arregalados, boca aberta. Mas, quem é esse corpo gordo, essas pernas
tortas, esses cabelos desgrenhados, amarrados num lenço amarelo?! A "coisa",
assustada, voltou-se e riu, exibindo falhas horríveis nos dentes tortos
e escuros.
- Não sabia que o patrão estava em casa. Sou a mãe da
Ritinha. Ela foi para Minas com a madrinha que chegou ontem. Vai morar lá
uns tempos. Mas o senhor não se preocupe. Vou ficar no lugar dela. O
senhor quer um cafezinho?
"Cafezinho? Não, de jeito nenhum. Cafezinho, nunca mais! Nunca
mais!"
295 visitas desde 27/03/2009
|