| Mônica Bragança |
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Ilusões
(Mônica Bragança)
A noite estava calma em Wistin. Já era tarde e todos estavam dormindo.
Apenas dois olhinhos assustados brilhavam no espelho da sala. Lá fora,
uma lua encabulada iluminava muito mal o caminho. Mas, para que luz se não
havia ninguém no caminho. Naquelas terras não apareciam nem mortos
para contar histórias, era o que diziam os moradores mais velhos do local.
E os olhinhos continuavam assustados brilhando no espelho da sala. O relógio
bateu 2 horas da manhã. Uma pequena rufada de vento fez flanar a toalha
rendada de azul da mesinha de canto, uma que ficava ao lado do sofá carmim.
Mas quem esqueceu as janelas abertas? Os olhinhos, ainda assustados, olhavam
de soslaio para o vento que brincava com a toalha rendada de azul, mas ainda
permaneciam grudados ao espelho. Um barulho, muito pequeno mesmo, quase inaudível,
fez os olhinhos gritarem de pavor. Logo após, ouviram-se passos, passos
pequenos e apertados, como de alguém com pernas bem pequenas e pesadas.
O bater das chinelas no piso de madeira fazia o barulho dos passos soarem mais
alto do que o peso do corpo poderia suportar em tamanhos pés. Os olhinhos
mais assustados ainda continuavam a olhar, só que agora se dividiam entre
o rufar do vento, o espelho e os passos no piso de madeira. Uma luz acendeu
na rua, na 5º casa à esquerda, subindo a alameda principal, o que
fez com que uma luz tênue pudesse entrar por entre as janelas que foram
esquecidas abertas e brincar com o vento que ainda investia contra a toalha
rendada de azul. Os passos agora mais próximos pararam e os olhinhos
ficaram petrificados sem ousar um desvio sequer, com medo de que fossem perder
alguma coisa. O relógio bateu 3 horas da manhã. Um cheiro de dama
da noite entorpeceu a madrugada fazendo com que um longo suspiro fosse ouvido.
Até o vento parou para sentir e depois continuar a brincar com a toalha
rendada de azul. O espelho, devido à luz tênue da 5º casa,
começou a desenhar um corpo. Os olhinhos assustados detiveram-se na imagem
que ia se abrindo, se abrindo, se mostrando, e os passos foram ficando ainda
mais próximos; os olhos grudados no espelho, em dúvida do que
viam, ainda assustados brilhavam como estrelas. O vento deixou de ser brisa
e mudou seu compasso, deixou de lado a toalha rendada de azul e começou
a balançar as abas das janelas esquecidas abertas. Os olhinhos assustados
agora tinham outra forma, e as janelas esquecidas outro barulho, a luz tênue
da 5º casa fôra apagada e a lua ainda continuava encabulada, nem
os mortos saíram para lhe ver, mas ver o quê? Os passos detiveram-se
em frente ao espelho, os olhinhos assustados foram suspensos no ar. Um par de
mãos gordinhas fechou a janela, suspirou o ar da dama da noite, arrumou
a toalha rendada de azul, e, pegou seus óculos, esquecidos na mesinha
de leitura do lado oposto do sofá carmim, em frente ao espelho.
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