A Garganta da Serpente
ajuda
 
 
  versão para impressãorecomende esta página
Lira Vargas saiba mais sobre o autor

Essa é para pensar
(Lira Vargas)

Em minhas viagens à procura de novidades para as colunas de para as colunas de jornais,experimentei a sensação de "pasmo" ao fato abaixo:

Na cidade de Jaboatão, em Pernambuco, após longas caminhadas, todos os viajantes, como um recurso de sobrevivência à sede que aquele clima seco provoca, param num casebre à beira da estrada.

O poço fundo e quase que vazio parecia estimular ainda mais o desejo nos viajantes de beber água.

No galho seco havia um lindo papagaio, de um colorido colossal, em contraste com aquela paisagem castigada pelo sol. De um vocabulário rico, o papagaio atraia a todos que pôr ali paravam. As crianças pançudas, piolhentas, desprovidas de conforto, nada diferente em aspecto e do papagaio de nome Lito.

Percebi a chegada de uma família que ali parou, depois da admiração pelo Lito que após as ofertas para a compra da ave, as crianças corriam até a mãe, seguravam as barras de sua saia e diziam: "vendi não, mãe". E a ave resmungava no mesmo tom de súplica: "Vendi não, mãe".

Fiquei observando a família que insistia com a oferta tentadora, talvez pôr capricho. E como o dinheiro fala mais alto naquela região, Lito foi vendido. Aos choros as crianças deixavam as lagrimas se misturarem à poeira daqueles rostos marcados pela fome e miséria. Ainda ouvi a ave dizer num cabo da vassoura, já amarrada na mão da mulher vidrada pela vitoria como se estivesse saindo de um leilão: Vendi não, mãe... E a mulher ria admirada pela sabedoria da ave. A mãe das crianças deu uma sacudida nos que choravam, contendo os soluços, transformando-os em resmungo abafados, derivados de uma tristeza inexplicável, e a saudade já fazendo parte de suas vidas miseráveis.

Aquela cena tirou todo o meu entusiasmo de pesquisar a vida nordestina. Voltei para o hotel e tratei de marcar a viagem de volta. No aeroporto encontrei a família que comprara a ave. Rapidamente procurei pelo papagaio e soube que haviam embalado-o junto com as bagagens para não ser visto.
Ao chegar no Rio de Janeiro, fiquei parada, um sentimento estranho apossou-se de meu ser e a curiosidade de saber como a ave estaria após sair do bagageiro. Fiquei parada, a expectativa prolongou o tempo. A família já nem falava da ave. Traziam vários produtos nordestinos, a ave era apenas mais uma "coisa".

Ouvi alguém dizer que deveriam verificar o papagaio. Ao abrirem a gaiola disfarçada em embrulho, alguém falou lamentando "que pena, o papagaio morreu, talvez por falta de ar".

Permaneci parada com o gosto das lágrimas presas à garganta, talvez as lágrimas das crianças nordestinas. Discretamente jogaram o embrulho do papagaio na lixeira luxuosa do aeroporto.

Nesses momento, uma música suave tocava naquele ambiente, e em minha lembrança a voz do papagaio: Vendi não, mãe...

355 visitas desde 9/07/2005
   
  Os contos estão em ordem alfabética por:
» Prenome do autor:
A B C D E F G H
I J K L M N O P
R S T U V W Y Z

» Título do conto:
A B C D E F G H
I J K L M N O P
Q R S T U V W X
Z #
» últimos 20 contos


Legenda dos ícones:
  novo autor / novo trabalho
  autor em domínio público
  autor falecido
  trabalho premiado

Copyright © 1999-2008 A Garganta da Serpente
Direitos reservados aos autores  •  Termos e condições  •  Fale Conosco www.gargantadaserpente.com