A Garganta da Serpente
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Marcas no Asfalto
(Lira Vargas)

Sinézio trafegava na estrada Amaral Peixoto, o celular toca e ele atende com carinho: era Luiza, sua esposa reclamando de dores de cabeça. Sinézio pacientemente a tranqüiliza, que já estava chegando. Luiza possui uma agência de turismo, eram casados e tinham dois filhos, Elizabete de doze anos e Felipe de dez. Mas Luiza sempre fora insegura com relação à fidelidade de Sinézio.

Sinézio é empresário, dono de uma fábrica de plásticos, herdado do pai de Luiza que morrera na Itália, vítima de um acidente de trem.

Era início de noite, a chuva fria refletia no asfalto os faróis dos carros. No rádio uma canção alegre, ele batuca no volante, desliga o celular e dá um suspiro de impaciência pelas queixas de Luiza, mas ele mantém uma aparência de um casamento tranqüilo, Por gostar muito dos filhos, e por ter herdado do sogro, a fábrica de plástico. Viera de uma família simples, mas a ambição fizera de sua vida o maior objetivo de ficar rico.

Luiza chama Celeste, gerente de confiança, e diz que vai embora mais cedo, estava cansada. Celeste, alegre e simpática, inicia uma conversa para distrair Luiza, falando do encontro com seu novo namorado, mas Luiza não presta atenção, pois já anoitecia e queria chegar antes de Sinézio em casa. Vai para a garagem e o manobrista a cumprimenta e vai apanhar o carro. Luiza aproveita e torna a ligar para Sinézio, mas celular está fora de área, ela insiste impaciente. Entra no carro, e mal agradece ao manobrista.

A praia de Icaraí está congestionada, ela insiste na buzina inutilmente. A chuva fina de inverno afastara as pessoas do calçadão, as ondas batiam enfurecidas na praia levantando espuma e aumentando a serração. As luzes a mercúrio pareciam tristes, refletindo na praia solitária, numa insistência inútil de iluminar para alegrar aquela noite de inverno. Os carros parados num congestionamento rotineiro, os motoristas agasalhados e refugiados nos carros de vidraças fechadas. Um guarda da prefeitura apitava tentando resolver aquela lentidão. De longe ela avista a praia do Flamengo, seus pensamentos voltam ao passado, quando conhecera Sinézio, seu jeito gentil e carinhoso, mas seus olhos nunca encontravam os seus, estava sempre disperso.

***

Conhecera Sinézio na formatura de seu irmão, eram colegas de turma, e foram comemorar num barzinho em São Francisco - a turma animada, muita bebida. Já era de madrugada quando resolveram voltar, Sinézio não se definia com nenhuma das garotas, e Luiza era muito tímida, logo se apaixonara pelo seu jeito descontraído de brincar com todas as jovens. Seu irmão Alberto namorava Tânia, então resolveram ficar sozinhos depois de tantas comemorações. Pediu a Sinézio que levasse Luiza pra casa. Sinézio tentou evitar, pois seu interesse era em outra jovem, mas como eram muito amigos, resolveu atender seu pedido. Luiza sentiu a alegria da vitória, entrou em seu carro, suspirando de alegria, mas escondida em sua timidez. Seguiram pra casa, mas ao chegarem, Sinézio despediu apenas com um beijo. Mas quando levou Luiza até o portão, percebeu a imensa mansão que moravam. Naquele momento, seu jeito mudara, não sabia que Alberto e Luiza eram ricos, pois não ostentavam sua posição. Luiza percebeu sua mudança e contentou-se, pois não importava se ele ficara mais interessado em sua riqueza ou nela. Sinézio segurou seu rosto e a beijou carinhosamente e fora correspondido. Resolveram ficar alguns momentos nos jardins da casa. As carícias de Sinézio fizeram Luiza acreditar que o conquistara. De repente Dora, a babá de Luiza, acende as luzes dos jardins e Luiza dá um sorriso e promete a Dora que já ia subir.

A mãe de Luiza morrera quando Alberto nascera, e Dora assumira as tarefas da casa. O Dr. Fausto confiara seus filhos à Dora. Não era segredo a paixão que Dora nutria por ele, mas sua vida de empresário e mulherengo, nunca assumira um relacionamento com ela. Até que poucos anos depois, numa viagem com uma misteriosa amante, veio a falecer na Itália, surgiu um boato que ele deixara a tal amante com bens na Itália. Ficara sabendo que era uma mulher muito bonita de nome Michelina.

Luiza tinha semblante triste e confidenciava sua vida à Dora, dizendo que ele ficara mais impressionado com a mansão, do que com ela. Dora faz uma cara de preocupação. Luiza sobe as escadas para o andar de cima com os sapatos nas mãos, e entra no quarto se jogando na cama.

Vai até a janela de seu quarto e dá um suspiro de felicidade. Dora a olha com carinho e insiste que ela deve ter cuidado.

Dora pergunta por Alberto, Luiza responde descontraída que ele saíra com uma namoradinha. Dora se despede de Luiza e vai para o quarto, liga o rádio. E logo adormece. O telefone toca, ela abre os olhos, e ao atender, se arrepende e desliga sem saber quem era. O telefone torna a tocar e Dora atende. Era da delegacia, informando que Alberto sofrera um acidente. Desesperada, vai ao quarto de Luiza, e depois ao do motorista e o acordam para levá-las ao hospital.

Chegando na recepção, o olhar da recepcionista denuncia o que elas temiam. Alberto morrera no acidente.

Luiza e Dora, agora sozinhas, a empresa do pai era administrada por um síndico escolhido pelo juiz de menores. Sinézio se aproxima ainda mais de Luiza, ela apaixonada, logo marcam casamento.

Alberto se formara em administração de empresas e se infiltra nas empresas. Luiza sentia que não havia paixão, mas bastava seu companheirismo.

As montanhas cobertas de gelo, o frio cortante de Dambory Luiza ensina Sinézio a esquiar no gelo, ele fascinado pela emoção de estar naquele lugar que pensara jamais conhecer. Luiza, apaixonada, a todo instante o beijava, a lua de mel de seus sonhos ao lado de Sinézio. A retribuição era amena, mas a fazia feliz.

Na recepção do hotel, Luiza é quem se comunicava, pois Sinézio não sabia falar inglês. Foram para a sala de jogos que tinha uma parte da parede envidraçada, do outro lado, um corvo gritava a cada pedaço de pão que Sinézio oferecia a ele.

Na manhã seguinte, Sinézio acorda com disposição de turista, chama Luiza pra tomar café, mas ela recusa, prefere ficar na cama. Sinézio desce e demora a voltar, Luiza caminha pelo quarto impaciente e tenta chamá-lo pelo interfone, liga para o restaurante, e não o encontram, ela insiste que o procurem, logo depois Sinézio é localizado, e atende, Luiza reclama sua ausência demorada e pergunta em que parte do hotel ele está, Sinézio responde que estava no restaurante. Um corvo gorjeia alegremente. Sinézio a convida para descer, ela diz que está com dor de cabeça. Mas se apressa e vai ao seu encontro. Luiza vai à sala de jogos. Uma turma de brasileiros estava jogando e Sinézio animado com uma jovem jogando pão para o pássaro. Luiza não se deixa ser vista e retorna para o quarto. Quando Sinézio chega, ela diz que os americanos não gostam que joguem pão para os corvos, Sinézio finge naturalidade e diz que só fizera isso no dia anterior. Luiza o desmente e diz que ao ligar pra ele, ouvira o canto do pássaro. Sinézio sem jeito se desculpa dizendo que tinha dado uma chegada na sala de jogos, mas não ficara muito tempo, pois não sabia como se comunicar e retornara para o restaurante. Luiza finge acreditar e não fala no assunto.

***

Luiza impaciente no trânsito, tenta esquecer o passado. Acende um cigarro e o trânsito é liberado. Chega no condomínio. Ofegante, pára o carro na garagem e entrega as chaves ao manobrista sem cumprimentá-lo. Entra em casa, Elizabete vem ao seu encontro para falar de umas novidades, mas Luiza a beija distraída e pergunta por Sinézio.

***

O trânsito é lento, e Sinézio aproveita para correr um pouco mais. À sua frente um ônibus trafega lentamente, ele acelera e vai cortar, quando uma moto também faz a mesma manobra. Sinézio atropela o motoqueiro jogando-o no canteiro. Por um momento, Sinézio, tenta fugir, mas o motorista do ônibus parou, pois a moto também esbarrara na traseira e o barulho fez com que todos os automóveis parassem. Sinézio percebe que não tinha como fugir, e vai ao socorro do motoqueiro. Sua perna por baixo da moto, via-se que estava quebrada com fraturas exposta. É colocado no carro e Sinézio o leva ao Hospital.

No caminho tentava conversar com o rapaz que reclamava de dores. Era entregador de uma pizzaria. No Hospital, Sinézio solicita maiores atenções ao rapaz. O médico Dr. Paulo, o tranqüiliza e diz que logo daria notícias após alguns exames.

Sinézio aproveita uma oportunidade e liga para Luiza informando o que acontecera. Luiza se mostra preocupada e diz que deveriam informar logo ao advogado da empresa o que acontecera. Mas Sinézio diz que a situação estava sobre controle.

O motoqueiro, Afrânio, foi submetido a uma cirurgia. Sinézio permaneceu no Hospital à espera dos fatos. Logo a família do rapaz apareceu. Uma jovem morena, simples, mas de uma beleza fascinante, entra na sala de espera, era esposa do motoqueiro. Seu jeito descontraído combinava com os olhos discretamente marejados d'água - entrou perguntando por Afrânio. A saia curta, sandália de couro, as unhas sem cuidados especiais, as longas pernas morenas e os cabelos jogados nos ombros, a pele do rosto sem maquiagem, a harmonia daquela beleza simples porém atraente, fez Sinézio fixar os olhos nos seus, uma mistura de preocupação de sua reação quando soubesse que fora ele o motorista que atropelara seu marido, e admiração por tamanha beleza numa jovem humilde, que por pouco não se tornara viúva. Os dois se olham, e Sinézio tenta explicar o que acontecera. Marina, sem apresentar muitas preocupações, diz que Afrânio era muito audacioso no trânsito. E que sua irmã, Deise, era enfermeira naquele hospital, e que Afrânio estaria bem cuidado. Ele fica mais descontraído com aquelas palavras, em seus pensamentos a confusão daquela situação, ansiava em sair daquele local.

Sinézio deixa seu cartão com Marina e se põe à disposição para qualquer eventualidade.

Luiza está impaciente na sala, a angustia toma conta de seus pensamentos, torna a ligar para Sinézio, ele já estava no elevador. Chegando, Sinézio explica o que acontecera e diz a Luiza que daria toda atenção àquela família que eram humildes. Luiza faz mais perguntas e sente uma estranha sensação de preocupação. Sugere que Sinézio entregue o caso ao advogado para cuidar de tudo, mas Sinézio diz que ainda era cedo, e que ele mesmo acompanharia de perto os fatos.

Elizabete entra chorando na sala queixando-se de Felipe que arranhara o cd de músicas infantis. Luiza tenta conformá-la e Felipe chega rindo, tentando se defender. As gritarias das crianças enfurecem Luiza que os manda para o quarto. Dora tenta amenizar e Luiza a acusa de ser culpada deles serem tão levados. Dora dá um sorriso e diz que ela também era assim quando criança.

Sinézio pede licença e diz que precisa descansar. Luiza o olha preocupada, não gostara da idéia dele envolver-se tanto com aquela família do acidentado.Na cama, Sinézio dá um beijo no rosto de Luiza e suspira cansado, se virando para o outro lado.

Na manhã seguinte Sinézio passa no hospital para saber noticias de Afrânio. Na recepção, encontra Marina conversando com uma enfermeira, ela a apresenta dizendo que a enfermeira era sua irmã. Sinézio pergunta por Afrânio. Deise sai para chamar o médico plantonista para falar sobre o estado de Afrânio, pois o Dr. Paulo fez a cirurgia e só retornaria no outro dia. Sinézio sentindo mais aliviado, pois o Dr. Jonas, diz que fora uma pequena cirurgia, e que tudo estava sobre controle. Sinézio torna a oferecer ajuda caso precisasse. Ao se despedir, Marina diz que também estava de saída. Sinézio pergunta se ela aceitaria uma carona ou um táxi. Marina dá um sorriso meigo e diz que iria de ônibus, Sinézio insiste e ela aceita a carona.

No caminho Sinézio fica sabendo que ela mora em Rio Bonito, e a conversa animada de Marina, faz com que Sinézio sinta vontade de levá-la em casa. A pequena saia de Marina deixa a mostra as pernas morenas. Sinézio tenta não demonstrar a atração, e ela finge não perceber que ele a olhava com interesse. Marina diz que estava se separando de Afrânio, pois ele era alcoólatra, e que moravam numa pequena casa no quintal dos pais dele.

Luiza estava de saída para o trabalho, no elevador, pega o celular e liga para Sinézio. Ele olha o telefone e percebe que era Luiza e faz um sinal para que Marina não fizesse barulho, pois tinha que atender ao celular. Marina dá um sorriso debochado, olha para o outro lado, morde os lábios, percebendo que Sinézio estava entrando em seu jogo de sedução. Luiza pergunta onde ele está, Sinézio responde que estava indo para uma agência de automóvel, na estrada Amaral Peixoto. Ao desligar, dá um sorriso e justifica dizendo que Luiza é ciumenta e não gosta de causar problemas. Marina finge compreensão e sorrindo, comenta que Afrânio também é ciumento.

Do outro lado da rua um cachorro tenta atravessar e Marina, com voz de dengo, pede a Sinézio que buzine para o cachorro desistir de atravessar, ele acha engraçado sua atitude e além de buzinar, brinca imitando o cachorro, e diz que ela não precisa ficar assustada, ele só estava do outro lado da estrada olhando as pessoas passearem de carro. Marina ri com alegria.

Luiza chega no trabalho com expressão de preocupação e impaciência, passa pela recepção e não cumprimenta os funcionários, esses se olham e Paula, a recepcionista, sempre bem humorada, faz uma careta imitando Luiza.

Celeste a gerente está em sua sala, falando ao telefone, Luiza senta a sua frente e fica calada esperando com impaciência que ela desligue o telefone. Ao terminar, Celeste a olha com carinho perguntando o que está acontecendo, Luiza relata que Sinézio atropelara um rapaz e que não estava gostando da atenção que ele estava dando à família, pois não quis entregar o caso ao advogado e que logo cedo fora ao hospital saber do rapaz, e não atendera ao telefone. Celeste a olha com compreensão e tenta amenizar a situação dizendo que ela não deveria se preocupar, talvez ele estava evitando que a imprensa soubesse do ocorrido para não complicar a vida profissional dele.

Luiza dá um suspiro, e se retira, chega em sua sala, e solicita a recepcionista que não a incomode, não quer receber clientes. Pega o celular e tenta outra ligação para Sinézio.

No rádio uma música melancólica acompanhava a conversa de Sinézio e Marina, ela dando uma risada, pergunta se não poderia mudar a estação - na permissão, Marina acha uma música animada e acompanha cantando. Sinézio admira sua voz e diz que não conhece aquela música, pois sua esposa não gosta desse estilo.

Marina aponta para a rua que ela mora, Sinézio atende e nas proximidades, as árvores circundando a rua, os pássaros em revoada, Sinézio pára e admirando os mesmos, abre o vidro para ouvir seus cantos, um sabiá assoviava, Marina salta do carro e responde ao assovio sendo acompanhado pelo pássaro, ele sorri daquela cena, e tenta imitar e o sabiá não responde, é motivo de risada, de repente, os dois se olham, os rostos se aproximam, as bocas se entreabrindo para um beijo de desejos, o cenário da natureza contribuindo, as mãos se entrelaçando os corpos sugando um ao outro, o sabiá dá um assovio de alerta, o celular toca. Sinézio se afasta de Marina, dá um suspiro e atende. Luiza insiste em saber onde ele está, Sinézio diz que está com Alfredo o gerente da agência de carros tratando de negócios. Luiza insiste em saber que tipo de negócios, Sinézio carinhosamente a conforta dizendo que era uma surpresa pra ela. O sabiá responde alertando.

Luiza desliga o telefone, olha para a janela com expressão de desconfiança.

Celeste entra cantarolando para chamar a atenção de Luiza que está com a cadeira virada para a janela absorta nos pensamentos. Celeste a informa que fechou com um grupo de dois aviões para Marrocos. Marina se vira lentamente e concorda forçando um sorriso de satisfação. Mas Celeste percebe que algo a estava preocupando.

Celeste trabalha com Luiza desde que Sinézio abriu aquela agência de turismo, pois Luiza depois que as crianças chegaram em idade escolar, à monotonia aumentava os ciúmes de Luiza, e ao conselho do analista, Luiza aceitou fazer um curso e nessa época conheceu Celeste na seleção e já trabalhavam há oito anos.

Celeste compareceu no dia seguinte para trabalhar. Seu jeito alegre e singelo conquistou Luiza, as duas da mesma idade. Nessa manhã, Luiza chegou preocupada porque Felipe estava com febre, e Celeste a confortou dizendo que era uma gripe que logo ele ficaria bom. O relacionamento das duas foi dando certo, Luiza a promoveu a gerente, pois além de sua eficiência, era sua confidente.

***

O trânsito da Av. Paulista estava confuso, alguém ligara para a central da polícia denunciando um assalto numa grande empresa de seguro. Os policiais foram indicados pelo delegado para dar socorrer os reféns. No décimo quinto andar, da empresa seguradora, os grandes escritórios tinham divisórias com pouco mais de dois metros, os policiais tentavam negociar com os assaltantes, dos reféns ouvia-se algum murmúrio, a agente Suelen consegue distrair os assaltantes e entra no banheiro, que tinha um alçapão. Sobe por esse compartimento e vai se arrastando pelo forro, segue as frestas de luz pelas saídas do ar condicionado. Num momento, ouve alguém conversando, chega mais perto da grade da saída de ar e percebe que havia mais de duas pessoas. Seu instinto policial a faz prestar atenção, então com muito esforço consegue ver que os assaltantes eram comparsas de dois homens de ternos na sala da diretoria.

Eles conversavam calmamente, sendo instruídos de como saírem dali. Enquanto os outros assaltantes forçavam a situação para fugir, pondo em risco a vida dos reféns. Suelen tenta tirar as grades, mas de nada adiantaria, pois não daria para passar, então resolve se rastejar de volta para o banheiro e tomar outra decisão. Ao chegar, ouve tiros e apressa para sair dali. A confusão fora formada, os tiros disparados ameaçavam sua vida, pois todo momento perfurava o gesso. Quando Suelen chega ao banheiro, corre para informar ao chefe do que acontecia, mas não teve oportunidade, os assaltantes foram detidos, alguns reféns morreram.Na rua as pessoas em pânico, a polícia forma um cerco, curioso tentam chegar perto, Suelen encontra um colega policial e relata o que ouvira, e ambos combinam relatar o fato na delegacia.

Na delegacia Suelen explica ao delegado o que acontecera, esse se mostra enraivecido e no dia seguinte os diretores da seguradora foram chamados para interrogatório.

A agente foi chamada pelo delegado para relatar o fato e ela os acusa, mas indignada com a situação que o delegado a pusera, pois percebe que era um caso perigoso.

O caso vai parar no tribunal e ela como testemunha. Suelen agora orientada por um advogado público, percebe que perdera sua tranqüilidade.

A noite era chuvosa, ela sai da delegacia e vai até o estacionamento. Segue para a Av. Paulista, e percebe um carro a seguindo, ela diminuiu a velocidade para ter certeza de sua desconfiança, mas o carro também fez o mesmo, ela entra numa rua e o carro continua, ela pega o revólver e o põe ao seu alcance, liga o celular de viva voz e chama por Élson seu colega policial, mas está fora de área e ela deixa recado na secretária do que está acontecendo. Aumenta a velocidade, mas depara com uma rua sem saída e é acuada pelo carro. Suelen salta e corre pelo longo muro, e os ocupantes do caro saltam em sua perseguição, ela sobe no portão de uma fábrica tentando saltar para o outro lado, mas não dá tempo, eles atiram em sua direção. Suelen alcança um refúgio e revida o tiroteio, nesse instante acerta um dos atiradores, outros dois correm em sua direção ela está acuada, e põe em prática tudo que aprendera em sua vida de policial.

Em seus pensamentos lembra de quando passara no concurso para polícia, sua mãe a abraçou e pediu que ele tomasse cuidado. Foi numa noite, quando ela voltava da escola, quando chegou em casa, percebeu que tinha muita gente no portão, correu ao encontro de sua mãe, preocupada com o que teria acontecido, ao entrar, sua mãe estava deitada no sofá amparada pelas vizinhas, chorando.

Suelen a abraça e fica sabendo que seu pai, voltando do trabalho, entrou no ônibus e foi surpreendido por assaltantes, defendeu um passageiro assaltado no ônibus e ao reagir, levou um tiro na cabeça. Suelen abafa o choro, em seus pensamentos a revolta e o juramento de ser policial como seu pai.

No velório, Suelen fala baixinho que seguiria sua profissão, e que ajudaria os cidadãos na árdua tarefa da defesa contra o crime.

Os tiros de revólver saudaram o enterro de seu pai. O capitão da polícia militar, fez um breve discurso elogiando o Sargento Enio por sua morte heróica. Suelen agora responsável pela família trabalhava numa loja e estudava. Fez concurso para a polícia civil e passou em primeiro lugar. Seu destaque pela dedicação era notável. Mas sua mãe entregou-se a uma profunda depressão e morreu poucos meses depois.

Os homens foram se aproximando, Suelen rola pelo chão e dá um tiro certeiro. Outro cai mortalmente ferido, o outro foge sem olhar para trás, ela tenta persegui-lo, mas ele entra no carro e dá partida de ré pela rua sem saída, sem contar com uma carreta que entrava nesse momento. A explosão foi vista de longe, o carro pegou fogo, matando o motorista.

Ela vai até seu carro, liga para a delegacia informando o que acontecera e volta para a delegacia. Fica a espera do desenrolar dos fatos. Élson chega apressado, pois ficara sabendo do que acontecera. Suelen na sala dos policiais relata o caso. O agente Souza entra assustado. A fama de exagerado corria longe, ele pede silêncio e informa, que o motorista que morreu no acidente da carreta, foi identificado, era o delegado Murilo. O silêncio sufocante foi quebrado pelo choro desesperado de Suelen.

Dias depois, a conselho da corregedoria pública, Suelen troca seu nome por Celeste e vai morar no Rio de Janeiro, deixando seu passado para trás.

***

Sinézio desliga o celular e entra no carro para seguirem viagem, Marina mostra sua casa ele silencioso, dá um suspiro compreendido por ela que estica o corpo impaciente, puxa a saia para os joelhos e salta sorrindo. Dá um beijo na mão e assopra. Ele sorri daquela jovem mulher, alegre e atraente. Faz a volta, ao passar no caminho, um pássaro pousado num galho de uma grande árvore parecia esperá-lo. Sinézio salta do carro e tenta assoviar, o pássaro não responde, Sinézio insiste sorrindo, nesse momento o celular toca e Sinézio atende distraído, Luiza pergunta se ele ainda estava na agência, o pássaro dá um canto de alerta e voa para longe. Sinézio responde carinhosamente a Luiza que estava a caminho da fábrica. Nesse momento, um menino vem em sua direção com uma gaiola, dentro um sabiá se debatia assustado, o menino sorrindo diz que acabara de pegá-lo no alçapão que armara na árvore. Sinézio diz para o menino que o pássaro estava desesperado por ter deixado um ninho cheio de filhotes e com certeza eles morreriam de fome e sede. O menino olha para o pássaro, abre a portinhola e a solta da condenação que por pouco seria perpétua numa minúscula gaiola. Sinézio sente um grande alivio ao ver o pássaro voar livre para as árvores. O menino diz que nunca mais prenderia passarinhos. O sabiá pousa num galho e canta um canto de liberdade.

Na estrada Sinésio passa pela agência de automóveis e procura o gerente Alfredo, para avaliar seu carro. Ao chegar, fica sabendo que Luiza ligara a sua procura. Sinézio dá um suspiro e se desculpa, dizendo que estivera no banco, e Luiza se precipitara. Sai e procura outra agência a fim de arranjar um álibe, e pra sua sorte, nessa segunda agência ela ainda não tinha ligado.

Sinézio chega a fábrica, ao passar pela recepção, faz sinal que não quer saber de recados. Senta à mesa, pega o telefone e chama a secretária para iniciar o expediente.

Luiza está distraída olhando pela janela, o semblante cansado, nas mãos inquietas, batucava uma caneta na mesa. Celeste se aproxima e senta a sua frente, dá um suspiro e sorri carinhosamente sugerindo que ela desabafe o motivo de tanta preocupação. Luiza agradece e diz que estava cansada e que precisava desabafar. Ao relatar sua desconfiança, Celeste a conforma sugerindo que ela faça uma viagem para relaxar, talvez o excesso de trabalho estava deixando-a com preocupações desnecessárias.

Dora liga para Luiza informando que Elizabete e Felipe iriam a um aniversário no clube e ela avisasse ao motorista para não ir embora. Luiza responde vagamente que concordava. Dora insiste em chamar sua atenção para o assunto, mas ela impaciente, diz que mais tarde conversariam sobre isso.

Dora desliga o telefone e fica pensativa, o carinho que tinha por Luiza era um amor maternal, dedicara sua vida aquela família, quando foi morar naquela casa, ainda jovem, viera de Rio Bonito, trazendo uma história secreta.

***

Dona Antonia teve quatro filhas, Foi numa tarde de verão, o sol dourava as matas, que insistiam em permanecer verde. As pessoas se cumprimentavam naquela pequena cidade, a jovem de cabelos loiros e olhos azuis, tinha ido ao comércio comprar linha amarela para a fantasia de seu primeiro baile de carnaval no pequeno clube da cidade. Caminhava descontraída pelos caminhos estreitos da fazenda.

Os bois mugiram ao longe alertando algum perigo. Um sabiá cantou tristemente num galho de árvore. A jovem entendeu e apressou os passos, mas, de uma moita, surgiram dois homens, ela foi espancada, depois estuprada violentamente até perder os sentidos. Acordou no hospital da cidade. Seu semblante triste a condenava a levar a culpa da infelicidade de ter caído nas mãos de dois bandidos. Quando se recuperou, não conseguia sair de casa, uma mistura de medo e vergonha, a faziam enclausurada. Sua mãe não acreditava que ela fora uma vítima, de vez em quando dizia que se ela não tivesse dado conversa a estranhos aquilo não teria acontecido.

O tempo passou e um dia, o trem parado na estação, recebeu uma passageira que ao sentar nas duras cadeiras, deu um suspiro de alivio e nunca mais voltara àquela cidade.

Perambulava pelas ruas de São Francisco à procura de emprego, até que um dia, chegando em frente daquela mansão, encontrara Isabel no jardim brincando com uma menininha e a barriga anunciando que breve mais um bebê faria parte daquela família. Dora se aproxima das grades e pede um emprego. Isabel dá um sorriso e diz que estava à procura de uma babá, pois a outra fora embora e era urgente, pois em breve nasceria o outro bebê. Dora aceita e nesse mesmo dia foi admitida.

O tempo passou, Isabel sentiu as dores de madrugada, e o Dr. Fausto bate na porta de Dora informando que estavam indo para o hospital. Ela dá um sorriso desejando felicidades e os tranqüiliza, que Luiza estaria em boas mãos.

Quando amanheceu, o portão da mansão deu passagem para o carro do Dr. Fausto que salta abraçado pelo motorista. Os empregados olham assustados de longe, Dora se aproxima com Luiza no colo e sem perguntar, percebe o que acontecera. Isabel morrera na sala de cirurgia. O bêbe ficaria no hospital por uns dias.

A tristeza caiu sobre aquela mansão. De noite, Dora ouvia o choro sofrido daquele homem apaixonado que perdera a mulher quando dava a luz ao fruto de noites de amor. Os empregados diziam que era comum, o dois caminharem pelos jardins de mãos dadas e namorar na grama dos jardins, diziam que os ais de amor eram ouvidos de longe, e que de tão acostumados, havia até uma copeira que corria no aparelho de som e colocava um cd de Ray Conniff para acompanhar aqueles momentos de caricias dos patrões. E Dora aprendera com a outra babá, que quando os dois se amavam na grama, levava Luiza para o quarto e ligava a tv para distrai-la. E quando não ouviam a música, Isabel gritava alegremente para a copeira "cadê a música" e ela corria para atender seu pedido.

De manhã, o jardineiro sempre achava uma peça do casal esquecida pelo jardim, culpa das caricias que trocavam na embriagues daquele amor. Dora cuidava das crianças, Alberto pouco chorava, seus olhinhos achavam os de Dora acreditando que ela era sua mãe. Nas noites depois que as crianças adormeciam, ela passava no corredor e parava perto do quarto do Dr. Fausto e muitas vezes tentou bater levemente para tentar confortá-lo, mas a falta de coragem a fazia desistir, e de seu quarto ouvia o choro convulsivo e depois diminuir até o silêncio anunciar que o sono chegara para acalentar a saudade da mulher amada, e quem sabe em seus sonhos Isabel o encontrava para mais uma noite de amor. Talvez por isso ele amanhecia mais triste ainda, para mais um dia de saudade.

Dr. Fausto chegava cedo em casa, ia direto ao quarto das crianças, Dora percebia que ele rejeitava Alberto, parecia culpá-lo da morte de Isabel, ela tentava mudar esse quadro e dizia que Alberto ficava mais calmo quando ele chegava. Dr. Fausto por algumas vezes saia do quarto das crianças fungando o nariz, Dora sabia que eram as lágrimas que teimavam denunciar sua dor.

Foi numa noite de verão, as crianças já estavam dormindo, Dora desceu para o jardim e caminhava envolta em recordações de sua terra, parou perto de uma árvore e ouviu passos, virou lentamente e percebeu que o Dr. Fausto se aproximava. Conversaram por muito tempo, e esses encontros se repetiram muitas vezes, até que uma noite, ele falou de Isabel com uma saudade muito forte e soluçou como uma criança, Dora o aconchegou em seus braços e sem perceberem um beijo selou aquele momento que marcaria grandes noites de amor. Dora permitiu seu coração desabrochar para o sublime sentimento que todas as jovens sonham. A simplicidade não a permitia envaidecer daquele relacionamento, sabia que a sombra de Isabel estava presente a cada noite de amor, e muitas vezes desejou fazer amor na grama para que seus ais fossem acompanhados pelas músicas de Ray Conniff colocada pela copeira, mas esse desejo ficava em seus pensamentos, e quando se encontravam às escondidas em seu quarto, quando murmurava que o amava, o Dr. Fausto colava a mão em seus lábios para que o silêncio escondesse de sua alma as recordações de Isabel. Como se o fantasma dela perambulasse pelo quarto chorando de ciúmes. E ele demonstrava essa certeza, talvez por isso nunca balbuciou uma só palavra quando a amava. Dora sabia disso, mas era feliz assim mesmo.

Numa manhã de dezembro, o Dr. Fausto chegou no jardim e numa breve despedida, informou que estava indo para a Itália. Informou a Dora que todas as despesas da casa estaria com a secretária, que em breve ela passaria a procuração para que Dora assinasse os cheques para a administração da casa. Dora o olhou e as lágrimas rolaram em seu rosto silenciosamente. Ela abraçou as crianças transferindo todo seu amor para elas. O natal foi comemorado entre os empregados e as crianças, na hora da ceia, Dora permitiu que todos sentassem à mesa, Luiza e Felipe, brincavam perguntando por Papai Noel, e Dora dizia que ele só chegaria quando a madrugada chegasse, para fazer as folhas brilharem com o orvalho e os vaga-lumes mostrar o caminho da chaminé da lareira, Luiza dava risadas e Alberto olhava assustado para a lareira, preocupado, disse que Papai Noel ia se queimar.

Quando o sono chegou, eles esfregaram as mãos nos olhos e Dora percebeu que era hora de colocá-los no quarto, nesse instante o telefone tocou e seu coração disparou, mas conteve a emoção e foi atender. Do outro lado o Dr. Fausto perguntou pelas crianças, falou com elas e com Dora desejou feliz natal, Dora agradeceu sem emoção, estava curada daquele amor dolorido, teve certeza.

Meses depois recebeu a notícia de sua morte num acidente de trem, e soube mais tarde para selar a dor da saudade e da perda, que ele tinha uma amante italiana. Dora nunca mais amou nem chorou por amor. Dedicou seu amor nas crianças, eram como se fossem seus filhos.

***

Tornou a ligar para Luiza e insiste em saber o que estava acontecendo, dessa vez com o rigor de uma mãe preocupada, do outro lado, Luiza desabafa um rápido soluço e diz que à noite conversaria com ela e diz que a ama. Dora dá um suspiro e lembra da primeira vez em que Luiza entrara feliz, com os sapatos nas mãos dizendo que estava apaixonada, e Dora sentiu no peito uma sensação de medo, por ver sua Luiza tão feliz e a pergunta ressoava em seus ouvidos se aquele rapaz também a faria feliz. Lembra daquela noite em Alberto morreu num trágico acidente, das noites que chorara sem poder demonstrar a Luiza seu sofrimento para não traumatiza-la naquele período de transição de adolescente para jovem.

Foram noites difíceis de viver, de quando teve que desfazer das roupas de Alberto, aquele jovem carinhoso, órfão antes de nascer, e que partiu tão cedo. As lágrimas rolaram no rosto de Dora, que dedicou sua vida a cuidar de duas crianças eram como seus filhos. Havia até pessoas que pensavam que ela era a verdadeira mãe deles.

***

Sinézio fecha a gaveta e vai para a garagem No hospital encontra Marina ao lado da cama de Afrânio. Os dois se olham com carinho. A enfermeira Deise entra com medicamentos para ele. E informa que àquela hora da noite as visitas estavam encerradas. Logo em seguida Afrânio adormece. Marina dá um sorriso e se aproxima da porta acompanhada por Sinezio e Deise.

No estacionamento, Marina o segue com intimidade, Sinézio dá um suspiro e em gesto de dúvida a convida para dentro do carro. Ele liga o rádio e uma música inspira ambos para um longo beijo, as carícias aumentam, mas Sinézio contém os desejos e diz que não pode chegar muito tarde, que a levaria até um ponto de táxi. Tira uma cédula da carteira e entrega a ela para pagar, assustada Marina diz que é muito dinheiro, ele dá um sorriso dizendo que ela merece.

Luiza entra em casa, Dora está conversando com as crianças na varanda, quando a vê, sorri com carinho, abraçando-a. Luiza resmunga como nos velho tempo, Dora a olha como antigamente e ela desabafa suas dúvidas, Dora tenta amenizar dizendo que era coisa de sua cabeça, que logo isso iria passar, mas sente uma ponta de preocupação, temia por Luiza, tudo faria para não deixá-la sofrer, mas algo a preocupou. A criança interrompe a conversa, e Dora pede licença a Luiza para atendê-los, ela vai para a varanda.

Chega em casa e encontra Luiza na varanda do apartamento, mal humorada, Luiza pergunta o motivo dele ter desligado o celular. Sinézio a abraça com carinho e explica que não desligara. Comenta que fora ver um carro para ela, mas que não tinha o escolhido. Luiza choraminga em seus ombros e confessa sua insegurança.

Após o jantar, as crianças se despediram, Sinézio pede licença e vai ao escritório. A varanda do apartamento circunda os quartos e escritório, Luiza está debruçada no parapeito e o olhar vagueia pela cidade. A claridade da luz do escritório vem até a varanda e ela percebe que Sinézio andava de um lado para o outro fazendo sombra no chão, esse fato lhe desperta curiosidade e vai até a janela e o observa. Sinézio procurava ansioso algo nos arquivos. Luiza o admira através da janela, seu jeito apressado de procurar nas gavetas o fez mais jovem. Ela dá umas batidas na vidraça, Sinézio olha assustado e sorri convidando-a para ir até lá. Mas Luiza recusa.

Na cama, Luiza procura seus beijos, Sinézio retribui, mas se vira pro outro lado, dizendo que está cansado. Luiza suspira apreensiva com aquela atitude, mas depois se conforma, Sinézio sempre fora assim.

O sol desponta no horizonte, Sinézio acorda com o barulho das crianças se apressando para a escola. Luiza se espreguiça nas carícias de dele. Luiza se queixa que deixara a vidraça aberta e a chuva molhara o banco de seu carro. Sinézio segura seu queixo e a conforma oferecendo seu carro.

A praia estava vazia, Luiza liga o rádio e percebe que está numa estação de músicas jovens, o que não era costume de Sinézio. Pára no sinal e confere algum vestígio suspeito, e nada encontra, sorri sentindo calma.

Na parte da tarde, Sinézio vai ao hospital, sabia que encontraria Marina. Ao chegar, Afrânio apresenta melhoras, ele oferece ajuda financeira. Ao terminar a visita, Marina o acompanha e marcam um jantar e depois procuram um lugar mais adequado para trocar as carícias guardadas desde o beijo interrompido. Sinézio se entrega aquele desejo e os encontros se repetem. Mas a preocupação aumenta quando falam que breve Afrânio teria alta e que ficaria difícil os encontros. Marina murmura em seus ouvidos que o amor era mais importante, que sobrevive a todos os obstáculos. Ele a olha, parecia uma deusa, os cabelos espalhados sobre o travesseiro, às pernas morenas e o sorriso aberto como umas entranhas de um túnel nas montanhas. As mãos calosas das lavagens de roupa à beira do rio, denunciavam a vida árdua que levava, em compensação, a pele queimada, porém macia, a fazia fascinante, sem artifícios, sem cremes sem perfumes franceses - de sua pele exalava um cheiro, levemente perfumado. Os olhos negros e brilhantes duplicavam a beleza do sorriso, pareciam refletir quedas d'água misteriosamente silenciosas. Sinézio a olhava com um sorriso de felicidade, escalava seu corpo, as curvas e os montes, os mistérios do prazer se revelavam em suas mãos, aqueciam seus dedos e como um vulcão, seu corpo tremia a procura de saciar uma cede que não passava. O cansaço teimava fazer parte daquela guerra, mas Sinézio lutava com todas as armas a esse inimigo que tentava estragar tanto prazer, mas suas forças aumentavam a cada vez que o corpo colado misturava prazer e medo, mas o cansaço o derrubava, e sobrevivendo a derrota, ofegantes e suados, navegavam no mundo misterioso do sono, os poros sugando as gotas de suor dos dois corpos, uma troca de partículas como pra selar cumplicidade ou amor eterno.

***

Deise e o Dr. Paulo estão no apartamento alugado para os encontros, ela comenta sobre a felicidade que a irmã está sentindo ao lado do rico empresário. Mas que em breve ficaria complicado, com a alta de Afrânio, Marina teria dificuldades de se encontrar com ele. Deise comenta que Sinézio é muito rico, é proprietário de uma grande empresa de componentes plásticos, que atende as empresas eletrônicas.

O Dr. Paulo planejava ter a sua própria clínica, mas as dificuldades de um médico recém formado, viúvo e com dois filhos, afastavam a cada mês esse objetivo. As despesas eram maiores que seu salário. Sua frustração era evidente quando deparava com pessoas ricas, exaltava sua sabedoria como uma justificativa pelo tratamento com mau humor. Concluíra a faculdade com sacrifícios e perdera sua primeira namorada logo que entrara para a faculdade. Tinha lembranças desagradáveis que marcaram sua personalidade: seu pai abandonara a família, sua mãe era faxineira do hospital e à noite vendia salgadinhos na rua para complementar as despesas, na faculdade ele tirava cópias de trechos de livros por não ter dinheiro para comprar. Os amigos o ajudavam, mas o Dr. Paulo percebia muitas vezes a impertinência nessas ajudas, e se dedicava com exagero aos estudos e pesquisas nas bibliotecas da faculdade. Nos primeiros estágios foi destaque entre os colegas, sua dedicação era notada pelos professores, procurava entender com profundidade os truques da prática das enfermeiras.

Quando terminara o curso, o Dr. Paulo recebeu vários convites para trabalhar em parceria nas clínicas, mas percebia que nos feriados e finais de semana, os outros médicos escolhiam para si, e ele passava esses dias trabalhando sem folga, exceto nos dias comuns. Casou com uma recepcionista da clinica, o que afastou ainda mais dos amigos seletivos, nunca era convidado para as festas, o mau humor era conhecido entre os colegas. A esposa era impaciente, ciumenta e escandalosa, muitas vezes chegava na clínica acusando alguma enfermeira de ser amante dele. Essas atitudes o levaram ao extremo de agredi-la e receber processos. A separação foi inevitável e tempos depois sua esposa suicidara ingerindo drogas. Deixando dois filhos e muitas despesas. Meses depois decidiu mandar os filhos para a casa dos sogros em Manaus e nunca mais os vira, se limitava em enviar uma pensão pela conta bancária dos avós.

Deise continua falando e ele silencioso, comparando sua profissão com a do Sinézio, por que tanta diferença financeira quando ele tinha tanta dedicação e responsabilidade em seu trabalho? - essas perguntas o faziam ainda mais silencioso, mas brotando do misterioso mundo da inveja uma semente do mal. Deise continua falando sobre a sorte de Marina de encontrar com empresário que poderia mudar sua vida.

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Deise enfermeira competente, entrou para a profissão a pedido de Boró seu avô, que ficara paralítico, vítima de uma misteriosa doença. Ela e Marina foram abandonadas pela mãe quando ainda crianças. Do pai nada sabiam, o avô, Seu Boró dizia que Talita, a mãe delas, uma morena faceira, de sorriso alegre, fora seduzida por um caminhoneiro e um jogador de futebol, viveu nas noites de Rio Bonito até que um dia foi embora para São Gonçalo.

Seu Boró cansado das perguntas das meninas, um dia tomou a decisão de procurar Talita e ao chegar em São Gonçalo perambulou pelas ruas até chegar no Bar Roda Viva na praia das Pedrinhas, de longe viu atônito: sua filha Talita era prostituta. A roupa colante no corpo, a maquiagem extravagante denunciava seu modo de vida. Sentiu ódio e piedade, em sua mente a lembrança de quando a pegara no colo, dos primeiros passos e das primeiras palavras. Tentou levá-la de volta, mas ela recusou. Bebeu e chorou no Roda Viva. Celinha, uma mulata de sorriso triste, sentou a sua mesa e tentou conversar, mas Boró não respondia, só chorava.

Celinha solidária a sua dor, falou de um grande amor que machucava sua alma, da saudade que tinha de Caruaru e de Nico que partira numa tarde de tempestade, seu barco o SOL NASCENTE, ficara a deriva na praia de Gragoatá, das lágrimas escondidas de viúva amante, do velório onde o soluço era disfarçado em conversa sem fundamento, e a vontade de gritar na praia que seu grande amor não resistira a tempestade, e morrera nos braços de Iemanjá, sentia ciúmes dessa deusa do mar, será que ele a amara tanto que se deixara morrer abandonando seu barco? Essas perguntas vinham entrecortadas por soluços disfarçados.

Nico deixara dois filhos e duas viúvas, comentavam na praia das Pedrinhas que Celinha comemorara o nascimento de seus filhos brindando com Nico a cada gemido de dores que Rita soltava, brindava como se daquele ventre nasceria uma parte que também lhe pertencia. Boró levantou a cabeça, olhou firme nos olhos de Celinha e disse que ele não era digno de ouvir falar sobre o amor. Celinha insistiu tentando conformá-lo, sentiu por aquele homem, piedade, pois era amiga de Talita.

Boró pagou a conta e saiu trôpego pelas areia da praia até adormecer ouvindo o mar murmurar nas areias cantigas de acalanto. Mas em sua consciência algo o atormentava, não sentia digno de tais canções.

O dia amanhece, os pássaros cantam desfrutando da liberdade nas árvores, as garças se espreguiçam para mais um dia de pesca. Boró caminha para o ponto de ônibus. Salta em São Gonçalo, um grupo de pessoas se amontoavam num clube famoso. Boró se aproxima para saber o que acontecia, segue a multidão e o cartaz anunciava o show do Palhaço Carequinha. Boró lembra que foram colegas da mesma cidade, mas que comentavam que o Palhaço Carequinha havia saído muito cedo de Rio Bonito. Ele entra no clube para assistir o show. As crianças e os adultos disputavam um lugar mais próximo do palco.

A música circense anuncia o show, os anões correm pelo palco. O palhaço Carequinha entra, sua gravata levanta a cada gesto, e a música educativa que todos conheciam "o bom menino, não faz pipa na cama, o bom menino não faz malcriação, o bom menino vai sempre a escola, o bom menino aprende sempre a lição" as crianças sorriam felizes, os adultos sorriam orgulhosos de ter aquele personagem com tanto sucesso de São Gonçalo. Boró sente um certo orgulho de saber que o Palhaço Carequinha é de Rio Bonito, sua cidade. E sorri feliz, naquele momento sua alma virara criança, sentiu vontade de gritar a todos que o Palhaço Carequinha é de sua Rio Bonito, naquele instante, sua alma sofrida parecia mais leve. Mas sai do clube, de longe ainda ouvia "o bom menino não faz pipi na cama...". Segue para Rio Bonito, não diria a ninguém que encontrara Talita nas praias das Pedrinhas, no Bar Roda Viva, no mundo da prostituição. O sol refletia nas folhas das árvores, Boró caminha ouvindo os sabiás cantando alegre, quem sabe festejando os filhotes dos ninhos.

Chega em casa e depara com Marina e Deise no portão. O silêncio responde as perguntas que estavam em seus olhares. Os três entram. Deise quebra o silêncio oferecendo um café ao avô, orgulhosa por saber arrumar a mesa. Boró enxuga as lágrimas na manga da camisa.

O tempo passou, Boró reclamava de fortes dores nas pernas. Precisava ficar deitado, a maior parte do tempo, e foi enfraquecendo até não mais levantar. Uma doença na coluna vertebral o condenara a viver paralítico. Pedia a Deise para estudar enfermagem para cuidar dele, foi atendido. Marina a mais nova, prometia ser professora.

O tempo passou e Deise se formara, Boró sofria fortes dores, e Deise aplicava injeções de sedativos, e quando ele adormecia, balbuciava palavras de pedidos de perdão a Deus. Marina e Deise se perguntavam o que seria que o atormentava, quando Boró acordava, elas perguntavam e as respostas eram disfarçadas com zangas.

***

Deise e o Dr. Paulo trocam confidencias sobre um grande plano, se Marina casasse com Sinézio, abririam uma clinica realizando o grande sonho dele. Marcam um encontro com o casal apaixonado.

O restaurante luxuoso foi o local para a reunião dos quatro. Sinézio liga para Luiza informando de um compromisso e que chegaria mais tarde. A conversa interessa a Sinézio que está apaixonado por Marina. Mas sabiam que Afrânio não poderia continuar vivo, pois estragaria os planos.

***

Na enfermaria, Afrânio reclama de dores. Deise vai levar sedativo. Ele dá um sorriso orgulhoso da cunhada. Diz que anseia voltar a trabalhar. Pergunta por Marina que não o visitava há alguns dias. Ela informa que Marina não tinha dinheiro de passagem todos os dias. Em seus olhos a saudade o faz triste, lembra de Marina com carinho.

A tarde era chuvosa, a gotas de chuva faziam poças no caminho, os pássaros procuraram abrigo nas árvores quando a primeira rajada de vento acompanhado de relâmpagos e trovões abriram caminho para uma tempestade assustadora. Marina estava voltando da loja onde fora comprar linha para fazer a fantasia de carnaval. Assustada, ela corria pelo estreito caminho, a cada relâmpago, seus gritos eram ouvidos de longe. Afrânio morava numa pequena elevação, estava na varanda quando a viu de longe sob a chuva.

Ele desceu até o caminho e a chamou para tirá-la daquele pavor. Marina o olha e num relance, estende seus braços para Afrânio que a abraçou conduzindo-a até sua casa. Marina o abraçou no desespero do medo. Ao chegarem, no abrigo, Marina o olha ainda chorando, Afrânio tenta acalmá-la dizendo que não havia mais perigo. Eles não se conheciam, pois Afrânio estava morando ali há poucos dias. A mãe dele Dona Silvia, muito atenciosa, a convida para um café. Depois do episódio, Marina já calma, conversa descontraída e alegre, falando que fora ao comércio, e que sua irmã a avisara que as nuvens estavam escurecendo, e que era sinal de tempestade, mas que ela pensara que dava tempo de voltar. Dona Silvia pergunta por seus pais, e Marina responde que sua mãe fora embora e que ela e sua irmã viviam com seu avô. Afrânio tenta desviar o assunto para Marina não mudar aquele semblante alegre e descontraído. Afrânio a leva em casa, e outros encontros acontecem.

Afrânio assoviava quando estava próximo à casa de Marina, ela corria até a janela e abria um sorriso de felicidade, o amor ocupava os corações daqueles jovens que se encontraram numa tarde de tempestade.

Marina subia na garupa da bicicleta e seguiam alegres para o rio que se escondia atrás dos morros. Foi lá que Marina, entregou a Afrânio seu corpo de menina a procura do prazer que tirava seu sossego, foi lá que Afrânio cavalgou pela primeira vez no corpo de uma jovem e assustado com tanto prazer, chorou em seus braços, e Marina o abraçou; e nesse momento ela pensou como seria o abraço de sua mãe, que a abandonara quando ainda era pequenina. Marina pergunta sobre sua mãe, e Afrânio explica que ela é sua grande amiga, a mãe mais maravilhosa do mundo, e que é uma guerreira. De mãos dadas com Marina conta um episódio de sua vida, mas que era segredo. Ela o olha curiosa em ouvir.

***

Silvia mora em Marambaia, seu marido Orlando é caminhoneiro, eles tem um filho Afrânio de oito anos.

Foi numa tarde, Silvia dava os últimos acabamentos do vestido de noiva encomendado da filha de um rico fazendeiro do local.

O telefone toca e alguém do outro lado da linha pergunta por Orlando, Silvia informa que ele esta no Paraguai trazendo produtos em seu caminhão e que só chegaria dois dias depois.

Na quinta-feira Orlando chegara, estavam jantando quando Silvia comenta sobre o telefonema, animado, pois haveria mais cargas para Orlando, logo que ela termina de falar, o telefone toca, Orlando atende e alguém informa que precisa falar com ele no bar da esquina, Orlando meio confuso, se despede de Silvia e diz que era mais trabalho.

Retorna cabisbaixo, Silvia pergunta e Orlando informa que não entendeu bem mais que tinha algo para trazer do Paraguai, e disseram que ele não precisaria ir com carga, pois o pagamento seria alto. Silvia olha pra Orlando e diz que não gostou da conversa. Orlando responde que se for carga suspeita, lá mesmo dispensaria.

Orlando pega a estrada na manhã seguinte.

Chegando no Paraguai, encontra o contato, era para trazer toras de madeiras, mas no miolo das mesmas, tinha quantidades enormes de cocaína. Orlando ao saber, nega, diz que não aceitava trazer. Os homens então, informa que ele era o escolhido, por ter muita prática da estrada e já era conhecido na patrulha federal, oferecem uma quantia enorme pelo trabalho. Orlando não aceita e vira as costa e parte. Era uma tarde quente de verão, no rádio tocava uma música melancólica, Orlando cantarolava, para disfarçar a decepção da despesa que tivera de combustível, pois ao negar, nem lembrou de cobrar a viagem. Colado ao painel do caminhão, estava a foto de Silvia e Afrânio. Por eles não valia o risco.

Orlando entra na divisa do Brasil, quando passa pela rodoviária, cumprimenta os guardas de plantão seguindo seu caminho. Já anoitecia, quando o celular toca, Orlando atende preocupado, tendo uma preocupação estranha, era Silvia desesperada, dizendo que Afrânio fora seqüestrado e que alguém dizia que Orlando deveria retornar e concluir o trabalho que ele negara.

Orlando joga o caminhão para o acostamento, pede a Silvia que repita tudo como se não acreditando. Diz para que ela tenha calma, que ele vai voltar, Silvia implora que ele não diga nada a polícia. Orlando retorna.

Já era tarde, a noite caia, a preocupação tomara conta de seu semblante, e Orlando numa força desesperada, corria pelas estradas, os faróis iluminavam o suor de seu rosto, o medo o sufocava, mas ele tinha que salvar seu filho.

Chega no local já amanhecendo, os homens o esperavam, um deles cinicamente ri e pergunta se o "pai herói" estava disposto a ajudar. Orlando tenta partir para dar um soco nele, mas é impedido pelos outros. E nesse momento o homem chama os carregadores e começam a colocar a carga na carroceria do caminhão. Orlando sentado num degrau da madeireira pensa sem saída para aquele problema.

É terminada a colocação e Orlando levanta e vai até o homem e pergunta o que fazer com aquela maldita carga. O homem em poucas palavras diz que na estrada ele saberá, Orlando pergunta pelo filho, ele responde que quando tudo estiver pronto, ele será devolvido, e que ele ficasse tranqüilo: ele estava em boas mãos e bem tratado. Orlando informa que teme pela saúde dele, pois ele tem asma, o homem diz que já fora informado e que ele estava com os medicamentos em mãos. Orlando liga para Silvia para saber como ela está, ela chora muito no telefone e diz que aquela era a última comunicação, pois informaram que ela só poderia fazer contato quando Orlando chegasse em casa.

Orlando sobe na cabina, liga o caminhão e sai sem se despedir dos homens. Na estrada, o suor brotava. Orlando nervoso assiste o amanhecer, que tantas vezes era o espetáculo mais maravilhoso do dia, mas naquela manhã, Orlando lutava com a sorte. Vai chegando perto da rodoviária, Orlando nervoso aperta o volante do caminhão, o medo vai tomando conta, ele olha para o posto policial e vai se aproximando, quando passava, cumprimentou como de costume os guardas, mas seu olhar encontra o mesmo guarda da noite anterior e este com olhar desconfiado olha o caminhão de Orlando se afastando, Orlando o olha pelo retrovisor, uma ponta de alívio pelo primeiro obstáculo, mas nesse instante o guarda dá um apito para Orlando parar, mas esse finge não entender e segue até poder acelerar, o guarda avisa aos companheiros que em menos de 12 horas ele passara por ali, que era suspeito, mas logo foi tranqüilizado pelo colega que poderia ser uma coincidência. Orlando vai se afastando daquele posto. Mas a segurança ainda não era total, pois ainda tinha três postos até ele se livrar de fiscalizações.

Foi chegando o outro posto, Orlando olha a foto da esposa e do filho, olha para o céu e pede proteção a Deus, as árvores contornando a estrada, já não tinham tanta beleza, Orlando passa por uma ponte, o medo vai aumentando, logo adiante tem uma curva, e ele sabe que logo depois mais um posto. Orlando vai chegando, tenta tranqüilidade no olhar, e lentamente diminui a velocidade para não parecer suspeito, olhando firmemente para o posto policial, a estrada vai estreitando, avista um policial debruçado no caput de um carro da federal, este levanta a cabeça e num olhar firme, faz sinal para Orlando parar. Este pára, o suor escorre, suas mãos tremem, olha para a foto de sua família e para o céu.

O caminhão parado, o policial o olha nos olhos, Orlando nunca tinha visto aquele policial, este pede que tire a lona da carga, Orlando vai lentamente já se entregando, e o policial olha desconfiado, pede os documentos, vem se aproximando um outro policial, ambos se olham e perguntam: cadê a encomenda? Orlando diz que não sabe de nada. O policial vai até umas toras de madeiras e retira a encomenda. Orlando treme e tenta explicar, mas é algemado. Vai para a cadeia. Fica sem comunicação, não sabe o que aconteceu com sua filha.

Na cadeia recebe a visita de advogado, explica o que aconteceu, este sem acreditar na história de Orlando promete apurar o caso. Os dias se passam, Orlando conta o fato para o colega de sela, juntos estudam uma fuga. Numa noite, Orlando quando planejara a fuga, percebe que alguém facilitara, ele sai da cadeia e segue pela estrada, arranja uma carona e consegue chegar em casa.

Encontra a casa vazia, desesperada vai até o vizinho e pergunta pela família este diz que há muito tempo sua esposa e filho tinham viajado. Orlando perambula pela rua. Toma uma decisão, pega a estrada de carona com outros caminhoneiros e chega até o posto policial em que fora preso. Fica vigiando o movimento e vê de longe o mesmo policial que o prendera. Fica até anoitecer e junto com o colega caminhoneiro, segue o policial até sua casa.

Estuda todo o movimento, e descobre que o mesmo tem uma filha e uma esposa. Planeja um seqüestro. E no dia seguinte quando o policial vai trabalhar, Orlando invade a casa e leva a esposa e a filha amordaçadas até o caminhão. Do celular faz contato com o policial e exige explicações. Marcam um encontro informando que se acontecesse algo com ele a filha e o esposo seria morto. E o policial, apavorado concorda com o encontro.

Orlando aguarda o policial num bar na estrada. Este chega com o mesmo cinismo do dia de sua prisão, mas com uma ponta de medo. Orlando prepara um soco, mas se controla. O policial senta, e Orlando marca dez minutos para ele falar, este então explica, que mandara a Silvia e Afrânio para o Paraguai dizendo que Orlando fora preso e se ela tentasse contato, ficaria presa e Afrânio seria mandado para o juizado de menores. Diz que o que rendeu naquela mercadoria, brevemente ele iria para a Europa, rico e feliz. Orlando pergunta por que fizera isso com ele, se nem se conheciam? O policial, com ar maldoso, diz que só Orlando poderia passar pelo posto anterior sem levantar suspeita. Orlando indignado diz; covarde, e dá um soco no rosto do policial. Nesse momento a sirena de policiais armada pára no bar. O policial levanta as mãos fingindo-se de vítima e aponta para Orlando, os policiais cercam o bar. Orlando o olha nos olhos. E diz: você está preso.

Nesse momento, Orlando sob a mira dos policiais, levanta as mãos e diz: olhem em baixo de minha mesa.

Sob a mesa, havia um gravador.

O policial vai preso. Orlando exige o endereço de onde está sua esposa e filho. No dia seguinte a TV relata o ocorrido. Orlando recebe apoio da polícia e vai até o Paraguai ao encontro de Silvia e Afrânio.

***

Afrânio fala que seu pai trocou as viagens nas estradas por escavações na exploração de calcário em São José, e que de tanto cavarem a rocha, água brotou tanto que inundou toda a região, e que muitos maquinários ficaram submerso no lago que se formara e a vegetação em volta fez um cenário digno de ser apreciado por pintores e que rondava o mistério de como apareceram peixes naquele lago, uns diziam que foram pássaros que trouxeram no bico e jogaram lá, outros diziam que o lençol d'água passava por baixo da terra e que os peixes vinham com a correnteza. Marina ouviu essa história com atenção e pede que Afrânio a leve até esse lago. Ele promete que na próxima semana fariam uma pescaria lá.

E que seu pai agora aposentado por causa de uma asma crônica, ajudava nas tarefas doméstica, e sua mãe continuava a costurar para as lojas no Rio de janeiro, e que nunca mais voltaram a Marambaia.

Marina solta um sorriso alegre e pegando suas mãos, correm para o rio, suas roupas deixadas nas pedras marcavam o local de volta. A água fria do rio provocava arrepios em seus corpos, convidando para mais prazeres, os cabelos longos sob os seios, os raios do sol douravam seu corpo moreno, seus olhos brilhavam de felicidade a cada carícia de Afrânio, as horas passavam, e eles não queriam sair dali. Quando o sol se escondia atrás das montanhas, e o céu anunciava a noite, os jovens amantes se vestiam, para uma despedida longa no caminho de volta. Marina chegava em casa e corria para trocar de roupa, seus cabelos em desalinhos denunciavam o que fizera durante à tarde.

Seu Boró resmungava, chamava Marina para explicar onde estivera por tanto tempo, ela o abraçava sorrindo e dizia que estivera nadando no rio com uma amigas.

Numa manhã de domingo, Deise voltava do plantão e encontra Marina deitada, vai até seu quarto e preocupada pergunta o que acontecera, ela responde que estava passando mal, descobre que Marina estava grávida. As duas confidenciam o fato, e Marina é aconselhada pela irmã a abortar o bebê. Afrânio não sabe do que está acontecendo e ao saber que Marina estava de repouso por causa de uma infecção intestinal, fica preocupado e a cobre de atenções, sem imaginar que fora enganado. Deise orienta Marina para o uso de comprimidos e ela obedece.

Afrânio procura um emprego, sente necessidade de casar o mais rápido possível. Conversa com Silvia e Orlando de sua intenção, Silvia fica silenciosa, algo a diz que aquele casamento não representava felicidade para seu filho. Mas Afrânio arranja um emprego de entrega num supermercado local. De bicicleta, passava o dia inteiro e quando tinha entrega perto da casa de Marina, aproveitava e a colocava na garupa, pelo caminho todos ouviam as risadas alegres deles, Marina tinha uma alegria contagiosa, seu jeito sensual, arrancava suspiros nos outros jovens, e Afrânio sentia ciúmes, mas se controlava, para não aborrecê-la e não perder os momentos de carícias.

E numa noite de sábado, os dois se casam e no quintal de Boró, Afrânio construiu uma pequena casa.

O tempo passava e Afrânio arranja um emprego de motoqueiro em Niterói. Pedia a Marina que fosse ao médico para saber o por que dela não ficar grávida, mas Marina sempre dava uma desculpa, e o tempo foi passando, Afrânio começou a beber no bar da esquina para ter coragem de exigir que ela lhe desse um filho, as brigas começaram aumentando cada vez mais, Marina ficava irritada, mas logo Afrânio pedia desculpas e ela voltava a sorrir. Pegava-a no colo, iam para o quintal, e sob uma mangueira, Afrânio a beijava, sugando sua alma para misturar com a sua o desejo nos corpos ofegantes, na tentativa de transformá-los num só, o carinho de Afrânio era uma alegria para Marina.

Naquela noite, Afrânio passa na casa de seus pais, Silvia percebe que ele tinha bebido além da conta, sugere que ele durma um pouco antes de ir embora, mas Afrânio recusa, e diz que naquela noite tomaria uma decisão com Marina. Silvia fica assustada e vai até o oratório e pede a Nossa Senhora que o proteja, Afrânio desce os degraus trôpego, segura no portão, e olha para trás, beija a mão e acena para Silvia que ficara silenciosa, as lágrimas desceram em sua face e lembrou de quando Afrânio era pequeno e do episódio que forçara eles mudarem para Rio Bonito.

Na estrada de volta para casa, Afrânio amarrou na garupa um ramo de flores para Marina, mas aquele carro o atropelou, estragando a moto e as flores.

***

Afrânio vê a porta de abrir, Marina entra sorrindo, oferece o rosto para afagos de saudade, Afrânio acha seus lábios sedento de beijos, seus cabelos caem cobrindo o rosto dele, Deise os observa com uma injeção pronta para aplicar. Afrânio murmura baixinho para Marina que pare de tomar pílulas, ele quer um filho dela. Suas mãos acariciam o corpo dela, afogando a saudade daqueles dias que não a viu. Acariciou seu rosto, a maciez de sua face parecia um pêssego e ele escorregou os dedos com cuidado.

Sentiu umas lágrimas cair dos olhos de Marina, e lentamente se transformando em choro, de longe um pássaro soltou um cântico triste, Marina foi se afastando lentamente, sua imagem ficando confusa de sua janela ele avistou o céu e as nuvens se abriram, e, um coral de anjos saudava a tarde que caia, Afrânio estendeu as mãos para Marina, por um instante sentiu medo, pensou em sua mãe e no seu pai, uma onda de nuvens envolveu seu corpo, tentou gritar, mas o som se perdeu, misturado ao coral de anjos no céu azul que se abriu para sua alma.

Deise se afasta lentamente da cama de Afrânio, que agora não mais sentia dores nem saudade.

***

Sinézio chega em casa e relata o caso a Luiza, em seu rosto a preocupação exagerada, despertou em Luiza mais ciúmes. Ele diz que entregaria o caso ao seu advogado. Mas os dias se passaram e não mais tratou do assunto. Há cada noite ele chegava mais tarde. Luiza insistia em saber o motivo, mas Afrânio ia perdendo a paciência, pois não tinha mais o que arranjar de desculpas.

Luiza dorme chorando e amanhece sem paciência com as crianças. Dora tenta amenizar ensinando a maneira mais correta de Luiza evitar aborrecimentos, mas a intuição dela era assustadora.

Dora aprontara a mesa para o jantar, Luiza recusa, e a todo instante olha o relógio e tenta telefonar, mas o celular de Sinézio estava desligado. Sua preocupação era a viúva do rapaz atropelado, pois Sinézio não comentara o assunto, mas o silêncio era suspeito, as saídas dele eram cada vez mais audaciosas, chegava tarde e já não se preocupava em dar desculpas, se limitava em se arrumar e dormir. Suspirava inquieta pela sala. Ia até a varanda, a praia estava vazia, era inverno, a chuva caia fina, a rua parecia um espelho, e os faróis dos carros, duplicados no asfalto reluzia um brilho intenso. As luzes do Aterro do Flamengo formavam um colar e o reflexo trazidos pelas ondas, prateavam a praia de Icaraí.

Os aviões cortavam o céu a cada minuto, Luiza absorta em seus pensamentos, não desfrutava de tanta beleza como antigamente, quando sentava na varanda com Sinézio e bebiam vinho nas noites frias, e quando ela ansiava um dia conquistar aquele coração distante, mas seus carinhos e atenções superavam essa ansiedade, e por muitas vezes, Luiza, pensava que era mais feliz que todas as mulheres do mundo. Por muitas vezes, escondia presentes nas cadeiras da varanda, e quando abraçados na varanda, Luiza se soltava de seus braços e entregava o presente, tentando dizer com naturalidade que ao passar pela loja, lembrou dele e comprou. Sinézio sorria daquela maneira insegura que Luiza tinha de agradá-lo, ele sorria e acariciava seu rosto e dizia para que ela ficasse serena, tranqüila, assim a felicidade duraria para toda vida.

Luiza lembra da vez que escondera o resultado da gravidez dentro do embrulho de uma gravata e premeditou que seria uma linda menina de nome Elizabete, pela primeira vez, Luiza viu brilho nos olhos de Sinézio, achou até que naquele momento, Sinézio se apaixonara por ela. Mas o tempo passou e ele voltou a ser carinhoso, porém distante. E assim foi quando ficou grávida de Felipe, pensou que outra vez o conquistara, mas nada mudou e desistiu, aceitou viver na incógnita daquele grande amor não correspondido. Debruçada na varanda, Luiza imaginou como seria a morte daquela altura, talvez pararia o trânsito, ouviria os choros desesperados de seus filhos, arrancaria algumas discretas lágrimas de Sinézio e nada mais, e quem sabe um suspiro de alívio, e no dia seguinte nas páginas dos jornais, e depois o esquecimento.

Absorta nesses pensamentos, Luiza afasta tais cenas e insiste em ligar para ele.

Elizabete chega na varanda, se coloca ao seu lado silenciosa. Luiza a olha e percebe seu tamanho, Elizabete crescera tanto e ela nem notara, seus cabelos loiros caídos sobre o rosto, Luiza percebe que estavam longos demais. Ela sorri para a mãe, um sorriso de compreensão de seus aflitos como oferecendo o ombro para Luiza, que nem notara que ela já tinha idade para compreender dores de amor. Elizabete acaricia as mãos de Luiza, o silêncio era cúmplice de seu sofrimento, Luiza tentar falar mal de Sinézio, mas Elizabete a lembra que ele era seu pai, que ela tivesse paciência, quem sabe o traria de volta mais cedo. E que um dia quando a velhice chegasse, ela entenderia que ele sempre estivera presente.

Luiza ouve aquelas sábias palavras. E permite um sorriso de entrega a sabedoria de sua filha. Ao lado, na cadeira, Felipe, ouvia a conversa, silencioso, olhar em direção ao céu, e para confortar Luiza, chama sua atenção para uns pássaros que cortaram a noite, talvez a procura de abrigo, talvez fazendo a corte para novas vidas. Naquele momento, Luiza se dera conta de que seus filhos eram seus mais novos amigos, e essa descoberta a fizera mais tranqüila, e mais segura. Dora traz uma bandeja com sucos e oferece à família reunida, Luiza sorri para ela, e Dora percebe uma grande mudança em seu semblante e confirma com um aceno de rosto que compreendia sua descoberta.

Luiza chamava Dora de mãe, e nessa noite, ela pede que Dora fale de seu passado, ela levanta da cadeira e diz que um dia falaria, mas que estava tão distante que precisaria de alguns dias para trazer as lembranças até o presente, desembrulhar, assoprar a poeira, e poder contar. Luiza sorri daquela desculpa cômica de Dora e a abraça com carinho. Elizabete lembra a Felipe de um programa na tv. Sinézio abre a porta e as cumprimenta.

Dora pede licença e vai para a outra sala. Luiza pergunta se ele quer jantar, dessa vez mais calma, lembrando das palavras de Elizabete. Sinézio diz que não sentia fome, e que precisava falar com ela. Luiza sente o estômago apertar, caminham silenciosos até o quarto, as lembranças se confundem em sua mente, pensa em Alberto que partira tão cedo, e que foi ele quem apresentou Sinézio a ela, foi Alberto que sem saber, colocou em sua vida o desafio de conquistar aquele rapaz, que mostrara interesse depois que vira sua mansão. E durante os quinze anos de casada, ainda se assustava há cada ida e a cada vinda de Sinézio. Um jogo de cadeiras confortável decorava aquele luxuoso quarto.

A suíte era composta de uma banheira de hidromassagens separada apenas por um grande vidro temperado, e que poucas vezes o casal desfrutara juntos aquela peça moderna e confortável. Sinézio convidou Luiza a sentar no sofá, e iniciou a conversa sem muitos rodeios. Tinha dado entrada na separação, e que o advogado a convidaria a uma reunião para tratar da situação da empresa. E que as cobranças dela o obrigaram a tomar tão drástica decisão, e que esperava que ela fosse forte para entender que nunca existira amor e que os laços de amizade e carinho resistiram o tempo suficiente para as crianças amadurecerem e ela ser independente a ponto de caminhar sozinha e refazer sua vida. Luiza ouvia aquelas palavras tão temidas, que pensava não resistir e rasgar seu coração em pedaços e esfacelar a alma a ponto de evaporar no ar como se ela não fosse mortal.

Sempre temeu e previu esse dia, há cada ida de Sinézio, o perfume deixado no ar, palpitava seu coração como uma despedida final. E quando ele retornava à noite, ela procurava ansiosa seu olhar, num misto de acusação e medo de uma conversa, como a daquele momento.

Temera tantos anos por esse momento, que muitas noites sofria o pesadelo de vê-lo nos braços de outra, ou numa despedida, e quando acordava percebia Sinézio a olhando, porque as lágrimas molhavam o travesseiro, e o abraçava contando o pesadelo. Fixou seu olhar fixo nos olhos de Sinézio que nunca a olhava. Sentiu um fiapo de piedade quando encontrou seu olhar. Ele falava ininterruptamente, para não dar espaço a Luiza de pedir, de chorar e rastejar. Explicava como se estivesse na empresa, tratando de novos produtos, como convencendo a um cliente o ultimo lançamento. Nas mãos dobrava uma folha de papel que diminuía há cada explicação. Luiza ouvia parada, apenas os olhos movimentavam para lubrificar as pupilas: não havia lágrimas. Permaneceu assim até que ele parou de falar e aguardou a reação histérica de Luiza.

Sabia que a partir daquele instante, teria que ter jeito para agüentar o desespero dela. Luiza levantou do sofá, caminhou até a banheira, abriu as torneiras. Pela primeira vez, cerrou a cortina que circundava o vidro para não expor seu corpo, jogou sais perfumados na água que inundava a banheira, e antes de sumir atrás da cortina, parou e disse para Sinézio arrumar suas malas e sair, e que ele não precisava dar muitas explicações, que ela estava segura, que seus filhos a ensinaram em poucos minutos como começar de novo; aprendeu que era suficientemente forte para ser feliz, sem a sombra de sua indiferença, de sua farsa, de sua ambição e que ele sim era incapaz de vencer sem sua base, que se não fosse ela, ele seria um simples funcionário de uma empresa qualquer, e que poupasse suas palavras para não atormentá-la de culpa, e que a única culpa que ela tinha era a de ter tentando durante tantos anos conquistar uma pessoa que não sabia o que era amor, e que apesar de não ter sido amada, ela fora feliz por que tinha a verdade como regra de vida. Fechou a cortina e se banhou ouvindo a orquestra de Ray Conniff.

Sinézio foi embora sem se despedir. Nem os filhos perceberam.

O silêncio da noite era cortado pelas gotas de chuva que batucavam nas vidraças, como comemorando uma nova estação.

Quando ela acabou de tomar banho, sentiu uma leveza no corpo que estranhou, foi até a balança para verificar o peso, e era o mesmo, deu um sorriso, era sua alma que estava mais leve. Perfumou-se e deitou na cama, sentiu a cama maior, aconchegou-se no edredom e adormeceu. Se ele estivesse ali, notaria um sorriso nos lábios de Luiza, quem sabe ela estaria sonhando com seus beijos, quem sabe sonhava que finalmente o fez apaixonado. Mas aquele sorriso era sereno e tranqüilo Luiza aprendera com Elizabete. Sinézio não acreditaria.

Luiza vai para a agência mais cedo do que de costume, passa pela recepção e não cumprimenta os funcionários, chama Celeste até sua sala, e relata o ocorrido, que na noite passada, Sinézio pedira separação, dizendo que ela era culpada, pois ele sentia-se sufocado com tanta cobrança. Celeste ouve com atenção, mas por várias vezes o telefone as interrompe, Luiza se mostra impaciente, porém, ao contrário do que se esperava, parecia segura ao contar aquele fato, que antes parecia um terremoto. Celeste percebe sua segurança apesar de tudo, e combina um jantar para uma conversa sem interrupções.

A secretária informa o advogado de Sinézio estava ao telefone. Luiza marca uma reunião. Ao chegar o Dr. Gustavo, que há muitos anos acompanhava os processos jurídicos da empresa, cumprimentou Luiza com aspecto preocupante. Luiza confiara tanto em Sinézio que assinara um novo contrato social, e uma procuração com ata datada de uns três anos anterior, vendendo noventa e oito por cento das empresas para Sinézio. Luiza toma um susto e tenta reivindicar, mas Dr. Gustavo informa que era difícil reverter àquela situação.

Luiza toma uma decisão, liga para seu advogado e relata o ocorrido. Vai até a fábrica ao encontro com Sinézio. Ao chegar no pátio de estacionamento, uma jovem manobrava um carro com dificuldades, João o manobrista a ajuda, mas a jovem recusa e se mostra vaidosa João insiste, até que ela faz sinal que ele se afaste. João desiste e olha para Luiza para cumprimentá-la, ela sorri com simpatia, conhecia-o de muito anos na empresa. Luiza percebe que a jovem desvia o olhar, mas não dá importância. Entra na sala de Sinézio sem anunciar.

Ele estava de costa para a porta, olhando pela vidraça que dava para o pátio do estacionamento, ele a viu chegar. Ao virar a cadeira, já estava sorrindo. Luiza pergunta como ele pode ter sido tão monstruoso a ponto de enganá-la e roubar as ações da empresa. Sinézio responde que ao contrário do que ela pensava, ele jamais seria um funcionário qualquer, que sua inteligência não permitia que ele saísse sem nada, que sua infância difícil o ensinara a não perder as oportunidades, que o casamento foi o degrau para o sucesso e para ficar mais longe de seu passado. Luiza responde que quanto mais alto o degrau, maior é o tombo, e que ao cair, antes de morrer, ele tivesse a dignidade de se arrepender.

Sinézio aperta um botão invisível aos olhos de Luiza e dois seguranças se prostram na porta convidando-a para se retirar. Luiza fixa o olhar para ele e diz que mais uma vez ele a fez feliz, pois o arrancou do coração sem sentir dor, e que ele a fez conhecer o amor, o ódio e o desprezo, com esses sentimentos ela estava pronta para continuar a vida e aprender a conhecer as pessoas. E que aguardasse a justiça de Deus e dos homens. Sinézio não responde, seu olhar nesse momento já não foi tão seguro.

O processo tramita pela justiça com lentidão, pois Luiza recorre de varias maneiras, mas foi em vão. Perdera a empresa para Sinézio.

Na agência de turismo, a disposição de Luiza era notada por todos, ela aumentara os contatos, criava excursões de finais de semanas para executivos com vôos noturnos aos países vizinhos, em Niterói o destaque da agência era comentado em todos os jornais e os colunistas sociais a procuravam com freqüência, o que aumentava os contatos com os empresários.

Celeste entra na sala de Luiza entusiasmada com uma grande excursão que ela fechou com empresários, mas precisaria de outro avião, e aconselhou Luiza a acompanhar esses clientes, pois além de fazer bem, ela estaria em contato direto com os clientes que a prestigiaram. Luiza aceita dando um abraço de agradecimento a Celeste pelo estímulo.

O grupo de turistas está reunido no aeroporto. Luiza sugere um crachá para identificação. Luiza percebe um olhar fixo em seu rosto, dá um sorriso tímido e sente seu o sangue aquecer sua face, há muito não seus sentimentos estavam adormecidos, mas desvia os pensamentos, decidira nunca mais abrir seu coração para um novo amor.

A viagem foi tranqüila, até que chegam em Curitiba. O hotel estava reservado e o grupo procurou seus apartamentos para algumas horas de descanso, e marcaram o jantar. Finalmente o empresário Gilson se apresenta a ela, e para sua surpresa gostou de estar a seu lado.

O passeio a Santa Felicidade, foi divertido, a variedade de vinho, as conversas descontraídas até que Luiza ficou a sós com Gilson. Conversaram por longo tempo, mas ela não citava nada de seu passado. Gilson a cercava de atenções e a alegria voltou a suavizar o semblante triste de Luiza.

Gilson estava separado de sua esposa. Havia terminado um relacionamento de alguns anos, relatou os fatos a ela, mas Luiza tentava não se envolver com ele, pois algo em sua intuição dizia que tinha muitos problemas a serem resolvidos. O final de semana foi agradável. Terminado o passeio, a rotina do trabalho, fez com que Luiza retornasse a melancolia da traição de Sinézio.

Celeste tenta ajudar Luiza a esquecer o passado, mas ela assegura que o que sentia não era ciúmes de Sinézio, mas uma grande mágoa por ele ter se aproveitado de sua confiança, e a fizera assinar os papéis tão importantes, que ela perdera a empresa deixada por seu pai, que o destino tramara tanto sofrimento e que entregara a ele, seu amor e sua dedicação. Gilson ligou para um final de semana em Petrópolis no sítio de sua propriedade. Luiza dá um sorriso e promete pensar até o dia seguinte para uma resposta segura, pois precisava saber o programa das crianças. Gilson aplaude sua atitude e diz que aguardará com ansiedade. Celeste assiste de longe o sorriso alegre de Luiza e a abraça feliz por aquele momento.

***

O carro sobe a ladeira de uma mansão em S. Francisco, os jardins circundando o caminho, revelam o luxo exagerado. As árvores floridas e uma fonte luminosa compunha aqueles jardins. Mais abaixo, a praia completa o cenário de beleza natural.

Sinézio estaciona o carro e João o motorista da família, o recebe para guardar o carro na garagem que fica abaixo da varanda, E como de costume, aspirava o carro todas as noites e depois polia a pintura com uma flanela. A garagem ficava abaixo da varanda, e o quarto de João era localizado dentro da garagem após uma porta bem desenhada.

E havia um banco que ele costuma sentar que dava aos seus pensamentos a liberdade para lembrar de seu passado. Sinézio agradece e sobe os poucos degraus que o levarão à sala. Marina está na varanda conversando com Deise e o Dr. Paulo. Sinézio os cumprimenta e iniciam uma conversa descontraída, até que o Dr. Paulo informa que estava precisando fechar um contrato com uma grande empresa de convênio e precisava de dólares. Sinézio concorda e marcam um encontro em seus escritórios.

A copeira serve bebidas com petiscos, as horas passam e os efeitos alcoólicos já era notado no grupo. Marina o abraça sensualmente revelando como se amavam, Sinézio corresponde afagando seu corpo e com sorriso de satisfação a beija levemente no rosto. Deise pergunta se eles eram tão felizes como pareciam, o que é afirmado por Sinézio. Deise lembra que Afrânio também a amava, e que ela era uma mulher de sorte. Marina dá uma risada e diz que a sorte foi o atropelamento, e Deise e o Dr. Paulo serem amantes, pois se não fossem eles, nunca teriam se livrado de Afrânio com aquela injeção. Dão boas risadas.

João pensava nos pais e nos irmão que deixara em Pernambuco, prometera trazê-los logo que a situação financeira melhorasse, mas os anos estavam passando e ficava mais difícil retornar. Planejou pedir férias aos patrões para fazer a viagem. Mas quando os patrões estavam na varanda ele evitava sentar no banco, pois desse lugar ouvia todas as conversas da varanda, mas nessa noite, resolveu ficar ali discretamente, sem ser notado, ouvia as conversas e as risadas do grupo.

João arregala os olhos e permanece na mesma posição. Seu coração acelera pelo susto do que ouvira.

Marina já bêbada, pergunta a Deise detalhes de como Afrânio morrera, quando ela aplicara aquela injeção, se seus olhos brilharam de pavor, se ele pronunciara seu nome, se ele sentira dor, ou adormecera ouvindo um coral de anjos? Insiste chorando que Deise conte os detalhes de sua morte. O Dr. Paulo pede a Sinézio que a proíba de falar naquele assunto. Marina solta gargalhada que se transformam em choro convulsivo. Sinézio a convida para dar uma volta no jardim. Ela se recusa insultando a ela e ao grupo de assassinos e covardes, que o preço da morte de Afrânio foi alto demais, que aquele luxo não atendia suas necessidade de dormir em paz, que as noites eram difíceis, que seus travesseiros pareciam ter pedras, e por isso vivia trocando, sorria e chorava, brindou ao céu sua culpa, e atirou o copo de cristal na parede. Sinézio a abraça fortemente e se dirige ao jardim abaixo da varanda.

João assustado levanta do banco e entra para o seu quarto. Sinézio abraçado a Marina vai a direção ao banco, Marina chorava e lamentava a morte de Afrânio, falava de como o conhecera e sorria lembrando dos primeiros beijos no rio e das perguntas de seu avô. Ao sentar no banco, Sinézio percebe que estava quente olha para os lados e percebe um papel dobrado, pega discretamente e o guarda no bolso. Olha para a garagem e percebe que a luz do quarto de João estava apagada. Dá um suspiro de preocupação.

Marina fica silenciosa, e Sinézio a convida para subir a varanda. No parapeito, Deise e o Dr. Paulo os olhavam ansiosos para a melhora de Marina. Ao subir, Sinézio aconselha a Deise que a leve para o quarto. Ao ficar a sós com o Dr. Paulo, revela a suspeita de terem sido ouvidos por João, preocupado com o motorista, pois percebera o banco aquecido e achara um papel no chão, era uma carta em um envelope.

Sinézio assustado informa com mais certeza que dúvida, que João, ouvira a conversa. E que eles estavam numa situação difícil. O Dr. Paulo, calmamente retira a gravata de Sinézio, estica-a prendendo as duas extremidades nas mãos, e sorrindo faz sinal, que ali estava a solução.

Sinézio se mostra nervoso e sabe que não havia outra saída. Aguardam alguns momentos dando tempo para que João adormecesse e se livrarem de complicações no futuro. Já de madrugada, as mulheres dormiam, na varanda Sinézio e o Dr. Paulo aguardavam calmamente o sono de João o condenar a morte. Se ele estivesse sonhando com sua terra muito melhor, afinal seria uma morte rápida. Se ele estivesse acordado, a situação complicaria, mas o Dr. Paulo já estava prevenido, pedira a Sinézio uma faca bem amolada.

A madrugada trouxe uma névoa densa, as luzes estavam ofuscadas, uma vez ou outra ouviam o som triste de um carro deslizando na rua de São Francisco. Era prenúncio de uma madrugada longa. As horas passavam lentas, o despertador digital marcava lentos os segundos.

João deitado na cama tentava fechar os olhos, mas o sono não vinha, seu coração disparava de medo e decepção. Tudo daria para estar em sua terra, na humildade da vidinha de interior, mas a miséria marcara sua vida, lembra de quando seu pai o chamou numa tarde de domingo, ele jogava bola na rua, a poeira subia todas as vezes que chutava a bola, o barro vermelho misturado ao suor, mesclava sua beleza jovem em aspecto cansado e sujo.

***

Na calçada, estavam Maria de Jesus e suas amigas, sorriam a cada gol, sentia aquele olhar de menina moça perseguir seus olhos para um encontro de emoção e vergonha. Prometia que há cada gol, mandaria um beijo pra ela, mas faltava coragem. Ouviu o chamado de seu pai, fez sinal que o jogo estava terminando, se retirou do campo, limpando o suor com a camisa surrada, cuspiu no chão, parte de poeira de barro, passou por Maria de Jesus e deu um sorriso. Ela correspondeu, numa espera de mais alguma coisa, de palavras ou de um encontro, mas João era mesmo muito tímido, surrou com raiva sua perna direita, pela perda da oportunidade que tivera de marcar um encontro com ela na saída da missa das seis.

Entrou assustado em casa, pois seu pai era severo, e tentando imaginar algo errado que pudera ter cometido, se aproximou de cabeça baixa.

A voz de seu pai disparou curta, porém incisiva, que ele se preparasse para a próxima semana ir para o Rio de Janeiro trabalhar, pois ele já estava ficando pesado em casa. E ele tinha apenas dezessete anos. João nada respondeu, mas seu coração de menino disparou assustado, como fazer pra chegar ao Rio de Janeiro? As perguntas faziam confusão em sua cabeça, e o que seria do romance com Maria de Jesus? Mas que romance se ele nem nunca falara nada com ela. Foi para o quarto. A janela era uma pequena abertura no barro, casa de sopapo era assim, o cheiro de barro, dava a sensação de frescor, chegou a sentir frio.

Olhou para a caatinga, o sol ainda castigava, era verão longo, o galo de campo posou num pequeno galho e soltou um canto triste, João o imitou com tanta perfeição que ele repetira o canto. Tentou novamente e novamente o pássaro respondeu. Seus pequeninos olhos tentavam fixar os dele, balançava a cabeça como uma comunicação, saltou para outro galho e sem olhar para trás, voou se perdendo na caatinga seca, ardida pelo sol. O céu azul sem nuvens, informava que não teriam chuva por outros longos meses. João foi na "casinha" era assim que chamavam o banheiro, tirou a roupa, pegou um pouco de água barrenta, e banhou seu corpo.

Sentiu os pêlos que circundavam seu sexo, e sentiu orgulho, nas axilas também os pelos despontavam, denunciando que ele já era homem, seu pai tinha razão, já estava na hora de trabalhar de carteira assinada, pois já trabalhava na lavoura desde os cinco anos. Seu pai o apressou para a missa das dezoito horas. João sentiu um calafrio, dessa vez iria falar com Maria de Jesus que ele sentia algo muito bom por ela, que achava que era amor.

Na pequena igreja, as pessoas de pé ouvindo com atenção as palavras do padre. João estava atrás na fila de bancos, Maria de Jesus tinha cabelos longos e louros, amarrados até a cintura, seus olhos eram tão azuis que talvez por isso colocaram seu nome de Maria de Jesus, o sorriso meigo, e a voz macia faziam uma mistura de pureza com sensualidade.

João sentiu vontade de puxar o laço que prendiam seus cabelos para ver se eles cobririam suas nádegas, assim ele imaginaria como seria Maria Jesus sem roupa coberta pelos longos cabelos. Deu um leve assopro e viu que alguns fios responderam, talvez ela estivesse sentindo algum arrepio. O vestido de seda florido pareciam querer escorregar de seu pequenino corpo, João imaginou um vento levantando e suas pernas alvas aparecendo e ele passando as mãos naquela pele macia, imaginou que dava até pra ver as veias onde corre seu sangue, e com certeza, sentiria o aquecimento de seu corpo, quando ela sentisse os pêlos que apareceram em seu sexo.

Desviou esses pensamentos se punindo com um beliscão no braço, quando ouviu o coral cantar a Ave Maria de Gounot. Pediu perdão a Jesus e a Santa Maria. A missa terminou, Maria de Jesus saiu de mãos dadas com os pais, João a segui de longe com o coração acelerado. A noite caiu e João ainda na rua, encontrou com Zezinho, um amigo de infância, e combinaram de parar numa venda aberta, a lamparina confundia a sombra das pessoas, alguns homens sorriam alegres tomando talagada de cachaça. Zezinho tirou algumas notas do bolso e sorrindo, fez um sinal de alegria e pediu duas doses. Tomaram a cachaça de uma só vez, tossiram engasgados, arrancando gargalhadas dos outros. Zezinho e João saíram da vendinha e seguiram pela rua, animados depois da bebida.

No beco do Quindim, as prostitutas já arrumadas à espera de fregueses. Os dois entraram pela rua assustados pela novidade e ouviram quando alguém assoviou chamando-os de franguinhos. Pararam e atenderam ao chamado. A música alegre e o cheiro de perfume Sândalos pareciam aquecer ainda mais aquele ambiente.Zezinho parecia familiarizado, se enroscou no corpo de uma prostituta mais velha que ele e ganhou um afago nos cabelos com brilhantina.

João parado na porta tremia de emoção, já esquecera Maria de Jesus. Uma moça da vida, loirinha e jovem, se aproximou e pegou suas mãos. Perguntou se ele tinha dinheiro, e João respondeu que não, ela disse que não tinha problema, que na primeira vez era de graça, pois tinha certeza que ele ia gostar tanto, que ia trabalhar muito, para no final de semana, comprar o prazer. Levou João para seu quarto, sem direito a bebida, despiu-se. A pele branca, as veias aparecendo, os cabelos longos e o sorriso aberto, pareciam uma Maria de Jesus. Deitou sobre seu corpo e ensinado por ela, sentiu pela primeira vez o sabor de uma mulher.

Cavalgou por muito tempo sem querer sair, o prazer era infindável, imaginava Maria Jesus, começou a chorar de emoção, o coração disparava, o suor inundava os corpos, o prazer vinha e ia sem acabar, seu corpo magro escorregava ele lutava contra o suor, as lágrimas brotavam junto ao soluço de prazer, quando ouviu a gargalhada da mulher falando para ele se acalmar. João salta de seu corpo, sentindo vergonha e culpa, e se puni com um beliscão.

Saiu do quarto envergonhado, procurou por Zezinho, ele ainda estava no quarto, saiu daquela casa à noite estava fresca, seus corpo ainda molhado de suor, a garganta seca, precisava de água, quando chegou na venda, a quartinha (nome de jarra d'água no nordeste) sobre o balcão saciou a cede sob os olhares dos homens. Seguiu para casa e ao chegar seu pai estava na rede fumando um cachimbo. Sua mãe já adormecida ouviu a pergunta de seu pai, onde ele perdera os sapatos. João assustado olha surpreso para os pés, não percebera e respondeu que levara uma carreira de um bode e perdera no caminho. Seu pai ordena que ele volte para procurar.João olha e pede que deixe para o dia seguinte o que foi negado. João volta, dá um sorriso desajeitado e percebe que não tinha outro jeito, voltou a casa da ALEGRIA DA TRISTEZA. Entrou e já não sentiu tanta vergonha.

Uma prostituta veio ao seu encontro, mas João recusou, dizendo que estava à procura de outra, e deu os traços dela, a prostituta sorriu zombando de sua preferência, já que ele era tão jovem, acreditando que já era experiente. João segue por um pequeno corredor, quem o viu seguir, pensou que ele estava indo ao banheiro, pois os quartos ficavam na mesma direção, mas na sua inexperiência, bateu no quarto e abriu, deparou com um homem gordo de longos cabelos, as calças arriadas até os tornozelos, fungando em cima da loirinha parecida com Maria de Jesus. Ela o viu e perguntou fazendo mímica, ele apontou para os pés, perguntando pelos sapatos, a moça sorriu e olhou para pequena penteadeira e lá estavam os sapatos do João. Ele entrou de ponta de pé, os gemidos do homem pareciam aos de um boi comendo farto capim. Ele não tirara as roupas pela pressa do prazer ou para não esquecer no quarto da moça. Quando foi saindo, esbarrou numa bacia de água barrenta, era o banho de asseio dela.

O homem olhou para trás e deu um salto, subiu as calças e correu atrás de João, que disparou pelas ruas, assustado, já sentindo uma peixerada em suas costelas. Quem sabe no dia seguinte Maria de Jesus choraria sobre seu corpo acusando-o de traição, nunca saberia que fora por causa de uma talagada de cachaça e do sapato esquecido no quarto de uma prostituta parecida com ela. Corria pelos becos ouvindo os palavrões do homem, mas graças ao seu peso, foi mais rápido e ao perceber que estava correndo sozinho, parou para descansar. Olhou para as mãos a procura dos sapatos e viu que tinha perdido, dessa vez, não sabia aonde.

Voltou para casa desolado, quando o pai perguntou, ele disse que não achara.

No dia seguinte acordou cedo e foi para a lavoura, o dia custou a passar e resolveu dessa vez falar com Maria de Jesus, já tinha pêlos no corpo, já deitara com uma prostituta, já levara carreira de um homem, já estava pronto pra vida.

Quando anoiteceu, tomou banho e empastou de brilhantina o cabelo, colocou o perfume de seu pai, que, de tanto tempo guardado, o cheiro parecia azedo. Não se importou, precisava estar perfumado quando chegasse perto de Maria de Jesus. Foi até perto de sua casa, Maria de Jesus, estava na calçada conversando com as amigas. João se aproximou e em poucas palavras, disse que queria ser seu namorado. Ela abaixou a cabeça e deu um sorriso, confirmando o que João esperava. Os encontros se repetiam a cada semana, depois da missa, de mãos dadas, caminhavam pela praça, sentiam uma energia correr por entre os dedos, ficavam silenciosos nesse momento, e João mais audacioso, corria o dedo pelo seu braço, arrancando suspiros entrecortados de prazer e vergonha.

Era festa de São João, as guloseimas e fogos misturavam sabor e cheiro de pólvora, a banda tocava a música tradicional, um grupo exibia o boi bumba, as tapiocas feitas na brasa e o queijo assado apeteciam as pessoas, mas eles não desejaram comer, Afastaram-se da praça, a rua deserta, uma brisa fresca os convidou para um abraço, o céu estrelado pareciam pingentes de diamantes, ali sentiram a riqueza do amor. Um poço na beira de um caminho foi aproveitado para se encostar.

Maria de Jesus colou seu corpo frágil em João, como desejou na igreja, João soltou seus cabelos que a cobriram e com a luz da lua, ficaram prateados, seus olhos azuis agora eram negros como a noite, levantou seu vestido e sentiu a pele macia de suas cochas, imaginou as veias saltando fervente às carícias.

De longe os fogos explodiam colorindo o céu. As mãos ansiosas procuravam caminhos antes desconhecidos, o vestido num rápido desabotoar dos botões, deslizou pelo seu corpo e caiu no chão. Os gemidos de amor se confundiam com dor e prazer, Maria de Jesus se entregava aos desejos há tanto tempo guardado naquele corpo jovem.

Meses depois, João recebeu uma carta dela dizendo que estava grávida, apressou em mandar as passagens. Na rodoviária, João a recebeu com muita alegria, passaram dias difíceis, chegaram a dormir na Central do Brasil, até que arranjara um emprego e foram morar na Rocinha, uma favela de Copacabana. Maria de Jesus deu a luz a uma menina que chamaram de Maria do Céu, porque do quarto que dormiam, antes de amanhecer o céu anunciava como seria o dia, se ensolarado ou chuvoso. Um ano depois Maria de Jesus levou Maria do Céu para Pernambuco na esperança que João um dia voltasse. Estava em seus planos, mas o dinheiro era pouco, mas sempre recebiam notícias, João tinha telefone celular e Maria de Jesus um telefone público muito disputado em sua rua.

***

João percebeu que mexeram na porta, o coração acelerou de medo, lembrou do homem fungando como um boi no capinzal com as calças arriadas até o tornozelo. Sorte sua por ter deixado a chave atravessada. Levantou da cama, com os olhos arregalados na escuridão, lembrava aos de uma fera acuada, sabia que eram os assassinos do pobre Afrânio. Com certeza lhe aplicariam uma injeção e num torpor de dor e alucinação, pensaria em Maria de Jesus, e quem sabe, ouviria um coral de anjos abrindo passagem para o céu.

João se dirigiu a janela a procura de uma saída, o basculante emperrado aumentou o pavor. Forçou várias vezes percebendo que tentavam abrir a porta. Tinha pouco tempo para se livrar, palpou ao redor algo que pudesse quebrar os vidros e correr ladeira abaixo, deixar para trás aquela família de assassinos covardes e ambiciosos. Seus pensamentos agora estavam direcionados numa fuga, nada fizera de mal, apenas ouvira o relato de um assassinato e ele é quem tinha de fugir como uma fera acuada.

***

Luiza volta para casa. Encontra Dora conversando com Elizabete e Felipe, parecia feliz, ela procura saber da conversa e participa com animação. Elizabete estava comentando sobre uma festa de quinze anos de sua amiga num famoso clube. Planejava uma roupa nova, Felipe dava contra demonstrando ciúmes da irmã. Dora o abraça confortando-o que breve ele também teria muitas festas para ir. Luiza promete que a ajudaria a comprar as roupas novas. Luiza pede licença e vai para o quarto. Da janela ela olha a praia de Icaraí, estava movimentada, era noite e um show animava as areias da praia. Os holofotes direcionados faziam um espetáculo maravilhoso de apreciar. Seus pensamentos voltam ao passado. Lembra da lua-de-mel com Sinézio, da felicidade singular que sentia, seus beijos a procura dos dele que eram mornos e rápidos, muitas vezes sentia que Sinézio fazia amor apressado para descer do quarto e aproveitar a oportunidade de estar em outro país. Suas carícias eram breves, porém pacientes com a ansiedade dela. Luiza lembra com rancor quando ouvira o canto dos pássaros do zoológico do hotel, e ele mentira dizendo que estava no refeitório. Fingiu acreditar, sua felicidade era muito frágil, prometera a sim mesma jamais contrariá-lo para não perdê-lo.

Concentrada em nesses pensamentos, Luiza suspira e daquele amor ficara rancor e mágoa e uma vontade imensa de desmascará-lo e tomar de volta as empresas que ele roubara.

Telefona para Gilson e confirma que passaria o final de semana em Petrópolis, pois seu filho tinha uma festa e Dora os acompanharia juntamente com o motorista. Gilson com muito carinho promete que a fará feliz, que ela merece toda a felicidade do mundo e que levaria uma asa-delta para pularem da serra, Luiza sorri da brincadeira e ele então pergunta o que ela gostaria que ele fizesse para ouvir sempre aquele sorriso. Luiza responde que só ele conhecia aquele sorriso, pois nunca conseguira sorrir de verdade, e evita falar no assunto, prometendo um dia contar sua vida. Desliga o telefone, sai do quarto e vai até a varanda da sala. Dora ainda conversava com as crianças na outra sala e Luiza cantarola uma canção alegre, da outra sala o silêncio denunciava que ouviam com alegria Luiza cantar e que nunca ouviram sua voz. Elizabete e Felipe correm até seus braços e pedem que ela repita a canção. "Quando o segundo sol chegar, e realinhar as órbitas do planeta..." gravada na voz de Cássia Eller.

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A janela cede à força de João, e ele salta rapidamente para fora, o quarto ainda às escuras, deu lugar ao arrombamento da porta por Sinézio e Dr. Paulo, acendem a luz e deparam com o vazio, a janela aberta esclarecia a suspeita. Correm até o portão na esperança de achá-lo. Sinézio pega o carro e o Dr. Paulo o aguarda no portão, descem a ladeira em alta velocidade, procuravam aflitos por João; o desespero os fazia alucinados, apontavam para qualquer sombra nas ruas, seguem até a Charitas, as ruas desertas, facilitava a procura, retornam e entram no túnel, de longe avistam um homem correndo, aceleram o carro o mais que podem, o homem parecia desesperado, e quando estavam chegando perto, João sobe o morro do Cavalão, e os dois desolados ficam parados prevendo a confusão que breve formaria. Voltam para casa desolados com a situação, tentam combinar o que diriam a polícia quando João os denunciasse. Resolvem ficar calados e esperarem. De repente, Sinézio põe a mão no bolso e lembra da carta que achara. No dia seguinte Sinézio está no aeroporto para uma viagem a Recife.

Chega em Caruaru e procura por Maria de Jesus. Ela o recebe com alegria ao saber que ele é amigo de João. Sinézio leva presente para ela e diz que quando João ligasse para ela, dissesse que ele estivera lá e que Maria do Céu era linda. E voltaria quando pudesse. Maria de Jesus não entende que aquele recado era para que João ficasse em silêncio. Sinézio volta no dia seguinte. Tranqüilo como se nada tivesse acontecido. Procura pelo Dr. Paulo e informa que tudo estava resolvido. Marcaram um jantar para comemorar a solução de um grande problema.

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Na segunda-feira Luiza retornara do passeio de Petrópolis. Ao chegar na agência foi à sala de Celeste para comentar o que acontecera, mas pouco pôde conversar, o movimento era grande já no início da semana. Combinam jantar para conversar.

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João procurara abrigo com moradores do Morro do Cavalão, ficou alguns dias escondido, até que naquela segunda-feira, resolvera descer para procurar Luiza e dizer o que ouvira. Passa pelo telefone público e resolve ligar para sua cidade e prevenir Maria de Jesus que dessa vez ele adiantaria de qualquer jeito a viagem. Consegue deixar recado para após meia hora retornar. Do outro lado Maria de Jesus sorria de alegria ao ouvir a voz de João. Ele explica que voltaria o mais breve possível, pois largara o emprego. Maria de Jesus, o conforta e diz que o amigo dele o Sr. Sinézio estivera em sua casa e disse que se ele precisasse de algo, para procurá-lo. O rosto de João ferveu de medo, pediu que Maria de Jesus repetisse o nome e foi confirmado. O medo e o ódio se confundiram, nos pensamentos de João. Ele diz para Maria de Jesus que a procuraria, desvia o assunto, prometendo que breve ligaria, e que enviaria uma carta pra ela, mas que só abrisse quando ele voltasse, ela não entende: ele diz que eram coisas da cidade grande. Fez ela prometer que guardaria a carta. Maria de Jesus jura que guardaria. João desce o morro tencionado a procurar Luiza para contar o que acontecia, mas o que Maria de Jesus falara sobre a ida de Sinézio a sua casa, o fez mudar de planos. Decide sair de Niterói e arranjar um empr