A Garganta da Serpente
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Maçã
(Lívia Santana)

Apenas um olhar, é o bastante. Uma simples sugestão é faísca suficiente para deflagrar o fogo que consumirá todos os limites e barreiras. A situação mais inocente é capaz de desencadear pensamentos lúbricos e acontecimentos tórridos. A tentação é serpente insidiosa que ronda incessantemente, acompanhando cada passo da presa, à espreita do menor sinal de fraqueza. O desejo subjacente deixa o ar eletrizado e incita ao pecado. O proibido acena sinuoso com promessas de concupiscência morna e sedutora. O momento decisivo é imperceptível, a presa nunca estaca em considerações sobre ainda ser possível retroceder - até porque, a esta altura, daria qualquer coisa para finalmente transgredir. Não há como perceber o momento exato em que a guarda é baixada e é dado o primeiro passo em direção ao abismo. A ruína chega como picada de inseto venéfico: silenciosa, veloz e urticante, e apenas o princípio do sofrimento. Aparentemente inofensiva, não atrai maiores atenções, nem suscita maiores cuidados, enquanto instala a devastação.

Lentamente toma conta de cada veia e cada pensamento, imperiosa, insaciável. Os sintomas são insopitáveis, enlouquecedores. O sono é acompanhado de suores profusos e delírios turbulentos, a vigília é dominada por intensa consumição. Corpo e mente ardem por algo pouco definido, mas imprescindível, que corrói o juízo e pulsa vertiginosamente no peito. Algo que coça, inflama, prolifera por toda parte. Agonia vibrante e entorpecente, fustigando a pele e a entranha, assanhando as fantasias. Uma dor gostosa, clara escura, doce amarga, quente fria. Um oxímoro incandescente e enregelante. Feitiço voluptuoso que aprisiona o pecador e o afunda em embriaguez viscosa e salaz. Dura momentos eternos e inebriantes, mas, o que é quase paradisíaco e quase infernal, se converte em desgraça completa quando a transgressão é revelada. Por mais que o desafio tenha sido suculento e tenha provocado as mais sublimes sensações, a perdição é o destino daqueles que mordem a maçã.

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