| Linus De Paoli |
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Acidente
(Linus De Paoli)
Na faculdade eu tinha um amigo inseparável. O nome do cara era Leonardo.
A gente tinha entrado na faculdade junto, mas não estava na mesma turma
e dividia o apartamento. O cara era companheiro mesmo.
Vivíamos saindo junto pras festas, aliás, naquela época
sim é que tinha festa boa no centro acadêmico. Toda sexta-feira
tinha banda tocando, cerveja gelada e meia dúzia de gatos pingados que
sempre estavam por lá. E a gente sempre ia. O bom era que a música
era boa, a seleção quase nunca mudava independente da banda que
tocasse, era sempre lalalalalala. Além disso dava pra sair de casa sem
ligar pra ninguém, a gente sabia exatamente quem ia encontrar por lá.
Eram sempre os mesmo, meia dúzia de dinossauros, os caras do grupo de
som, o povo no bar e mais uma dúzia de abitués(???).
- Caralho, a gente vem sempre aqui. Por que a gente não vai num lugar
diferente? - esse era o Leo, o cara sempre ia lá, sempre reclamava mas
nunca mudava.
- Quer lugar melhor? Ficar ouvindo putz putz em boate não é comigo
e além do mais você sabe muito bem que a cerva aqui é bem
mais barata (isso no tempo em que a lata de cerveja era um real, saudades daquele
tempo em que eu enchia a cara com gosto com apenas 5 reais no bolso) e se tiver
uma mina dando sopa é sexo na certa.
- Lá isso você tem razão.
- Além do mais você sempre fala essa merda e nunca dá uma
opinião antes da gente sair de casa. Por isso toma essa cerveja e não
enche o saco.
- UUUUUUuuuuuuuuu... Ficou nervosa santa?
Daí nesse ponto a conversa deslanchava, mas sempre precisava desse momento
inicial de stress pra coisa engrenar.
Naquela noite tava tocando a Fornalha, o baterista se não me engano era
um dos dinos da mecânica. O cara tava na faculdade a uns 11 anos rezava
a lenda. Aliás lá na USP em São Carlos tinha uns dinossauros
de respeito.
Mas quase toda festa, fosse ela as costumeiras de sexta-feira com pouquíssima
gente ou as famosas onde lotava, enchia de carro e de mulher bonita, ia chegando
no final se um dos dois não tivesse arrumado mulher estavam com dois
muito bêbados. Aliás, quando o Leo pegava mulher eu nem via ele
durante a festa, só sabia o que estava acontecendo pela gritaria no quarto
ao lado meu na manhã seguinte. Mas eu nunca cheguei a ver a cara das
garotas que ele comia.
Naquela época não tinha problema, a gente morava perto da faculdade
e perto do centro acadêmico, logo na grande maioria das vezes a gente
ia a pé mesmo pras festas. O único risco era não saber
o caminho de volta pra casa depois. Nas poucas vezes que a gente ia de carro,
íamos com o meu carro, afinal o cara não tinha um. Eu tinha um
Fiat Uno Mille que tinha ganhado da minha avó. O carro era muito bom,
agüentou muita judiação na minha mão.
Quando a gente ia de carro eu nunca deixava o Leo dirigir, o cara era muito
barbeiro, ainda mais depois de beber ele não conseguia dirigir em linha
reta e o carro vivia morrendo. Assim, por pior que estivesse eu sempre voltava
dirigindo.
- Vai cara, deixa eu ir dirigindo.
- Não
- Deixa.
- Não.
- Eu prometo que ando em linha reta.
- Não, saco. Você é muito braço.
- Assim você fere meus sentimentos.
- Pronto, começou a viadagem.
E nessa é que acabavam as nossas noites. Afinal de contas chegava o dia
seguinte o carro estava inteiro e a gente são e salvo na cama.
- Porra sacanagem você não me deixar dirigir teu carro.
- Caralho, lá vem você de novo. É sempre. Você enche
o meu saco na hora de embora e depois fica choramingando falando que eu não
deixo você dirigir. Aprende antes porra.
- Eu acho que você tem medo que eu dirija melhor que você.
- Piada né? Isso é o que você está dizendo.
- Não, não sou eu que estou dizendo, na verdade eu sou uma voz
dentro da sua cabeça, sou seu amigo imaginário.
- Vai se fuder e não começa com essa palhaçada de novo.
- Então deixa eu dirigir?
- Não.
Uma semana depois teve Baile Brega no centro acadêmico. Todo mundo entrava
no clima da festa e punha as roupas mais ridículas que conseguia achar
nos brechós da cidade.
As coisas estavam andando meio devagar, fazia um tempo que nem eu nem o Leo
pegávamos nada. Acho que a fama de bêbado estava se espalhando
além dos limites do aceitável e a mulherada estava mais fresca
do que o normal. Daí já devia ser umas três e meia da manhã
quando foi finalmente decidido que o melhor a fazer era encher a cara mesmo
e fodam-se todas as mulheres do baile. Nessa altura devíamos estar já
na sétima lata quando começou...
"Comprei um quilo de farinha
Pra fazer farofa
Pra fazer farofa
Pra fazer farofa fa
Comprei um pé de porco (faró fa fa)
E orelha de porco (faró fa fa)
Pus tudo isto no fogo (faró fa fa)
E remexi direito (faró fa fa)
Com a fome de um lobo (faró fa fa)
Eu calcei o meu peito (faró fa fa)
Fa
Faró Faró Faró
Faró Faró Faró
Faró Faró Faró Fa Fa
Farinha de mandioca (faró fa fa)
E pimenta malagueta (faró fa fa)
Eu gosto de farofa (faró fa fa)
Comi, não faço careta (faró fa fa)
Mas sou forte como um touro (faró fa fa)
Da cabeça inteligente (faró fa fa)
Só não mastigo tijolo (faró fa fa)
Porque me estraga os dentes (faró fa fa)
Fa
Faró Faró Faró
Faró Faró Faró
Faró Faró Faró Fa Fa"
Essa música sempre tocava naquela merda de baile. A banda era sempre
a mesma com o mesmo japonês cantando. Mas a galera ia a loucura e não
tinha baile brega se não tocasse farofa.
Sei que deu umas cinco da manhã, eu acho, afinal de contas já
devia estar tão bêbado que mal conseguia ficar de pé e conter
o vômito dentro do meu estômago. E o Leo apareceu e falou pra gente
dar o fora. A cerveja estava acabando, as poucas mulheres que estavam sobrando
sozinhas não valiam a pena nem pra quem já tinha bebido umas dez
latas de cerveja e só tinham mais bêbados jogados pelos cantos.
A gente foi até o carro e o Leo, pra variar soltou:
- Deixa eu dirigir?
- Não, caralho.
- Mas você tá bêbado demais.
- E você não né?
- Bem, quantas você bebeu?
- Umas onze eu acho.
- Eu bebi só nove, logo estou melhor que você.
- Tá bom. Toma a chave e CUIDADO, caralho.
Depois disso encostou mais uma viatura. Mais uns dois minutos parou a ambulância.
E os curiosos também iam se juntando e tentando enxergar no fundo do
rio o carro destruído.
- Conseguiu achar os dois? - perguntou um dos policiais pro outro que estava
lá embaixo.
- Como dois? Só vejo um.
- O motorista?
- Aí que está o engraçado. O cara está sentado no
banco do passageiro.
- Aparentemente o cara vinha saindo do centro acadêmico pela descida e
simplesmente ignorou o fato que deveria virar o carro para pegar a avenida.
E caiu direto no rio. - Um dos guardas tentando entender o que tinha acontecido.
- Nossa, é o Gianni - falou um dos curiosos.
- Sempre achei esse cara estranho.
Nisso desceu um bombeiro do resgate lá embaixo.
- Deixa eu ver como o cara está.
- Olha isso que estranho.
- O pulso dele está muito fraco, parece que fraturou a cabeça.
Pelo menos estava de cinto.
- Olha isso. Tinha um tijolo no pedal do acelerador. E duas cordas amarrando
o volante.
- Me ajuda a tirar ele daqui.
Enquanto o bombeiro e o policial retiravam o meu corpo quase sem pulso de dentro
das ferragens.
- Você sabia que ele falava sozinho? - os curiosos comentavam.
- Eu cheguei a pegar ele falando uma vez. Dizia que estava conversando com um
tal de Leo.
- Ele falava que dividia o apartamento com esse cara.
- Mas ele sempre morou sozinho. Eu só não entendia porque tinham
duas camas naquele apartamento.
- Esquizo.
- Esquisito?
- Não, esquizofrênico mesmo. Pelo jeito o cara tinha um amigo imaginário.
E fez a cagada de deixar o cara dirigir.
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