A Garganta da Serpente
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Luiz Morvan Grafulha Corrêa saiba mais sobre o autor

Sexta charla:
O menino que mentia

(Luiz Morvan Grafulha Corrêa)

Na sexta noite, assim como vinha acontecendo, desde que os viajantes haviam chegado à fazenda, reuniram-se para a propos de table. De um lado, o gaúcho e Esopo. Do outro, a viúva e La Fontaine.

Evidentemente, que a ida até a cidade do Herval fora cancelada por óbvios e preventivos motivos e a donzela, que ousara sonhar ficar a sós com monsieur, ficara a ver navios. Provavelmente, teria ficado a vê-los, mesmo que a viagem tivesse acontecido, pois ao que se dizia, monsieur não era muito apreciador do sexo oposto a não ser em público, quando nada podia acontecer. Na intimidade, corria boato que gostava mesmo era de les garçons. Mas o gaudério sabia que a mulher e o conviva eram gens de même farine e não queria patrocinar nenhum jour de gras dentro da própria casa.

Foi assim que se apresentaram para a charla; o francês, como se nada tivesse acontecido e a moça, como se houvesse perdido o que havia de melhor. E talvez perdera. Ou,talvez, não. Nunca saberia.

- Pe... Pe... Pensei em contar-lhes uma história muito interessante esta noite... - iniciou o grego, para a surpresa de todos, uma vez

que acanhado e tímido, quase nunca se pronunciava.

O gaudério, que achava as fábulas de Esopo infinitamente superiores às de La Fontaine, embora contra a vontade, argumentou:

- O senhor La Fontaine ainda não nos brindou com nenhuma narrativa, exceto a da Cigarra e da Formiga...

- Que para mim, - interrompeu a donzela - foi a mais lindinha de todas!...

Os olhares cravaram-se no francês, que se fez de difícil, sugerindo:

- Esopo já está com a língua solta... Deixemos que ele conte outra das suas historietas...

- Mas a palavra, por direito, é sua... - disse o gaúcho.

La Fontaine tirou a caixinha de rapé do bolso do colete, aspirou e espirrou três vezes, antes de responder:

- Vamos ouvir Esopo...

O gaúcho, que tinha verdadeira repulsa por gente que se fazia de rogada, não voltou a insistir, entregando a palavra ao grego, que iniciou:

- Vo... Vo... Vou contar-lhes a história do menino que mentia...

- Ah, então não será uma história de bichinhos? - perguntou a senhora, que tinha fascinação por animais.

- Nã.... Nã... Não, senhora... - respondeu Esopo, continuando: - U... U... Um pastor levava, diariamente, o rebanho para fora da sua aldeia...

- Ué, mas se tem rebanho, têm bichinhos! - voltou a interromper a moça, lançando um olhar inquisidor ao narrador e depois outro, mais brejeiro, ao francês, que aquiesceu com a propriedade da observação, dizendo:

- Madame tem razão!...

Como ninguém mais se manifestou, o orador voltou ao tema:

- U... U...

- Um pastor! - ajudou a viúva, que ficava nervosa com a gagueira.

- Nã... Nã... Não, senhora... U... U... Um dia...

La Fontaine fez uma cara de desânimo ante a lerdeza do narrador e a chinoca aproveitou para subir a mão por sua coxa, sob a mesa, enquanto o fabulista lutava por continuar:

- U... U... Um dia, quis pregar uma peça nos vizinhos e se pôs a gritar: "U... U... Um lobo! U... U... Um lobo! So... So... Socorro! Ele va... Va... Vai comer as minhas ovelhas!"

Monsieur acercou-se do ouvido de madame e ironizou, baixinho:

- Mon petit biscuit, já notou, que até os personagens dele são gagos?

Madame riu da besteira, aproveitando para levar a mãozinha ainda mais um pouquinho perna acima do par, que enrubesceu, sob o pó-de-arroz.

O grego, que nada ouviu, prosseguiu:

- O... O... Os vizinhos largaram o trabalho e saíram correndo, para o campo, para socorrer o menino e encontraram-no às gargalhadas... Do lobo, nem sombra!

A viúva voltou a observar:

- Que menininho sapeca! - e lançando um olhar de cumplicidade para monsieur, acrescentou: - Parece alguém que conheço...

- Vá... Vá... Várias vezes ele fez a mesma brincadeira e quando corriam para ajudá-lo, ele caçoava de todos... U... U... Um dia, o lobo apareceu mesmo e atacou o rebanho... O menino, morto de medo, saiu correndo a gritar: "U... U... Um lobo! Um lobo! So... So... Socorro!"

- E os vizinho vieram novamente? - quis saber a dama, que estava prestando mais atenção na perna do francês do que na história e, além disso, nunca a tinha lido. Ou se lera, já esquecera.

- Nã... Nã... Não vieram porque acharam que era nova caçoada...

- E o rebanho? - perguntou a madame, horrorizada ante a possibilidade de que tivesse sido dizimado pelo lobo.

O próprio gaudério, respondeu:

- Ora, querida, o rebanho foi a la gran puta!...

- Que horror, Lindinho! - exclamou ela, tapando a boquinha com a mão. Não, é claro, a que estava na perna de monsieur, a outra.

- É, sem dúvida, uma bela história. - acrescentou o gaúcho.

- Achei de muito mau gosto! - objetou a moça.

Ao que o capataz, espantado, perguntou:

- De mau gosto? Por que, querida?

- Onde já seu viu deixar que o lobo comesse os pobres bichinhos?

- Ué, mas tu não comes, também?...

A prenda, que finalmente encontrara o que procurava dentro das calças de La Fontaine, explicou, com ar muy debochado:

- Prefiro comer carne viva!

Monsieur engasgou-se e tossiu diversas vezes.

Quando, finalmente, recuperou-se, perguntou:

- E qual é a moral da história?

Ao que o gaudério, que estava levando tudo muito a sério, explicou, com ares de entendido:

- Que ninguém acredita, quando um mentiroso diz a verdade!

O autor sacudiu a cabeça, aprovando a interpretação que o ouvinte dera à fábula e a moça, para impressionar o francês, confidenciou-lhe ao pé do ouvido:

- Quando eu era casada com meu finado marido, às vezes eu lhe pregava uma mentirinha...

- Mesmo?... - espantou-se monsieur.

- Mesmo! - confirmou.

- C'est épantant! - exclamou monsieur.

A moça tornou chegar-lhe a boquinha junto ao rosto, prometendo:

- Depois te conto, mon amour!

As orelhas do chirú arderam com aquele tête-à-tête desavergonhado e resolveu interceder, antes que fosse demasiado tarde:

- Vocês os dois podiam deixar a putaria para outra hora e levar a conversa mais a sério!...

- Lindinho!... - ofendeu-se a donzela - Que palavrório é esse?

O gaúcho fingiu não ter ouvido a observação e continuou:

- Estávamos ouvindo a fábula contada pelo senhor Esopo e agora eu gostaria de saber se alguém tem algum comentário inteligente a fazer?

- Eu tenho! - disse a prenda, faceira por ter algo a acrescentar.

- Pois então, diga...

- O senhor Esopo não disse se o rebanho era de ovelhas, de cabras ou de porcos!...

O gaudério, que esperava algo de mais profundidade, exasperou-se:

- Nem vem ao caso!... Além disso, de porcos, com certeza, não era...

- Ué, mas por quê não seria de porcos? - quis saber a moça.

- Porque de porcos, querida, se diz vara!

- Vara, para mim, é outra coisa!...

O marido achou que não seria conveniente perguntar o que ela entendia por vara, mas ela insistiu, repetindo:

- Vara, para mim, é outra coisa!...

- Querida!... - preveniu-a o capataz.

Ela pensou um pouquinho e tornou a perguntar:

- Lindinho, como é mesmo o nome do lugar onde os porquinhos moram?

- Chama-se pocilga, querida...

Ela olhou bem seriamente para o francês e inquiriu:

- Monsieur tem a sua vara, espero?

La Fontaine inquietou-se na cadeira, mudando de posição e, após pensar um pouco, respondeu, prudentemente:

- Não, madame!... Não tenho, não...

O gaúcho, que não entendera bem o interesse dela, perguntou-lhe:

- Afinal, querida, que diferença faz se o senhor La Fontaine tem ou não tem uma vara?
A matraca olhou para o marido, com a expressão mais inocente que poderia haver no mundo e explicou, brincando com as palavras:
- É que se tivesse, Lindinho, eu ia oferecer a minha pocilga, para que monsieur pudesse guardá-la!

(do livro Tuquinha, La Fontaine e Esopo )

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