A Garganta da Serpente
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No Balanço do Metrô

(Lílian Maial)

Roberto acordou bem cedo, como de costume. Tomou seu banho, barbeou-se, tudo de sempre - a rotina de um homem comum, beirando os 40 anos, já com algumas "entradas", alguma barriguinha. Na verdade, já gostou bem mais de sua imagem no espelho. Mas até que ainda estava conservado, para um funcionário burocrata de uma empresa de informática. Bem casado, com uma mulher adorável, bonita, culta, um casal de filhos adolescentes, uma vida estável e invejada pela maioria dos amigos.

Naquela manhã abafada, saiu de casa apenas com o suco de laranja - não quis comer - o calor o incomodava.

Foi a pé até o metrô, meio desligado, pensando na vida e no alívio do vagão refrigerado. A plataforma já estava cheia e o trem logo chegou lotado, ocupado por ternos, bolsas, celulares... Não havia muita escolha, segurou no suporte de teto, num canto do vagão, espremido entre um jovem mascando chicletes (logo pela manhã?) e uma mulher de média altura, de costas pra ele, cabelos em seu rosto, suavemente cheirosa.

O trem saiu da estação e o ar condicionado mal dava a perceber que estava ligado.

Em seu terno impecável, Roberto era um belo homem, notado por algumas secretárias aqui e acolá.

Na parada da estação seguinte, devido a uma freada brusca, Roberto segurou a mulher à sua frente, que desequilibrou-se e soltou a pasta de executiva que carregava sob o braço. Ao abaixarem-se, entreolharam-se, e ele pôde observar o olhar alegremente surpreso, de aprovação, da mulher ao fitá-lo. Ela corou suavemente, agradeceu e voltou à posição inicial, para a partida do comboio.

Ele ficou embevecido com a delicadeza dos olhos amendoados que o fitaram de relance, bem maquiados, adornados por longos cílios e uma cabeleira negra, que lhe caía aos ombros. Mulher de uma morenice discreta e elegante, com olhos de feiticeira.

Mais uma estação, o vagão não comportava mais ninguém, mas as pessoas continuavam a entrar. Aquele cheiro de flores que emanava dos cabelos negros tornou-se mais intenso, e ele percebeu que a moça estava mais perto. Sentiu-se subitamente excitado com a proximidade e passou a observar seus contornos.

De súbito, a mulher deu um passo para trás e seu corpo roliço tocou o de Roberto e, silenciosamente, assim permaneceram no balanço do metrô.

Na estação seguinte, ninguém desceu e, ao contrário, vários entraram, diminuindo ainda mais o espaço entre ele e a mulher.

Ao partir o vagão, a mulher, inesperadamente, encosta-se completamente em Roberto, e acomoda a cabeça em seu peito, afastando os cabelos, deixando a nuca e o pescoço livres. Sem pudores, ela começa a roçar seu contorno arredondado em Roberto que, entre surpreso e maravilhado, sente crescer o ego nas calças. O balanço do trem aumenta o atrito, e ninguém consegue perceber nada, de tão imóveis que estão todos.

Roberto atreve-se e beija aquele pescoço perfumado, sussurra naquela orelhinha delicada, perfurada por uma singela pérola. Passeia a língua naquele pequeno lóbulo e sente a respiração alterada da mulher, que aceita as carícias sem nada dizer.

Naquele balanço, com o corpo resvalando no da provocante executiva, sente a mão pequena, porém firme, tocar-lhe as partes mais íntimas.

Ele estava deliciado, sua estação ainda demoraria, e ela não fazia menção de saltar.

Num ímpeto de valentia e desejo, com sua mão livre acaricia as coxas da morena e foi subindo o quanto pudesse. Ela consente, e ele alcança, protegido pelo anonimato da multidão, a umidade abundante daquela desconhecida. Sente seu calor, sente seu pulsar, sente seu cheiro inebriante. Aproxima-se mais e, apoiando-se nela, solta a outra mão, para acarinhar discretamente aqueles seios de pêras suculentas.

E vão assim, nessa sofreguidão disfarçada e gostosa por toda a viagem.

Aquele corpo quente, junto ao seu, aquela mãozinha buscando seu sexo, aqueles seios... Ele podia ouvir seus suspiros calados, seus gemidos mudos, seu arfar contido, e isso o excitava ainda mais.

Chegava sua estação, teria que saltar, queria poder falar com ela, trocar telefones, marcar no outro dia, mas não teve coragem. Ajeitou-se como pôde, ela também e, curiosamente, saltaram na mesma estação, mas pegaram direções opostas. Ele pensou em segui-la, mas tinha horário rigoroso no trabalho... Assim, apenas ficou a observá-la afastar-se, saia justa, sapatos altos, bolsa, pastinha...

E ela nem olhou pra trás...

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