A Garganta da Serpente
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Sobre vôo
(Léo Kildare Louback)

Não estava preparada para o que se passou: pisei num pássaro morto no meio de um cruzamento. Me dilacerei.

A pressa era tanta que fingi não ter visto. Vi. Senti. Relembrei a dor de ser destroçada. Andei a passos largos para, cansada, esquecer. Ofeguei-me. Quem terá feito mal àquela criatura tão singela e indefesa, que tanto se deu a vida toda, mas nunca foi notada em sua tanta insignificância? Os pezinhos estirados, duros como as estacas que abrem caminho à força, nos invadindo sem um pingo de piedade. Buraco qualquer. Tanta pena. Cobrem o chão em volta. Umas já voaram longe demais para serem vistas. Apenas sentidas. O cheiro indica seu paradeiro. O corpo esmagado. Muito peso em cima. Sufocava. Acho que foi atropelamento. Claro. Seqüelas nítidas. Dizem que ela estava distraída, olhando obsessivamente um corpo caído. Asas quebradas e os corpos internos jogados. Se bem que já não voava mais. No máximo, vôo de falcão adestrado. Vai e em constante e contra a própria vontade. Fazia tempo.

Segui caminho totalmente incomodada. A imagem pulsando forte. Acho que era andorinha. Eu beija-flor. Milhares de batidas por minuto davam o tom da vida que pairava aparentemente imóvel. Pisei nele sem querer? Terrível demais matar mais que se pode suportar.

O motivo ninguém sabe. Talvez descarga elétrica dos fios da iluminação pública. Ele tem direito a um enterro digno, com cortejo e tudo. É tão bonito. Sempre sonhei com isso. Voltaria lá se tivesse forças. Levaria o pequenino no colo até o sepulcro e rezaria, pedindo aos anjos do senhor que um dia me dessem as graças de ser como ele. Mas ninguém há de dar-lhe atenção. Nunca deram. Ficará caído até ser devorado pelos monstros que habitam a escuridão do mundo, esperando, observando o momento de se darem à luz. Sorte deles, que sempre terão motivos para viver. Vida que renasce a cada dia diante da morte dos infelizes que sonham alcançar os céus e repousar, um dia sequer, naquela nuvem com formato do urso de pelúcia que ganhei da minha avó.

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