Afonso Henriques de Lima Barreto
O Cemitério
(Lima Barreto)
Pelas ruas de túmulos, fomos calados. Eu olhava vagamente aquela multidão
de sepulturas, que trepavam, tocavam-se, lutavam por espaço, na estreiteza
da vaga e nas encostas das colinas aos lados. Algumas pareciam se olhar com
afeto, roçando-se amigavelmente; em outras, transparecia a repugnância
de estarem juntas. Havia solicitações incompreensíveis
e também repulsões e antipatias; havia túmulos arrogantes,
imponentes, vaidosos e pobres e humildes; e, em todos, ressumava o esforço
extraordinário para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que
ela traz às condições e às fortunas.
Amontoavam-se esculturas de mármore, vasos, cruzes e inscrições;
iam além; erguiam pirâmides de pedra tosca, faziam caramanchéis
extravagantes, imaginavam complicações de matos e plantas - coisas
brancas e delirantes, de um mau gosto que irritava. As inscrições
exuberavam; longas, cheias de nomes, sobrenomes e datas, não nos traziam
à lembrança nem um nome ilustre sequer; em vão procurei
ler nelas celebridades, notabilidades mortas; não as encontrei. E de
tal modo a nossa sociedade nos marca um tão profundo ponto, que até
ali, naquele campo de mortos, mudo laboratório de decomposição,
tive uma imagem dela, feita inconscientemente de um propósito, firmemente
desenhada por aquele acesso de túmulos pobres e ricos, grotescos e nobres,
de mármore e pedra, cobrindo vulgaridades iguais umas às outras
por força estranha às suas vontades, a lutar...
Fomos indo. A carreta, empunhada pelas mãos profissionais dos empregados,
ia dobrando as alamedas, tomando ruas, até que chegou à boca do
soturno buraco, por onde se via fugir, para sempre do nosso olhar, a humildade
e a tristeza do contínuo da Secretaria dos Cultos.
Antes que lá chegássemos, porém, detive-me um pouco num
túmulo de límpidos mármores, ajeitados em capela gótica,
com anjos e cruzes que a rematavam pretensiosamente.
Nos cantos da lápide, vasos com flores de biscuit e, debaixo de um vidro,
à nívea altura da base da capelinha, em meio corpo, o retrato
da morta que o túmulo engolira. Como se estivesse na Rua do Ouvidor,
não pude suster um pensamento mau e quase exclamei:
- Bela mulher!
Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles
olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos,
tentadores de longos contatos carnais, estariam àquela hora reduzidos
a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida
de gordura.
Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens
que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não
passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência,
nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo, e fugaz.
Abalei-me! Eu que dizia a todo o mundo que amava a vida, eu que afirmava a
minha admiração pelas coisas da sociedade - eu meditar como um
cientista profeta hebraico! Era estranho! Remanescente de noções
que se me infiltraram e cuja entrada em mim mesmo eu não percebera! Quem
pode fugir a elas?
Continuando a andar, adivinhei as mãos da mulher, diáfanas e
de dedos longos; compus o seu busto ereto e cheio, a cintura, os quadris, o
pescoço, esguio e modelado, as espáduas brancas, o rosto sereno
e iluminado por um par de olhos indefinidos de tristeza e desejos...
Já não era mais o retrato da mulher do túmulo; era de
uma, viva, que me falava.
Com que surpresa, verifiquei isso.
Pois eu, eu que vivia desde os dezesseis anos, despreocupadamente, passando
pelos meus olhos, na Rua do Ouvidor, todos os figurinos dos jornais de modas,
eu me impressionar por aquela menina do cemitério! Era curioso.
E, por mais que procurasse explicar, não pude.
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Publicado em: 03/10/2002 |
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