| Linda Graal |
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Metade da luz
(Linda Graal)
Esta estava sendo uma noite tão igual, distanciando-se das outras porque
apesar da regularidade da chuva, absteve-se de manter a temperatura, retraindo-se.
Tal fenômeno confluía com meu astral resignado e melancólico
de noites desesperançadas e eu achei até mais cabível e
piedoso da parte do estado de fora de mim. Recordei-me que o ambiente havia
se tornado, por isso mais cúmplice, todavia. Talvez até o meu
humor tenha se abrandado juntamente com o decorrer malicioso das horas incansáveis
como eu. Assim que resolvi quebrar a rotina noturna e preparar-me um banho à
meia-luz; logo eu, que mesmo durante o dia tenho o hábito de acender
as luzes para assistir à água cair com mais confiança por
entre meus pedaços, não nesse momento, obscenos. Então
deixei a porta semicerrada que produzia uma fresta convidativa (o abajur implorava
atenção ao lado da estreita cama de um quarto solitário)
e que sugeriria uma falta de privacidade - contudo esse não era um empecilho
já que a essa hora e a todas as outras, não há platéia
- e também a cena inusitada propunha uma atitude mais lenta e concentrada
que reverberasse na sensualidade esquecida de banhos diários. O chuveiro
aparentou-me de proporções maiores também porque intermediava
gotas frias que teimavam em não esquentar. Quem sabe a fraca iluminação
e o imprevisto da hora pesassem para que a água se melindrasse de cair
tão cedo. Mas não posso negar que foi aconchegante perceber o
toque manso e já morno na minha pele aflita por novos contatos, e o perfume
do sabonete contaminando meu faro tão viciado da vida de fora e os movimentos
e atritos atentos, o que me causou a sensação de maior limpeza.
Talvez tenha me empenhado mais do que deveria neste ato higienizador porque,
ao término do banho, senti a fragilidade apoderar-se de mim a tal ponto
que não me pude sustentar. Tremi desesperadamente como quando se faz
absoluta a plenitude orgástica de um corpo. No entanto, não sentia
que estava intacta, a sensação era de falta, como se fora arrastada
a matéria por quilômetros na velocidade de um carro desgovernado.
Era a alma ralada, era o tempo de agora, era a vida que.
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