| José Mattos |
  |
A Fuga
(José Mattos)
Passam casas maiores, menores... Diversas. Grades e portões... Cachorros
ladram com o focinho entre as grades com um fio de gana raivosa a espumar-lhes
a boca. Chega-lhe ao nariz o cheiro fétido e pestilento do bafo canino.
- "Hipocrisia, é tudo o que se ouve. Hipocrisia, acreditar em quê,
em quem?". - Dizia enquanto rasgava o bolso da camisa que tinha o logotipo
da empresa onde trabalhara. Sim, trabalhara. Atirou-o ao vento. - Rilhou os
dentes, punhos cerrados e o suor escorrendo as bagas pelo rosto. O sol escaldante
tremulava o asfalto que se dissolvia longínquo. Cruza mais uma rua e
determina: - "Atirar-me-ei na próxima avenida - cheia, movimentada,
buzinas, guincho de pneumáticos fritados ao contato com o piso abrasivo;
desfazer-me-ei desse arremedo de vida".
- Resmungava, sorvendo um cigarro fétido, enrolado em papel pardacento;
de causar convulsão na mais torpe das almas - de revirar o estômago.
- "Um caminhão grande, em velocidade que não tenha a menor
chance de frear; fechar os olhos e mergulhar para sempre. - Não, não...
Mergulhar de olhos abertos, altivos; ver o desespero no rosto do infeliz ao
volante. Minha filhinha não mais terá que se decepcionar comigo
nos finais de ano quando sempre chego de mãos vazias. Isso quando não
estou desempregado. Minha mulher me sorri poucas vezes ao ano - nas poucas vezes
em que consigo provir o sustento da casa. Me sinto realizado. Ganho um abraço
sincero e noite fica curtinha. Podiam pelo menos deixar completar o mês
de serviço para me demitirem - uma semana antes do natal. Pode?".
Não voltarei para casa mais uma vez de mãos vazias.
- E oscilava ao andar com um rosto quase feliz; e olhos vidrados, os braços
cavavam o vento torcendo um volante imaginário. "Me atropelarei
a mim mesmo".
- "A loucura certamente haverá de corrompê-lo por um instante.
Um pequeno instante, que desgraçadamente o maculará pelo resto
de sua vida. Seus olhos hão de brilhar, um brilho de loucura. Suas mãos
se crisparão ao volante. E eu firme, olhos fixos nos dele, gozando em
silêncio o seu torpor moral".
- "Testemunhas?".
- Encolhia os braços e cuspia sobre o ombro, com desprezo, enquanto desfraldava
seus desatinos.
- "Somente mergulhar firme; sem volta".
Antes, porém, defronta-se com um portão vazado em vergalhão
redondo com pontas de lanças prateadas; corroído pelo tempo. Passaria
desapercebido não fosso um "ai" que lhe chegara aos ouvidos
de chofre.
Um "ai" Sofrido, estrangulado na garganta. Quase um guincho agudo.
Tal som lhe vazou a alma, e dispersou seus devaneios. Uma onda fria invadiu-lhe
o corpo e uma imensa áurea gélida pairou sobre sua cabeça.
Tentou em um gesto vago e senil, espantar o laivo de angustia que lhe toldara
as vistas. Arrastou lentamente as pernas que pareciam fincadas no chão
até a grade puída. Num esforço indizível.
Os braços estendidos como um sonâmbulo. O corpo vibrava em pequenos
espasmos, o pensamento convulso. Seu olhar vazou a grade e deparou com seu próprio
corpo que oscilava pendurado por um laço de cânhamo amarelado que
lhe envolvia o pescoço.
Pressentindo a queda eminente, agarrou-se ao portão, com força
e desespero de quem agarra um ultimo fio de vida. Houve um ranger grotesco de
ferragens enferrujadas, as lanças prateadas voltaram-se para seu coração.
Um grito agudo perdeu-se na tarde cinza; um baque surdo que ninguém ouviu.
O sol escaldante foi encoberto por uma nuvem negra-avermelhada, enquanto a tarde
se estendia num silêncio fúnebre.
381 visitas desde 4/07/2005
|