| José Mattos |
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O Enigma da Excalibur
(José Mattos)
"Depois do ocorrido, o que me resta é somente o ânimo
de contar essa curta e nervosa história, que nem eu mesmo sei se acredito".
O Narrador 09/01/2004.
O vento uivava retorcendo as arvores - enquanto os trovões reboavam estremecendo
a terra sob meus pés. Com as mãos nos bolsos e a gola da jaqueta
encobrindo as orelhas; caminhei açoitado pelo vendaval. Consultei o relógio,
o claro da lua refletia nas nuvens, desciam até mim e estendia-se pela
encosta prateando o mar revolto.
Em minha sacola, um mapa e gráficos que amanhecera comigo dias antes.
Não me perguntem como isso se deu. Na dita noite desse ocorrido, vaguei
por sonhos extraordinários, quando num dado momento - isso me lembro
bem - deparei-me com um cavaleiro de singular vestidura, que diga-se lá,
magnífica: cavalo robusto e afoito; trazia em seu trotear uma áurea
majestosa, cabeça erguida e inquieta. Os cascos aparados simetricamente;
protegidos pelas ferraduras que reluziam na noite - um belíssimo zaino.
O cavaleiro trajava uma indumentária que remontava a idade média;
a túnica de aço protegia o corpo até aos joelhos, elmo
na cabeça, e, sustentava no braço esquerdo um grande escudo que
trazia em sua face um brasão, que somente mais tarde, pesquisando lendas
antigas descobri pertencer ao Rei Arthur.
- Não disse única palavra, apontou-me a espada e através
dos gestos deu-me a entender que lhe faltava a bainha. A bainha mágica
da Excalibur. Estendeu-me um surrado pergaminho, o cavalo assoprou forte e empinou,
atirando-me sentado na terra orvalhada. Sumiu-se como apareceu - num raio ofuscante
e surdo, em fração de segundos.
Apalpei na sacola a pequena pá, impulsionei as pernas e invadi o sagrado
cemitério de Avalon, orientado pelo prévio estudo do surrado pergaminho.
Se eu estiver certo; a bainha da Excalibur (como diz algumas histórias);
não foi jogada no lago sagrado por Morgana, a irmã mais velha
do Rei Arthur, apaixonada por Lancelot seu sobrinho, que a rejeitara por ser
muito parecida com sua mãe, Viviane (a senhora do lago). Minha missão;
repito, - se eu estiver certo-, é desenterrar a bainha mágica
da espada e joga-la nas águas do mar, onde Viviane velará para
que a bainha mágica não caia em mãos erradas. Pois, sendo
o símbolo da justiça e da união, uma vez conduzida por
um coração inescrupuloso e vingativo, a Excalibur conduzirá
seu poder de acordo com o coração que a possuir; podendo vir a
destruir todo o restante do universo, assim como ocorreu com Atlântida
e a própria Avalon. Minha missão então, aqui nesse passado
longínquo é salvar o meu futuro, devolvendo a bainha as águas
sagradas que circunda toda a ilha de Avalon; onde repousa ansiosa, Viviane,
a Deusa do lago.
Cavei sofregamente até ouvir o tinido da pá chocar-se em algo
metálico, afoito, puxei com força as dobradiças niqueladas
que rangeram incomodando a noite. A seguir irrompeu um tropel de vários
cavalos calçando ferraduras; da caixa surgiu um clarão verde ofuscando
a lua e meus olhos, minha sombra estendeu-se para longe de mim. Circundaram-me
doze cavaleiros e apontavam ameaçando-me com pontas de lança,
abriu-se o circo e o cavaleiro que outrora eu havia encontrado, ou, que havia
me encontrado; apanhou de mim a bainha num gesto decidido, e, se os olhos não
me faltaram com a razão no momento, e, diante de mim, transformou-se
na maldita Morgana:
- Avalon enfim será minha! Bradou vibrando a bainha na mão esquerda
e a espada com a mão direita, prontas para se unirem, assim se realizaria
o pérfido desejo de Morgana o desejo de vingança por ter sido
preterida no reino de Avalon. Reluziram-se grandemente, espada e bainha, acasalando-se.
Quando repentinamente; Merlin, pondo-se entre Morgana e eu, num gesto próprio
dos grandes mágicos, arrebatou-as das mãos de Morgana. A espada
sibilou rumo ao céu num rastro de estrelas, a bainha desceu mansamente
ao mar nos braços de Viviane que me sorriu submergindo nas águas
escuras.
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