| José Mattos |
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O Andarilho
(José Mattos)
Pensou apoiando o queixo na mão esquerda. Os dedos da mão direita
tamborilavam na cadência da chuva.
Escurecia, enchendo o fim da tarde de friagem. Lá fora as goteiras caíam
ritmadas. As árvores açoitadas, pelo vento, rumorejavam resignadas.
Tinha um especial carinho por aquele canto da janela. Suas narinas dilatavam
vez por outra como um cão de caça. O sobretudo negro que descia
até quase aos tornozelos já não escorria; havia feito uma
pequena poça em volta de suas botas.
Os dedos das mãos estavam com aspecto enregelados. Apesar disso, tinha
gestos ágeis. Os olhos assemelhavam-se a dois infinitos abismos escuros.
Pigarreou abafando a boca com a mão enquanto perscrutava detidamente
as elevações desoladas e sombrias cobertas pela cerração
que oscilava sobre o vale.
Virou-se para o altar flexionando os joelhos. Nessa manobra, observou seu rosto
refletido na pequena poça de água que oscilava no chão.
Teve um arrepio repentino. Havia muitas poças iguais pelo ambiente, tremulando
como um jogo de espelhos. Através dos buracos do teto somente era possível
ver o bailado esbranquiçado.
A mão direita, mesma que fez o sinal da cruz, acariciou a arma, que
permanecia hirta a seu lado, como um soldado em posição de sentido,
aguardando ordem.
Levou a munição à boca e deteve-a por uns instantes ciciando
algo com o instrumento mortal roçando-lhe os lábios - beijou e
apertou-a detidamente contra o coração
Os sinos dobraram inibidos. Um bafo fétido invadiu-lhe as narinas. Levantou
os olhos sob a aba larga do chapéu ainda encharcado e deparou-se com
a figura estacada logo à sua frente, do lado externo da janela. Seus
olhos se detiveram por alguns momentos nos rastros da criatura que ainda fumegava
à sua retaguarda. Percebeu a origem do fedor pestilento que o sufocava.
Houve certa relutância em encarar o rosto da criatura. Foi subindo as
vistas aos poucos, detidamente, adaptando-se ao ícone passível.
Apesar de descalços os pés, o visitante vestia-se elegantemente.
Um verdadeiro Dândi. Cortez tirou a cartola e dobrou-se em cumprimento.
- Então? - indagou o recém chegado, com voz vibrante.
- Tem tanta necessidade assim? - respondeu o anfitrião, elevando seu
olhar ao mesmo nível do visitante.
- Sim. Por isso resolvi me antecipar. Desconfiei que poderia mudar de idéia.
- Nesse caso, diga o preço.
Houve estrondosa gargalhada que chacoalhou o ermo vale cessando a chuva, enfurecendo
os relâmpagos e fazendo revirar a densa neblina.
- Quero de ti uma reverência. Somente isso.
- Não. Tenho pra você apenas um cristal azul.
- Não te envergonhas de pechinchar assim? Vamos: sejas razoável.
- Sim. Serei razoável - respondeu. Enquanto o sino dobrava pela quinta
vez, a mão direita crispou-se na coronha da arma e apoiou-a no peito.
O visitante esboçou uma segunda gargalhada, mas foi interrompido pelo
estampido. O projétil viajou com a cruz recruzetada gravada no centro.
O sino dobrou pela sexta vez. Houve um baque surdo. O anfitrião descansou
lentamente a companheira de boca fumegante aos pés ao seu lado. Cerrou
a vidraça. Virou-se de frente para o altar enquanto a chuva ia diminuindo
lentamente, escorrendo filetes cristalinos pelo vidro embaçado. O homem
sacou do bolso interno um pequeno caderno de anotações, revirou
algumas páginas, guardou de volta no bolso e seguiu viagem.
Quase fui de cara no chão ao tentar ficar de pé e sair dali o
mais rápido possível. Minhas pernas latejavam dormentes. O ruído
da manobra chegou até o homem de negro. Ele estacou de chofre, e suas
narinas dilatavam como as de um cão de caça. Bruscamente virou-se
de frente para mim sobressaltando o sangue em minhas veias. Por um instante
ele pareceu desferir levemente um riso em minha direção.
Não tenho certeza se ele me viu. No instante seguinte, o homem foi engolido
pela névoa densa e rasteira. Peguei me alforge, agasalhei-o às
costas, e peguei caminho no sentido oposto do extraordinário aspecto.
Meu corpo intero tremia. O zumbido do disparo redemoinhava em minha cabeça.
O cheiro do enxofre me tirou o sono por muito tempo. Passos silenciosos ainda
me sobressalta vez por outra, como se zombasse de mim.
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