| J.C. Cavalcante |
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Meu amigo Amarildo
(J.C. Cavalcante)
Amarildo, um amigo meu, muito engraçado, boa conversa, mas que gosta
de aparecer um pouco, certa ocasião, em uma viagem que fez para a Ilha
Grande, no litoral norte do Rio de Janeiro, passou por uma que nunca mais vai
esquecer. A ilha é um lugar lindo e muito visitado por turistas estrangeiros
e por acaso, seguiam, próximo a ele, um grupo de belas argentinas em
férias em nosso país. Não demorou muito para meu amigo
puxar conversa num "portunhol" arrastado, mas compreensível,
ajudado também pelo fato das meninas conhecerem um pouco de português.
Simpático como sempre, explicou que estava ali a serviço, trabalhava
para um rico empresário de São Paulo, e seguia para conhecer e
se fosse o caso comprar uma lancha, quer dizer, quase um iate, que tinha se
formado na escola de oficiais da marinha, estando apto para comandar grandes
embarcações, aliás, como já o fizera, viajara o
mundo inteiro em enormes veleiros. Falou dos perigos dos mares, das belezas
de todos os recantos dos nossos oceanos, etc... Tudo bem, até que impressionou
mesmo as meninas, elas ficaram encantadas com ele, e o papo continuou de vento
em popa (sem trocadilhos). Quando já estavam a meio trajeto, num desses
barcos grandes, do mesmo tipo que fazem a travessia da cidade do Rio para Niterói,
de repente entra um vento forte, conhecido por aqui como sudoeste, que agita
as águas, trazendo grandes ondas. O barco deveria está transportando
uns quatrocentos passageiros, menos da metade da lotação (a capacidade
deve ser de uns 1200). O problema é que muita gente não estava
acostumada a andar de barco, muitos ali, faziam sua primeira viagem embarcados
para conhecerem as belezas da ilha. As ondas foram se tornando maiores, a água
começou a entrar pelas portas laterais, coisa comum nesse tipo de embarcação,
mas que amedronta até mesmo quem já tinha viajado em situação
semelhante. Muitas mulheres, crianças e homens começaram a rezar,
algumas gritavam, outras choravam e se abraçavam aos filhos, toda aquela
situação que já vimos em filmes, em condições
semelhantes. Amarildo pediu as garotas para ficarem por ali mesmo, sentadas,
que ele iria ajudar a tripulação. O comandante tentou explicar
pelo autofalante que a situação estava sob controle, que o barco
era seguro e que todos se mantivessem calmos, e que assim que passassem pelo
canal (parte do mar não protegida por ilhas, ficando exposta as ondas
de mar aberto), tudo voltaria a tranqüilidade. Mesmo assim o reboliço
era grande e as argentinas entraram na onda do pânico e começaram
a gritar e a chamar pelo Amarildo. Como por milagre, as ondas cessaram e o barco
parou de balançar forte, tinham passado pelo tal canal, deixando todo
mundo mais tranqüilo. Foi quando a meninas deram pela falta do Amarildo
e como ele tinha seguido rumo a uma das entradas, logo veio o medo de uma possível
queda no mar. Correram ao marinheiro desesperadas pedindo para que o barco parasse.
O marinheiro foi ao comandante relatando o ocorrido. O barco parou e pelo autofalante
o Amarildo foi chamado. Uma, duas, várias vezes e nada. As pessoas tentavam
encontrar alguma coisa no mar, boiando, os marinheiros de binóculos faziam
a mesma coisa. As meninas explicaram ao comandante que o Amarildo também
era oficial de marinha, velejador, tinha muita experiência com o mar.
Diante de tal relato o comandante resolveu se comunicar com a Capitania dos
portos para uma busca mais cuidadosa, se possível com outras lanchas
e helicóptero. Foi dado o alerta, todos estavam apreensivos, principalmente
as argentinas, que afinal, gostaram do meu amigo. Foi quando uma menina de uns
nove anos, gritando e chorando chegou correndo ao comandante dizendo que tinha
um homem morto no banheiro. Todos foram para lá e encontraram o Amarildo
todo cagado e mijado, desmaiado ao lado da latrina. Além de mentiroso,
um tremendo medroso.
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