A Garganta da Serpente
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Juliana Beatriz Ferst Strapasson saiba mais sobre o autor

Diário de uma Viúva
(Diva do Inferno)

Ele se foi. Mais um que perdi.

Fabiano era especial para mim. Super amigo, muito companheiro. Foi meu 5º marido.

Meu 1º marido se chamava Pedro. Me casei com ele, na flor da juventude, com 17 anos. Tinha acabado de chegar do interior quando o conheci. Ele jurava que me amava e eu, bobinha, acreditava.

Ah, quão tola eu fui!. Um dia fui em uma loja perto do trabalho dele e o vi com outra; e o desgraçado nem pra disfarçar serve. Quando chegou em casa disse que era uma amiga. Pensa que não vi eles se beijando.

Aquela seria apenas uma das tantas que eu vi depois.

Resolvi terminar tudo, porém ele não queria a separação. Então, à noite, fui até a cozinha e peguei uma faca. Eu queria capá-lo, mas eu era tão inocente que tive vergonha de por a mão "naquilo", então cravei a faca em seu peito, mesmo!.

Quando eu o conheci, não tinha nem terminado o ensino médio e agora, com 20 anos e viúva, não sabia nem o que fazer.

Arrumei um emprego de balconista em uma lojinha de cosméticos. Todo dia ia aquele monte de pobre pedir o esmalte que estava em promoção.

-Ô moça, tem esmalte "vremeio"?, e "crarinho", tem?

Ai, como eu odiava aquilo, pois eu até podia ser do interior, mas não era burra.

Apesar de tudo eu gostava de trabalhar lá, principalmente porque tinha um rapaz que passava todo dia, lá em frente, me encarando.

Seu nome era José. Namoramos, noivamos, e com 23 anos me casei com ele.

Ele me amava muito, até demais pro meu gosto.

Era ciumento e possessivo. Não deixava eu fazer nada, chegou ao ponto de me obrigar a sair da loja.

Por causa dele perdi os poucos amigos que tinha.

Ele não deixava eu falar com ninguém, morria de medo que eu o traísse. Imagine eu, que já tinha matado meu ex-marido por causa de traição, ia fazer isso com ele?

Capaz mesmo!.

Por mais que eu dissesse que o amava, não adiantava nada. Ele me tinha como propriedade particular, até o telefone tirou para que eu não pudesse falar com ninguém.

Estava cansada daquilo. Já tinha 27 anos e havia passado os últimos praticamente dentro de casa. E foi em casa que o matei.

Como sempre, quando ele voltava do trabalho, o jantar estava pronto. Mas aquele era especial. Tinha veneno de rato na comida e algumas bolinhas de naftalina na bebida. Foi tiro e queda: comer, dormir e morrer.

Anos mais tarde me casei com Marcio.

Ele era mó ricaço. Me deu carro, me ensinou a dirigir, sempre me dava jóias; mas tinha um problema: sempre ficava violento quando bebia.

Ele tinha costume de sair dos jantares de negócio e passar no bar. Tomava todas. Chegava em casa e me batia. Eu tinha medo de denunciá-lo, e também de ficar pobre de novo.

Até os 39 anos agüentei aquela humilhação, mas é claro que desta vez eu não ia sujar minhas mãos de sangue. Onde já se viu, matar o 3º marido, ainda mais tendo um monte de dinheiro? MANDEI matá-lo.

Contratei uns caras "barra-pesada" para dar um fim na vida de Marcio. Eles esperaram ele sair do trabalho e, como se fosse um assalto, pegaram tudo que ele tinha de valor e depois deram alguns tiros nele.

Ah, como é bom ter dinheiro, poder se livrar de alguém sem precisar se manchar de sangue.

Mas o dinheiro também foi minha perdição. Foi por causa dele que Cassio, meu 4º marido se aproximou de mim.

Eu já tinha 43 anos quando nós nos casamos, ele apenas 20. Eu era apaixonada por ele, e ele, apaixonado pelo meu dinheiro.

Só me dei conta disso quando percebi que ele praticamente me roubava.

Quando nos conhecemos, na academia onde ele trabalhava, ele era um cara super simples. A partir do momento em que nos casamos, ele passou a usar as roupas mais caras que o dinheiro pudesse comprar; carro, ele trocava a cada modelo novo e o desgraçado, ainda me traía com mulheres mais novas que ele.

Onde já se viu? Além de eu sustentar o vagabundo, ele ainda fazia isso comigo! Ai meu pobre coração, mais um para eu matar.

Um dia, logo de manhã, quando ele saiu para dar mais uma de suas corridinhas, peguei o carro e fui atrás dele. Na primeira oportunidade, quando não havia ninguém na rua, atropelei-o. O melhor de tudo é que novamente eu não precisei sujar as minhas mãos de sangue, apenas o carro.

Depois de tantas mortes jurei que não ia mais me casar, mas aos 54 anos conheci Fabiano. Ele era um coroa enxuto, tinha 62 anos mas nem parecia.

Fabiano também era viúvo, e tinha dois filhos que me adoravam.

Nós nos dávamos super bem, e acabei me casando novamente.

Vendi a casa que tinha e fomos morar em uma fazenda. Aquilo que era vida. Eu só ficava imaginando como teria sido se tivéssemo-nos conhecido quando mais jovens.

Nós éramos amigos, companheiros, homem e mulher.

Nós éramos apaixonados um pelo outro.

Mas eu juro, ninguém acredita em mim mas eu juro que não fui eu.

Uma noite, ao entrar em nosso quarto, encontrei minha gaveta revirada, e meu diário aberto em cima da cama.

Fabiano havia lido, e agora sabia o que ninguém mais havia descoberto: que eu matara meus ex-maridos.

Ele discutiu comigo. Me perguntava quando eu o mataria também, e mesmo eu dizendo que nunca faria isso com ele, ele continuava a gritar.

Os filhos dele subiram até o quarto para ver o que acontecia. No momento em que eles abriram a porta Fabiano pulou da janela. Tentei segurá-lo, mas o movimento pareceu que eu o tinha empurrado.

Eles chamaram a policia e leram meu diário.

Realmente acreditavam que eu tinha empurrado Fabiano da janela. Mas eu o amava, e seria incapaz de fazer isso.

Fui presa por conta de um crime que não cometi e, é claro, por aqueles que havia cometido. Hoje escrevo a última página de meu diário vendo o sol nascer quadrado. Última, porque já não tenho motivos para continuar escrevendo, e nem para viver.

(05/04/03)

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