| Janos Biro |
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Silêncio
(Janos Biro)
Um homem andava num prado, acompanhado de uma solidão. Falando pela primeira
vez, a solidão pergunta-o quem é ele. O homem, um pouco assustado
com a comunicação repentina, porém sem demonstrar nada,
responde simplesmente: eu sou o antagonista. Por que, pergunta a solidão,
com a expressão de uma criança solitária. Eu não
sei, eu sempre sou o antagonista, o homem responde. Não importa o quão
bom seja o sonho, eu sempre sou o antagonista. Talvez porque sempre haja protagonista,
e porque o protagonista sempre precise de um antagonista, de uma maneira ou
de outra. Não é pelo fato desse outro ser melhor que eu, ou mais
virtuoso, ou ter qualquer coisa que se diferencie de mim. Acontece que sempre
acontece de eu estar, de alguma forma, no caminho dessa pessoa, que logo é
identificado como o protagonista, pelo fato de que ele sempre vence no final,
mesmo que morra. As pessoas percebem logo que me vêem, aí está
o antagonista!
Mas não pode ser, replica a solidão. É tão injusto,
porque não alternam os papéis? Por que tem que haver protagonistas
e antagonistas, sempre? Por que não pode haver um sonho livre? Porque
é assim, tenta explicar o homem. Sempre foi assim, talvez o sonho só
funcione assim. Eu não concordo, pula pra frente a solidão, indignada.
Pode haver um sonho com uma pessoa só. Nesse caso, responde o homem,
esta pessoa seria ela mesma, ao mesmo tempo, o protagonista e eu. É impossível,
e isso você devia saber muito bem, que alguém exista sozinho. Ninguém
jamais está sozinho, há sempre pelo menos dois. Há sempre,
resumidamente, apenas duas pessoas no mundo: eu e não-eu.
Mas isso não parece satisfazer a solidão, que segue vagarosamente
com o olhar baixo e pensativo pelo resto do prado sem fim. Você me consola,
diz o homem. Tira minha dor, mas leva com ela também quem eu sou. No
fim, explica olhando fixamente nos olhos da solidão, você não
deixará sequer uma gota de dor em mim, nem sequer uma gota de mim em
mim, eu terei me esvaído, e o sonho acabará, e o protagonista
vencerá. A solidão tenta compreender aquelas palavras, mas não
pode. O mundo é tão simples, porque ele não pode ver? Do
que ele tem medo, tanto medo? O homem, como se soubesse disso, responde, com
a cabeça rumo ao horizonte: Você não entenderá. As
saídas nunca são amplas, nunca são abertamente visíveis.
Você acredita que somos livres, não acha que esse belo prado também
não é um labirinto, só porque não tem paredes? É
o pior deles, o mais mortal. A cada passo que damos, nos arriscamos a nunca
mais sair. Este caminho aparentemente reto é a pior das armadilhas. Internamente,
cada passo é uma escolha, a escolha de continuar em frente. Cada uma
dessas escolhas é diferente, pois cada uma delas interfere na outra.
A dificuldade é gradual, cada passo dado aumenta o risco de que no próximo
estejamos permanentemente perdidos. Se uma dessas escolhas é feita erroneamente,
tudo está perdido, se torna impossível voltar, tanto quanto continuar.
É a armadilha perfeita, porque nos deixa perdidos em nós mesmos,
e ficamos paralisados. A solidão revolta-se: Pare de complicar as coisas!
Pare com isso! Por que é que tudo tem que ser sempre tão significativo?
Que há de importante nisso, a escolha é sua! Simplesmente pare
com isso!
Mas o homem continuou, balançando a cabeça por um tempo indefinido,
sempre na mesma velocidade. Você não vê, simplesmente não
vê. Veja o que está pedindo, está pedindo que eu faça
exatamente o oposto do que você espera que eu faça. Se eu parasse,
não precisaria mais de você. Se eu parasse, tudo isso não
teria sentido. Se houvesse a possibilidade de eu parar, então nada disso
existiria, em primeiro lugar. Não vê? Se o mundo fosse mesmo simples
assim, nenhum sonho seria preciso. Todo sonho vem de uma dor. Não há
sonho sem dor, nem há amor ou graça. O mundo não chegaria
até aqui se ele seguisse o caminho mais fácil. Não, ele
segue o mais difícil, por isso mesmo é valoroso. Por isso a coragem
é uma virtude. Se seguíssemos o caminho mais fácil, então
nunca haveria a necessidade de ser corajoso, e aí sim todos estariam
perdidos, e todos eventualmente parariam, para sempre.
Ao ouvir isso, a solidão virou-se para o outro lado. Seus olhos se cobriram
de uma fina camada de choro, que nunca caiu. Você me lembra uma poesia,
diz finalmente o homem. Uma poesia que vivi uma vez, em outra parte. Esforçando-se
para se lembrar, o homem se pôs a declarar os versos:
Eu vi você olhar pra mim
Não percebi que não estava ali
Queria poder gostar de você
Queria poder dizer algo melhor
Estamos presos
Na mesma bolha plástica
Eu estou com medo
Você me ignora
Eu escrevo
Tento me consolar
Você segue reto
Não sei como consegue me arrastar
Não suporto
Estou ficando louco
Suas respostas são exatas
Elas não podem me confortar
Eu tento me matar
Erro o tiro
Mas não erro sua cabeça
Você começa a sangrar
E me afogo no seu sangue
Que não pára de jorrar
Pela bolha plástica
Eu começo a flutuar
O homem termina com um sorriso. A solidão o olha fixamente, sem conseguir
dizer uma palavra. Agora, completa o homem, sigamos em silêncio. O silêncio,
de todas as coisas valiosas, pode ser a mais esclarecedora. Silêncio e
paciência. E assim o prado desaparece por detrás de uma espessa
neblina de consciência.
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