| Janos Biro |
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Uma piada ruim
(Janos Biro)
Começou com uma piada ruim. Eu disse para o Marcos: "O mesmo que
você fez com sua inteligência: amassei e joguei fora, mas ainda
estou com ele na cabeça, sem usar, só para aparecer", quando
ele me perguntou o que eu tinha feito com meu cabelo. Acontece que eu acho que
ele ficou ofendido e me mandou à merda. Eu disse que não era coprófago
e perguntei se eu havia mentido. Porque se eu disse a verdade, qual o problema?
E se eu menti, qual o problema também? Qual a lógica de se ofender
com mentiras? Ou pior, com verdades.
Mas ele não queria pensar sobre isso. Estava ofendido e pronto. Disse
que eu levava tudo ao pé da letra e eu disse que as letras não
tinham pés, ao que ele foi embora correndo. Um tempo depois voltou com
uma faca na mão, dizendo que ia me matar. Eu não hesitei, desarmei-o
e acertei a faca na sua barriga. Ele sangrou muito, mas apesar disso veio como
um animal pra cima de mim. Eu não entendi porquê ele estava tão
nervoso só porque eu me defendi, mas ele estava babando de ódio.
Então eu o derrubei e o matei. No tribunal aleguei legítima defesa.
Todo mundo estava contra mim, até mesmo minha família. Perguntaram
se eu não tinha distinguido uma brincadeira de criança com uma
tentativa de homicídio só porque o Marcos tinha doze anos e não
tinha motivos reais para me matar.
Eu disse apenas que crianças não deviam brincar com facas. Estava
calmo porque para mim não havia acontecido nada demais. As pessoas viram
minha calma e ficaram furiosas. Meus amigos queriam me matar. Minha mãe
disse entre lágrimas que era melhor para todo mundo que eu fosse preso.
Ouvi alguém dizer que eu estava com o demônio no corpo, ao que
eu respondi que achava que não, porque duas coisas não ocupam
o mesmo lugar no espaço. O juiz pediu ordem. Resolveram que iriam me
avaliar psicologicamente, mas que provavelmente eu seria entregue aos cuidados
de uma instituição competente. E aqui estou eu.
- Você está brincando? Desde quando isto aqui é uma instituição
competente?
- Já viu alguém sair daqui vivo?
- Só se for transferido.
- Então eles são muito competentes quando a questão é
fazer com que os loucos não se recuperem.
- Quem é louco aqui?
- É... Afinal não podem te culpar por ter confundido sua irmãzinha
com uma boneca muito real. A culpa é dos fabricantes de brinquedos que
imitam bem demais.
- É mesmo...
-
- Doutor, eu não tenho tomado a medicação.
- Por que está me dizendo isso, Nome?
- Porque as minhas cordas vocais estão...
- Desculpe, desculpe... Eu quis dizer o motivo que te fez chegar à conclusão
de que devia me dizer isso.
- Bem, doutor. Eu tenho pensado e... Acho que é porque os estímulos
elétricos nos neurônios...
- Chega! Chega disso. É impossível tratar de você enquanto
continuar a impedir a comunicação dessa maneira!
- Mas estou respondendo exatamente o que você me pergunta.
- Não, não está. Já aceitei chamar você de
Nome. Já aceitei exigências demais de você. Para ouvir seu
lado sobre o incidente com a faca tivemos que sacrificar meses! Você está
atrapalhando o tratamento dos outros pacientes. Ou você começa
a cooperar ou teremos que tomar medidas mais severas.
- Mas doutor... Eu nem mesmo faço idéia do que vocês querem
de mim.
- Não responda exatamente o que eu perguntei, responda apenas algo que
tenha a ver com o que aconteceu.
- Eu não entendo. Como eu poderia saber o que faço? Se as pessoas
soubessem essas coisas viveriam bem. Não está me pedindo demais?
-
- O que ele fez?
- Suspirou e me mandou sair.
- E você?
- O vi pegando alguns remédios e tomando antes de sair do quarto.
- Ele acha mesmo que é um psiquiatra, né?
- Acho que sim. É realmente muito engraçado falar com ele.
-
- Você está dizendo que fugiu de um hospício?
- É, daquele ali.
- Não há hospício nenhum ali. É uma pousada.
- Já entrou lá?
- Não, é muito chique pra mendigos.
- Isso que você está comendo é melhor do que o que eles
servem lá.
- Sério?
- Sério!
- Como você fugiu?
- Foi alguma coisa que eu disse. Acho que todos perderam a calma e a segurança
foi relaxada.
- Eles te deixaram fugir?
- É claro que me deixaram, se tivessem me impedido eu não estaria
aqui.
- Você sabe qual a sua doença?
- Provavelmente todas possíveis e mais algumas até então
impossíveis.
- Credo!
- Credo não, é psiquiatria mesmo.
-
- O mendigo foi achado morto. Você foi a última pessoa a vê-lo
vivo...
- Protesto.
- O que foi dessa vez?
- Ele morreu na ambulância.
- Tá bom. Vamos ver... Você foi a última pessoa a vê-lo
sem ferimento algum.
- Ele tinha...
- Quer dizer, sem ferimento mortal algum.
- Ok.
- Então, o que aconteceu?
- Onde?
- Lá entre você e o mendigo!
- Nada.
- Nada? A mandíbula dele foi arrancada! Você acha que isso foi
um acidente?
- Foi ele que me pediu.
- Pediu? Como poderia ter pedido uma coisa dessas?
- Falando.
- Grrr...
- Calma. Deixe-me falar com ele. Qual foi o pedido que te levou a arrancar a
mandíbula de um indigente?
- Ele disse que não agüentava mais ter uma boca que só servia
para passar fome.
-
- E desde então eu tenho sido odiado por todos. Eles perdem o controle
e se tornam fáceis de enganar. Não correm muito bem e não
conseguem acertar os tiros.
- Me deixe em paz!
- Você está em paz. Não precisa lutar contra a corda, ela
não te fez nada.
- Maluco! Assassino! Me solta!
- Só se você cortar minha cara com essa gilete.
- Eu não vou fazer isso. Está tentando me incriminar. Eu não
tenho medo de você. Você vai apodrecer na cadeia!
- Se você não fizer isso, eu vou matar seu filho.
- Por que está fazendo isso comigo? Eu te dei casa e segurança.
Eu confiava em você. O que está havendo?
- Estou salvando sua honra. Você disse que se eu quebrasse outro vaso
você iria cortar minha cara com uma gilete. Eu tentei não quebrar,
mas aconteceu. Agora você tem que cumprir sua promessa, senão ficará
desonrado.
- Era uma brincadeira. Só uma piada.
- Ótimo, então aprenda isso: piadas ruins podem ser desastrosas.
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