| Janos Biro |
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Esquecimento
(Janos Biro)
Estávamos numa missão importante quando nosso líder nos
avisou que um de nós era o alvo. Foi um choque para mim. Eu dediquei
minha vida pela causa, convivia com meus parceiros todo dia. Éramos uma
família, a sensação de desconfiança crescente me
deixava muito deprimido. Para nos informar melhor, fomos diretamente ao professor.
Ele tem estudado as profecias do fim do mundo durante anos, é ele que
nos guia no escuro e nos diz o que devemos fazer para evitar o Esquecimento.
Ele nos explicou que o deus que criou nosso mundo não tinha consciência
dele, mas que está lentamente tomando consciência. Ele se encarnou
em um de nós, e quando finalmente tomar consciência plena do mundo
que criou... ele vai esquecê-lo. Será nosso fim, nos tornaremos
estória.
A maioria das pessoas não acredita no Esquecimento. Mas nós sim,
e fazemos tudo que for possível para evitá-lo. Nosso grupo era
especializado em recuperação de informação, portanto
estávamos sempre um passo à frente dos outros grupos. Porém,
isso agora se voltava contra nós, pois como o professor disse, o deus
que nos destruiria encarnou-se justamente num de nós... A pessoa não
teria consciência, assim como o deus, de que ela trará o fim assim
que tomar consciência plena do mundo. Nosso objetivo era descobrir quem
é o escolhido e fazê-lo jamais tomar consciência. O que era
muito difícil agora, já que se tratava de um de nós. Passamos
algum tempo sem tentar pensar em nada, até que o professor voltou e disse
que tinha descoberto qual de nós era aquele que traria o vazio. Ele revelou
sem muita cerimônia: apontou para mim com olhos tristes.
Eu estava lentamente tomado consciência de ser o criador desse mundo,
e tentei vencer o choque para cooperar com o procedimento. O procedimento, caso
encontrássemos o deus encarnado, seria induzir animação
suspensa, onde ele pudesse sonhar outros sonhos menos conscientes. A realidade
se alteraria, mas nós manteríamos nossas memórias. Eu não
soube se funcionou ou não, a última coisa que me lembro antes
de tomar consciência que este eu estava sonhando é a expressão
no rosto do líder, dizendo: "Eu te odeio". Eu sabia que não
era para mim, o personagem no sonho, isso me confortou e logo em seguida me
incomodou. Era uma mensagem diretamente para mim, o sonhador. Eu acordei com
sua voz ressoando em minha cabeça.
Quando acordei, arrumei minha cama e fui para um grande jardim cheio de plantas,
animais e insetos. Eu fiquei correndo até me cansar, depois fui à
biblioteca. O bibliotecário era familiar, e parecia muito abatido. Eu
peguei um livro da capa azul. Ele disse que esse livro estava reservado e que
eu não poderia pegar, mas assim que ele se virou eu peguei o livro e
levei para casa. Em casa só havia um homem, também familiar, que
não conversava muito comigo. Eu não li o livro, mas emprestei
para ele. Ele disse que ia ler, mas parecia abatido como se isso se tratasse
de uma punição. Ele leu e no outro dia disse simplesmente: "Estava
em tempo de acabar. Eu não te odeio mais". Quando eu fui devolver
o livro, me lembrei que precisava de uma escova de dente melhor, então
fui pegar uma na minha verdadeira casa. Mas eu não me lembrava onde era,
só sabia que tinha que atravessar um shopping. Então eu atravessei
o shopping correndo, quase flutuando, mas ele nunca acabava, era um labirinto
de escadas e corredores. No final de um corredor muito longo eu vi algumas pessoas
me esperando no final, mas quando cheguei perto elas saíram pela lateral.
Cheguei ao fim do corredor e subi as escadas. Queria encontrar as pessoas, mas
meus olhos se fecharam por causa da luz e se recusaram a abrir. Eu ouvi as pessoas
conversando perto de mim, disseram "Ainda podemos segurar ele por mais
algum tempo". Reconheci a voz das pessoas, eram meus colegas, não
lembro de onde. Eu tentava abrir os olhos sem sucesso. Fiquei sentindo a grama
do chão com as mãos. Estava tomando consciência de que estava
sonhando e gritei "Eu quero abrir os olhos!". Continuei lutando para
abrir os olhos, me esforçando tanto consegui piscar por um momento e
me vi num lugar de paredes brancas, o que para mim era incompreensível,
pois eu sabia que após o corredor havia espaço aberto. Pisquei
mais uma vez e compreendi que a imagem estava estranha porque eu devia estar
vendo-a de um ponto de vista diferente do meu próprio, como se eu estivesse
deitado, embora realmente estivesse de pé. Só poderia ser outro
lugar. Esforcei-me ao máximo para abrir os olhos totalmente, num grande
desespero, sem conseguir acordar. Então eu finalmente acordei, no meu
quarto. Percebi que era meu quarto que eu avistava no sonho, mas eu não
o reconhecia com as memórias de lá. Essas memórias finalmente
se tornaram apenas estória...
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