A Garganta da Serpente
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Amigo de 15 minutos
(Janos Biro)

Eu acordei me lembrando de toda a conversa. Não, nem toda, alguma parte da conversa já estava se perdendo, e enquanto eu pensava nisso toda conversa ia se desmoronando e se tornando espaço vazio nas minhas memórias.

Então não me lembro mais quem iniciou a conversa, não faz muita diferença agora, ele se perdeu para sempre dentro da minha cabeça, sou eu que estou aqui agora, embora continue sem saber quem sou.

Da maneira com que me lembro, foi ele que apareceu por aqui, mas fui eu que disse a primeira frase:

- Você sabe quem eu sou?
- Sim. - ele disse - Você é minha imaginação, e eu sou Janos Biro.
- Você é o Janos Biro? - Comecei a rir baixinho. Quem nesse mundo já não achou que era ele mesmo pelo menos uma vez na vida? - Você não é Janos Biro, Janos Biro não existe.

Ele ficou um pouco inquieto com isso, então disse: "Eu acho que existo".

- O que o faz pensar que você seja o que pensa ser? - Eu disse - Nunca pensou na possibilidade de estar enganado? De na verdade ser outra pessoa fingindo ser você para si mesmo?
- Se isto for verdade, então quem sou eu?
- Eu não posso dizer isso, porque eu não existo. - Esta foi minha última fala, geralmente é a minha última fala, depois disso ele percebe que está falando sozinho e some. Mas não foi isto que aconteceu. Ele ficou lá, eu fiquei desesperado. Como um flash de luz, eu percebi algo que ia além das minhas falas. Ele deveria ter sumido, eu iria voltar para o subconsciente, mas nada disso aconteceu. Eu não sabia o que fazer, eu comecei a gritar com ele:
- O que você acha que está fazendo? Não percebe que eu não sei quem eu sou porque você acha que não sabe quem é? Não vê que eu tenho que suportar toda a sua dúvida e angústia existencial porque você não consegue superá-la sozinho? Por que eu? Deixe-me em paz, pare de pensar em mim, me esqueça, eu já cumpri meu papel, ME ESQUEÇA, me deixe sair desse lugar horrível!

É claro que, ele ficou chocado, mas continuou parado, entalado na porta da percepção. Eu tinha vontade de socá-lo, tirá-lo de lá de qualquer jeito. Voltar para o meu lar doce lar. Ele estava sentindo a minha dor, e me torturando ainda mais por isso.

- Não! - Eu disse - Esqueça, somente esqueça, não se empatize por mim, você está me trancando aqui dentro. Pare com isso agora! - Mas é claro que isso era inútil, ele continuava no mesmo lugar, me encarando com um olhar patético.
- Me desculpe, eu não queria. - É tudo que ele dizia. - Talvez, quando eu for dormir, se você continuar aqui, talvez eu vá embora e você fique no meu lugar, daí você existirá, o que acha?
- Preste atenção garoto: eu não quero existir. Eu não quero ser você, eu nem sequer tenho uma personalidade. Eu... eu não sei porque estou perdendo tempo falando com você. Quer dizer, isso é impossível, eu não devia estar aqui, meu tempo acabou.
- Talvez seu tempo esteja para começar.

Minha mente se encheu de dúvidas. Em primeiro lugar, eu não posso ter uma mente, não uma mente própria, apenas vivo de carona. Como eu poderia pensar por mim mesmo? Eu fui feito para ser o questionamento, não o questionado. Como eu posso estar confuso? Como eu posso fazer perguntas para mim mesmo? Eu não entendo, eu não sei se quero entender. O fato é, que meu lugar de nascença havia se tornado meu interlocutor, e talvez ele tivesse um plano maluco, e talvez esse plano estivesse dando certo.

Ele, eu, não sei mais, nós fomos dormir em seguida. Naquela noite eu tive um sonho, meu primeiro sonho. Eu sonhei que havia estes pequenos cartões dentro da nossa cabeça, e que um garoto erguia os cartões com frases e nós olhávamos para o cartão e era impossível evitar, mas acabávamos falando exatamente o que estava escrito neles. O primeiro dizia: "Veja aquele cartão, tem alguma coisa escrita nele". O segundo dizia: "Como ele sabia que eu dizer isso?". O terceiro dizia: "É como um maldito deja vu pré-determinado". E assim por diante, os cartões foram ficando chatos, até que o garoto ergueu um cartão em branco. Eu tentei, eu tentei tão desesperadamente dizer alguma coisa, gritar, sequer pensar. Mas nada veio a minha mente, eu fiquei em estado de choque, sem abrir a boca.

Então eu acordei, neste mesmo estado. Senti que minha alma precisava vomitar, que havia provado alguma coisa estragada, que tinha comido a si mesma, sei lá. Me senti a pior pessoa do mundo, e de certa forma isso foi muito bom, porque eu achei que jamais poderia sentir coisa alguma. E, por dois segundos, pensei que esses sentimentos não eram meus, não vinham de mim, que eram ecos da mente dele. Mas ele não se manifestou, eu assumi o controle, eu era eu mesmo.

Então a primeira sugestão que eu segui de mim mesmo foi escrever minha estória. Estava rapidamente esquecendo dela, logo eu acharia que é tudo ficção, que eu nunca fui outra pessoa, que eu sempre fui eu mesmo. Eu precisava escrever o que havia ali, mas minha cabeça doía muito.

Comecei a me lembrar do que precisava fazer, eu queria uma vida totalmente diferente. Eu gostaria até de mudar de nome, mas uma coisa de cada vez. Se havia uma coisa que eu estava pensando comigo mesmo é que nada seria como antes, nem mesmo os sentimentos mais profundos. Eu estava pronto para começar de novo, eu tinha acabado de nascer de verdade, tinha o mundo à minha frente. Então eu a vi. Ela estava acordando, e disse "Bom dia". Eu tentei, eu tentei muito, mas foi tão inútil quanto evitar os cartões do sonho: eu me apaixonei perdidamente por ela.

Agora eu precisava de uma boa explicação para ter tomado o lugar do seu namorado. O dia foi passando e eu não conseguia dizer o que havia acontecido, eu me sentia com ciúmes. Eu estava beijando a mulher da minha vida, e tudo era minha primeira vez. Ela disse que me amava, e eu disse que a amava, mas quem é que ela ama? Sou eu, ou era eu? Eu sei que a amo, mas senti ciúmes. Foi aí que percebi que havia um pouco do extinto eu em mim, nós havíamos trocado de lugar, mas o que realmente tinha mudado?

Minha conclusão obvia foi, o subconsciente deve morrer. Ele não me deixaria em paz. Ele queria ter o amor de sua namorada só para ele, ele queria que eu contasse para ela quem eu sou de verdade, mas isso não era possível. Eu a queria para mim, e nós começamos uma briga interna por ela. A parte difícil é não deixar que ele fale, nem por sinais. Eu devo me concentrar em não deixar ele vir à tona, nem como um pensamento. Eu o tratava como uma memória perdida, e mesmo assim falsa. Isto me permitia ter a palavra sem deixar que ele falasse, mas ainda era capaz de prever o que ele sentia.

Minha solução foi escrever toda a estória de novo, mudar o narrador para ele mesmo, ao invés de eu mesmo. Assim fazendo eu o mostraria que ele não passa de uma ficção, de um personagem, que ele não importa mais, que eu sou o único que tenho uma vida real, mesmo que possa imaginar milhares de vidas. Eu existo, não importa como nem porque. Aqui estou eu, no lugar que eu deveria estar desde o começo. É por isso que eu o deixei falar de novo o que ele me disse da primeira vez que nos encontramos, para que ele percebesse que foi sua escolha me deixar aqui. E é por isso que eu acabo a estória com meus próprios pensamentos. Ele permanecerá calado, perguntando-se para sempre aquele infinito, porém inútil conjunto de perguntas paradoxais que se encontram dentro da pergunta: "Quem sou eu?".

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