| Janos Biro |
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Ácido
(Janos Biro)
"Mãe, Pai, Ana... Amo muito vocês. Fiquei tão surpreso
quanto vocês com a notícia da minha morte. Eu lutei tanto para
alcançar a única beleza possível de ter nesse mundo, a
bondade que deus representa. Me fiz instrumento de sua vontade, para buscar
a melhor forma de viver, a melhor forma de amar meus semelhantes. Eu não
sei se falhei, não sei onde errei, mas minha vida chegou ao fim. Agora
mesmo, enquanto escrevo essas palavras que parecem brilhar, uma a uma, na minha
frente. Eu tentei fazer algo diferente. Eu tentei gerar mudança, fazer
algum bem. Tocar alguma mente ou algum coração. Eu espero que
tenha conseguido. Eu morri agora. Eu sei que morri. Não foi culpa de
nada, nem de ninguém. Eu também estou chorando e nem sei porquê.
Eu me lembro de tudo, e foi tudo tão rápido... foi tudo tão
rápido..."
Ele leu alto. Pensou em acrescentar mais detalhes sobre si mesmo. Depois leu
mais uma vez e saboreou a beleza do próprio texto. Terminou, assim como
a vontade e a coragem de se matar. O texto era tão bonito... Havia tanto
de sua alma nele, tanto sentimento. Ele seria um maldito de não morresse
nesse instante. Ele se amaldiçoaria para sempre se não levasse
a diante. Desperdiçaria sua obra-prima, sua vida. Desperdiçaria
seu talento recém descoberto: escrever cartas suicidas. Elas só
ficam realmente bonitas, quer dizer, as pessoas só vêem a verdadeira
beleza delas depois que o sujeito morre. Já tinha desistido, mas precisava
morrer. Precisava continuar com o que começou. Precisava, mas não
o fez.
Ao invés disso ele foi trabalhar, como fazia todo dia. Todo santo e maldito
dia. No caminho, um par de olhos. Manteve a discrição como costuma
a fazer. Só depois de alguns minutos resolveu olhar também. Olhos
brilhantes, rodeados e preenchidos completamente de algo inexplicável.
Culpou-se, voltou a olhar para o lado. Os olhos não.
- Oi - Disseram os olhos, que de repente se tornaram pequenos e viu embaixo
deles um sorriso tão lindo... Tentou sair do rosto, mas não conseguiu.
Ficou com uma expressão de visível preocupação ou
algo semelhante.
- Oi - Respondeu finalmente. A garota simplesmente baixou o olhar com um sorriso
tímido, ainda refletindo uma perfeição divina. Percorreu
todo seu corpo com o olhar e com mais que o olhar. Sentiu sua alma sendo atraída,
sendo sugada, além de qualquer tentativa de salvação.
- Eu me chamo Larissa. - Ela disse, olhando com um brilho que tentava cegá-lo,
que ele queria poder dissipar. Apertando os lábios róseos que
pareciam mais suculentos que qualquer coisa que já havia mordido antes.
- Larissa... - Repetiu - Parece com o seu cabelo... - Como ela fez algo entre
um riso meigo e um sorriso mais apertado, ele tentou consertar. - Soa como o
som que seu cabelo faz, suave e fluído. - Estava tentando falar sério,
porém como se estivesse num sonho. Quis pegar seu cabelo, mostrar o que
parecia ser tão óbvio. Ela era linda, linda demais. De repente,
lembrou-se de Ana e olhou para o chão, vermelho.
- Obrigada. - Ela disse, quase tão vermelha, e virou-se um pouquinho,
olhando para o lado só com os olhos, como se olhasse para o céu,
e passou a mão no cabelo. - E o seu?
Ele passou a mão no cabelo também, esquecendo-se que a pergunta
era sobre o nome dele. Esquecendo-se que tinha nome. Esquecendo-se que estava
ali. Esquecendo-se de responder. Ela inclinou a cabeça rápida
e gentilmente, e iniciou a abertura de um sorriso especial. "Eu não
tenho nome", ele quis responder. Quis conter aquele sorriso prestes a disparar,
como uma arma. Como a arma que ele não teve coragem de usar hoje de manhã,
aquela que seu ex-amigo deixou com ele e nunca voltou pra buscar.
- Eliot. - disse finalmente. - Minha mãe gostava de ler...
- Que nome lindo! - Ela interrompeu, e disparou o sorriso. (houve um eco de
som de disparo em sua cabeça)
Quando o tempo voltou a passar ele já não era o mesmo. O trabalho
passou voando. Ele estava andando de volta pra casa, pensando no resto do diálogo.
O diálogo em que ele explicava que tinha uma namorada. Viu o sorriso
se desfazer do rosto dela. Falou coisas das quais se arrependia tanto como se
fossem crimes hediondos. "Não se afaste de mim, por favor. Eu quero
tanto sua amizade, você parece ser uma pessoa tão legal".
Tentou se lembrar do que sentiu quando a situação inversa aconteceu.
Foi como ver um rio se transformar num deserto. É horrível. Não
devia ter dito nada, devia ter se despedido sem dizer nada. Isto teria sido
infinitamente melhor. Teria sim.
Então a luz se desfez. "Um blecaute na rua", levou um lento
segundo para concluir. Sem lua, sem estrelas, sem luzes. Tudo era escuridão,
exceto em sua cabeça. Recuperou o passo e seguiu reto, de olhos fechados.
Não fazia diferença mesmo. Até ouvir passos. Respiração.
Passos apressados. Respiração ofegante. Passos mais próximos,
respiração mais ofegante. Ele se virou para todos os lados. A
luz era bastante somente para ver um vulto. A respiração e os
passos deram uma pequena pausa... Então pularam! Pularam em cima dele,
empurrando-o numa caçamba de entulho. Foi tudo tão rápido
e interminável... Gritos contidos por uma camiseta na boca, braço
quebrado, a calça arrancada... A humilhação... Mais do
que humilhação, um inferno de vergonha. Preferia ter sentido muito
mais dor, toda dor do mundo, mas não aquilo. Aquilo não. "Por
quê? Por que comigo? Por que eu? Não. Não. Não. Não.
Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.
Não. Não. Não!"
Depois foi jogado no chão, ou caiu, não se lembra. O vulto correu,
voltou para as sombras. As lágrimas saiam tanto que não dava pra
limpar a tempo de enxergar alguma coisa, se houvesse luz. Mas não havia,
nem sequer uma estrela. Quis gritar, gritar tanto, mas o choro não deixou.
Tentou esperar as lágrimas acabarem antes de chegar em casa. A luz voltou,
mas ele nem percebeu...
Algum tempo depois ele pegou novamente a arma. Tinha se tornado um hábito
diário: pegar a arma, limpá-la, admirá-la, prepará-la,
apontá-la para a cabeça e... desistir. Não era hoje, não
era assim, não sem antes matar o vulto desgraçado. Não
sem antes se vingar dele aqui e no inferno. Não sem antes escrever uma
bela carta de suicídio. Estavam se tornando melhores a cada dia. E cada
dia achava que estava tão perfeita que não poderia fazer uma melhor
no próximo, quando então se mataria. Mas continuavam, dia após
dia, cada vez melhores. Cada vez mais emotivas, profundas e chocantes.
"Eu me sinto rejeitado pelo próprio deus", ele escreveu. "Todas
as pessoas maravilhosas que fizeram parte da minha vida, eu não fiz parte
da vida delas. Eu nunca fui parte de nada, não porque não podia
ou não queria, mas porque eu sou um erro. Um erro divino, escondido entre
as maravilhas da criação". Ana estava grávida de outro
cara e já não morava com ele. Nem sequer olhava pra ele, assim
como Larissa, que ele nunca mais viu. Na tevê um demente estava cantando
algo como "Always look at the bright side of life" (Sempre olhe para
o lado bom da vida). Ele tentou olhar, tentou com todas as forças, mas
não conseguiu. Só havia alívio, alívio temporário,
mas nenhuma coisa que fosse boa por si só. Nenhuma beleza que não
pudesse ser falsa. Nenhuma bondade que não pudesse ser egoísmo.
Nada.
Voltando pra casa do trabalho, pela mesma rua, a mesma rua que agora já
não era mais a mesma há anos, ele levou um susto.
- Calma, gatinho. - Disse uma voz quase feminina, vinda de uma pessoa alta,
sem peito, com um cabelo curto e pernas à mostra. Um travesti. Estava
tentando não demonstrar nenhuma discriminação, afinal,
ele sabia o que é ser rejeitado. Ser rejeitado significa ser melhor que
a maioria.
- Desculpe, eu não vi você chegando. - Tentou dizer, mas falou
tão baixo que duvidou que ela, ou ele, ouviu.
- Tudo bem, tô acostumada com coisa pior. - Ela respondeu. - Onde você
mora? - Ela disse, como se tentasse ser sexy.
- Por aqui. - Disse ele, com tom de fim de conversa.
- Nossa, que legal. Eu também. - Ela, ou ele, disse. Houve um silêncio,
mas como ainda andavam relativamente próximos, ela voltou a falar, com
gestos circulares: - Posso te falar uma coisa? Sem ofensa? Não, porque
sabe como é, as pessoas comuns não costumam a falar com a gente,
sabe? Tratam a gente como lixo...
- Eu sou diferente. - Respondeu. - Meus pré-conceitos, estão todos
invertidos. Acho que você deve ser uma pessoa muito inteligente, li numa
revista que gays têm QI maior. Mas se está perguntando se eu tenho
alguma... "coisa" por viados, a resposta é não. Eu não
me atraio sexualmente, só respeito.
- Não gosto de ser chamado de viado. Eu sou um transexual.
- Me desculpe, eu não queria ofender.
- Dessa vez passa. Mas eu tenho que dizer uma coisa: É uma pena. Você
é um filé.
Ele não sabia se agradecia ou xingava. Resolveu fazer uma piadinha da
qual se arrependeu dois segundos depois: - Quem me dera eu fosse. Mas devo mesmo
ser um bacon.
O outro riu e disse, tocando no seu ombro: - Você é engraçado.
Quer tomar um sorvete?
"Será que meu filme poderia queimar ainda mais? Não me falta
nenhuma humilhação mesmo...". Decidiu que ia.
Em tom de confissão, contou que uma vez pensou ter sentido atração
por um homem, mas isso foi antes de... Não vinha ao caso. Disse que talvez
por isso tinha tanta raiva dele. Contou toda a história com tom de "eu
entendo você", e tomou sorvete. Pensou estar provando ao mundo o
quanto era tolerante e amigável.
- Minha primeira vez com um homem foi uma experiência diferente, sabe?
Você não vai se assustar se eu contar?
- Claro que não, conta aí.
- É que eu nunca contei isso pra ninguém, sabe. É meio
que um segredo.
- O que foi? - Disse entre uma risada, pensando no quão engraçada
devia ser a estória.
- Eu estuprei um cara. - Disse o travesti, sem muita emoção. A
risada se desfigurou horrivelmente numa expressão de pura e simples negação.
- Eu tava tão afim de meter em qualquer coisa, sabe? Desesperado, esperei
um sinal divino, então as luzes apagaram. Vi alguém passando na
rua e pensei que ninguém iria descobrir se eu fizesse aquilo. Na hora
vi que era um cara, mas não me importei. Coitado do cara... Espero que
ele não tenha ficado muito traumatizado. - Neste momento o travesti quase
riu, mas manteve a seriedade, esperou uma resposta.
Não houve resposta, não houve nada além do "Não.
Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.
Não. Não. Não. Não. Não. Não!"
repetindo-se em sua cabeça. Cerrou os dentes, fechou os olhos. Talvez
o outro tenha dito mais alguma coisa, mas ele não ouviu. Ele se levantou,
derrubou o sorvete e foi para casa. Pegou a arma, carregou rapidamente, colocou
na cintura e saiu. "Aqui e no inferno, aqui e no inferno, aqui e no inferno!"
Voltou para a mesma sorveteria. Não viu ninguém, não falou
nada. Não ouvia nada. Sentiu-se a ponto de se realizar plenamente. Andou
pela rua de cima pra baixo e de baixo pra cima até as duas da manhã,
quando o vulto apareceu.
- Você não vai fazer nada. Desiste disso. - Disse o travesti, como
se respondesse uma importante pergunta feita há muito tempo. - E sabe
por quê? - Continuou. - Porque você gosta. Você gosta, e não
admite que gosta. - Pegou na própria bunda e disse nos olhos dele: -
Cara, essa é a sua vida. - Então o travesti se aproximou dele,
que estava perfeitamente calado e parado, e talvez não tivesse ouvido
ou mesmo visto nada. Houve um beijo. O beijo desceu como ácido e corroeu
tudo que sobrava dentro dele. Ele voltou pra casa do mesmo jeito que saiu. Tirou
a arma com carinho. Ajoelhou-se no chão em posição de adoração,
preparou a arma e a colocou no chão, bem em sua frente. Glorificou a
arma. Rezou para ela. Confessou seus pecados. Agradeceu por tudo. Pediu bênçãos.
Queimou suas cartas. E então, finalmente, deu a arma uma utilidade.
Goiânia, 2004
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