| Herman G. Silvani (Niko) |
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Conto à menina morta
Herman G. Silvani (Niko)
...andava a esmo. Passado? Já não existia. Futuro? Já não
sabia. Pensava enquanto andava. Quilômetros percorrera pelas ruas imundas
da cidade escura e pelas estradas desertas da rota trinta e sete. Tinha consigo
milhões de dúvidas. Volta e meia, embriagava-se de um trago barato
qualquer, comprado num bar qualquer, vendido por um vendedor qualquer. Não
importava. Não raras vezes também chapava-se de comprimidos farmacêuticos,
os quais a acompanhavam mundo afora. Tomava remédios desde que conheceu-se
por gente. Saúde debilitada, mente conturbada. O medíocre psiquiatra
não dera conta do recado, só viciou-a desde nova. Quando ainda
virgem recebera do padrasto um estupro de vinte e quatro centímetros
e quarenta e tantos minutos. Sangrou e chorou. Sentiu nojo e ódio, dor
e desespero. E foi este o fantasma que a expulsou de casa e a perseguiu pelos
seus dias. Tinha sonhos diurnos, e em seus olhos noturnos, só penetravam
olhares tristes. Pensava ser Maria Bonita a procura de Lampião Sertão
afora. Queria casar-se de vermelho com um homem bem mais velho, mas no fundo
era lésbica. Gostava de sentir-se assim, contraditória. Amava
uma atriz de novela e tinha tesão por uma atendente de uma lojinha de
bijuterias baratas. Freqüentava bares obscuros, onde entorpecia-se antes
de ir dormir. Também era freqüentadora de banheiros em shoppings
center's, pois estes, pensava, 'eram limpos e bons para cagar'. Aliás,
nada melhor do que defecar em paz, não é? Andou, andou e andou.
Seus calos a faziam-na sentir desejo de morte. 'Um bom motivo para o suicídio',
pensava. Mas a morte, estúpida como tal, não seria suficiente.
Se fosse para morrer, queria morrer em batalha. Imaginava uma guerra contra
o que chamava 'Império do Norte'. Ela, é claro, compondo as fileiras
do 'exercito dos povos árabes e simpatizantes', contra os 'EUA e aliados
ocidentais'. Ai sim valeria a pena morrer, com calos doloridos e tudo mais,
já que seu amor impossível só era vista no cinema francês
(leve-se em consideração que seu filme predileto era 'Eterno Amor').
Certo dia cansou. Encontrou um cactos de espinhos finos que fazia uma sombra
curta, porém agradável, encostou-se por lá e descansou,
até o próximo sol raiar... mas o sol, por sua vez, nunca mais
raiou.
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