| Geraldo Ramiere |
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Veloz
(Geraldo Ramiere)
Corria. Não possuía qualquer motivo especial para isso, mas mesmo
assim, corria. Na calçada do parque num domingo qualquer, sob o sol de
uma tarde comum, ultrapassando passantes com a facilidade de um driblador. Correr
por pura e simples vontade. Correr apenas por correr. Sentir em seus músculos
exaltados o esforço do movimento contínuo e no rosto o vento batendo
cortante. O indispensável ritmo ininterrupto dos braços impulsionando
a corrida. A respiração mantida em cadência. Pensamentos
focalizados num único objetivo. Correr. Correr. Correr. Correr... Nem
o lento cair de folhas roubava sua concentração. Na mente apenas
um desejo: se superar, desafiar o corpo até seus limites, senti-lo em
toda sua plenitude, saber o quanto poderia agüentar. Duelava consigo mesmo.
Um combate silencioso, mas que não deixava de ser combate. E mesmo que
tentasse explicar isso, ninguém iria entender. Então, apenas corria.
Silenciosamente. Sem parar. E era isso que lhe importava no momento. Ele corre.
Limpa a saliva que escorria nos lábios. Aumenta a velocidade. Os cabelos
começam a ficar úmidos. Corre. Resistir ao determinado antes que
tudo se resuma em apenas cansaço. Rápido, cada vez mais rápido.
Acreditar no oposto mesmo que o que resta seja tão escasso. Algum conhecido
lhe acenou. Sobreviver. A paisagem passando cada vez mais depressa diante dos
seus olhos fixos. Todos lhe abrem caminho. Tinha consciência de que não
poderia derrotar a dor no momento presente, mas desejava pelo menos revidá-la,
com um golpe, um ataque, qualquer suspiro, ao menos enfrenta-la. O coração
bate acelerado. Enfrentava-a. Corre. Um ciclista tenta acompanhá-lo sem
conseguir. Uma bola perdida raspa sua cabeça. Quase atropela um poodle
com sua madame. Espantou um bando de pombos. Corre. A respiração
ofegante. A garganta seca. A blusa encharcada de suor. O corpo exausto. Suas
mãos doem. Mas não pára. Corre. Corre. Corre. Correndo
para sobreviver. Sobreviver ao passado, aos erros, ao desastre, à dor.
Desenterrar a força ocultada pelo áspero. Esquecer. Ir para longe.
Bem longe. Longe de tudo. Correr para perto de si. Havia agora apenas ele contra
ele mesmo. Sua revanche contra o que se impunha destino. Corria.... Mas de repente
surgiu uma ladeira. Descia descontrolado. O coração disparou.
Não tinha como parar. Estava veloz. Muito veloz. Velocíssimo.
Mas não sentia medo. Nenhum medo. Sentia-se como há tempos não
se sentia. Sentia-se livre. E quando uma pedra bateu contra a sua cadeira de
rodas, lançando-o ao longe, rolou pela calçada à fora,
até cair estirado no chão. Permaneceu assim por alguns instantes.
Algumas pessoas se aproximaram para socorrê-lo. Outras só espiavam.
Mas antes que alguém pudesse fazer algo, ele levantou a cabeça,
olhou em volta, e riu, um riso estridente, ecoante, elástico, solto.
Um riso de alegria. Perdoou-se.
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