| Geraldo Ramiere |
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Descrever a cidade (Um conto sobre São Paulo)
(Geraldo Ramiere)
O olhar não só recria o que é visto, mas também
aquele que vê. E a criação não nasce destinada ao
fim, mas para o começo, contínuo princípio do deixar de
ser o que foi para iniciar a ser o que ainda não é. Ítalo
já havia aprendido isso. Chegara na noite anterior. Ainda não
conseguia distinguir a vila na qual nasceu com a que se refletia em sua retina.
Inexorável mover do mundo, involuntária resistência do coração.
Após viver durante trinta anos na cidade de São Paulo, a notícia
da sua volta causara certo alvoroço. Numa vila como aquela, tão
longe de tudo, as histórias que ele narraria eram algo que despertava
a curiosidade de quem nunca conheceu outro lugar. Era uma tarde de sol desfalecido.
No centro do povoado, muitos habitantes se aglomeraram para ouvi-lo. "-
Ítalo, conte como é São Paulo", pediam. "- Tudo
bem, irei descrevê-la para vocês". Todos prestavam atenção.
"- Só existe uma palavra capaz de definir São Paulo: idéia".
Silêncio. "- São Paulo é uma idéia que ultrapassa
a si mesma". Ouvidos atentos. "- Sabem o que vejo quando lembro de
São Paulo?". Os olhos permanecem nas coisas do mesmo modo que as
coisas permanecem neles, mas nem um nem outro se conservam sem diluição.
"- Risos de crianças ecoando pelos vãos do concreto. Gestos
desapercebidos dos que caminham nas avenidas. O cantarolar assobiado de um operário
durante seu trabalho no alto da construção. A alegria dos jovens
sentados nas escadarias da biblioteca municipal. Os acenos dos que se despedem
na estação rodoviária. A música de um acordeom tocado
na praça central. Uma flor que brotou no asfalto sendo colhida por alguém".
Toma fôlego. "- O gari que interrompe o catar de lixo para reler
numa folha suja de jornal velho uma poesia que viu na infância. A idosa
ex-balairina que dança na rua sob a chuva quando escuta uma antiga canção.
O engraxate que desenha retratos nas calçadas. A estudante de piano que
vende rosas para pagar as aulas. Alguém que vê a cidade do alto
de um edifício com olhos rasos d'água por imaginar tantos sonhos
habitando naquele emaranhado de prédios". Ítalo chora. "-
São Paulo é isso: uma idéia, um ideal, muitos desejos,
incontáveis possibilidades, uma cidade sendo reinventada todo dia".
Os ouvintes estavam maravilhados. "- O senhor menti! Ou então está
delirando!", de repente disse um professor, que ouvia tudo. "- São
Paulo nunca foi assim! Duvido até que senhor já tenha ido lá!",
decretava em tom exaltado. "- O senhor diz descrever São Paulo,
e vem me falar de coisas banais". Ítalo apenas escutava. "-
Cadê o trânsito, o metrô, as indústrias, os museus,
os monumentos, a garoa? E as ruas? O senhor não diz o nome de nenhuma
delas! E eu sei do que estou falando, conheço São Paulo, já
estive lá várias vezes!", termina enfim, limpando o suor
que escorria da testa. "- Creio que não conhecemos a mesma São
Paulo", respondeu Ítalo. "- O senhor está louco! Só
há uma São Paulo!". "- O senhor se engana, existem inúmeras,
tantas que às vezes se tropeça nelas, tantas que somente conseguimos
capturar retalhos de algumas, e que depois de juntos, formam uma. Somos nós
que construímos uma cidade, ao mesmo tempo em que ela também nos
reconstrói", concluiu. "- Pois bem, vocês podem ficar
aí ouvindo essas invenções, ou se quiserem, eu posso lhes
contar como é São Paulo de verdade!", disse, irritado, aos
habitantes que ouviam. "- A gente quer continuar ouvindo sobre a São
Paulo do Ítalo, depois o senhor fala da sua", responderam. Então,
Ítalo continuou descrevendo a sua São Paulo, e os que lhe ouviam,
criavam outras, reais em suas imaginações. O professor continuou
escutando aquilo tudo, primeiro com desprezo, mas depois com atenção,
e à medida que Ítalo falava, ele começou a se sentir seduzido
por aquela desconhecida São Paulo, até que um sorriso lhe escapuliu
dos lábios.
* Este conto foi escrito originalmente para participar do concurso literário promovido pelo jornal O Estado de São Paulo, para contos que tivessem como tema ou ambiente a cidade de São Paulo. Contundo, ele não foi premiado.
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