| Flaveus van Neutralis |
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Meu outro
(Flaveus van Neutralis)
Certa feita em diálogo com meu grande amigo Ary Pimentel conversava
sobre a questão do outro na Literatura Hispano-Americana. Seu
conhecimento acerca do assunto era largo, dado seus anos de experiência
como Professor Titular da disciplina Fundamentos da cultura da América
Hispânica pela faculdade de Letras da UFRJ. Ary, a certo ponto de
nossa conversa, muito empolgado com seus próprios argumentos, disse-me:
-"Todo bom escritor, ouso dizer, já teve seu outro."
E deu-me exemplos. O mais clássico e o mais respeitável a meu
humilde ver foi o de Jorge Luiz Borges, o qual brindou-nos com seu memorável conto chamado O outro. No referido texto, Borges, velho, encontra a si mesmo, jovem,
e tem ambos têm um diálogo formidável. Fiquei com aquilo
na cabeça por alguns dias, não sei se pela força da frase
ou pela expressão que Ary tinha em seu olhar. Sei que uma semana depois,
andando na rua, tomei um grande susto: vi, de longe, uma pessoa que era muito
parecida comigo. Os longos cabelos encaracolados e negros, o mesmo jeito de
andar...no mesmo segundo lembrei-me de meu colóquio com Ary e de suas
palavras. Será que eu, humilde escritor, tão pequeno perante um
Borges da vida, teria um outro só para mim? Será que eu
teria o privilégio de dialogar comigo mesmo mais velho, mais novo, ou,
quem sabe, se não for pedir demais, até mesmo na mesma faixa etária?
Minhas suposições vieram e se foram rápido demais: Por
estar o rapaz em questão contra a luz eu apenas tinha visto seu vulto,
e ainda por cima de longe. Vindo em minha direção pude ver que,
de fato, seus cabelos e seu jeito de andar eram bastante parecidos com os meus...mas
seu rosto, seus olhos, seu corpo, opostos, bastante opostos. Não posso
negar que tive uma estranha e instantânea frustração. Por
alguns dias, estivesse eu em qualquer lugar que eu estivesse, sempre olhava
para os lados, prestava atenção nas pessoas, em seus semblantes,
seus cacoetes, os tons e timbres de suas vozes, sempre buscando uma ou mais
semelhanças, sempre em busca de meu outro. Se minha busca por um lado
falhou, por outro ajudou a inflar minha auto-estima, já que passei a
me sentir como o mais ímpar e o mais único dos seres humanos.
Ora, vamos ser bem honestos, quem nunca foi confundido com outra pessoa na rua?
Quem nunca ouviu um comentário do tipo "você é a cara
de fulano, você se parece com beltrano, etc"? Comentários
desse tipo denotam o quanto sempre somos parecidos com alguém e o quanto
sempre existe alguém parecido conosco rondando por aí. "Vi
uma pessoa na rua que era muito parecida com você!" é um comentário
que todos certamente já ouviram. Quer dizer, quase todos: eu nunca ouvi.
As palavras de meu bom amigo Ary ecoavam na minha cabeça: Será
que eu nunca poderia ter meu próprio conto versando sobre meu outro
? Minha fixação pela idéia me fez passar algumas noites
tentando escrever algo sobre o assunto, mas só produzi lixo. Eu não
conseguia escrever sobre algo que eu não houvesse de alguma forma vivenciado.
A experiência do outro não poderia gerar um bom conto sem
inspiração, sem a experiência desse fato. Em suma, eu precisava,
eu queria um outro para ser um grandioso escritor. Eu não era, nem de
longe, um Jorge Luiz Borges...mas eu já tinha três livros publicados
e havia obtido razoável projeção. E eu queria muito crescer
mais como escritor. Todo bom escritor já tivera seu outro, assim
me disse Ary. Por que eu não poderia ter um também? Por que eu
não poderia ser também...grande? Foi então numa certa noite
bem quente, deitado em minha cama, que tive um estalo, uma brilhante idéia.
Ora, para que tentar encontrar um outro meu se eu poderia ser o outro de alguém?
Em princípio a idéia me pareceu um pouco insossa, dado que, que
graça existe em sempre ser uma mera sombra de alguém, uma cópia
de um outro, o feio negativo preto-e-branco de uma bela foto colorida? Em verdade,
a idéia é ridícula, exceto por um detalhe: eu não
pretendia apenas ser um outro, mas tomar o lugar do meu original.
A idéia me pareceu ótima, algo como se uma sombra se revoltasse,
matasse seu dono e passasse a tomar seu lugar. Levantei-me da cama empolgado.
Ora, o outro de Borges não havia matado-o, nem vice-versa. Além
de entrar nesse "Clube da auteridade literária" eu ainda carregia
uma particularidade em relação aos demais colegas de pena: a morte
de meu outro.Tendo tomado minha decisão, só me faltava
agora decidir de quem eu seria outro. Não poderia ser qualquer
homem, não poderia ser qualquer um. Teria que ser alguém especial,
alguém que me despertasse uma atenção singular, que fosse
digno de me ter como outro. Não havia parâmetros ou pré-requisitos
para que essa escolha fosse feita: Ela simplesmente seria feita por instinto
e pronto. Uma escolha feita por feeling , assim digamos. Em dado momento,
eu teria uma revelação.
E a revelação veio finalmente.
Uma tarde fria, eu andava pelo Méier e tinha acabado de comprar um livro
em uma banca. Sentei-me em um banco de pedra e comecei a folhear o exemplar
de Os sertões que tinha acabado de adquirir. Quando o vi.
No primeiro segundo que o vi, percebi que tinha finalmente encontrado ele, o
homem de quem eu seria outro.
Por uma agradável coincidência, ele fazia exatamente o mesmo que
eu. Estava sentado em uma mesa de pedra lendo exatamente o mesmo livro que eu
havia recentemente adquirido. Ele era mais magro que eu, tinha cabelos curtos
e negros, olhos da minha cor, um rosto fino, vestia roupas leves e claras e
tinha alguns anéis nos dedos. Meu fascínio por ele foi instantâneo.
Fiquei a observá-lo, discretamente. Notei que ele tinha um tique engraçado
de sempre dar uma girada no pulso, ocasionalmente. Prestei atenção
até mesmo no intervalo de tempo que ele deixava entre uma girada e outra:
aproximadamente cinco minutos e meio. Franzia a testa quando lia, mas somente
quando lia. Quando caminhava, seus ares eram de um homem bastante tranqüilo.
Pude perceber isso quando o segui até o que me pareceu ser sua casa,
um apartamento na Rua Dias da Cruz. Algumas semanas depois consegui ter a sorte
grande de comprar um apartamento muito perto do dele. Agora me seria mais fácil
saber quem ele era, e, mais rapidamente, ser seu outro.
Tentarei ser o mais breve e o menos maçante possível em minhas
colocações acerca dos meses em que me empenhei em descobrir coisas
sobre aquele homem. Descobrir sobre sua rotina diária foi relativamente
fácil. De Segunda a Sexta ele trabalhava em um escritório de contabilidade
no Centro da cidade, das 8:00 da manhã até às 16:00, tendo
o almoço de 12:00 às 13:00. Ganhava o suficiente para viver bem,
nem muito, nem pouco. Era responsável. Algumas sextas feiras saía
com amigos para beber. Não era alcoólatra, bebia bem moderadamente.
Não fumava. Remexendo em seu lixo, pude notar que era vegetariano. Não
achei, em meses de pesquisa, uma embalagem sequer de qualquer tipo de carne,
branca ou vermelha. Bebia bastante refrigerante, comia muito danoninho e tinha
uma vida sexual razoavelmente estável. Havia uma menina loira, muito
bonita, que estava em sua casa pelo menos uma vez por semana. Sua namorada,
provavelmente. A parte mais perigosa foi descobrir seus dados pessoais. Numa
madrugada em que ele não estava em casa eu invadi seu apartamento, como
um ladrão faria. Pude ver a maneira como decorava sua casa, como era
organizado no seu jeito de guardar as coisas, fotos suas, e, o mais importante:
seu nome. Marco Fernando Soares Almeida, um nome grande e bastante comum. Um
nome que seria meu daquele momento em diante.
Eu precisava de mais dados pessoais acerca de Marco, e sabia que talvez pudesse
achar bastante coisa na porta de sua geladeira. Em verdade: vi, grudada com
um ímã, uma foto sua com a tal menina loirinha. A foto era pichada
com corações, e nela haviam escritos com hidrocor vermelha os
dizeres:
Eu e Aninha em nosso aniversário de um ano de namoro, 22/05/02.
Um namoro recente. Um rapaz romântico, pelo menos em aparência.
Vi uma foto sua com amigos, em um bar. Vi um lembrete na porta da geladeira: Ligar para
mamãe. Na sala, remexendo em uma pequena agenda telefônica,
pude pegar os telefones de Ana, sua namorada, e de sua mãe. Vi também
sua coleção de discos e k-7's de grandes nomes da mpb. E na sala
havia uma grande foto sua, quando criança.
Não me demorei muito. Logo voltei para meu apartamento. A mudança
estava para começar. Foi difícil deixar de comer carne. Eu nunca
fui grande fã de carne vermelha, porém comia galinha quase todos
os dias. No começo, foi duro me acostumar com uma rotina de vegetais
e legumes apenas, afinal, eu ainda era mais eu do que ele. Paulatinamente
emagreci o suficiente, até ficar com um manequim similar ao dele. Detestava
álcool, mas passei a beber moderadamente, como ele fazia. Comprei discos
de mpb em vinil e joguei fora todos os meus cd's e k7's de música clássica
e ópera. Cortei minhas madeixas para ter o mesmo penteado dele. Dormia
sempre com foto de Aninha ao meu lado. Na primeira vez que senti saudade dela,
saudade de seu toque, de seu beijo e de seu corpo mesmo sem jamais ter encostado
nela, pude perceber que já estava começando a ser Marco. Havia
anotado o número do telefone dele. Uma tarde lhe telefonei.
- "Alô?"
- "Sr. Marco Fernando Soares Almeida?"
- "Sim, o próprio."
- "Aqui é do Banco Itaú. O sr. já tem conta conosco?"
- "Não..."
- "Pois bem, veja as vantagens de ser um cliente do Banco Itaú..."
Alonguei a conversa até onde a paciência dele permitiu. Liguei mais
três dias seguidos, como fazem esses telefonistas imbecis de bancos ávidos
por arrumar clientes. Já havia conseguido o que queria: ouvir a voz dele
em variações de tons das mais diversas. Até mesmo me arrisquei
em contar uma piada certa vez, e pude ouvir seu riso: era grave, lento e pausado.
Sua voz era exatamente um semitom mais grave que a minha. Seu timbre era firme,
seu modo de falar transmitia confiança e segurança. Uma voz bonita,
admito. Não foi tão difícil fazer com minha voz se tornasse
como a dele, mera questão de hábito. Lembro-me de uma Quarta-feira,
véspera de feriado em que o vi entrando em sua casa com Ana. Senti raiva
de vê-lo com minha...minha? Sim, minha namorada. A mulher que eu tinha tantas
vezes beijado, com quem eu já tinha...eu não tinha feito nada com
ela, mas me sentia como tal. Certa vez, andando na Rua Dias da Cruz, já
devidamente vestido como ele, ouvi alguém gritar:
- "Marco, há quanto tempo!"
Virei-me, e vi um homem conversando com um outro Marco qualquer. Mas notei algo
importante, eu respondi o chamado, como se fosse ele. Dei uma girada em meu pulso
e segui meu caminho, pensando naquilo. Meu nome agora era Marco.
Passei a ter sonhos estranhos. Sonhava com uma senhora de seus cinqüenta
anos que nunca havia visto em minha vida, me abraçando e me beijando.
O sonho mais freqüente que eu tinha era de estar brincando com uma bola
colorida em um quintal, com um estranho cachorro vira-latas. Tinha esse sonho
quase todas as noites. Nunca entendi porquê. Mas viria a compreender mais
tarde.
Após seis meses, o tão esperado dia havia chegado. Queimei todas
as minhas fotos de infância e outras, meus documentos, meus cadernos da
escola, meus livros, minha agenda de telefones e qualquer coisa que remetesse
à pessoa que eu não mais era. Era uma madrugada quando bati no
apartamento de Marco. Ele perguntou quem era.
- "É Marco."- disse.
Talvez impressionado pela voz, que era já idêntica à dele,
ele atendeu. Ficou atônito ao me ver, ao ver a si mesmo. Eu estava idêntico
a ele. Meu desejo de ser seu outro havia me transformado praticamente por
completo.
- "Quem é você???"- indagou ele, perplexo.
- "Eu sou Marco Fernando Soares Almeida. Eu sou você. Você
sou eu."
- "Mas como??? Você..."
Não perdi tempo e agarrei seu pescoço.
- "Estou cansado de ser apenas a cópia de um homem. Estou cansado
de viver uma xerox de sua vida."- falei com calma e frieza.
- "O que você quer???"
- "Vim pegar o que me é de direito. Não quero as sobras,
quero o prato principal."
E foi assim que peguei sua vida. Matei Marco Fernando Soares Almeida. Tomei seu
lugar. Sufoquei-o com minhas mãos. Em certas culturas indígenas
digerem-se as carnes dos mortos para se adquirir seus conhecimentos. Esse era
o estágio final de minha transformação, ser de vez Marco
Fernando Soares Almeida. Mutilei seu corpo com uma faca de cozinha para devorar
suas carnes. Primeiro abri seu tronco e parti para seus intestinos. Enquanto mastigava-os,
centímetro por centímetro, senti meus olhos pegarem fogo. Senti
poder. Em cerimônias egípcias de embalsamento os intestinos eram
retirados e colocados em uma urna, pois acreditava-se que esses tinham poderes
mágicos. Essas urnas seriam colocadas em uma barca, simbologia para a ida
ao Além. Demônios tentavam se apoderar dessa urna, cobiçando
tal poder. Eu cobicei o poder e consegui-o. Pensava nisso enquanto sorvia aquelas
vísceras gordas e deliciosas. Pude sentir toda a magia, todo tipo de encanto
que havia na mente de Marco. Suas memórias de infância, suas lembranças
de seus tempos de inocência pueril, as coisas na vida que lhe davam mais
prazer e riso, tudo de bom que havia em seu coração.
Diferente foi quando mordisquei seu fígado. O sabor amargo de bílis
me trouxe à memória a morte de João Soares Almeida, o pai
de Marco...o meu pai, quando eu tinha sete anos. Lembrei-me da primeira paixão
de Marco, que me traiu com meu melhor amigo. Lembrei-me do dia em que o avô
de Marco...que meu avô faleceu. Chorava enquanto mastigava aquela coisa
horrível. Eu era ele cada vez mais e mais.
Enquanto mastigava seu baço, tinha vontade de rir. Sentia cócegas
no corpo, sentia-me embriagado, sentia a presença de amigos, de minha
namorada...já gargalhava quando tinha acabado de digerir toda a víscera
glandular. Eu havia engolido todas as alegrias que ele tivera em vida. Olhei
para o rosto de Marco e me assustei. Não sei se por delírio, mas,
tinha um sorriso em seu rosto. Um sorriso idiota, como o de um palhaço.
Comecei a rir novamente. Em meu riso, senti contrações na musculatura
de minha face. Meu sorriso agora era definitivamente idêntico ao sorriso
daquele grande palhaço morto à minha frente. Sim, um grande rei
morto não passa de um palhaço. Eu era o Rei agora.
Dado minhas divagações antropofágicas, devorar o coração
de Marco era algo que muito me entusiasmava. Tinha meu corpo e minhas roupas
todas sujas de sangue dele...de meu sangue. Minha fome era tanta que em duas
mordidas engoli seu coração por inteiro. Na primeira mordida,
de olhos fechados, pude ver Ana. Senti de uma vez só todos os orgasmos
que eu e ela tivemos juntos. Senti o amor que ela tinha por mim acalentar meu
peito e fazer de mim um homem feliz. Na segunda mordida já não
conseguia lembrar de jeito nenhum meu antigo nome, esqueci de vez a pessoa que
eu era antes de ser Marco. A minha personalidade havia por completo sido substituída
pela dele. Ele era eu por completo agora.
- "Queria que Ary estivesse aqui para ver isso agora."- pensei.
Já estava enjoado, cheio e satisfeito de mastigar as carnes de Marco, mas
não podia mais parar. Parti seus rins com a faca, e comi pedaço
por pedaço, lenta e pausadamente. Seus desejos íntimos mais secretos
vieram à minha mente. À medida que seguia em meus atos de canibalismo,
adquiria mais uma peça de quebra-cabeça chamado Marco Fernando Soares
Almeida. Minha cobiça em ser rico, em mudar de emprego, em sair daquela
maldita firma de contabilidade, em me casar com Ana e ter um filho...os desejos
íntimos e maiores ambições de Marco eram os meus desejos
agora.
Arranquei cuidadosamente os dois olhos das órbitas de Marco. Foi uma
tarefa mais delicada do que eu podia imaginar que fosse: Não queria macular
aqueles lindos olhos que, coincidentemente ou não, eram da cor dos meus.
Contemplava em minha mão aquelas duas bolotas brancas cheias de nervos.
A íris castanha, salpicada de miríades amareladas. Pareciam querer
me dizer algo. Lancei os dois na boca como se comesse dois ovinhos de codorna.
Rasguei-os com meus caninos, mastiguei-os com os molares. Vi à minha
frente imediatamente, passando num flash, páginas e mais páginas
de cadernos e livros. Todos as letras, todas as partes de conhecimento que ele
tinha agora eram parte apenas de meu saber.
Saboreei seu pé, dedo por dedo, do mindinho até o polegar, mastigando
com deleite e prazer. A perna eu fiz questão de fatiar aos poucos. Mutilei
aquela batata de sua perna com precisão e comi tira por tira. Com as
coxas fui mais agressivo, pois arranquei as carnes com os dentes, como um leão
devorando um antílope. Sentia-me mais e mais forte a cada dentada. Sentia-me
soberano, poderoso. A cada minuto eu me sentia mais animal, mais soberano, como
um rei das selvas. Quando somente sobravam de suas pernas seus ossos e a imensa
poça de sangue, cheguei a rugir, como um leão selvagem. Não
sei, por estar ainda extasiado, fui mais bizarro para devorar seu pênis
e seus testículos. Arranquei-os e os triturei no liquidificador. Comi
suas partes íntimas como carne moída. As carnes de seus órgãos
sexuais, suas pernas e seus pés, misturados à todos os seus pêlos
me deram um tesão louco. Lembrei-me de todas as mulheres que eu...que
Marco...que eu havia tido em vida.A minha primeira vez com aquela prima no meu
quarto, a Tatiana, minha primeira namorada, como trepávamos como coelhos...todas
as mulheres que desejei e que nunca tive, de como adorava foder com Ana, a namorada
de Marco...a minha, minha, minha namorada. Tive uma ereção instantânea,
um calor insano tomou meu corpo, e só relaxei depois de me masturbar
três vezes seguidas. Ainda tinha serviço a fazer. A transformação
não estava completa. Meu rito de canibalismo em comer as carnes de Marco,
do rito que transformaria o outro no Eu ainda não estava
concluído.
Demorei quase duas horas para fatiar totalmente seus braços, mãos,
além de camadas e camadas de carnes do peito. Minha barriga estava estufava,
eu flatulava como um porco, arrotava, passava mal, sentia tontura, mas a fome
não passava. Comi tudo, até que só faltou sua cabeça.
Peguei aquela cabeça de olhos vazados. Olhei-a fixamente. Corri até
o banheiro.
Pus ela ao meu lado. Era a minha cabeça. A face, idêntica à
minha.
Estendi a cabeça à minha frente com minha mão direita,
à altura de meu olhar. Não pude evitar o clichê shakespereano:
- "Ser ou não ser, eis a questão?"
Meu riso foi instantâneo. Abri a mandíbula daquela cabeça
e arranquei sua gorda e espessa língua com minha santa lâmina. Engoli
quase sem mastigar. A imagem de meu corpo nu banhado de sangue em frente ao espelho
foi a resposta para a pergunta. Com meus dentes apenas terminei o serviço,
comendo suas faces, nariz, orelhas. Destruí seu crânio com meus punhos.
Mastiguei seu cérebro com voracidade, como se destroçasse uma couve-flor.
Estava terminado. Olhei-me no espelho e vi Marco Fernando Soares Almeida.
Uma semana havia se passado desde a grande transformação. Era uma
Segunda.
Eu era Marco.
Apesar de ainda não estar absolutamente acostumado com esse fato, eu era
Marco. Gostava de afirmar isso para mim mesmo. O outro havia se tornado
o Eu principal. Refletia sobre isso quando tocou a campainha. Eu era Marco.
Abri a porta. Ela Ana. Essa me deu aquele sorriso maravilhoso que só ela
sabia dar e se agarrou comigo, enroscando sua língua na minha, amassando
seus lábios contra os meus.
- "Que saudade!"- disse ela, me abraçando e me beijando.
Conversamos sobre coisas que aconteceram conosco. Lembramos episódios
Engraçados. Momentos belos. Fizemos um sexo maravilhoso. Assistimos um
filme na Tela quente. O filme era fraco, ela dormiu no meio dele. Ela nem
mesmo desconfiou de leve que eu era o outro, o outro que de mero
sósia passou a original. Era incrível como minha voz havia ficado
idêntica à voz dele, como as memórias dele haviam se instalado
em minha mente, em como eu falava de coisas que nunca haviam acontecido comigo
como se tivessem ocorrido. Fantástico. Eu era Marco. De vez.
Folheando um álbum velho de fotos, vi uma foto que me estarreceu, isso
dois dias depois. Vi uma foto de Marco quando criança, num quintal, brincando
com uma bola e um cão. A mesma bola, o mesmo quintal, o mesmo cão
que povoavam meus sonhos meses antes. Eu sonhava com memórias dele mesmo
antes de ser ele, mesmo quando apenas desejava ser ele. Mágico. A senhora
de cinqüenta que surgia para mim em sonhos também estava nas fotos:
Era a minha mãe. Não pude conter as lágrimas ao ver a foto
de João, João Soares Almeida, meu pai. Eu era Marco. Eu era Marco.
Eu era Marco. E fui Marco por dias, semanas, meses, anos. Cheguei a encontrar
pessoas na rua que conheci quando ainda não era Marco, quando nem cogitava
essa história toda de ser outro. Elas não me reconheceram
e eu somente lembrei delas com muito, muito esforço. Eu era Marco agora.
Tinha até esquecido o nome que eu tinha antes de ser Marco. E à
medida que os anos passavam me esquecia mais e mais do meu eu anterior.Os
anos passavam e eu era mais e mais Marco. Casei com Ana. Passei em um concurso
público e arrumei um emprego com um salário muito bom. Compramos
uma casa grande no Grajaú. Tivemos um filho, João, nome que pus
em homenagem ao meu pai. Eu era feliz. Muito feliz. Eu era Marco. E fui Marco
por vinte e cinco anos mais.
Foi numa noite que tudo mudou.
Ana e João estavam fora. João tinha saído com amigos dois
dias antes, foram viajar, passar uns dias fora em Angra dos reis. Ana tinha ido
visitar a mãe de manhã, mas, devido à chuva intensa que assolou
vários pontos do estado naquele dia, ela dormiria por lá. Voltaria
apenas de manhã. Tinha acabado de falar com ela no telefone. Chovia muito
ainda. Trovejava. Fui ao banheiro e me olhei no espelho: Eu, Marco, no auge de
meus cinqüenta e quatros. Cabelos começando a escassear e grisalhear.
Uma discreta barriga se formando. A saúde não mais a mesma. Mas
eu me sentia feliz. Eu era Marco.
Fui para meu escritório. Estava trabalhando em meu novo livro. Depois de
ter me tornado Marco, publiquei um livro de contos que me rendeu um grande sucesso.
Dentre todos os contos, o mais célebre deles foi justamente um chamado
Meu Outro, no qual eu narrava minha experiência com a auteridade.
Como eu havia previsto, foi muito fácil escrevê-lo, afinal, eu estava
narrando fatos reais...as academias literárias se regozijaram ante meu
talento. Volta e meia algumas teses de Doutorado estudavam o meu conto. Ele já
havia sido incluído na Bibliografia básica de alguns cursos de Literatura
de algumas universidades também. Não fiquei rico com esse livro
ou os outros que escrevi, ainda dependia financeiramente de meu cargo público...mas
ora, outros grandes escritores não ficaram ricos com seu trabalho literário.
O próprio Carlos Drummond de Andrade era funcionário público.
Só o fato de saber que o nome Marco Fernando Soares Almeida era sempre
lembrado como o de um grande nome da literatura pós-moderna já me
realizava muito. Eu realmente tinha uma vida ótima. A campainha tocou,
e interrompeu meu serviço. Estranhei e fiquei preocupado: era quase uma
da manhã. Quem seria?
- "Quem é?"- perguntei. Não conseguia distinguir o rosto
pelo olho mágico.
Quase tive um enfarto quando ouvi do outro lado da porta:
- "É Marco."
Como assim? Abri a porta. E vi a mim mesmo à minha frente. Tinha a minha
frente Marco Fernando Soares Almeida. Exatamente do mesmo jeito que eu estava:
Ele, Marco, no auge de seus cinqüenta e quatro anos, cabelos começando
a escassear e grisalhear. Uma discreta barriga se formando. Era Marco, era Marco
à minha frente.
- "Mas como..."- minha frase foi interrompida por um murro muito bem
dado que me lançou ao chão. Acho que a saúde dele estava
bem melhor que a minha.
- "Eu odeio você..."- disse ele, fervilhando de raiva. Seus olhos
castanhos pareciam pegar fogo.
- "Como?? Eu tomei seu lugar!!! Eu te matei!!!"- berrei, em pânico.
- "Você matou Marco, realmente. Você era seu outro, e
tomou o lugar dele. Mas eu...ah, seu cretino...você estragou tudo..."
Não entendia nada.
- "Quem é você?"- perguntei, tentando me levantar, antes
de tomar um chute absurdamente forte no estômago. Aquilo foi como um coice
de um cavalo! Como doía...
Ele me pegou pelo colarinho, me olhou nos olhos. Seu rosto era exatamente igual
ao de Marco, era exatamente igual ao meu.
- "Eu sou teu outro."
Senti um inevitável calafrio.
- "Como...?"
- "Você realmente tem a ingenuidade de pensar que só você
poderia se dar ao luxo de ser o outro de alguém? Você decidiu
ser o outro de Marco, mas eu já havia decidido ser teu outro! E aí,
você me arma essa palhaçada..."
- "Que...que palhaçada?"- perguntei.
- "Qual? Você ainda pergunta qual? "- Ele me deu um outro soco.
Senti um molar meu amolecer.
- "No meio do processo, da transformação, que me faria ser
seu outro, você decide ser o outro de alguém...poderíamos
ter tido um diálogo fabuloso, como o de Borges com seu outro naquele
conto maravilhoso, O outro...e aí, o que você me obriga a fazer?"
Ele me olhou nos olhos. Chorava. Chorava de raiva. Gritava comigo.
- "Olha pra mim!!! Olha pra mim, cretino. Eu sou o outro de um outro!!!
Sou a xérox de uma xérox!!! Eu me transformei na cópia de
um homem que já era cópia de outro!"
Seu choro distorcia sua voz, que, por sinal, era igual a minha, era igual à
de Marco. Não pude evitar de sentir culpa, uma culpa horrível.
- "Você tem idéia dos anos de crise existencial que você
me fez perder? Anular, apagar sua própria personalidade para se tornar
outra pessoa já não é fácil...e quando se faz isso
para se tornar outro homem que por sua vez teve a sua própria personalidade
anulada...quem me garante que o próprio "Marco original" já
não era cópia de outro? Hein? Seu imbecil! Filho da puta! Idiota!
Fodido de merda! - a cada xingamento pronunciado eu recebia um soco muito bem
dado na mandíbula. Que força ele tinha! Caído no chão,
zonzo, olhei para meu outro, para a cópia da cópia de Marco.
Cheguei a vê-lo girar seu pulso umas três vezes. Cuspindo sangue,
fiz a pergunta mais idiota do mundo:
- "O que você vai fazer comigo?"
- "O que você acha?"- disse ele, e pegou meu pescoço com
as duas mãos. - "Vim pegar o que me é de direito." - dizia,
enquanto me estrangulava. - "Não quero as sobras, quero o prato principal."
E foi assim que ele pegou minha vida, foi assim que ele tomou meu lugar. Marco
me matou. Ele agora era, de vez, Marco Fernando Soares Almeida.
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