A Garganta da Serpente
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Meu outro

(Flaveus van Neutralis)

Certa feita em diálogo com meu grande amigo Ary Pimentel conversava sobre a questão do outro na Literatura Hispano-Americana. Seu conhecimento acerca do assunto era largo, dado seus anos de experiência como Professor Titular da disciplina Fundamentos da cultura da América Hispânica pela faculdade de Letras da UFRJ. Ary, a certo ponto de nossa conversa, muito empolgado com seus próprios argumentos, disse-me:

-"Todo bom escritor, ouso dizer, já teve seu outro."

E deu-me exemplos. O mais clássico e o mais respeitável a meu humilde ver foi o de Jorge Luiz Borges, o qual brindou-nos com seu memorável conto chamado O outro. No referido texto, Borges, velho, encontra a si mesmo, jovem, e tem ambos têm um diálogo formidável. Fiquei com aquilo na cabeça por alguns dias, não sei se pela força da frase ou pela expressão que Ary tinha em seu olhar. Sei que uma semana depois, andando na rua, tomei um grande susto: vi, de longe, uma pessoa que era muito parecida comigo. Os longos cabelos encaracolados e negros, o mesmo jeito de andar...no mesmo segundo lembrei-me de meu colóquio com Ary e de suas palavras. Será que eu, humilde escritor, tão pequeno perante um Borges da vida, teria um outro só para mim? Será que eu teria o privilégio de dialogar comigo mesmo mais velho, mais novo, ou, quem sabe, se não for pedir demais, até mesmo na mesma faixa etária? Minhas suposições vieram e se foram rápido demais: Por estar o rapaz em questão contra a luz eu apenas tinha visto seu vulto, e ainda por cima de longe. Vindo em minha direção pude ver que, de fato, seus cabelos e seu jeito de andar eram bastante parecidos com os meus...mas seu rosto, seus olhos, seu corpo, opostos, bastante opostos. Não posso negar que tive uma estranha e instantânea frustração. Por alguns dias, estivesse eu em qualquer lugar que eu estivesse, sempre olhava para os lados, prestava atenção nas pessoas, em seus semblantes, seus cacoetes, os tons e timbres de suas vozes, sempre buscando uma ou mais semelhanças, sempre em busca de meu outro. Se minha busca por um lado falhou, por outro ajudou a inflar minha auto-estima, já que passei a me sentir como o mais ímpar e o mais único dos seres humanos. Ora, vamos ser bem honestos, quem nunca foi confundido com outra pessoa na rua? Quem nunca ouviu um comentário do tipo "você é a cara de fulano, você se parece com beltrano, etc"? Comentários desse tipo denotam o quanto sempre somos parecidos com alguém e o quanto sempre existe alguém parecido conosco rondando por aí. "Vi uma pessoa na rua que era muito parecida com você!" é um comentário que todos certamente já ouviram. Quer dizer, quase todos: eu nunca ouvi. As palavras de meu bom amigo Ary ecoavam na minha cabeça: Será que eu nunca poderia ter meu próprio conto versando sobre meu outro ? Minha fixação pela idéia me fez passar algumas noites tentando escrever algo sobre o assunto, mas só produzi lixo. Eu não conseguia escrever sobre algo que eu não houvesse de alguma forma vivenciado. A experiência do outro não poderia gerar um bom conto sem inspiração, sem a experiência desse fato. Em suma, eu precisava, eu queria um outro para ser um grandioso escritor. Eu não era, nem de longe, um Jorge Luiz Borges...mas eu já tinha três livros publicados e havia obtido razoável projeção. E eu queria muito crescer mais como escritor. Todo bom escritor já tivera seu outro, assim me disse Ary. Por que eu não poderia ter um também? Por que eu não poderia ser também...grande? Foi então numa certa noite bem quente, deitado em minha cama, que tive um estalo, uma brilhante idéia. Ora, para que tentar encontrar um outro meu se eu poderia ser o outro de alguém? Em princípio a idéia me pareceu um pouco insossa, dado que, que graça existe em sempre ser uma mera sombra de alguém, uma cópia de um outro, o feio negativo preto-e-branco de uma bela foto colorida? Em verdade, a idéia é ridícula, exceto por um detalhe: eu não pretendia apenas ser um outro, mas tomar o lugar do meu original. A idéia me pareceu ótima, algo como se uma sombra se revoltasse, matasse seu dono e passasse a tomar seu lugar. Levantei-me da cama empolgado. Ora, o outro de Borges não havia matado-o, nem vice-versa. Além de entrar nesse "Clube da auteridade literária" eu ainda carregia uma particularidade em relação aos demais colegas de pena: a morte de meu outro.Tendo tomado minha decisão, só me faltava agora decidir de quem eu seria outro. Não poderia ser qualquer homem, não poderia ser qualquer um. Teria que ser alguém especial, alguém que me despertasse uma atenção singular, que fosse digno de me ter como outro. Não havia parâmetros ou pré-requisitos para que essa escolha fosse feita: Ela simplesmente seria feita por instinto e pronto. Uma escolha feita por feeling , assim digamos. Em dado momento, eu teria uma revelação.

E a revelação veio finalmente.

Uma tarde fria, eu andava pelo Méier e tinha acabado de comprar um livro em uma banca. Sentei-me em um banco de pedra e comecei a folhear o exemplar de Os sertões que tinha acabado de adquirir. Quando o vi.

No primeiro segundo que o vi, percebi que tinha finalmente encontrado ele, o homem de quem eu seria outro.

Por uma agradável coincidência, ele fazia exatamente o mesmo que eu. Estava sentado em uma mesa de pedra lendo exatamente o mesmo livro que eu havia recentemente adquirido. Ele era mais magro que eu, tinha cabelos curtos e negros, olhos da minha cor, um rosto fino, vestia roupas leves e claras e tinha alguns anéis nos dedos. Meu fascínio por ele foi instantâneo. Fiquei a observá-lo, discretamente. Notei que ele tinha um tique engraçado de sempre dar uma girada no pulso, ocasionalmente. Prestei atenção até mesmo no intervalo de tempo que ele deixava entre uma girada e outra: aproximadamente cinco minutos e meio. Franzia a testa quando lia, mas somente quando lia. Quando caminhava, seus ares eram de um homem bastante tranqüilo. Pude perceber isso quando o segui até o que me pareceu ser sua casa, um apartamento na Rua Dias da Cruz. Algumas semanas depois consegui ter a sorte grande de comprar um apartamento muito perto do dele. Agora me seria mais fácil saber quem ele era, e, mais rapidamente, ser seu outro.

Tentarei ser o mais breve e o menos maçante possível em minhas colocações acerca dos meses em que me empenhei em descobrir coisas sobre aquele homem. Descobrir sobre sua rotina diária foi relativamente fácil. De Segunda a Sexta ele trabalhava em um escritório de contabilidade no Centro da cidade, das 8:00 da manhã até às 16:00, tendo o almoço de 12:00 às 13:00. Ganhava o suficiente para viver bem, nem muito, nem pouco. Era responsável. Algumas sextas feiras saía com amigos para beber. Não era alcoólatra, bebia bem moderadamente. Não fumava. Remexendo em seu lixo, pude notar que era vegetariano. Não achei, em meses de pesquisa, uma embalagem sequer de qualquer tipo de carne, branca ou vermelha. Bebia bastante refrigerante, comia muito danoninho e tinha uma vida sexual razoavelmente estável. Havia uma menina loira, muito bonita, que estava em sua casa pelo menos uma vez por semana. Sua namorada, provavelmente. A parte mais perigosa foi descobrir seus dados pessoais. Numa madrugada em que ele não estava em casa eu invadi seu apartamento, como um ladrão faria. Pude ver a maneira como decorava sua casa, como era organizado no seu jeito de guardar as coisas, fotos suas, e, o mais importante: seu nome. Marco Fernando Soares Almeida, um nome grande e bastante comum. Um nome que seria meu daquele momento em diante.

Eu precisava de mais dados pessoais acerca de Marco, e sabia que talvez pudesse achar bastante coisa na porta de sua geladeira. Em verdade: vi, grudada com um ímã, uma foto sua com a tal menina loirinha. A foto era pichada com corações, e nela haviam escritos com hidrocor vermelha os dizeres:

Eu e Aninha em nosso aniversário de um ano de namoro, 22/05/02.

Um namoro recente. Um rapaz romântico, pelo menos em aparência. Vi uma foto sua com amigos, em um bar. Vi um lembrete na porta da geladeira: Ligar para mamãe. Na sala, remexendo em uma pequena agenda telefônica, pude pegar os telefones de Ana, sua namorada, e de sua mãe. Vi também sua coleção de discos e k-7's de grandes nomes da mpb. E na sala havia uma grande foto sua, quando criança.

Não me demorei muito. Logo voltei para meu apartamento. A mudança estava para começar. Foi difícil deixar de comer carne. Eu nunca fui grande fã de carne vermelha, porém comia galinha quase todos os dias. No começo, foi duro me acostumar com uma rotina de vegetais e legumes apenas, afinal, eu ainda era mais eu do que ele. Paulatinamente emagreci o suficiente, até ficar com um manequim similar ao dele. Detestava álcool, mas passei a beber moderadamente, como ele fazia. Comprei discos de mpb em vinil e joguei fora todos os meus cd's e k7's de música clássica e ópera. Cortei minhas madeixas para ter o mesmo penteado dele. Dormia sempre com foto de Aninha ao meu lado. Na primeira vez que senti saudade dela, saudade de seu toque, de seu beijo e de seu corpo mesmo sem jamais ter encostado nela, pude perceber que já estava começando a ser Marco. Havia anotado o número do telefone dele. Uma tarde lhe telefonei.

- "Alô?"

- "Sr. Marco Fernando Soares Almeida?"

- "Sim, o próprio."

- "Aqui é do Banco Itaú. O sr. já tem conta conosco?"

- "Não..."

- "Pois bem, veja as vantagens de ser um cliente do Banco Itaú..."

Alonguei a conversa até onde a paciência dele permitiu. Liguei mais três dias seguidos, como fazem esses telefonistas imbecis de bancos ávidos por arrumar clientes. Já havia conseguido o que queria: ouvir a voz dele em variações de tons das mais diversas. Até mesmo me arrisquei em contar uma piada certa vez, e pude ouvir seu riso: era grave, lento e pausado. Sua voz era exatamente um semitom mais grave que a minha. Seu timbre era firme, seu modo de falar transmitia confiança e segurança. Uma voz bonita, admito. Não foi tão difícil fazer com minha voz se tornasse como a dele, mera questão de hábito. Lembro-me de uma Quarta-feira, véspera de feriado em que o vi entrando em sua casa com Ana. Senti raiva de vê-lo com minha...minha? Sim, minha namorada. A mulher que eu tinha tantas vezes beijado, com quem eu já tinha...eu não tinha feito nada com ela, mas me sentia como tal. Certa vez, andando na Rua Dias da Cruz, já devidamente vestido como ele, ouvi alguém gritar:

- "Marco, há quanto tempo!"

Virei-me, e vi um homem conversando com um outro Marco qualquer. Mas notei algo importante, eu respondi o chamado, como se fosse ele. Dei uma girada em meu pulso e segui meu caminho, pensando naquilo. Meu nome agora era Marco.

Passei a ter sonhos estranhos. Sonhava com uma senhora de seus cinqüenta anos que nunca havia visto em minha vida, me abraçando e me beijando. O sonho mais freqüente que eu tinha era de estar brincando com uma bola colorida em um quintal, com um estranho cachorro vira-latas. Tinha esse sonho quase todas as noites. Nunca entendi porquê. Mas viria a compreender mais tarde.

Após seis meses, o tão esperado dia havia chegado. Queimei todas as minhas fotos de infância e outras, meus documentos, meus cadernos da escola, meus livros, minha agenda de telefones e qualquer coisa que remetesse à pessoa que eu não mais era. Era uma madrugada quando bati no apartamento de Marco. Ele perguntou quem era.

- "É Marco."- disse.

Talvez impressionado pela voz, que era já idêntica à dele, ele atendeu. Ficou atônito ao me ver, ao ver a si mesmo. Eu estava idêntico a ele. Meu desejo de ser seu outro havia me transformado praticamente por completo.

- "Quem é você???"- indagou ele, perplexo.

- "Eu sou Marco Fernando Soares Almeida. Eu sou você. Você sou eu."

- "Mas como??? Você..."

Não perdi tempo e agarrei seu pescoço.

- "Estou cansado de ser apenas a cópia de um homem. Estou cansado de viver uma xerox de sua vida."- falei com calma e frieza.

- "O que você quer???"

- "Vim pegar o que me é de direito. Não quero as sobras, quero o prato principal."

E foi assim que peguei sua vida. Matei Marco Fernando Soares Almeida. Tomei seu lugar. Sufoquei-o com minhas mãos. Em certas culturas indígenas digerem-se as carnes dos mortos para se adquirir seus conhecimentos. Esse era o estágio final de minha transformação, ser de vez Marco Fernando Soares Almeida. Mutilei seu corpo com uma faca de cozinha para devorar suas carnes. Primeiro abri seu tronco e parti para seus intestinos. Enquanto mastigava-os, centímetro por centímetro, senti meus olhos pegarem fogo. Senti poder. Em cerimônias egípcias de embalsamento os intestinos eram retirados e colocados em uma urna, pois acreditava-se que esses tinham poderes mágicos. Essas urnas seriam colocadas em uma barca, simbologia para a ida ao Além. Demônios tentavam se apoderar dessa urna, cobiçando tal poder. Eu cobicei o poder e consegui-o. Pensava nisso enquanto sorvia aquelas vísceras gordas e deliciosas. Pude sentir toda a magia, todo tipo de encanto que havia na mente de Marco. Suas memórias de infância, suas lembranças de seus tempos de inocência pueril, as coisas na vida que lhe davam mais prazer e riso, tudo de bom que havia em seu coração.

Diferente foi quando mordisquei seu fígado. O sabor amargo de bílis me trouxe à memória a morte de João Soares Almeida, o pai de Marco...o meu pai, quando eu tinha sete anos. Lembrei-me da primeira paixão de Marco, que me traiu com meu melhor amigo. Lembrei-me do dia em que o avô de Marco...que meu avô faleceu. Chorava enquanto mastigava aquela coisa horrível. Eu era ele cada vez mais e mais.

Enquanto mastigava seu baço, tinha vontade de rir. Sentia cócegas no corpo, sentia-me embriagado, sentia a presença de amigos, de minha namorada...já gargalhava quando tinha acabado de digerir toda a víscera glandular. Eu havia engolido todas as alegrias que ele tivera em vida. Olhei para o rosto de Marco e me assustei. Não sei se por delírio, mas, tinha um sorriso em seu rosto. Um sorriso idiota, como o de um palhaço. Comecei a rir novamente. Em meu riso, senti contrações na musculatura de minha face. Meu sorriso agora era definitivamente idêntico ao sorriso daquele grande palhaço morto à minha frente. Sim, um grande rei morto não passa de um palhaço. Eu era o Rei agora.

Dado minhas divagações antropofágicas, devorar o coração de Marco era algo que muito me entusiasmava. Tinha meu corpo e minhas roupas todas sujas de sangue dele...de meu sangue. Minha fome era tanta que em duas mordidas engoli seu coração por inteiro. Na primeira mordida, de olhos fechados, pude ver Ana. Senti de uma vez só todos os orgasmos que eu e ela tivemos juntos. Senti o amor que ela tinha por mim acalentar meu peito e fazer de mim um homem feliz. Na segunda mordida já não conseguia lembrar de jeito nenhum meu antigo nome, esqueci de vez a pessoa que eu era antes de ser Marco. A minha personalidade havia por completo sido substituída pela dele. Ele era eu por completo agora.

- "Queria que Ary estivesse aqui para ver isso agora."- pensei.

Já estava enjoado, cheio e satisfeito de mastigar as carnes de Marco, mas não podia mais parar. Parti seus rins com a faca, e comi pedaço por pedaço, lenta e pausadamente. Seus desejos íntimos mais secretos vieram à minha mente. À medida que seguia em meus atos de canibalismo, adquiria mais uma peça de quebra-cabeça chamado Marco Fernando Soares Almeida. Minha cobiça em ser rico, em mudar de emprego, em sair daquela maldita firma de contabilidade, em me casar com Ana e ter um filho...os desejos íntimos e maiores ambições de Marco eram os meus desejos agora.

Arranquei cuidadosamente os dois olhos das órbitas de Marco. Foi uma tarefa mais delicada do que eu podia imaginar que fosse: Não queria macular aqueles lindos olhos que, coincidentemente ou não, eram da cor dos meus. Contemplava em minha mão aquelas duas bolotas brancas cheias de nervos. A íris castanha, salpicada de miríades amareladas. Pareciam querer me dizer algo. Lancei os dois na boca como se comesse dois ovinhos de codorna. Rasguei-os com meus caninos, mastiguei-os com os molares. Vi à minha frente imediatamente, passando num flash, páginas e mais páginas de cadernos e livros. Todos as letras, todas as partes de conhecimento que ele tinha agora eram parte apenas de meu saber.

Saboreei seu pé, dedo por dedo, do mindinho até o polegar, mastigando com deleite e prazer. A perna eu fiz questão de fatiar aos poucos. Mutilei aquela batata de sua perna com precisão e comi tira por tira. Com as coxas fui mais agressivo, pois arranquei as carnes com os dentes, como um leão devorando um antílope. Sentia-me mais e mais forte a cada dentada. Sentia-me soberano, poderoso. A cada minuto eu me sentia mais animal, mais soberano, como um rei das selvas. Quando somente sobravam de suas pernas seus ossos e a imensa poça de sangue, cheguei a rugir, como um leão selvagem. Não sei, por estar ainda extasiado, fui mais bizarro para devorar seu pênis e seus testículos. Arranquei-os e os triturei no liquidificador. Comi suas partes íntimas como carne moída. As carnes de seus órgãos sexuais, suas pernas e seus pés, misturados à todos os seus pêlos me deram um tesão louco. Lembrei-me de todas as mulheres que eu...que Marco...que eu havia tido em vida.A minha primeira vez com aquela prima no meu quarto, a Tatiana, minha primeira namorada, como trepávamos como coelhos...todas as mulheres que desejei e que nunca tive, de como adorava foder com Ana, a namorada de Marco...a minha, minha, minha namorada. Tive uma ereção instantânea, um calor insano tomou meu corpo, e só relaxei depois de me masturbar três vezes seguidas. Ainda tinha serviço a fazer. A transformação não estava completa. Meu rito de canibalismo em comer as carnes de Marco, do rito que transformaria o outro no Eu ainda não estava concluído.

Demorei quase duas horas para fatiar totalmente seus braços, mãos, além de camadas e camadas de carnes do peito. Minha barriga estava estufava, eu flatulava como um porco, arrotava, passava mal, sentia tontura, mas a fome não passava. Comi tudo, até que só faltou sua cabeça.

Peguei aquela cabeça de olhos vazados. Olhei-a fixamente. Corri até o banheiro.

Pus ela ao meu lado. Era a minha cabeça. A face, idêntica à minha.

Estendi a cabeça à minha frente com minha mão direita, à altura de meu olhar. Não pude evitar o clichê shakespereano:

- "Ser ou não ser, eis a questão?"

Meu riso foi instantâneo. Abri a mandíbula daquela cabeça e arranquei sua gorda e espessa língua com minha santa lâmina. Engoli quase sem mastigar. A imagem de meu corpo nu banhado de sangue em frente ao espelho foi a resposta para a pergunta. Com meus dentes apenas terminei o serviço, comendo suas faces, nariz, orelhas. Destruí seu crânio com meus punhos. Mastiguei seu cérebro com voracidade, como se destroçasse uma couve-flor. Estava terminado. Olhei-me no espelho e vi Marco Fernando Soares Almeida.



Uma semana havia se passado desde a grande transformação. Era uma Segunda.

Eu era Marco.

Apesar de ainda não estar absolutamente acostumado com esse fato, eu era Marco. Gostava de afirmar isso para mim mesmo. O outro havia se tornado o Eu principal. Refletia sobre isso quando tocou a campainha. Eu era Marco.

Abri a porta. Ela Ana. Essa me deu aquele sorriso maravilhoso que só ela sabia dar e se agarrou comigo, enroscando sua língua na minha, amassando seus lábios contra os meus.

- "Que saudade!"- disse ela, me abraçando e me beijando.

Conversamos sobre coisas que aconteceram conosco. Lembramos episódios

Engraçados. Momentos belos. Fizemos um sexo maravilhoso. Assistimos um filme na Tela quente. O filme era fraco, ela dormiu no meio dele. Ela nem mesmo desconfiou de leve que eu era o outro, o outro que de mero sósia passou a original. Era incrível como minha voz havia ficado idêntica à voz dele, como as memórias dele haviam se instalado em minha mente, em como eu falava de coisas que nunca haviam acontecido comigo como se tivessem ocorrido. Fantástico. Eu era Marco. De vez.

Folheando um álbum velho de fotos, vi uma foto que me estarreceu, isso dois dias depois. Vi uma foto de Marco quando criança, num quintal, brincando com uma bola e um cão. A mesma bola, o mesmo quintal, o mesmo cão que povoavam meus sonhos meses antes. Eu sonhava com memórias dele mesmo antes de ser ele, mesmo quando apenas desejava ser ele. Mágico. A senhora de cinqüenta que surgia para mim em sonhos também estava nas fotos: Era a minha mãe. Não pude conter as lágrimas ao ver a foto de João, João Soares Almeida, meu pai. Eu era Marco. Eu era Marco. Eu era Marco. E fui Marco por dias, semanas, meses, anos. Cheguei a encontrar pessoas na rua que conheci quando ainda não era Marco, quando nem cogitava essa história toda de ser outro. Elas não me reconheceram e eu somente lembrei delas com muito, muito esforço. Eu era Marco agora. Tinha até esquecido o nome que eu tinha antes de ser Marco. E à medida que os anos passavam me esquecia mais e mais do meu eu anterior.Os anos passavam e eu era mais e mais Marco. Casei com Ana. Passei em um concurso público e arrumei um emprego com um salário muito bom. Compramos uma casa grande no Grajaú. Tivemos um filho, João, nome que pus em homenagem ao meu pai. Eu era feliz. Muito feliz. Eu era Marco. E fui Marco por vinte e cinco anos mais.

Foi numa noite que tudo mudou.

Ana e João estavam fora. João tinha saído com amigos dois dias antes, foram viajar, passar uns dias fora em Angra dos reis. Ana tinha ido visitar a mãe de manhã, mas, devido à chuva intensa que assolou vários pontos do estado naquele dia, ela dormiria por lá. Voltaria apenas de manhã. Tinha acabado de falar com ela no telefone. Chovia muito ainda. Trovejava. Fui ao banheiro e me olhei no espelho: Eu, Marco, no auge de meus cinqüenta e quatros. Cabelos começando a escassear e grisalhear. Uma discreta barriga se formando. A saúde não mais a mesma. Mas eu me sentia feliz. Eu era Marco.

Fui para meu escritório. Estava trabalhando em meu novo livro. Depois de ter me tornado Marco, publiquei um livro de contos que me rendeu um grande sucesso. Dentre todos os contos, o mais célebre deles foi justamente um chamado Meu Outro, no qual eu narrava minha experiência com a auteridade. Como eu havia previsto, foi muito fácil escrevê-lo, afinal, eu estava narrando fatos reais...as academias literárias se regozijaram ante meu talento. Volta e meia algumas teses de Doutorado estudavam o meu conto. Ele já havia sido incluído na Bibliografia básica de alguns cursos de Literatura de algumas universidades também. Não fiquei rico com esse livro ou os outros que escrevi, ainda dependia financeiramente de meu cargo público...mas ora, outros grandes escritores não ficaram ricos com seu trabalho literário. O próprio Carlos Drummond de Andrade era funcionário público. Só o fato de saber que o nome Marco Fernando Soares Almeida era sempre lembrado como o de um grande nome da literatura pós-moderna já me realizava muito. Eu realmente tinha uma vida ótima. A campainha tocou, e interrompeu meu serviço. Estranhei e fiquei preocupado: era quase uma da manhã. Quem seria?

- "Quem é?"- perguntei. Não conseguia distinguir o rosto pelo olho mágico.

Quase tive um enfarto quando ouvi do outro lado da porta:

- "É Marco."

Como assim? Abri a porta. E vi a mim mesmo à minha frente. Tinha a minha frente Marco Fernando Soares Almeida. Exatamente do mesmo jeito que eu estava: Ele, Marco, no auge de seus cinqüenta e quatro anos, cabelos começando a escassear e grisalhear. Uma discreta barriga se formando. Era Marco, era Marco à minha frente.

- "Mas como..."- minha frase foi interrompida por um murro muito bem dado que me lançou ao chão. Acho que a saúde dele estava bem melhor que a minha.

- "Eu odeio você..."- disse ele, fervilhando de raiva. Seus olhos castanhos pareciam pegar fogo.

- "Como?? Eu tomei seu lugar!!! Eu te matei!!!"- berrei, em pânico.

- "Você matou Marco, realmente. Você era seu outro, e tomou o lugar dele. Mas eu...ah, seu cretino...você estragou tudo..."

Não entendia nada.

- "Quem é você?"- perguntei, tentando me levantar, antes de tomar um chute absurdamente forte no estômago. Aquilo foi como um coice de um cavalo! Como doía...

Ele me pegou pelo colarinho, me olhou nos olhos. Seu rosto era exatamente igual ao de Marco, era exatamente igual ao meu.

- "Eu sou teu outro."

Senti um inevitável calafrio.

- "Como...?"

- "Você realmente tem a ingenuidade de pensar que só você poderia se dar ao luxo de ser o outro de alguém? Você decidiu ser o outro de Marco, mas eu já havia decidido ser teu outro! E aí, você me arma essa palhaçada..."

- "Que...que palhaçada?"- perguntei.

- "Qual? Você ainda pergunta qual? "- Ele me deu um outro soco. Senti um molar meu amolecer.

- "No meio do processo, da transformação, que me faria ser seu outro, você decide ser o outro de alguém...poderíamos ter tido um diálogo fabuloso, como o de Borges com seu outro naquele conto maravilhoso, O outro...e aí, o que você me obriga a fazer?"

Ele me olhou nos olhos. Chorava. Chorava de raiva. Gritava comigo.

- "Olha pra mim!!! Olha pra mim, cretino. Eu sou o outro de um outro!!! Sou a xérox de uma xérox!!! Eu me transformei na cópia de um homem que já era cópia de outro!"

Seu choro distorcia sua voz, que, por sinal, era igual a minha, era igual à de Marco. Não pude evitar de sentir culpa, uma culpa horrível.

- "Você tem idéia dos anos de crise existencial que você me fez perder? Anular, apagar sua própria personalidade para se tornar outra pessoa já não é fácil...e quando se faz isso para se tornar outro homem que por sua vez teve a sua própria personalidade anulada...quem me garante que o próprio "Marco original" já não era cópia de outro? Hein? Seu imbecil! Filho da puta! Idiota! Fodido de merda! - a cada xingamento pronunciado eu recebia um soco muito bem dado na mandíbula. Que força ele tinha! Caído no chão, zonzo, olhei para meu outro, para a cópia da cópia de Marco. Cheguei a vê-lo girar seu pulso umas três vezes. Cuspindo sangue, fiz a pergunta mais idiota do mundo:

- "O que você vai fazer comigo?"

- "O que você acha?"- disse ele, e pegou meu pescoço com as duas mãos. - "Vim pegar o que me é de direito." - dizia, enquanto me estrangulava. - "Não quero as sobras, quero o prato principal."

E foi assim que ele pegou minha vida, foi assim que ele tomou meu lugar. Marco me matou. Ele agora era, de vez, Marco Fernando Soares Almeida.

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A B C D E F G H
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A B C D E F G H
I J K L M N O P
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