| Flaveus van Neutralis |
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Dias futuros de um passado desconhecido
(Flaveus van Neutralis)
Como estava frio naquela noite! De quando em vez
algumas frentes frias baixavam no Rio de Janeiro, tudo bem... Mas aquela estava
demais! Era uma noite de 15 de Maio de 2002. Olhei no relógio, meia noite e
meia em ponto. Eu ia a pé para a minha residência,totalmente agasalhado, duas camisas, um casacojeans bem grosso...estava ansioso, muito
ansioso. Não via a hora de chegar em casa- meu experimento estava prestes a ser
concluído!
Girei a chave na maçaneta com certa violência,
passei como um furacão pela sala e corri em direção de meu porão. Acendi a luz,
e contemplei o maquinário que eu estava construindo. Coloquei em cima da mesa o
meu motivo de chegar em casa tão tarde da madrugada: uma caixa cheia de coisas
miúdas que para leigos seriam apenas um monte de parafusinhos, fiozinhos e trequinhos eletrônicos, mas, que para
mim , poderiam significar a realização de um dos maiores sonhos da humanidade.
Instalei os últimos componentes no motor da minha máquina, conferi e re-conferi
os planos, as anotações, revisei a programação em meu computador, respirei
fundo e julguei estar pronto um trabalho de vinte e dois anos ininterruptos.
-‘Agora vem a pior parte...’- falei comigo mesmo, em
voz alta-‘ O teste’. Eu nem gostava de imaginar como seria se o teste mostrasse
que aquela máquina não passava de uma caixa de metal cheia de fiações, bastões
que vibravam de maneira engraçada, chips
de computador e placas de programação...uma invenção ridícula de um cientista
maluco desocupado. Eu tinha até medo de testá-la - mas era preciso. Sentei-me à frente de meu computador, e comecei a digitar as coordenadas e os cálculos. A
cada tecla apertada meu coração batia cada vez mais rápido. Quando estava tudo
pronto, olhei para minha máquina. Ela brilhava. Parecia que queria falar
comigo.
-‘É agora.’- falei, antes de pressionar oenter do computador e ver se a mágica
acontecia ou não. Nesse exato instante a escandalosa campainha de minha casa
tocou, fazendo-me pular da cadeira, tamanho fora meu susto. Olhei no relógio:
quatro e quinze da madrugada. Quem seria?
Subi as escadas com pressa, atravessei a sala de
estar com impaciência, e olhei pelo olho mágico da porta. Ninguém.
-‘Quem é?’- imbecilmente insisti. Abri a porta,
enraivecido. Olhei para os lados e não
vi ninguém. Xinguei uns dois palavrões desses mais comuns, que todos xingam
quando se sentem enganados. Algum cretino desocupado deve ter tocado a
campainha e ido embora, só pra me fazer vir até aqui atender e não encontrar
ninguém. Eu ia fechar a porta quando percebi que havia um imenso cesto ç minha
porta.
Abaixei-me. Era um cesto enorme, coberto por um
paninho colorido. Que Diabo era aquilo? Levantei o pano, e caí para trás
tamanho meu espanto: Havia dentro dele um bebê!
Trouxe o cesto para dentro, imerso em um pânico
absoluto. Estava praticamente uma era glacial lá fora, como alguém, como algum
irresponsável, algum criminoso poderia abandonar uma criança em tais condições,
arriscada a contrair uma pneumonia ou até mesmo morrer? Levantei o pano de
novo: O bebezinho dormia um sono tranqüilo, enrolado em diversas camadas de uma
grossa colcha de lã. Pelo menos a criança parecia estar bem. Como já seria de
se esperar, havia um bilhete dentro do cesto. Abri, e li uma mensagem que
dizia:
O nome desse
bebê é Rosa. Você saberá cuidar dela melhor do que eu.
A mensagem havia sido digitada no computador e
impressa. Estava agoniado. Que mente doentia poderia deixar uma criança na
porta de alguém? Rosa era tão pequena, devia ser pouco mais que uma
recém-nascida...Tentei esquecer a raiva que sentia pelo cretino do pai e pela
meretriz da mãe que haviam deixado aquela criança ali e comecei a tentar pensar
em coisas práticas. Era muito difícil eu ficar desnorteado, sem saber que
atitude tomar em frente a problemas, mas era exatamente assim que eu me sentia
naquele instante. Como é que uma coisa dessas foi acontecer comigo, logo eu,
justo eu? Isso é coisa de cinema, de desenho animado.Precisava decidir o que
fazer. O que eu iria fazer com aquela criança? Eu não tinha condições
financeiras ou mesmo psicológicas para tomar conta daquela menina. O que eu
poderia fazer? Dá-la para adoção? Tentar encontrar sua família? Meu Deus, o que
eu deveria fazer?
Foi nesse momento que Rosa começou a acordar.
Espreguiçou-se tão sutilmente a pobre menininha, parecia uma florzinha
desabrochando. Abriu os olhinhos: eram de um azul forte, coincidentemente como
os meus. Pensei que ela fosse começar a chorar, mas não: ficou a me olhar
fixamente, calada. Até que ela me surpreendeu abrindo o sorriso mais lindo que
alguém poderia abrir. O sorrisinho de Rosa tocou meu coração de uma forma que
poucas vezes alguém havia tocado em vida. Senti-me de uma forma que jamais
havia sentido antes.
Naquele instante abençoei o fato de existirem seres
que, cientes de sua própria irresponsabilidade e falta de amor ç vida, dessem ç
outros uma chance de terem uma razão para viver. Daquele instante em diante
minha máquina não seria mais minha única razão de viver. Minha paixão, meu amor
e minha devoção tinham agora um segundo alvo: Rosa. Rosa, minha filha.
***
- ‘Nana nenê, que a cuca vem pegar...papai foi na
roça, mamãe foi passear...’
Devia ser a ducentésima vez que eu cantava aquela
canção. Tinha Rosinha em meus braços, pondo-a para dormir. Quase uma hora e meia
havia passado, mas, para mim , pareciam apenas alguns minutos. Eu amava
Rosinha, minha filha, e demoraria o tempo que fosse para colocá-la
confortavelmente em seu beicinho e fazer com que ela sonhasse com anjos. Saí do
quarto de minha filha, deixando ela imersa em seu sono, e desci para o porão
novamente. Desde que Rosinha fora dada de presente para mim eu não havia feito
o teste da minha invenção, o teste definitivo de minha máquina, minha máquina
do tempo.
Eu me lembro quando era criança de ter assistido em
alguns desenhos animados algumas coisas engraçadas a respeito de máquinas do
tempo. Era um assunto realmente clichê, visto que vários episódios de cartoons
diferentes abordavam o assunto de alguma forma. Aquilo me fascinava e
alimentava meus sonhos, enchendo a minha cabecinha juvenil de idéias e mais
idéias. Quase sempre, quando brincava com meus coleguinhas, fazíamos um jogo de
faz-de-conta em alguma época. O velho Oeste, os tempos pré-históricos, e,
claro, épocas futuristas. Muitas noites eu ficava divagando, imaginando como
seria o futuro. Daria de tudo para saber como seria. E o passado? Como os
dinossauros haviam sido extintos? Jesus Cristo realmente havia existido? E as
grandes pirâmides, como teriam elas sido criadas? Teria existido a grande
Atlântida? Todos os grandes fatos e feitos da humanidade, a história das
civilizações, as lendas, as verdades e as mentiras...como eu sonhava com
aquilo. Foi com quase quinze anos de idade que tomei a minha decisão: iria me
empenhar na pesquisa e desenvolvimento de uma máquina do tempo.
Tal sonho evidentemente me tomaria muito tempo e
investimento, mas paciência, disciplina e perseverança eram as minhas maiores
qualidades. Fiz uma prolífica e sólida carreira em Física Quântica. Gastei
muito dinheiro em livros e material, perdi noites a fio estudando feito um
possuído, desenhei planos e possibilidades, estudei e pesquisei de todas as
formas possíveis. Criar um aparelho que pudesse simplesmente passear pelo tempo
e pela estrutura das épocas não seria uma tarefa das mais simples. Para ser
honesto, seria uma das coisas mais difíceis do mundo. Quase impossível, em
verdade. Eu teria que transformar uma idéia abstrata em algo concreto, real,
através de Leis da Física Quântica. Em teoria, eu teria que arranjar um meio de
desestruturar os átomos que compõe um corpo, e reestruturá-los em outro local,
no caso, outra época. Depois de dez anos de pesquisa e muito dinheiro, consegui
criar uma máquina capaz de separar os átomos de qualquer ser. Quantos ratos
foram sacrificados, desintegrados dentro de uma cápsula estranha até que eu
conseguisse com que um deles pudesse sumir da realidade para depois reaparecer,
com o simples apertar de um botão! Agora seria uma questão de fazer com que ele
ressurgisse não no mesmo local, mas em outro que eu pré-determinasse.
Desenvolvi um programa que fazia uma espécie de mapeamento do perímetro de toda
uma área, ajustado-a dentro de coordenadas, de modo que eu pudesse fazer com
que o pobre animal reaparece num ponto específico dessas coordenadas. Muitos
desapareceram para sempre. Somente após cinco anos de testes frustrados, remontagens,
planejamentos e reconstruções que eu consegui fazer com que um rato fosse posto
dentro da linda caixinha de metal destinada a teletransportar matéria e
consegui fazer com que ele ressurgisse no outro lado da sala. Agora vinha a
pior parte: Fazer com que ele reaparecesse em outro lugar, e em outra época. Me
lembro como se fosse ontem do dia que sentei em meu sofá, passei minhas mãos na
cabeça, e pensei: Como? Como viajar através da quarta dimensão? A explicação mais plausível que
encontrei foi a de que, quanto mais rápido se anda, mais rápido o tempo
passa... portanto, quanto mais próxima da velocidade da luz um corpo estiver,
mais rápido o tempo passaria para este corpo. Se o corpo superasse a velocidade
da luz, o tempo poderia regredir para este corpo. Logo, tive que fazer com que
o pequeno receptáculo que comportasse o corpo se movimentasse na velocidade que
eu desejasse. Me custaram anos, anos para desenvolver um sistema eletrônico que
criasse um campo magnético que regulasse a velocidade da caixinha. Desenvolvi
um cálculo insano e totalmente hipotético segundo o qual determinada medição de
tempo seria equivalente a um avanço ou retrocesso de minutos, meses ou anos no
tempo. Havia chegado o dia, o dia do grande teste. Programei a máquina para
avançar a cápsula em quinze minutos no tempo e reaparecer no final de meu
porão, no canto esquerdo. Os bastonetes que envolviam a máquina brilharam, e
criaram um campo que girava mais e mais e mais rápido, até que obliterasse por
completo a visão da cápsula, e, por fim, desaparecesse junto com ela.
-´Agora só me
resta esperar´.
Foram os quinze minutos mais longos da minha vida. Olhava no relógio de
segundo em segundo.O tempo não passava
de jeito nenhum. Olhei no cronômetro. 2 minutos. O tempo não passa? Dei uma
volta até a cozinha e voltei. 5 minutos. Ainda? Folheei uma revista. Olhei o
cronômetro. 7 minutos. Meu nervosismo somente aumentava. Fitei o cronômetro
novamente. 10 minutos. Faltavam só cinco. Tantos anos de estudo, será que agora
finalmente eu conseguiria realizar meu grande sonho? Levantei, andei um pouco
pelo porão, para me distrair. 12 minutos e 30 segundos. Olhei para meu pé, e
notei que meu cadarço estava desamarrado. Fiquei muito feliz, havia achado uma
distração para mais alguns segundos. Amarrei o cadarço da forma mais vagarosa
possível, tentando não pensar no assunto. Olhei no relógio. 14 minutos e 30
segundos. 31. 32. 33. 34. Peguei um lenço, enxuguei meu suor. Rezei para que a
campainha não tocasse, que o telefone não tocasse, que Rosa não chorasse. Não
queria sair dali naquele instante, por nada. 14 minutos e 45 segundos. 46. 37.
48. 49. 50. ‘Faltam só dez segundos!’- exclamei. 57. 58. 59...15 minutos
cravados.
Nada aconteceu.
Afundei na
cadeira, sentindo nos ombros o peso de uma frustração imensurável. Mais uma
vez, mais uma vez fui destruído, derrotado por minhas próprias ilusões. Parece
que o velho sonho da máquina do tempo estava destinado mesmo a ser nada mais do
que um sonho. Sentei na minha cadeira, e liguei a televisão que havia em meu
quarto, desolado. Fiquei assistindo um pouco do Corujão. Nenhum pensamento passava pela minha mente. Me sentia
vazio. Até que algo aconteceu.
Um brilho veio
detrás de mim. Olhei para o canto da sala, e, para minha alegria, a cápsula
havia surgido no canto! Por uma sorte única, havia me esquecido de desligar o
cronômetro. A máquina não retornou quinze minutos depois, mas cinqüenta e sete
minutos depois. Meu cálculo de velocidade em relação ao tempo avançado era
apenas uma hipótese, eu devia ter suposto que poderia ter errado! O que me
deixava mais feliz era que, tendo noção daquele erro, eu poderia agora
reprogramar a máquina dentro das coordenadas corretas, o que me faria
transportar um corpo para quando eu quisesse que ele fosse! Segurava a cápsula
em meus braços com o mesmo amor com que eu segurava Rosa, minha filhinha.
Chorava. Era o dia mais feliz da minha vida.
Não perdi tempo, e
refiz o teste. Programei a máquina para surgir, dessa vez, daqui a cinco
minutos, em cima de minha cadeira. Ajustei as coordenadas, os cálculos. O mesmo
brilho, o mesmo desaparecimento. Exatos cinco minutos após, lá estava ela, se
materializando em cima de meu frio assento. O sonho havia se tornado real.
Tinha vontade de gritar, de espernear de emoção, mas não podia fazê-lo, para
não acordar minha filhinha. Queria ligar para todos os meus amigos, contar o
que houve, mas ninguém acreditaria em mim. E além do mais, ninguém sabia que eu
estava a conduzir uma pesquisa dessa espécie. Era um segredo. O maior de todos
os segredos da humanidade. O segredo que poderia fazer de mim o maior homem de
todos os tempos. Um segredo que poderia fazer de mim um homem mais amado e
venerado que Cristo, ou mais detestado que o próprio Hitler. Um segredo que
poderia destruir minha vida. Era um segredo, e assim deveria permanecer: Um
segredo, um sombrio e ao mesmo tempo iluminado segredo.
***
O céu cintilava
numa cor que eu nunca havia visto em minha vida.
O vento frio
emaranhava meus cabelos, e me remetia a uma sensação que eu raramente tinha:
medo.
A terra misturada
com areia, fétida, úmida, os mares negros. Olhava para os lados. Nada e mais
nada, nada além de nada. Montanhas escuras, frio, um céu de uma cor
indescritível...Andei por quilômetros e mais quilômetros. Nada encontrei.
Calçadas quebradas, destroçadas, ruas quebradas, vergalhões enferrujados,
prédios e casas inteiras em bom estado, porém, tudo abandonado e envelhecido.
Era como se tudo ali tivesse sido deixado para trás. Era ali que eu estava, no
futuro.
Um ano e meio após
ter concluído minha máquina do tempo, consegui adaptá-la para transportar
pessoas. Desenvolvi um traje que era composto por várias tiras, estas repletas
de eletroldos e bastonetes, que formavam o campo magnético que vibrava na
velocidade que me transportaria para quando eu bem entendesse. Trazia comigo um
laptop, acoplado em minha cintura,
como se fosse uma pochete. Com
esse dispositivo eu determinava meus rumos. Essa era a minha primeira viagem no
tempo. Estava a conhecer o futuro. O ano? Muitos anos ç frente do que qualquer
escritorzinho de ficção científica poderia imaginar, e, ao mesmo tempo, não tão
distante assim. O mundo estava diferente, esquisito. Não sabia se o ar podia
ser respirado, por isso usava uma máscara que cobria meu nariz e boca, esta
ligada por um tudo a um pequeno aparelho que me fornecia oxigênio. Não
arriscaria morrer sufocado num mundo que eu não conhecia. Onde eu pisava,
parecia estar abandonado. Andei por algumas cidades. Era interessante, elas não
estavam destruídas, apenas envelhecidas e abandonadas. Não vi vestígio de
animal algum, nem homem, nada. Nem um esqueleto sequer. Sinais de guerra?
Nenhum. Teletransportei-me para um outro ponto do planeta. Uma praia, estranha,
onde a areia e as águas eram tão escuras quando ébano. Toquei a areia: gelada.
Coloquei um pouco dela em um frasco e o amarrei em meu cinto. Fui até a beirada
da água. Colhi um pouco daquele líquido denso e enegrecido e o pus em um frasco
também. Fiquei alguns segundos a fitar aquele mar. Calmo, sereno, quase sem
ondas. Tinha uma curiosidade imensa de retroceder um pouco, algumas décadas,
somente para saber o que houve com o planeta e o que fez com que abandonássemos
nossa Terra. Percebi por onde andava que não encontrava árvores, plantas,
animais ou outras fontes de alimento quaisquer. Deduzi que o planeta havia
ficado escasso. A mãe terra deve ter se enchido de nós. Ou então, nós que
acabamos com ela. Tinha medo de saber a verdade. Queria sabê-la, mas ao mesmo
tempo, tinha medo. Dei uma última olhada naquela terra triste e programei-me
para voltar a meu tempo, para um ponto exatamente poucos segundos após a minha
saída. Pus-me a analisar aquelas amostras de terra e água, e poucas horas
depois descobri algo assustador. Naquela amostra de terra, nenhum tipo de
planta teria condições para crescer. Naquele tipo de água, espécie alguma de
organismo marinho poderia viver. Então era esse o destino da humanidade? Esse
era o destino ridículo, monstruoso e clichê da humanidade?
Subi as escadas.
Minha filhinha estava em seu quarto, dormindo. Imaginei que espécie de futuro
estava destinado para ela. Eu poderia mudar o futuro, mudar tudo...eu tinha nas
minhas mãos uma chance para mudar o destino de toda a humanidade. A questão
era, será que eu deveria fazê-lo? Bem ou mal, será que a humanidade não mereceu
o destino que vi? Olhei mais uma vez para minha menina. Passei a mão em sua
cabecinha e beijei sua testa. Não consegui dormir aquela noite. A imagem
daquele mundo decadente estava encalacrada em minha mente. Queria nunca ter
visto aquilo. Por um instante, desejei até nunca ter criado a máquina do tempo.
A ignorância poderia ser mesmo uma bênção em certos casos.
***
-´Papai, olha só! Já consigo ler!´
Como era esperta a minha doce Rosa. Com cinco
aninhos, na minha frente, lendo em voz alta para mim as falas de umgibi da turma da Mônica. Como dava gosto
ver a minha Rosinha assim, feliz. Quase chorei de emoção quando ela terminou de
ler. Bati palmas, coloquei ela no colo, enchi-a de beijos. Ela me olhava com
aqueles olhinhos azuis tão lindinhos, Como eu amava minha Rosa, como eu a
amava. À tarde eu a levei para um parque de diversões. Ela se divertia tanto,
era tão bom vê-la brincar feliz em todos aqueles brinquedos coloridos. E pensar
que num futuro próximo todos eles não passariam de sucata ao vento, destroços
de um mundo arruinado...Não, não queria pensar nisso! Não queria pensar no
futuro, somente no presente, naquele momento em que eu e minha doce Rosa
vivíamos. De noite, pus ela em sua caminha, exausta, coitadinha. Sentei na sala
de estar, e comecei a assistir um pouco de televisão. Não sentia sono algum.
Via um documentário sobre as grandes civilizações. Egito Antigo, a Grécia, o
Império Romano...e imediatamente algumas idéias me vieram ç mente.
Conhecia aquele comichão, aquela inquietação. Sabia
exatamente o que fazer para acalmá-la.
Desci até o porão, tirei minhas roupas, amarrei em
volta de meu corpo as tarjas e a fiação da máquina do tempo. Prendi olaptop em meu cinturão especial,
vesti-me novamente, e resolvi viajar. Para quando agora? Para ontem. Uma viagem
em destino a um ontem qualquer. Pensei bem. Ajustei as coordenadas, fui envolto
pelo campo de força que girava ç minha volta mais rápido que a velocidade da
luz, e o tempo andou para trás, só para mim.
***
O grande monstro rosnava, ç minha frente.
Estava na ilha de Creta, a belíssima e calorosa ilha
de Creta. Eu o vi, o jovem e corajoso rapaz entrar no Labirinto. Não acreditava
que tudo aquilo pudesse ter sido verdade, mas quis averiguar. Esperei um tempo
para que ele tomasse bem a dianteira- não queria esbarrar com ele- e entrei no
labirinto de pedra em seu encalço. Realmente, garoto esperto esse. Amarrou uma
corda na saída e assim poderia se guiar dentro do Labirinto. Graças aos céus eu
tinha uma lanterna comigo. Caminhei por aqueles corredores fedendo a sangue. Vi
vísceras, tripas e pedaços de corpos humanos lá. Respirava fundo, continha meu
vômito e comecei a me arrepender de ter entrado ali. Senti medo, mas a minha
curiosidade de ver se o mito era real me fazia ir adiante. No cômodo ao lado
ouvi sons aterradores. Cascos pesados se arrastando no chão, um bufar selvagem,
golpes...um rosnado. Virei o corredor, e vi o grande Minotauro, monstro imenso
meio homem meio touro, esmurrando o jovem Teseu. Sua espada já estava ao chão.
A mão do monstro estava no pescoço do semi-inconsciente rapaz, e seria uma
questão de segundos para aquela besta horrorosa mutilar o garoto. Resolvi tomar
uma atitude. Projetei a luz da lanterna em sua luminosidade máxima diretamente
nos olhos do bicho. Como já era de se esperar, a fera ficou atordoada e largou
o rapaz. Prontamente, saquei meu revólver e dei um tiro no peito do monstro,
bem no coração. Golpe de sorte, muita sorte, tinha um bom tempo que eu não
utilizava um revólver. O chão tremeu quando o imenso Minotauro caiu. Olhei para
o garoto. Estava muito ferido, mas não a um nível fatal. Iria acordar logo,
provavelmente, já que aparentava ser um homem bem vigoroso e resistente. Olhei
para sua espada no chão. Não pensei duas vezes: Tomei-a em minhas mãos e a
cravei no peito do monstro exatamente onde havia atingido com a bala e pus a
espada suja do sangue negro do homem-touro na mão de Teseu. Dei uma última
olhada na besta. Horrenda. Enorme. Devia ter quase uns três metros de altura,
calculei. Tipo de criatura que até mesmo morta metia medo. Tremi e corri para
fora daquele Labirinto. Até hoje não sei como consegui fazer tudo aquilo. Teseu
ficou conhecido em todo o mundo Grego. O rei Minos foi destronado. A lenda era
real. Graças a mim, o mito e a história eram reais.
***
Estava em casa, num momento de insônia. Sentado em
meu sofá, passeando entre canais e mais canais. Até que meus olhos bateram num
documentário sobre o Antigo Egito. Eu sempre me interessei por assuntos
relativos a grandes civilizações, especialmente quando se tratava do Egito
Antigo. Infelizmente o documentário estava no final. Num surto de curiosidade,
ampliado por minha absoluta falta de sono, fui procurar alguma coisa que eu
tivesse sobre o assunto. Eu tinha uma coleção de livros, bastante completa e
detalhada, sobre a vida e as lendas do referido período. Queria pegá-la para
reler. Gostava de reler certas coisas. Infelizmente, minha preguiça de remexer
pilhas de livros e tirar caixas de papéis do lugar somente me fez encontrar uma
revista que falava sobre Pirâmides. Era uma revista pequena, velha, muito
velha, faltavam algumas páginas. Sentei-me e dei uma folheada. Numa página, uma
parte me chamou a atenção:
A mais antiga
pirâmide que se conhece data da III dinastia. Até o final da II dinastia os
túmulos dos soberanos e dos nobres egípcios eram constituídos de uma câmara
funerária cavada profundamente no solo, sobre a qual se erigia uma estrutura
baixa, de paredes verticais, de teto achatado, com base retangular, construída
com tijolos de lama cozidos ao sol, que ficaram conhecidas com o nome de
mastabas. A mais antiga das pirâmides constituía-se dessas mastabas. O
idealizador deste tipo de construção foi o sábio Imhotep, proeminente figura do
reinado do faraó Djoser. Essa é provavelmente a única pirâmide desse tipo que
foi concluída.
E junto havia fotos e um esquema detalhado em 3-D da
construção da pirâmide, que permitiria que qualquer arquiteto razoável
reconstruísse algo daquele porte. Olhei para a porta que dava para o meu porão
‘mágico’. Sorri com malícia. Sempre quis ver as pirâmides de perto.
O mal desses estudos sobre a Antiguidade era esse:
Nunca se tinha uma data exata das
coisas. Sempre se usavam termos irritantes como “aproximadamente”, “acredita-se”, “há indícios que”...esse último
então me dava nos nervos. Eu sou e sempre fui um homem de certezas, ora pois!
Eu também não podia culpar ninguém, eu tinha cada idéia: Calculei uma data
aproximada e resolvi ir ver as malditas pirâmides. Acho que errei pois já havia
percorrido quilômetros e mais quilômetros de Egito Antigo e não vi uma mísera
Pirâmide. Que raiva. Eu devia ter ido embora, mas a velha curiosidade dos
cientistas...
Minha máquina do tempo me permitia fazer alguns
teleportes que encurtavam minha viagem. Nada de pirâmides. Abri a revista, que
eu havia trazido por acidente, e dei uma olhada no plano de Imhotep. O homem
era um gênio, realmente. Mau-humorado, enrolei a revista e pus no meu cinto.
Continuei minha peregrinação. Vi uma cidade, um indício de civilização. Muito
inteligentemente eu vestia-me com um manto para ocultar minha máquina do tempo
e minha aparência, que era naturalmente diferente do resto do povo. Caminhava
por aquele lugar fascinante. Eu devia ter ido embora, devia, devia mesmo, mas a
velha curiosidade dos cientistas...As pessoas, as casas. as vestes, tudo
exatamente como vemos em museus e filmes. Até que eu vi: O templo. O grande
templo central. Era lindo. Eu devia ter ido embora, era o que eu devia ter
feito...mas, como já seria de esperar de um cientista, eu não fui.
Graças ao meu aparelho de teleporte pude pôr-me
dentro do templo com facilidade. Entrar pela porta principal seria uma hipótese
inexistente, afinal. Andava com cuidado. Vi vasos que deviam valer mais que
minha própria casa. Eu deveria ter levado comigo uma máquina fotográfica,
deveria mesmo. Andava calmamente, mas procurando não chamar a atenção de
ninguém. Em um dado momento quase tive um ataque cardíaco: Ia dobrar um
corredor em que um homem moreno com o dobro do meu tamanho saía de um cômodo.
Devia ser um guarda. Descuidado, ele deixou a porta entreaberta. A velha
curiosidade dos cientistas...eu abri a porta. Incrível: Era uma sala de
tesouro. Ouro, jóias, vestimentas reais... Não existem palavras suficientes
para definir o que eu via. Ajoelhei-me, olhando aquela cena com lágrimas nos
olhos. Peguei algumas jóias nas mãos...elas tinham um brilho que quase me
cegou. Tanta coisa valiosa, se eu pegasse e levasse algo, será que o grande
faraó sentiria falta? Eu poderia fazer tanta coisa, dar tanta coisa para
Rosinha com aquele dinheiro todo. Qualquer arqueólogo seria capaz de me vender
a própria alma pela menor daquelas jóias! Mas o que nós cientistas temos de
curiosos, devemos ter de burros também, só pode ser. é a única explicação plausível
para o fato de algumas pessoas tão geniais serem ao mesmo tempo tão cretinas.
Eu saí da sala sem pegar nada, nem um anel, nem um vasinho, nem um grama de
porcaria preciosa nenhuma. A velha moral besta de que “Não se pode alterar as
areias do tempo...”. Eu e meu moralismo.
Na verdade, admito, o que me bateu foi o velho sentimento de
sinceridade. Lembrei-me de uma vez em que Rosinha pegou na escola um brinquedo
da colega dele. Fiz ela devolver no dia seguinte, briguei com ela, disse que
roubar era feio. Eu não poderia olhar para o rostinho lindo de minha filha
sabendo que eu ensinaria uma coisa que eu mesmo não havia cumprido, por isso
não peguei nada. Um cientista íntegro. Idiota, porém íntegro, de fato. Quando
saí da sala, tive mais certeza ainda de minha idiotice: Ouvi vozes numa língua
que evidentemente não era a minha e vi dois guardas na esquina oposta do
corredor me olhando. Agora era tarde. Nunca fui atleta, mas em momentos de
desespero a adrenalina nos dá capacidade de fazer coisas incríveis mesmo. Corri
como o Diabo. “Eu devia ter ido embora, mas a velha curiosidade dos
cientistas...a velha imbecilidade dos cientistas!”. Eu só pensava em acionar o
dispositivo no meu cinto, sair daquele lugar belíssimo e maldito e voltar para
os doces abraços de minha filha. Precisava parar em algum lugar para programar
o meu traje. Consegui despistar aqueles brutamontes e entrei em um cômodo. Era
um quarto enorme e bonito. Havia um homem deitado na cama, nu. Ele demonstrava
um misto de pavor e irritação com a minha presença. Ele falava coisas que eu
obviamente não entendia, mas eu tinha uma forte suspeita que ele estaria
dizendo coisas não muito educadas. Não me importei com aquele homem. Comecei a
mexer em meu cinto e fazer as programações da minha volta. A revista, enrolada,
presa no cinto, me incomodava e me atrapalhava. Na pressa, apavorado com idéia
de ficar preso naquela época, joguei a porcaria do pedaço de papel no chão.
Retirei do cinto o dispositivo- do tamanho de uma agenda eletrônica- e fiz
minhas programações. O homem me olhava agora calado, atônito. A porta se abriu,
os guardas entraram correndo. Não pensei duas vezes em pular pela janela. No
caminho de minha queda ao solo, em uma fração de segundos, as ondas
eletromagnéticas tomaram conta de mim, envolveram meu corpo, e quando eu caí,
caí não nas areias daquele deserto desgraçado, mas no assoalho de minha casa.
Estava de volta.
Minha aventura no Egito Antigo me deixara muito
nervoso. Tudo que eu queria era ver algumas pirâmides, só isso, e quase fui
aprisionado. Fui correndo ao quarto de minha filha e olhei para ela. Chorei,
estava muito nervoso. Por um triz eu não ficara preso em outra época. O que
teria acontecido? Eu teria morrido, provavelmente. Dei uma risada, já que eu
ria feito bobo sempre que eu estava muito nervoso e me dei conta do fato que eu
poderia ter sido o único ser humano que teria morrido numa época anterior ao
seu próprio nascimento. Eu pensava coisas idiotas quando estava nervoso.
Passaram-se semanas, meses. Eu estava arrumando umas
caixas velhas, quando achei aquela coleção de livros sobre o Antigo Egito que
eu estava procurando. Sentei no chão empoeirado e comecei a folhear alguns
tomos. Ri. Aquilo sim era uma forma muito mais segura de conhecer o Antigo
Egito. Peguei o tomo um da coleção sobre as pirâmides. Vi a foto da primeira
delas, aquela que foi projetada por Imhotep. Tinha um esquema detalhado dela,
bastante similar ao da revista. Haviam fotos de hieróglifos e papiros que
tinham os planos arquitetônicos de Imnhotep. O livro exaltava Imnhotep como um
gênio, o grande criador das pirâmides, como um dos maiores, senão o primeiro
grande arquiteto da história da humanidade...quando eu virei a página, larguei
o livro e fiquei da cor da parede: Era uma foto de um busto de Imnhotep, de
ouro, esculpido ç imagem e forma do homem. E qual foi meu espanto ao ver que
ele era ninguém mais ninguém menos que o dono do quarto no qual me refugiei na
fuga dos guardas! Aquele homem que me xingou em egípcio antigo, que me olhou
atônito mexer em parafernálias da minha máquina do tempo, era Imnhotep! E quão
maior foi meu espanto quando me dei conta de um detalhe.
-´A revista...´
A revista havia caído no quarto de Imnhotep.
A revista tinha as plantas, todo o planejamento, um
desenho da pirâmide...tudo. A Revista dizia praticamente como se fazer uma
pirâmide, como eu já falei. Imnhotep viu aquilo. Ele não era grande arquiteto
coisíssima nenhuma. Ele pegou a revista, com certeza. Ele viu os planos. Ele
roubou a idéia. Imnhotep...Que pilantra! Cão ladrão! As pirâmides que tanto me
encantaram na minha infância, que me fizeram gastar dinheiro naquela coleção de
livros, somente existiam por minha causa. Meti a mão na minha própria cara, com
raiva. Eu havia me metido no curso da História mais uma vez com essa máquina do
tempo dos sete infernos. Curiosamente, aqueles livros perderam a graça para
mim. Na semana seguinte fui a um sebo e vendi a coleção toda. Na mesma data em
que vendi os livros, tive mais uma de minhas crises de insônia. O mesmo canal
por assinatura reprisava aquele documentário sobre as pirâmides. Desliguei a
televisão na hora.
***
Era uma tarde chuvosa, mas era uma das tardes
chuvosas mais lindas da minha vida. Era a apresentação da festa junina da
turminha da minha filha. Era a coisa mais graciosa do mundo. Minha princesinha,
na flor dos seus nove aninhos, junto de seus coleguinhas da terceira série,
dançando direitinho a coreografia ensinada pela tia da escola. Filmava tudo com minha câmera. Eu nunca imaginei que
um dia me tornaria um pai assim tão coruja...No
carro, minha querida Rosinha estava tão empolgada e orgulhosa de si mesmo,
tinha um brilho singular nos olhos. “Você viu, papai, na hora que a gente fez
assim?”- e pulava e girava no banco, tentando refazer sentada os passinhos da
dança. Eu apenas sorria. Que mais poderia fazer? Rosa era um sorriso em minha
vida, ela acabava com a minha solidão e dava a mim alguns dos dias mais felizes
da minha existência. Quando essa menininha surgiu em minha porta, senti
desespero, até mesmo aversão, admito. A idéia de ter filhos, de ter que cuidar
de alguém, me enojava. Mas quando vi Rosa um sentimento inexplicável tomou
conta de mim.Já tive namoradas e até mesmo uma esposa antes, mas nenhuma delas
havia me completado, havia me livrado do estigma de solidão que eu carregava há
anos, há décadas. Sempre me senti sozinho, por mais bem-relacionado que eu
fosse em meus tempos de escola e de faculdade, por mais respeitado e admirado
que eu fosse por meus colegas e alunos na Universidade onde lecionei. Quem diria
que uma filha me livraria desse sentimento sombrio que arranhava meu peito por
dentro. Eu nem sentia mais falta de uma namorada, de uma esposa: Tendo Rosa em
minha vida, tudo estaria bom, tudo estaria ótimo. Eu poderia me considerar um
homem feliz. Pus minha doce Rosa na cama, dei-lhe um beijo de boa noite- estava
exausta, pobrezinha- E fiquei olhando minha coisa fofa dormir por um tempo.
Imaginava como ela era boa para mim, como ela era importante na minha vida,
quando tive um estalo: Ela não ficaria comigo para sempre. Rosa um dia
arrumaria um namorado. Aliás, o normal seria até ter mais de um ao longo dos
anos. é óbvio que isso aconteceria, ela era uma menina linda, se tornaria uma
mulher que certamente seria visada por muitos homens, se casaria um dia, sairia
de casa...a idéia me incomodava, não imaginei que esse pensamento me faria mal
assim. Bebia um café na cozinha( péssimo hábito: tomar café de noite, isso
somente alimentava minha insônia.) e refletia, com tristeza, nessa
possibilidade que era quase uma certeza universal. Rosa um dia me deixaria,
como todos os filhos um dia abandonam os pais. Lembro de mim mesmo, nos meus
dezoito anos, quando deixei a casa de meus pais para morar sozinho e seguir meu
caminho. Agora entendo a tristeza de meus pais na época. Meu Deus, eu achava
aquilo tudo um exagero, uma besteira., achava o amor de meus pais exagerado,
meloso, como eu estava errado! Agora que eu era pai eu entendia a dor de ver um
filho ir embora. E no meu caso ainda seria pior, pois minha mãe pelo menos
tinha a meu pai, ambos viviam um casamento feliz, repleto de bastante
companheirismo, respeito e amor sincero. Já eu...se Rosinha partisse...eu
voltaria ser só. A idéia me trazia mais desespero do que eu poderia imaginar.
Eu não queria mulheres, não queria amigos, eu não queria ninguém. Só queria
minha filha perto de mim. Só isso, era tudo que eu queria.
***
O tempo passava, e para mim isso não mais importava.
Previsível: Afinal, eu era o mestre do tempo. Não nego que o poder que eu tinha
desenvolvido para mim mesmo me inflava um pouco o ego...eu assistia
ocasionalmente reportagens sobre cientistas teorizando sobre uma máquina do
tempo.Bando de quadrúpedes! Zombaram tanto de mim com minhas teorias quando
esse negócio de máquina no tempo era apenas coisa de filme de ficção
científica, e agora quebram a cabeça para tentar desenvolver uma máquina.
Dementes. Mal sabem que há no mundo um homem que possui o segredo de todas as
eras na palma de sua mão. Se bem que certa feita um amigo meu me disse que cientistas
secretamente já haviam inventado uma máquina do tempo e que já a teriam
utilizado para fins egoístas. Se isso for verdade- o que duvido, sem querer me
gabar, mas duvido que alguém tenha tido a minha genialidade e minha
perseverança- muita coisa já teria sido alterada e decerto ninguém perceberia.
Talvez apenas eu. Algo muito perigoso mesmo. Por isso que essa minha máquina,
contrariando minha raiva e minha vontade de ganhar renome, fama e dinheiro,
ficaria no mais absoluto sigilo. Refletia sobre isso em meu laboratório quando
ouvi a voz de minha filha lá fora.
-´Papai, o almoço tá pronto.´
Minha filha, Rosinha, no auge de seus quatorze anos,
descobriu um gosto e talento nato para cozinhar. Não que ela quisesse ser uma
dona-de-casa ( nem eu queria isso, botava ela pra estudar bastante, o que, por
sinal, ela gostava muito, dado seu excelente rendimento na escola) mas ela
realmente, por opção, por hobby,
gostava de cozinhar. Coisa que não aprendeu comigo, naturalmente, tendo em
vista que muito mal eu sabia fritar um ovo. Sentei na cozinha. Rosinha tinha
preparado um estrogonofe de frango que parecia estar muito bom.
-´Como foi seu dia, Rosinha?´- perguntei.
-´Fui ç escola, mas fui liberada mais cedo...o
professor tá com a matéria adiantada, aí liberou a turma. Ah, você não sabe o
que me aconteceu hoje...´
Enquanto minha filha servia a comida e falava, sem
querer pude ver por dentro de seu decote. Foi sem querer mesmo, afinal, eu
estava sentado e ela, de pé, se abaixava pra servir a comida. Pude reparar no
belo par de seios que já se formavam em minha filha. Reparei também, quando ela
se virou para colocar a panela em cima do forno, em como suas curvas estavam
realçadas e bem desenvolvidas. Minha filha estava se tornando uma mulher. E que
mulher...
-´...mas você não acha, Pai?´
-´Hã?´- disse eu.
-´Pai, você é muito distraído!! Tou falando há mó
tempão...´
Rimos juntos. Minha filha estava com um sorriso
lindo mesmo. E um rosto maravilhosamente bem desenhado. Um charme mesmo, os
meninos da escola deviam todos cobiçá-la bastante. Ela nunca me falou de menino
nenhum em quem ela estivesse interessada, apesar de que eu também nunca a
pressionei em relação a isso. Rosinha sabia que eu não era seu pai biológico,
sabia que havia sido deixada na porta de minha casa, fiz questão de nunca
esconder isso, desde sua infância. O fato dela saber disso parecia só aumentar
seu amor por mim. Naquela noite, sentado na cadeira de meu laboratório, não
conseguia, não sei porquê, tirar da minha cabeça a imagem de minha própria
filha, que estava virando uma mulher linda. Linda.
Olhei para meu traje temporal. Há um bom tempo eu
não viajava no tempo. Sorri com malícia.
***
O tiro varou o peito de Getúlio, e ele foi ao chão.
- ‘ O senhor precisa morrer, acredite. Será melhor
assim’. Ninguém tem idéia de como é difícil convencer uma pessoa de que ela deve
morrer. O velho presidente Getúlio Vargas passava por maus bocados: Sua imagem
no país já estava indo por água abaixo, e com a propaganda armada depois
daquele incidente todo na Rua Toneleiro as coisas apenas pioraram. Um suicídio
e uma carta dramática, dessas bem piegas, seriam uma estratégia, uma última
tentativa de salvar sua imagem com o populacho. Mas quem disse que o velho
queria se matar?
- ‘ Essa idéia é estapafúrdia! Quem me garante que
isso que você diz poderia ter sentido?’
- ‘Essa é uma pergunta que a História irá responder,
Sr. Presidente.’- e disparou o gatilho. O tiro varou o peito de Getúlio, e ele foi
ao chão. Vi tudo, escondido atrás de uma cortina. A escuridão me auxiliou não
ser notado.
O assassino de Getúlio Vargas olhou ao redor. Foi
até a porta e sinalizou para alguém lá fora. Ouvi-o conversar com uma pessoa.
-´Está feito. Vou deixar a carta agora. Quando eu
sair, a gente estoura a notícia.´
Ele tirou do bolso a famosa carta e deixou próxima
do corpo do presidente Colocou a arma na mão de Getúlio, de
modo como se ele tivesse apertado o gatilho. E saiu. O que veio depois todo
mundo conhece: A histeria coletiva, o choro pela morte do grande populista, o
amor eterno ao pai dos pobres.
Foi assim que suicidaram
Getúlio Vargas.
***
O velho Joaquim José da Silva Xavier embarcava em um
navio na véspera de seu enforcamento.
Rio de Janeiro, 21 de Abril de 1792. Tiradentes,
famoso mentor da Inconfidência mineira é enforcado e mutilado, após passar por um
processo de devassa que durara três anos. Tiradentes negara três vezes sua
participação no movimento, mas no fim confessou tudo e foi condenado. Seus
companheiros de Revolução, burgueses e ricos proprietários, o abandonaram.
Tiradentes, o único pobre do movimento, foi sentenciado. Um bode expiatório.
Seus restos mortais seriam depois enviados e expostos em Minas Gerais. Isso é o
que aprendi nos livros de História. A coisa não foi bem assim.
Certa feita um amigo meu teorizava que Joaquim José
da Silva Xavier não era um miserável alferes, arrancador de dentes como todos
diziam. Ele fazia parte da lendária organização secreta político-burguesa
conhecida como Maçonaria. Na época, não acreditei em sua teoria louca de que ele
fosse maçom.
-´Acredite em mim, companheiro! Você acha mesmo que
um miserável alferes arrancador de dentes seria plenamente aceito como o
mentor ideológico de uma Revolução assim? A Inconfidência Mineira foi um
movimento da elite para a própria elite, só havia membros das classes médias
urbanas envolvidos nisso: padres, poetas, militares, estudantes e proprietários
de terra. Você acha que esse tipo de gente seguiria e daria ouvidos para um
pobretão? Ele fazia parte da maçonaria, que, como você sabe, era uma sociedade
secreta de ordem burguesa. Muitas coisas da História foram diferentes por causa
dos maçons, e essa é uma delas. Acredite: Tiradentes era maçom, e fugiu. Quem
morreu foi um outro qualquer.´
Agora, com minha capacidade de viajar no tempo, pude
ver que meu amigo tinha razão. Vi Tiradentes ser retirado da cadeia na véspera
de sua morte e ser substituído por um pobre-coitado qualquer. Tudo sob o devido
consentimento das autoridades locais, compactuadas com a conspiração. Um
acordo: Poupariam a vida de Joaquim José da Silva Xavier, afinal, o movimento
já estava baratinado de qualquer jeito. Pelo menos naquele momento.
Acompanhei secretamente o trajeto de Tiradentes. O
velho Joaquim José da Silva Xavier embarcava em um navio, na véspera de seu
enforcamento. Era escoltado por seus colegas de seita. Para onde ele ia, eu
nunca soube, e a História, muito menos.
***
Eu sabia que minha máquina do tempo um dia me
levaria longe demais.
Não vou me alongar, prometo. Não dessa vez. Sei que
meus relatos são chatos. As histórias em si que conto são interessantes, mas
minhas narrativas são por demais alongadas. Sempre gosto de dizer como cheguei
ç uma determinada época, sou detalhista, assumo, isso é um velho cacoete de
cientista...todavia, dessa vez, tentarei ser breve.
Suíça. Abril. 1945. Um frio do cão.
Um pequeno campo de pouso vigiado por vários homens
armados. Um avião pousa. Um pequeno grupo de militares sai do avião.
Identifiquei logo que eram americanos, tanto pelo inglês que eles falavam entre
si quanto pela pequena bandeira americana estampada no ombro de suas roupas.Um
segundo avião chega. A suástica imensa estampada em sua couraça já me deu todas
as respostas que eu queria.
Eu sabia que minha máquina do tempo um dia me
levaria longe demais.
Também não vou entrar em detalhes em como consegui
me esconder dentro do galpão onde a conversa seria realizada. Toda a conversa
foi realizada em inglês- no caso dos alemães, em um inglês carregado,
arrastado, cheio de sotaque, mas compreensível.
O gelo foi quebrado por um dos generais nazistas:
-´Que acharam de nossa proposta?´
-´Bastante interessante.´- respondeu, após alguns
segundos de silêncio.
A sala estava repleta de soldados de ambos os lados.
A tensão era evidente. Somente os dois generais alemães demonstravam alguma
calma, e, até um certo bom-humor.
-´Senhores americanos, nossa proposta é irrecusável.
Vocês viram nossos esquemas, nossos planos. Armas biológicas, químicas, bombas,
foguetes...temos os melhores cientistas, os melhores cérebros.sabemos como fazer, só não temos
efetivamente como fazer.´
-´...Por pura falta de recursos.´- completou o
general americano, antes de acender um charuto.
-´Precisamente. Recursos estes que, pelo que nos
constam, não faltam para vocês americanos.´
Silêncio mortal. O porco nazista deu uma longa
olhada nos olhos dos milicos americanos e retomou a fala:
-´O trato é simples: Ordenamos nossa rendição em
todos os territórios que mantemos. No Leste, continuamos a lutar contra os
soviéticos. Resistiremos contra os vermelhos até que vocês possam tomar essas
posições. Estamos lhe dando uma chance para cagar na cabeça desses comunistas
malucos, e sabemos que é isso justamente que vocês mais desejam nesse momento.´
-´E o que vocês querem exatamente em troca?´
O general alemão deu um gole d’água, olhou ç sua
volta, e continuou:
-´Queremos lhe ceder todos esses benefícios em troca
de um pequeno beneplácito.´
-´Qual?´
O nazista olhou no fundo dos olhos do general
americano. Seu olhar era frio como a neve que caía lá fora.
-´Queremos nos realocar. Uma parte qualquer da
América do Sul seria bastante satisfatória para nossos interesses. Os E.U.A podem
supervisionar nossas atividades, ou, até mesmo, trabalhar em conjunto conosco.
Tenho certeza que essa última hipótese lhe seria mais interessante, afinal,
podemos nos ajudar mutuamente de muitas formas.´
-´Deixe-me ver se entendi bem...´- disse o
americano- ´Vocês alemães nos cedem todos esses benefícios de sua ciência e pesquisa e
vocês criariam um novo “Estado Nazista” na América Latina? é isso?´
O alemão sorriu.
-´Podemos colocar vocês americanos na Lua em 1949,
ou até antes, se for o caso.
Podemos ensinar a vocês como criar o soldado
perfeito, imune ç dor e ç tudo, todo criado em laboratório. Podemos lhes dar
nas mãos a arma perfeita. O mundo pode ser nosso, americanos. Todo nosso.´
Eu cronometrei, fiz questão de fazê-lo: 45 segundos
e sete centésimos sem ruído algum antes do militar americano abrir sua boca
cheia de merda e dizer:
-´é um plano interessante. Há mais alguma cláusula?´
-´Sim.´- disse o alemão.- ´O próprioführer vem conosco.´
-´O quê?!´- o espanto foi geral. –´Mas isso...´
-´Pense bem, meu caro amigo americano. O mundo não
precisa saber que ele está vivo. Pelo menos não por enquanto. Hitler não se
importa de dar as ordens por trás dos panos.´
Os ianques se entreolharam. O general americano que
tinha mais estrelas se levantou e estendeu a mão ao comandante alemão. Um
aperto de mãos selou o pacto. Foi por muita sorte nossa que os americanos
falharam em um ponto: Em nenhum momento os aliados ingleses foram notificados
do sinistro plano. Os americanos não cogitaram que os aviões alemães pudessem
ser interceptados e abatidos por forças da RAF. E foi justamente o que houve.
Se não fosse por caças ingleses tê-los encontrado, um temível quartoreich teria se estabelecido na América
do Sul, sob o comando do próprio Hitler. E com o total apoio e auxílio dos EUA.
Eu sabia que minha máquina do tempo um dia me levaria longe demais.
Quando voltei ao presente, por uma triste
coincidência, minha filha estudava História na sala-de-estar. Quantas mentiras
poderiam haver naqueles livros? Queria naquele momento cuspir na cara de todos
os historiadores: Ingênuos, pretensiosos, tolos...pobres-coitados.
-´Tudo bem, papai?´
-´Sim filha.- respondi.-Só um pouco cansado.´
Minha máquina me deixava amargurado com o tempo.
***
Minha filha fazia dezessete anos, e estava se
tornando uma bela moça. Sua aparência e maturidade remetiam facilmente ç de uma
moça de vinte ou vinte e um anos. Realmente encantadora. Eu não podia negar que
cada vez mais via minha filha como uma mulher. Aquilo me perturbava. Talvez o
fato de saber que ela era apenas adotiva me tirava um pouco a culpa, mas ainda
assim eu não me sentia bem. Era como um incesto, ou quase isso.
-´Papai, estou pronta.´
Sairíamos para jantar, comemorar seu aniversário.
Minha filha tinha poucos amigos.
Era muito educada e simpática com as pessoas, porém,
reservada e solitária. Um paradoxo interessante realmente. Eu entendia disso
muito bem, pois sempre fui exatamente assim. Aliás, era muito curioso como
éramos parecidos em diversos aspectos. Já havíamos conversado a respeito desse
assunto. As pessoas em geral já diziam que éramos pai e filha só de olhar para
nós: Até a cor do cabelo e dos olhos era parecida. Se eu não tivesse tanta
certeza de minha vida sexual, a qual nunca foi muito movimentada, até poderia
suspeitar que fosse minha filha mesmo, deixada em minha porta por algumaex minha. Mas era impossível, por sua
idade. Quando ela chegou até mim ela era recém nascida, e já há um bom tempo eu
não tinha contatos mais íntimos com alguma mulher. Nos últimos anos meu único
amor tinha sido minha máquina do tempo. Mas tudo isso mudou depois que Rosa
chegou em minha vida. Em minhas viagens, eu sempre pensava nela. Queria levá-la
para todo lugar, para toda época que eu fosse, queria sempre voltar para casa
são e salvo...perdê-la era uma idéia que me fazia quase chorar de medo.
-´Feliz aniversário, Rosa!´
-´Feliz aniversário, Pai!´
Fizemos um brinde e ficamos conversando por um bom
tempo. Rosa estava linda naquela noite com aquele vestido preto. Peguei em sua
mão e disse:
-´Eu não sei o que seria de mim sem você, minha
filha. Eu amo você, Rosa.´
-´Eu também te amo, Cláudio.´- disse, olhando em
meus olhos. Meu espanto foi inevitável.
-´Rosa...você me chamou pelo meu nome...?´
-´Chamei...?´- disse ela, como que acordando de um
transe.
-´Sim...é a primeira vez que você me chama pelo
nome...você sempre me chama de Pai.´
Rosa olhou por alguns segundos, meio sem-jeito, até
que enfim, disse-me:
-´Ora...mas isso não quer dizer nada, não tem nada
de mais...tem?´
Para mim tinha. Muito mais do que ela poderia
imaginar. O que poderia acontecer se as palavras Pai e filha fossem
abolidas de nosso vocabulário? Rosa já tinha ido deitar-se há um certo tempo.
Eu estava sentado na cozinha, pensado nisso.
-´Ainda acordado?´
Fui surpreendido com a entrada de Rosa na cozinha.
Linda, como sempre.
-´é...insônia.´
Rosa sentou-se ao meu lado. Seu perfume era
delicioso. Senti um calafrio quando ela olhou com aqueles olhos azuis.
-´Pai, você ficou chateado comigo?´
-´Por quê?´
-´Por eu ter te chamado pelo seu nome lá no
restaurante...´
-´Não, não...´- tratei logo de me retratar-´Claro
que não, meu amorzinho...foi só um susto, você nunca tinha me chamado assim
antes. Eu me espantei, só isso.´
-´Eu te amo.´– disse-me ela, olhando em meus olhos.
-´Eu também, Rosa. Tenho que te dizer uma coisa
muito importante...´
-´Diga.´- Falou, segurando minha mão.
-´...Uma das coisas que mais tenho medo em vida é do
dia que você arrumar um homem, se casar e sair de casa. Eu não sei como viveria
sem você.´
Rosa riu aquele riso gostoso que ela sabia dar.
-´Eu tenho que te confessar uma coisa...eu também
penso nesse dia com medo.´
-´Medo?´-indaguei, sem entender.
-´Sim, medo. Eu também não sei como viveria sem
você.´
Nos olhamos por alguns segundos, olhos nos olhos e
nos abraçamos forte. Eu amava Rosa mais que tudo nessa vida.
***
O fogo consumia tudo ç minha volta. A fumaça me
entorpecia, mas eu precisava pegar o livro. Eu precisava.
A Idade Média foi mesmo um período negro em nossa
História. A Igreja, em nome de Deus, cometeu as maiores insanidades que se um
ser humano pode ser capaz de cometer. E uma delas foi a destruição do
conhecimento. Bibliotecas repletas de Livros ditos “perigosos”,
“proibidos” tinham dois destinos: Ou
eram confiscadas ou então queimadas. Quanto menos exemplares de uma mesma obra
censurada existissem, melhor. Estava numa busca louca, insana, há semanas, e
tudo que eu tinha era uma suspeita e um palpite. Após muita pesquisa, acionei
minha máquina do tempo para aquela que seria, talvez, uma de minhas mais
perigosas viagens. Os loucos da Igreja ateavam fogo naquela biblioteca
fantástica localizada numa longínqua parte da Espanha. Os árabes, sob a
influência dos egípcios e chineses,
trouxeram a Alquimia para o ocidente ao redor do ano de 950, inicialmente para
a Espanha. Construíram-se escolas e bibliotecas que atraíam inúmeros
estudiosos. Eu estava em uma delas. Diversas culturas e ciências poderiam ser
encontradas nos quilômetros e mais quilômetros de livros ali presentes:
Alquimia, Astronomia, Astrologia, Matemática, Filosofia, História...Tomos e
mais tomos de diversos assuntos. Todos sendo devorados pelo fogo.
Eu não tinha muito tempo. Havia um livro em especial
que eu não poderia deixar ser consumido pelo fogo. A fumaça era espessa, eu
quase não via nada, o calor era inumado...mas eu não podia desistir. O fogo
consumia tudo ç minha volta. A fumaça me entorpecia, mas eu precisava pegar o livro.
Eu precisava. A prateleira que eu queria era uma das últimas, só para meu azar.
Assunto: Filosofia. Autor: Aristóteles. Título: A Comédia.
O lendário livro perdido do
grande pensador grego, na palma de minha mão. Precisava fugir dali. Comecei a
sucumbir, a ver tudo escurecer. Não, eu não podia morrer. Não ali, não ali.
Pensei em Rosa. Rosa, Rosa, meu amor. Ajustei a minha máquina do tempo, e,
enquanto desvanecia com o Livro em meus braços, cheguei ao Presente. O raro
tomo de Aristóteles estava a salvo comigo. Mas eu estava em péssimo estado.
Caído no chão, eu apenas balbuciava com voz sôfrega:
-´Rosa...´
Não se ela ouviu minha voz ou
o som de meu corpo despencando rumo ao chão, mas Rosa, em desespero, veio me
ajudar. Ela não sabia de minhas viagens temporais, o que na certa deve ter
deixado-a ainda mais preocupada. Ela me tomou em seus braços, com lágrimas nos
olhos. Minhas roupas estavam enegrecidas. Eu estava em um estado lastimável,
fraco e com falta de ar.
-´Rosa...eu vou morrer...´
-´Não, não, eu não vou
deixar!´
-´Eu te amo, Rosa...te amo
mesmo...´
-´Eu também te amo...Cláudio.´
E o que eu mais ansiava e ao
mesmo mais temia ocorreu. Foi preciso minha quase morte para que Rosa e eu
compreendêssemos o peso das palavras Pai e
Filha, o quanto elas podem ou não
influenciar nossas vidas, o quanto elas podem ou não refrear nossos
sentimentos. Mesmo com minha visão enturvecida e meus sentidos debilitados,
pude sentir os lábios de minha filha, Rosa, minha filha adotiva, irem de
encontro aos meus. é quando estamos prestes a perder alguém que entendemos por
completo o quanto essa pessoa nos é importante. é quando estamos prestes a
perder alguém que percebemos por completo o quanto realmente amamos alguém. Foi
preciso eu me arriscar, eu quase perder a vida por causa de um maldito livro
para que eu e ela percebêssemos que nos amávamos não mais como Pai e Filha, mas
como homem e mulher.
***
O tempo passou como uma brisa.
Rosa e eu já não mais nos
lembrávamos das palavras Pai eFilha. O fato dela ser adotiva não
trouxe culpa nem a mim nem a ela. Depois de minha quase morte graças ao livro
de Aristóteles, passamos a nos amar como um casal de namorados.
Nosso amor era puro,
verdadeiro e completo. Desejo e paixão, corpo e alma. União. Eu me sentia
rejuvenescido com aquilo. Parecia que todos os meus quase cinqüenta anos de
vida haviam sido apenas uma preparação para este momento. A semelhança física
que antes nos era aliada passou a ser uma inimiga: Precisávamos guardar segredo
daquilo. Como as pessoas reagiriam ao saber que um Pai e uma filha, mesmo sendo
esta uma filha adotiva, eram agora marido e mulher? Numa noite, após horas de
amor intenso, olhávamos um para o outro.
-´Sabe...´- disse ela-´Foi o
destino que nos uniu.´
-´Concordo.´- respondi.-´Você
chegou ç minha porta há exatos dezenove anos, do nada. No começo achei que foi
algum azar meu...agora vejo que foi um presente. Eu amo você, Rosa.´
-´Eu também te amo, Cláudio.´
E nos olhamos com nossos olhos
azuis. Naturalmente Rosa agora sabia de minhas Viagens e me acompanhava em
muitas delas. Vimos muita coisa juntos. Vimos a lendária Atlântida ser inundada
por completo e riscada do mapa. Vimos o monstruoso conde Vlad Tepes empalar
mendigos após dar-lhes quilos e mais quilos de comida. Vimos os deuses
astronautas vindo em seus discos voadores para erguer obeliscos na América
Latina. Vimos gigantes caminharem por esse planeta. Vimos o fascínio, o medo e
o mistério do incrível povo que habitou esse planeta muito antes dos homens,
muito antes dos dinossauros, vimos o que existirá depois do fim do mundo, vimos
nascer a primeira rosa que floresceu no solo deste planeta. Colhi-a e dei para
minha amada. Foi nessa terra verde e maravilhosa que Rosa deu-me a notícia:
-´Cláudio, meu amor, você vai
ser Pai.´
O tempo passou como uma brisa
mesmo, Rosa, meu bem. Você, agora, com vinte e dois anos, esperando um filho
meu. Um filho nosso. Minha vida tinha um sentido, afinal. Eu era o homem mais
feliz de todos os tempos.
***
Eu não podia crer no que tinha
acabado de ouvir.
Estava uma pilha de nervos. Em
total desespero, quase em colapso nervoso. Rosa tinha começado a sentir as
contrações, mas estas vieram acompanhadas de uma dor inexpugnável que apenas
aumentava mais e mais. O parto demorava demais, há horas que toda a equipe médica
tentava seu melhor naquela sala. Eu chorava de nervoso. Não havia nada que eu
podia fazer para ajudar a mulher que eu amava! Nada! Eu, viajante do tempo,
gênio, cientista poderoso, nada podia fazer para ajudar a mulher da minha vida
e meu filho.
-´Sr. Cláudio Santos ?´
Levantei-me ao ouvir meu nome
sair da boca do obstetra.
-´Sou eu...´
-´Sr. Cláudio, nós fizemos o
máximo que pudemos...As complicações no parto Foram muito graves. O senhor é
pai de uma linda e saudável menina, porém...não conseguimos salvar sua esposa.´
Eu não podia crer no que tinha
acabado de ouvir. Ela estava morta. Morta. Sentei-me e fiquei um bom tempo a
olhar para o nada, sem reação alguma. Depois caí em prantos.
Rosa...morta. Eu teria que
aprender a viver sem Rosa.
-´Eu tenho uma filha...´
-falei para mim mesmo, baixinho, enxugando as lágrimas.
Sim, Rosa havia partido, mas
eu tinha uma filha agora...mais uma vez, uma filha para criar. Dessa vez, não
uma adotiva. Eu criaria nossa filha com todo o amor e carinho do mundo. Por
Rosa, por mim e por Rosa, eu iria criar nossa menina e faria dela uma mulher
tão maravilhosa quanto Rosa fora.
Fui até a maternidade.
Precisava ver minha filha. Depois de alguma insistência, a enfermeira me autorizou a
segurar meu bebezinho. Não pude conter as lágrimas ao ver seu pequenino rosto.
Ela era linda. Tão linda
quanto Rosa.
Seu rosto rosado, seu tamanho,
suas mãozinhas...era incrível o quanto ela me lembrava Rosa, o quanto ela era
parecida com Rosa quando esta chegou até mim em um cesto, naquela noite fria,
décadas atrás, em 15 de Maio de 2002. Foi quando o bebê incrivelmente abriu
seus olhinhos para mim e sorriu. Seus olhos eram azuis, como os de Rosa, como
os meus. E seu sorriso me fez lembrar o primeiro sorriso que Rosa me deu na
noite que ela chegou a mim. Minha filha era idêntica ç sua mãe, ela era
idêntica ç Rosa...
Foi então que tudo parou ç
minha volta. Não, não podia ser.
-´Não, não...´- eu balbuciava,
atônito, branco como uma folha de papel. Não podia ser...mas era. Tudo fazia
sentido agora. Tudo. Fiquei tonto, enjoado...desesperado. Corri para fora
daquela maternidade, fui para a rua. Tudo parecia girar ç minha volta.
Ajoelhei-me no meio da calçada, sentindo aquela chuva forte cair em meu corpo,
paralisado. Fiquei um bom tempo naquela posição, tentando negar a mim mesmo o
que eu havia descoberto. Mas não havia como.Era a mais pura e sórdida verdade.
Tudo fazia sentido agora. Tudo. E eu sabia exatamente o que deveria ser feito.
***
Como estava frio naquela noite! Eu quase não me
lembrava mais disso.
Era uma noite de 15 de Maio de 2002. A data eu
jamais me esqueceria.
Olhei no relógio, meia noite e meia em ponto. Era
essa a hora, eu ainda me lembrava. Eu o vi, indo a pé para sua casa, totalmente agasalhado. Eu me lembrava
exatamente o que ele vestia: duas camisas, um casaco jeans bem grosso...ele estava ansioso, muito ansioso. Não via a
hora de chegar em casa, afinal, seu experimento estava prestes a ser concluído.
é, eu lembro dessa ansiedade.
Ele girou a chave na maçaneta com certa violência, e
entrou. Mesmo da esquina, eu sabia o que ele iria fazer: passaria como um
furacão pela sala e correria em direção de seu porão. Acenderia a luz,
contemplaria o maquinário que estava construindo. Colocaria em cima da mesa o
seu motivo de chegar em casa tão tarde da madrugada: uma caixa cheia de coisas
miúdas que para leigos seriam apenas um monte de parafusinhos, fiozinhos e trequinhos eletrônicos. Porém, para ele,
poderiam significar a realização de um dos maiores sonhos da humanidade. Eu tinha
que esperar ainda: sabia o quanto demoraria para ele instalar tudo. Às quatro
da manhã olhei para o cesto enorme, coberto por um paninho colorido que tinha
minha filhinha recém-nascida dentro. Ela dormia um sono tranqüilo, enrolada em
diversas camadas de uma colcha de lã. Tentei não chorar.
Caminhei até a frente da casa e deixei o cesto junto
do bilhete na porta. Olhei no relógio: quatro e quinze da madrugada. Toquei
aquela escandalosa campainha e fui embora.
Eu sabia o
que aconteceria agora, mas mesmo assim, da esquina, fiz questão de observar.
Sabia que ele subiria as escadas com pressa, atravessaria a sala de estar com
impaciência, e olharia pelo olho mágico da porta. E não veria ninguém. Ouvi a
voz dele perguntando imbecilmente ‘Quem é?’. Ele abriu a porta, enraivecido.
Olhou para os lados e não viu ninguém. Idiota. Eu me lembro disso. Idiota.
Imbecil. Xingou uns dois palavrões, desses mais comuns, que todos xingam quando
se sentem enganados. Burro. Eu lembro disso. Agora está imaginando que algum
cretino desocupado tocou a campainha e foi embora, só pra fazê-lo atender a
porta e não encontrar ninguém. Foi aí que ele percebeu o cesto que deixei em
sua porta.. Era um cesto enorme, coberto por um paninho colorido. Quando ele
olhou para dentro e viu que tinha um bebê dentro, se assustou e levou para
dentro de casa. Fechou a porta, mas eu sabia o que iria acontecer. Ele agora
pensaria no criminoso que é capaz de abandonar uma criança em tais condições,
arriscada a contrair uma pneumonia, ou até mesmo a morrer. Ele acharia dentro
do cesto o bilhete que eu havia
digitado no computador e impresso:
O nome desse
bebê é Rosa. Você saberá cuidar dela melhor do que eu.
No começo,
em desespero, Cláudio Santos não saberá o que fazer. Mas no momento em que Rosa
começar a acordar, espreguiçar-se tão sutilmente parecendo uma florzinha
desabrochando e abrir seus olhinhos, aí tudo mudará. Ele notará que o azul dos
olhinhos da menina é coincidentemente idêntico ao dos seus.
Nesse instante ele abençoará o
fato de existirem seres que, cientes de sua própria irresponsabilidade e falta
de amor ç vida, dão a outros uma chance de terem uma razão de viver. Naquele
instante a máquina do tempo de Cláudio Santos não será mais sua única razão de
viver. Sua paixão, seu amor e sua devoção terão agora um segundo alvo: Rosa.
Rosa, sua filha.
-‘Rosa, minha filha, meu amor,
adeus’- dizia eu, baixinho, sentindo as lágrimas esquentarem minhas faces,
enquanto acionava minha máquina do tempo e partia.
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