A Garganta da Serpente
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Dias futuros de um passado desconhecido
(Flaveus van Neutralis)

Como estava frio naquela noite! De quando em vez algumas frentes frias baixavam no Rio de Janeiro, tudo bem... Mas aquela estava demais! Era uma noite de 15 de Maio de 2002. Olhei no relógio, meia noite e meia em ponto. Eu ia a pé para a minha residência,totalmente agasalhado, duas camisas, um casacojeans bem grosso...estava ansioso, muito ansioso. Não via a hora de chegar em casa- meu experimento estava prestes a ser concluído!
Girei a chave na maçaneta com certa violência, passei como um furacão pela sala e corri em direção de meu porão. Acendi a luz, e contemplei o maquinário que eu estava construindo. Coloquei em cima da mesa o meu motivo de chegar em casa tão tarde da madrugada: uma caixa cheia de coisas miúdas que para leigos seriam apenas um monte de parafusinhos, fiozinhos e trequinhos eletrônicos, mas, que para mim , poderiam significar a realização de um dos maiores sonhos da humanidade. Instalei os últimos componentes no motor da minha máquina, conferi e re-conferi os planos, as anotações, revisei a programação em meu computador, respirei fundo e julguei estar pronto um trabalho de vinte e dois anos ininterruptos.
-‘Agora vem a pior parte...’- falei comigo mesmo, em voz alta-‘ O teste’. Eu nem gostava de imaginar como seria se o teste mostrasse que aquela máquina não passava de uma caixa de metal cheia de fiações, bastões que vibravam de maneira engraçada, chips de computador e placas de programação...uma invenção ridícula de um cientista maluco desocupado. Eu tinha até medo de testá-la - mas era preciso. Sentei-me à frente de meu computador, e comecei a digitar as coordenadas e os cálculos. A cada tecla apertada meu coração batia cada vez mais rápido. Quando estava tudo pronto, olhei para minha máquina. Ela brilhava. Parecia que queria falar comigo.
-‘É agora.’- falei, antes de pressionar oenter do computador e ver se a mágica acontecia ou não. Nesse exato instante a escandalosa campainha de minha casa tocou, fazendo-me pular da cadeira, tamanho fora meu susto. Olhei no relógio: quatro e quinze da madrugada. Quem seria?
Subi as escadas com pressa, atravessei a sala de estar com impaciência, e olhei pelo olho mágico da porta. Ninguém.
-‘Quem é?’- imbecilmente insisti. Abri a porta, enraivecido.  Olhei para os lados e não vi ninguém. Xinguei uns dois palavrões desses mais comuns, que todos xingam quando se sentem enganados. Algum cretino desocupado deve ter tocado a campainha e ido embora, só pra me fazer vir até aqui atender e não encontrar ninguém. Eu ia fechar a porta quando percebi que havia um imenso cesto ç minha porta.
Abaixei-me. Era um cesto enorme, coberto por um paninho colorido. Que Diabo era aquilo? Levantei o pano, e caí para trás tamanho meu espanto: Havia dentro dele um bebê!
Trouxe o cesto para dentro, imerso em um pânico absoluto. Estava praticamente uma era glacial lá fora, como alguém, como algum irresponsável, algum criminoso poderia abandonar uma criança em tais condições, arriscada a contrair uma pneumonia ou até mesmo morrer? Levantei o pano de novo: O bebezinho dormia um sono tranqüilo, enrolado em diversas camadas de uma grossa colcha de lã. Pelo menos a criança parecia estar bem. Como já seria de se esperar, havia um bilhete dentro do cesto. Abri, e li uma mensagem que dizia:
O nome desse bebê é Rosa. Você saberá cuidar dela melhor do que eu.
A mensagem havia sido digitada no computador e impressa. Estava agoniado. Que mente doentia poderia deixar uma criança na porta de alguém? Rosa era tão pequena, devia ser pouco mais que uma recém-nascida...Tentei esquecer a raiva que sentia pelo cretino do pai e pela meretriz da mãe que haviam deixado aquela criança ali e comecei a tentar pensar em coisas práticas. Era muito difícil eu ficar desnorteado, sem saber que atitude tomar em frente a problemas, mas era exatamente assim que eu me sentia naquele instante. Como é que uma coisa dessas foi acontecer comigo, logo eu, justo eu? Isso é coisa de cinema, de desenho animado.Precisava decidir o que fazer. O que eu iria fazer com aquela criança? Eu não tinha condições financeiras ou mesmo psicológicas para tomar conta daquela menina. O que eu poderia fazer? Dá-la para adoção? Tentar encontrar sua família? Meu Deus, o que eu deveria fazer?
Foi nesse momento que Rosa começou a acordar. Espreguiçou-se tão sutilmente a pobre menininha, parecia uma florzinha desabrochando. Abriu os olhinhos: eram de um azul forte, coincidentemente como os meus. Pensei que ela fosse começar a chorar, mas não: ficou a me olhar fixamente, calada. Até que ela me surpreendeu abrindo o sorriso mais lindo que alguém poderia abrir. O sorrisinho de Rosa tocou meu coração de uma forma que poucas vezes alguém havia tocado em vida. Senti-me de uma forma que jamais havia sentido antes.
Naquele instante abençoei o fato de existirem seres que, cientes de sua própria irresponsabilidade e falta de amor ç vida, dessem ç outros uma chance de terem uma razão para viver. Daquele instante em diante minha máquina não seria mais minha única razão de viver. Minha paixão, meu amor e minha devoção tinham agora um segundo alvo: Rosa. Rosa, minha filha.

***

- ‘Nana nenê, que a cuca vem pegar...papai foi na roça, mamãe foi passear...’
Devia ser a ducentésima vez que eu cantava aquela canção. Tinha Rosinha em meus braços, pondo-a para dormir. Quase uma hora e meia havia passado, mas, para mim , pareciam apenas alguns minutos. Eu amava Rosinha, minha filha, e demoraria o tempo que fosse para colocá-la confortavelmente em seu beicinho e fazer com que ela sonhasse com anjos. Saí do quarto de minha filha, deixando ela imersa em seu sono, e desci para o porão novamente. Desde que Rosinha fora dada de presente para mim eu não havia feito o teste da minha invenção, o teste definitivo de minha máquina, minha máquina do tempo.
Eu me lembro quando era criança de ter assistido em alguns desenhos animados algumas coisas engraçadas a respeito de máquinas do tempo. Era um assunto realmente clichê, visto que vários episódios de cartoons diferentes abordavam o assunto de alguma forma. Aquilo me fascinava e alimentava meus sonhos, enchendo a minha cabecinha juvenil de idéias e mais idéias. Quase sempre, quando brincava com meus coleguinhas, fazíamos um jogo de faz-de-conta em alguma época. O velho Oeste, os tempos pré-históricos, e, claro, épocas futuristas. Muitas noites eu ficava divagando, imaginando como seria o futuro. Daria de tudo para saber como seria. E o passado? Como os dinossauros haviam sido extintos? Jesus Cristo realmente havia existido? E as grandes pirâmides, como teriam elas sido criadas? Teria existido a grande Atlântida? Todos os grandes fatos e feitos da humanidade, a história das civilizações, as lendas, as verdades e as mentiras...como eu sonhava com aquilo. Foi com quase quinze anos de idade que tomei a minha decisão: iria me empenhar na pesquisa e desenvolvimento de uma máquina do tempo.
Tal sonho evidentemente me tomaria muito tempo e investimento, mas paciência, disciplina e perseverança eram as minhas maiores qualidades. Fiz uma prolífica e sólida carreira em Física Quântica. Gastei muito dinheiro em livros e material, perdi noites a fio estudando feito um possuído, desenhei planos e possibilidades, estudei e pesquisei de todas as formas possíveis. Criar um aparelho que pudesse simplesmente passear pelo tempo e pela estrutura das épocas não seria uma tarefa das mais simples. Para ser honesto, seria uma das coisas mais difíceis do mundo. Quase impossível, em verdade. Eu teria que transformar uma idéia abstrata em algo concreto, real, através de Leis da Física Quântica. Em teoria, eu teria que arranjar um meio de desestruturar os átomos que compõe um corpo, e reestruturá-los em outro local, no caso, outra época. Depois de dez anos de pesquisa e muito dinheiro, consegui criar uma máquina capaz de separar os átomos de qualquer ser. Quantos ratos foram sacrificados, desintegrados dentro de uma cápsula estranha até que eu conseguisse com que um deles pudesse sumir da realidade para depois reaparecer, com o simples apertar de um botão! Agora seria uma questão de fazer com que ele ressurgisse não no mesmo local, mas em outro que eu pré-determinasse. Desenvolvi um programa que fazia uma espécie de mapeamento do perímetro de toda uma área, ajustado-a dentro de coordenadas, de modo que eu pudesse fazer com que o pobre animal reaparece num ponto específico dessas coordenadas. Muitos desapareceram para sempre. Somente após cinco anos de testes frustrados, remontagens, planejamentos e reconstruções que eu consegui fazer com que um rato fosse posto dentro da linda caixinha de metal destinada a teletransportar matéria e consegui fazer com que ele ressurgisse no outro lado da sala. Agora vinha a pior parte: Fazer com que ele reaparecesse em outro lugar, e em outra época. Me lembro como se fosse ontem do dia que sentei em meu sofá, passei minhas mãos na cabeça, e pensei: Como? Como viajar através da quarta dimensão? A explicação mais plausível que encontrei foi a de que, quanto mais rápido se anda, mais rápido o tempo passa... portanto, quanto mais próxima da velocidade da luz um corpo estiver, mais rápido o tempo passaria para este corpo. Se o corpo superasse a velocidade da luz, o tempo poderia regredir para este corpo. Logo, tive que fazer com que o pequeno receptáculo que comportasse o corpo se movimentasse na velocidade que eu desejasse. Me custaram anos, anos para desenvolver um sistema eletrônico que criasse um campo magnético que regulasse a velocidade da caixinha. Desenvolvi um cálculo insano e totalmente hipotético segundo o qual determinada medição de tempo seria equivalente a um avanço ou retrocesso de minutos, meses ou anos no tempo. Havia chegado o dia, o dia do grande teste. Programei a máquina para avançar a cápsula em quinze minutos no tempo e reaparecer no final de meu porão, no canto esquerdo. Os bastonetes que envolviam a máquina brilharam, e criaram um campo que girava mais e mais e mais rápido, até que obliterasse por completo a visão da cápsula, e, por fim, desaparecesse junto com ela.
-´Agora só me resta esperar´.
Foram os quinze minutos mais longos da minha vida. Olhava no relógio de segundo em segundo.O tempo não passava de jeito nenhum. Olhei no cronômetro. 2 minutos. O tempo não passa? Dei uma volta até a cozinha e voltei. 5 minutos. Ainda? Folheei uma revista. Olhei o cronômetro. 7 minutos. Meu nervosismo somente aumentava. Fitei o cronômetro novamente. 10 minutos. Faltavam só cinco. Tantos anos de estudo, será que agora finalmente eu conseguiria realizar meu grande sonho? Levantei, andei um pouco pelo porão, para me distrair. 12 minutos e 30 segundos. Olhei para meu pé, e notei que meu cadarço estava desamarrado. Fiquei muito feliz, havia achado uma distração para mais alguns segundos. Amarrei o cadarço da forma mais vagarosa possível, tentando não pensar no assunto. Olhei no relógio. 14 minutos e 30 segundos. 31. 32. 33. 34. Peguei um lenço, enxuguei meu suor. Rezei para que a campainha não tocasse, que o telefone não tocasse, que Rosa não chorasse. Não queria sair dali naquele instante, por nada. 14 minutos e 45 segundos. 46. 37. 48. 49. 50. ‘Faltam só dez segundos!’- exclamei. 57. 58. 59...15 minutos cravados.
Nada aconteceu.
Afundei na cadeira, sentindo nos ombros o peso de uma frustração imensurável. Mais uma vez, mais uma vez fui destruído, derrotado por minhas próprias ilusões. Parece que o velho sonho da máquina do tempo estava destinado mesmo a ser nada mais do que um sonho. Sentei na minha cadeira, e liguei a televisão que havia em meu quarto, desolado. Fiquei assistindo um pouco do Corujão. Nenhum pensamento passava pela minha mente. Me sentia vazio. Até que algo aconteceu.
Um brilho veio detrás de mim. Olhei para o canto da sala, e, para minha alegria, a cápsula havia surgido no canto! Por uma sorte única, havia me esquecido de desligar o cronômetro. A máquina não retornou quinze minutos depois, mas cinqüenta e sete minutos depois. Meu cálculo de velocidade em relação ao tempo avançado era apenas uma hipótese, eu devia ter suposto que poderia ter errado! O que me deixava mais feliz era que, tendo noção daquele erro, eu poderia agora reprogramar a máquina dentro das coordenadas corretas, o que me faria transportar um corpo para quando eu quisesse que ele fosse! Segurava a cápsula em meus braços com o mesmo amor com que eu segurava Rosa, minha filhinha. Chorava. Era o dia mais feliz da minha vida.
Não perdi tempo, e refiz o teste. Programei a máquina para surgir, dessa vez, daqui a cinco minutos, em cima de minha cadeira. Ajustei as coordenadas, os cálculos. O mesmo brilho, o mesmo desaparecimento. Exatos cinco minutos após, lá estava ela, se materializando em cima de meu frio assento. O sonho havia se tornado real. Tinha vontade de gritar, de espernear de emoção, mas não podia fazê-lo, para não acordar minha filhinha. Queria ligar para todos os meus amigos, contar o que houve, mas ninguém acreditaria em mim. E além do mais, ninguém sabia que eu estava a conduzir uma pesquisa dessa espécie. Era um segredo. O maior de todos os segredos da humanidade. O segredo que poderia fazer de mim o maior homem de todos os tempos. Um segredo que poderia fazer de mim um homem mais amado e venerado que Cristo, ou mais detestado que o próprio Hitler. Um segredo que poderia destruir minha vida. Era um segredo, e assim deveria permanecer: Um segredo, um sombrio e ao mesmo tempo iluminado segredo.

***

O céu cintilava numa cor que eu nunca havia visto em minha vida.
O vento frio emaranhava meus cabelos, e me remetia a uma sensação que eu raramente tinha: medo.
A terra misturada com areia, fétida, úmida, os mares negros. Olhava para os lados. Nada e mais nada, nada além de nada. Montanhas escuras, frio, um céu de uma cor indescritível...Andei por quilômetros e mais quilômetros. Nada encontrei. Calçadas quebradas, destroçadas, ruas quebradas, vergalhões enferrujados, prédios e casas inteiras em bom estado, porém, tudo abandonado e envelhecido. Era como se tudo ali tivesse sido deixado para trás. Era ali que eu estava, no futuro.
Um ano e meio após ter concluído minha máquina do tempo, consegui adaptá-la para transportar pessoas. Desenvolvi um traje que era composto por várias tiras, estas repletas de eletroldos e bastonetes, que formavam o campo magnético que vibrava na velocidade que me transportaria para quando eu bem entendesse. Trazia comigo um laptop, acoplado em minha cintura, como se fosse uma pochete. Com esse dispositivo eu determinava meus rumos. Essa era a minha primeira viagem no tempo. Estava a conhecer o futuro. O ano? Muitos anos ç frente do que qualquer escritorzinho de ficção científica poderia imaginar, e, ao mesmo tempo, não tão distante assim. O mundo estava diferente, esquisito. Não sabia se o ar podia ser respirado, por isso usava uma máscara que cobria meu nariz e boca, esta ligada por um tudo a um pequeno aparelho que me fornecia oxigênio. Não arriscaria morrer sufocado num mundo que eu não conhecia. Onde eu pisava, parecia estar abandonado. Andei por algumas cidades. Era interessante, elas não estavam destruídas, apenas envelhecidas e abandonadas. Não vi vestígio de animal algum, nem homem, nada. Nem um esqueleto sequer. Sinais de guerra? Nenhum. Teletransportei-me para um outro ponto do planeta. Uma praia, estranha, onde a areia e as águas eram tão escuras quando ébano. Toquei a areia: gelada. Coloquei um pouco dela em um frasco e o amarrei em meu cinto. Fui até a beirada da água. Colhi um pouco daquele líquido denso e enegrecido e o pus em um frasco também. Fiquei alguns segundos a fitar aquele mar. Calmo, sereno, quase sem ondas. Tinha uma curiosidade imensa de retroceder um pouco, algumas décadas, somente para saber o que houve com o planeta e o que fez com que abandonássemos nossa Terra. Percebi por onde andava que não encontrava árvores, plantas, animais ou outras fontes de alimento quaisquer. Deduzi que o planeta havia ficado escasso. A mãe terra deve ter se enchido de nós. Ou então, nós que acabamos com ela. Tinha medo de saber a verdade. Queria sabê-la, mas ao mesmo tempo, tinha medo. Dei uma última olhada naquela terra triste e programei-me para voltar a meu tempo, para um ponto exatamente poucos segundos após a minha saída. Pus-me a analisar aquelas amostras de terra e água, e poucas horas depois descobri algo assustador. Naquela amostra de terra, nenhum tipo de planta teria condições para crescer. Naquele tipo de água, espécie alguma de organismo marinho poderia viver. Então era esse o destino da humanidade? Esse era o destino ridículo, monstruoso e clichê da humanidade?
Subi as escadas. Minha filhinha estava em seu quarto, dormindo. Imaginei que espécie de futuro estava destinado para ela. Eu poderia mudar o futuro, mudar tudo...eu tinha nas minhas mãos uma chance para mudar o destino de toda a humanidade. A questão era, será que eu deveria fazê-lo? Bem ou mal, será que a humanidade não mereceu o destino que vi? Olhei mais uma vez para minha menina. Passei a mão em sua cabecinha e beijei sua testa. Não consegui dormir aquela noite. A imagem daquele mundo decadente estava encalacrada em minha mente. Queria nunca ter visto aquilo. Por um instante, desejei até nunca ter criado a máquina do tempo. A ignorância poderia ser mesmo uma bênção em certos casos.

***

-´Papai, olha só! Já consigo ler!´
Como era esperta a minha doce Rosa. Com cinco aninhos, na minha frente, lendo em voz alta para mim as falas de umgibi da turma da Mônica. Como dava gosto ver a minha Rosinha assim, feliz. Quase chorei de emoção quando ela terminou de ler. Bati palmas, coloquei ela no colo, enchi-a de beijos. Ela me olhava com aqueles olhinhos azuis tão lindinhos, Como eu amava minha Rosa, como eu a amava. À tarde eu a levei para um parque de diversões. Ela se divertia tanto, era tão bom vê-la brincar feliz em todos aqueles brinquedos coloridos. E pensar que num futuro próximo todos eles não passariam de sucata ao vento, destroços de um mundo arruinado...Não, não queria pensar nisso! Não queria pensar no futuro, somente no presente, naquele momento em que eu e minha doce Rosa vivíamos. De noite, pus ela em sua caminha, exausta, coitadinha. Sentei na sala de estar, e comecei a assistir um pouco de televisão. Não sentia sono algum. Via um documentário sobre as grandes civilizações. Egito Antigo, a Grécia, o Império Romano...e imediatamente algumas idéias me vieram ç mente.
Conhecia aquele comichão, aquela inquietação. Sabia exatamente o que fazer para acalmá-la.
Desci até o porão, tirei minhas roupas, amarrei em volta de meu corpo as tarjas e a fiação da máquina do tempo. Prendi olaptop em meu cinturão especial, vesti-me novamente, e resolvi viajar. Para quando agora? Para ontem. Uma viagem em destino a um ontem qualquer. Pensei bem. Ajustei as coordenadas, fui envolto pelo campo de força que girava ç minha volta mais rápido que a velocidade da luz, e o tempo andou para trás, só para mim.

***

O grande monstro rosnava, ç minha frente.
Estava na ilha de Creta, a belíssima e calorosa ilha de Creta. Eu o vi, o jovem e corajoso rapaz entrar no Labirinto. Não acreditava que tudo aquilo pudesse ter sido verdade, mas quis averiguar. Esperei um tempo para que ele tomasse bem a dianteira- não queria esbarrar com ele- e entrei no labirinto de pedra em seu encalço. Realmente, garoto esperto esse. Amarrou uma corda na saída e assim poderia se guiar dentro do Labirinto. Graças aos céus eu tinha uma lanterna comigo. Caminhei por aqueles corredores fedendo a sangue. Vi vísceras, tripas e pedaços de corpos humanos lá. Respirava fundo, continha meu vômito e comecei a me arrepender de ter entrado ali. Senti medo, mas a minha curiosidade de ver se o mito era real me fazia ir adiante. No cômodo ao lado ouvi sons aterradores. Cascos pesados se arrastando no chão, um bufar selvagem, golpes...um rosnado. Virei o corredor, e vi o grande Minotauro, monstro imenso meio homem meio touro, esmurrando o jovem Teseu. Sua espada já estava ao chão. A mão do monstro estava no pescoço do semi-inconsciente rapaz, e seria uma questão de segundos para aquela besta horrorosa mutilar o garoto. Resolvi tomar uma atitude. Projetei a luz da lanterna em sua luminosidade máxima diretamente nos olhos do bicho. Como já era de se esperar, a fera ficou atordoada e largou o rapaz. Prontamente, saquei meu revólver e dei um tiro no peito do monstro, bem no coração. Golpe de sorte, muita sorte, tinha um bom tempo que eu não utilizava um revólver. O chão tremeu quando o imenso Minotauro caiu. Olhei para o garoto. Estava muito ferido, mas não a um nível fatal. Iria acordar logo, provavelmente, já que aparentava ser um homem bem vigoroso e resistente. Olhei para sua espada no chão. Não pensei duas vezes: Tomei-a em minhas mãos e a cravei no peito do monstro exatamente onde havia atingido com a bala e pus a espada suja do sangue negro do homem-touro na mão de Teseu. Dei uma última olhada na besta. Horrenda. Enorme. Devia ter quase uns três metros de altura, calculei. Tipo de criatura que até mesmo morta metia medo. Tremi e corri para fora daquele Labirinto. Até hoje não sei como consegui fazer tudo aquilo. Teseu ficou conhecido em todo o mundo Grego. O rei Minos foi destronado. A lenda era real. Graças a mim, o mito e a história eram reais.

***

Estava em casa, num momento de insônia. Sentado em meu sofá, passeando entre canais e mais canais. Até que meus olhos bateram num documentário sobre o Antigo Egito. Eu sempre me interessei por assuntos relativos a grandes civilizações, especialmente quando se tratava do Egito Antigo. Infelizmente o documentário estava no final. Num surto de curiosidade, ampliado por minha absoluta falta de sono, fui procurar alguma coisa que eu tivesse sobre o assunto. Eu tinha uma coleção de livros, bastante completa e detalhada, sobre a vida e as lendas do referido período. Queria pegá-la para reler. Gostava de reler certas coisas. Infelizmente, minha preguiça de remexer pilhas de livros e tirar caixas de papéis do lugar somente me fez encontrar uma revista que falava sobre Pirâmides. Era uma revista pequena, velha, muito velha, faltavam algumas páginas. Sentei-me e dei uma folheada. Numa página, uma parte me chamou a atenção:
A mais antiga pirâmide que se conhece data da III dinastia. Até o final da II dinastia os túmulos dos soberanos e dos nobres egípcios eram constituídos de uma câmara funerária cavada profundamente no solo, sobre a qual se erigia uma estrutura baixa, de paredes verticais, de teto achatado, com base retangular, construída com tijolos de lama cozidos ao sol, que ficaram conhecidas com o nome de mastabas. A mais antiga das pirâmides constituía-se dessas mastabas. O idealizador deste tipo de construção foi o sábio Imhotep, proeminente figura do reinado do faraó Djoser. Essa é provavelmente a única pirâmide desse tipo que foi concluída.
E junto havia fotos e um esquema detalhado em 3-D da construção da pirâmide, que permitiria que qualquer arquiteto razoável reconstruísse algo daquele porte. Olhei para a porta que dava para o meu porão ‘mágico’. Sorri com malícia. Sempre quis ver as pirâmides de perto.
O mal desses estudos sobre a Antiguidade era esse: Nunca se tinha uma data exata das coisas. Sempre se usavam termos irritantes como “aproximadamente”, “acredita-se”, “há indícios que”...esse último então me dava nos nervos. Eu sou e sempre fui um homem de certezas, ora pois! Eu também não podia culpar ninguém, eu tinha cada idéia: Calculei uma data aproximada e resolvi ir ver as malditas pirâmides. Acho que errei pois já havia percorrido quilômetros e mais quilômetros de Egito Antigo e não vi uma mísera Pirâmide. Que raiva. Eu devia ter ido embora, mas a velha curiosidade dos cientistas...
Minha máquina do tempo me permitia fazer alguns teleportes que encurtavam minha viagem. Nada de pirâmides. Abri a revista, que eu havia trazido por acidente, e dei uma olhada no plano de Imhotep. O homem era um gênio, realmente. Mau-humorado, enrolei a revista e pus no meu cinto. Continuei minha peregrinação. Vi uma cidade, um indício de civilização. Muito inteligentemente eu vestia-me com um manto para ocultar minha máquina do tempo e minha aparência, que era naturalmente diferente do resto do povo. Caminhava por aquele lugar fascinante. Eu devia ter ido embora, devia, devia mesmo, mas a velha curiosidade dos cientistas...As pessoas, as casas. as vestes, tudo exatamente como vemos em museus e filmes. Até que eu vi: O templo. O grande templo central. Era lindo. Eu devia ter ido embora, era o que eu devia ter feito...mas, como já seria de esperar de um cientista, eu não fui.
Graças ao meu aparelho de teleporte pude pôr-me dentro do templo com facilidade. Entrar pela porta principal seria uma hipótese inexistente, afinal. Andava com cuidado. Vi vasos que deviam valer mais que minha própria casa. Eu deveria ter levado comigo uma máquina fotográfica, deveria mesmo. Andava calmamente, mas procurando não chamar a atenção de ninguém. Em um dado momento quase tive um ataque cardíaco: Ia dobrar um corredor em que um homem moreno com o dobro do meu tamanho saía de um cômodo. Devia ser um guarda. Descuidado, ele deixou a porta entreaberta. A velha curiosidade dos cientistas...eu abri a porta. Incrível: Era uma sala de tesouro. Ouro, jóias, vestimentas reais... Não existem palavras suficientes para definir o que eu via. Ajoelhei-me, olhando aquela cena com lágrimas nos olhos. Peguei algumas jóias nas mãos...elas tinham um brilho que quase me cegou. Tanta coisa valiosa, se eu pegasse e levasse algo, será que o grande faraó sentiria falta? Eu poderia fazer tanta coisa, dar tanta coisa para Rosinha com aquele dinheiro todo. Qualquer arqueólogo seria capaz de me vender a própria alma pela menor daquelas jóias! Mas o que nós cientistas temos de curiosos, devemos ter de burros também, só pode ser. é a única explicação plausível para o fato de algumas pessoas tão geniais serem ao mesmo tempo tão cretinas. Eu saí da sala sem pegar nada, nem um anel, nem um vasinho, nem um grama de porcaria preciosa nenhuma. A velha moral besta de que “Não se pode alterar as areias do tempo...”. Eu e meu moralismo.  Na verdade, admito, o que me bateu foi o velho sentimento de sinceridade. Lembrei-me de uma vez em que Rosinha pegou na escola um brinquedo da colega dele. Fiz ela devolver no dia seguinte, briguei com ela, disse que roubar era feio. Eu não poderia olhar para o rostinho lindo de minha filha sabendo que eu ensinaria uma coisa que eu mesmo não havia cumprido, por isso não peguei nada. Um cientista íntegro. Idiota, porém íntegro, de fato. Quando saí da sala, tive mais certeza ainda de minha idiotice: Ouvi vozes numa língua que evidentemente não era a minha e vi dois guardas na esquina oposta do corredor me olhando. Agora era tarde. Nunca fui atleta, mas em momentos de desespero a adrenalina nos dá capacidade de fazer coisas incríveis mesmo. Corri como o Diabo. “Eu devia ter ido embora, mas a velha curiosidade dos cientistas...a velha imbecilidade dos cientistas!”. Eu só pensava em acionar o dispositivo no meu cinto, sair daquele lugar belíssimo e maldito e voltar para os doces abraços de minha filha. Precisava parar em algum lugar para programar o meu traje. Consegui despistar aqueles brutamontes e entrei em um cômodo. Era um quarto enorme e bonito. Havia um homem deitado na cama, nu. Ele demonstrava um misto de pavor e irritação com a minha presença. Ele falava coisas que eu obviamente não entendia, mas eu tinha uma forte suspeita que ele estaria dizendo coisas não muito educadas. Não me importei com aquele homem. Comecei a mexer em meu cinto e fazer as programações da minha volta. A revista, enrolada, presa no cinto, me incomodava e me atrapalhava. Na pressa, apavorado com idéia de ficar preso naquela época, joguei a porcaria do pedaço de papel no chão. Retirei do cinto o dispositivo- do tamanho de uma agenda eletrônica- e fiz minhas programações. O homem me olhava agora calado, atônito. A porta se abriu, os guardas entraram correndo. Não pensei duas vezes em pular pela janela. No caminho de minha queda ao solo, em uma fração de segundos, as ondas eletromagnéticas tomaram conta de mim, envolveram meu corpo, e quando eu caí, caí não nas areias daquele deserto desgraçado, mas no assoalho de minha casa. Estava de volta.
Minha aventura no Egito Antigo me deixara muito nervoso. Tudo que eu queria era ver algumas pirâmides, só isso, e quase fui aprisionado. Fui correndo ao quarto de minha filha e olhei para ela. Chorei, estava muito nervoso. Por um triz eu não ficara preso em outra época. O que teria acontecido? Eu teria morrido, provavelmente. Dei uma risada, já que eu ria feito bobo sempre que eu estava muito nervoso e me dei conta do fato que eu poderia ter sido o único ser humano que teria morrido numa época anterior ao seu próprio nascimento. Eu pensava coisas idiotas quando estava nervoso.
Passaram-se semanas, meses. Eu estava arrumando umas caixas velhas, quando achei aquela coleção de livros sobre o Antigo Egito que eu estava procurando. Sentei no chão empoeirado e comecei a folhear alguns tomos. Ri. Aquilo sim era uma forma muito mais segura de conhecer o Antigo Egito. Peguei o tomo um da coleção sobre as pirâmides. Vi a foto da primeira delas, aquela que foi projetada por Imhotep. Tinha um esquema detalhado dela, bastante similar ao da revista. Haviam fotos de hieróglifos e papiros que tinham os planos arquitetônicos de Imnhotep. O livro exaltava Imnhotep como um gênio, o grande criador das pirâmides, como um dos maiores, senão o primeiro grande arquiteto da história da humanidade...quando eu virei a página, larguei o livro e fiquei da cor da parede: Era uma foto de um busto de Imnhotep, de ouro, esculpido ç imagem e forma do homem. E qual foi meu espanto ao ver que ele era ninguém mais ninguém menos que o dono do quarto no qual me refugiei na fuga dos guardas! Aquele homem que me xingou em egípcio antigo, que me olhou atônito mexer em parafernálias da minha máquina do tempo, era Imnhotep! E quão maior foi meu espanto quando me dei conta de um detalhe.
-´A revista...´
A revista havia caído no quarto de Imnhotep.
A revista tinha as plantas, todo o planejamento, um desenho da pirâmide...tudo. A Revista dizia praticamente como se fazer uma pirâmide, como eu já falei. Imnhotep viu aquilo. Ele não era grande arquiteto coisíssima nenhuma. Ele pegou a revista, com certeza. Ele viu os planos. Ele roubou a idéia. Imnhotep...Que pilantra! Cão ladrão! As pirâmides que tanto me encantaram na minha infância, que me fizeram gastar dinheiro naquela coleção de livros, somente existiam por minha causa. Meti a mão na minha própria cara, com raiva. Eu havia me metido no curso da História mais uma vez com essa máquina do tempo dos sete infernos. Curiosamente, aqueles livros perderam a graça para mim. Na semana seguinte fui a um sebo e vendi a coleção toda. Na mesma data em que vendi os livros, tive mais uma de minhas crises de insônia. O mesmo canal por assinatura reprisava aquele documentário sobre as pirâmides. Desliguei a televisão na hora.

***

Era uma tarde chuvosa, mas era uma das tardes chuvosas mais lindas da minha vida. Era a apresentação da festa junina da turminha da minha filha. Era a coisa mais graciosa do mundo. Minha princesinha, na flor dos seus nove aninhos, junto de seus coleguinhas da terceira série, dançando direitinho a coreografia ensinada pela tia da escola. Filmava tudo com minha câmera. Eu nunca imaginei que um dia me tornaria um pai assim tão coruja...No carro, minha querida Rosinha estava tão empolgada e orgulhosa de si mesmo, tinha um brilho singular nos olhos. “Você viu, papai, na hora que a gente fez assim?”- e pulava e girava no banco, tentando refazer sentada os passinhos da dança. Eu apenas sorria. Que mais poderia fazer? Rosa era um sorriso em minha vida, ela acabava com a minha solidão e dava a mim alguns dos dias mais felizes da minha existência. Quando essa menininha surgiu em minha porta, senti desespero, até mesmo aversão, admito. A idéia de ter filhos, de ter que cuidar de alguém, me enojava. Mas quando vi Rosa um sentimento inexplicável tomou conta de mim.Já tive namoradas e até mesmo uma esposa antes, mas nenhuma delas havia me completado, havia me livrado do estigma de solidão que eu carregava há anos, há décadas. Sempre me senti sozinho, por mais bem-relacionado que eu fosse em meus tempos de escola e de faculdade, por mais respeitado e admirado que eu fosse por meus colegas e alunos na Universidade onde lecionei. Quem diria que uma filha me livraria desse sentimento sombrio que arranhava meu peito por dentro. Eu nem sentia mais falta de uma namorada, de uma esposa: Tendo Rosa em minha vida, tudo estaria bom, tudo estaria ótimo. Eu poderia me considerar um homem feliz. Pus minha doce Rosa na cama, dei-lhe um beijo de boa noite- estava exausta, pobrezinha- E fiquei olhando minha coisa fofa dormir por um tempo. Imaginava como ela era boa para mim, como ela era importante na minha vida, quando tive um estalo: Ela não ficaria comigo para sempre. Rosa um dia arrumaria um namorado. Aliás, o normal seria até ter mais de um ao longo dos anos. é óbvio que isso aconteceria, ela era uma menina linda, se tornaria uma mulher que certamente seria visada por muitos homens, se casaria um dia, sairia de casa...a idéia me incomodava, não imaginei que esse pensamento me faria mal assim. Bebia um café na cozinha( péssimo hábito: tomar café de noite, isso somente alimentava minha insônia.) e refletia, com tristeza, nessa possibilidade que era quase uma certeza universal. Rosa um dia me deixaria, como todos os filhos um dia abandonam os pais. Lembro de mim mesmo, nos meus dezoito anos, quando deixei a casa de meus pais para morar sozinho e seguir meu caminho. Agora entendo a tristeza de meus pais na época. Meu Deus, eu achava aquilo tudo um exagero, uma besteira., achava o amor de meus pais exagerado, meloso, como eu estava errado! Agora que eu era pai eu entendia a dor de ver um filho ir embora. E no meu caso ainda seria pior, pois minha mãe pelo menos tinha a meu pai, ambos viviam um casamento feliz, repleto de bastante companheirismo, respeito e amor sincero. Já eu...se Rosinha partisse...eu voltaria ser só. A idéia me trazia mais desespero do que eu poderia imaginar. Eu não queria mulheres, não queria amigos, eu não queria ninguém. Só queria minha filha perto de mim. Só isso, era tudo que eu queria.

***

O tempo passava, e para mim isso não mais importava. Previsível: Afinal, eu era o mestre do tempo. Não nego que o poder que eu tinha desenvolvido para mim mesmo me inflava um pouco o ego...eu assistia ocasionalmente reportagens sobre cientistas teorizando sobre uma máquina do tempo.Bando de quadrúpedes! Zombaram tanto de mim com minhas teorias quando esse negócio de máquina no tempo era apenas coisa de filme de ficção científica, e agora quebram a cabeça para tentar desenvolver uma máquina. Dementes. Mal sabem que há no mundo um homem que possui o segredo de todas as eras na palma de sua mão. Se bem que certa feita um amigo meu me disse que cientistas secretamente já haviam inventado uma máquina do tempo e que já a teriam utilizado para fins egoístas. Se isso for verdade- o que duvido, sem querer me gabar, mas duvido que alguém tenha tido a minha genialidade e minha perseverança- muita coisa já teria sido alterada e decerto ninguém perceberia. Talvez apenas eu. Algo muito perigoso mesmo. Por isso que essa minha máquina, contrariando minha raiva e minha vontade de ganhar renome, fama e dinheiro, ficaria no mais absoluto sigilo. Refletia sobre isso em meu laboratório quando ouvi a voz de minha filha lá fora.
-´Papai, o almoço tá pronto.´
Minha filha, Rosinha, no auge de seus quatorze anos, descobriu um gosto e talento nato para cozinhar. Não que ela quisesse ser uma dona-de-casa ( nem eu queria isso, botava ela pra estudar bastante, o que, por sinal, ela gostava muito, dado seu excelente rendimento na escola) mas ela realmente, por opção, por hobby, gostava de cozinhar. Coisa que não aprendeu comigo, naturalmente, tendo em vista que muito mal eu sabia fritar um ovo. Sentei na cozinha. Rosinha tinha preparado um estrogonofe de frango que parecia estar muito bom.
-´Como foi seu dia, Rosinha?´- perguntei.
-´Fui ç escola, mas fui liberada mais cedo...o professor tá com a matéria adiantada, aí liberou a turma. Ah, você não sabe o que me aconteceu hoje...´
Enquanto minha filha servia a comida e falava, sem querer pude ver por dentro de seu decote. Foi sem querer mesmo, afinal, eu estava sentado e ela, de pé, se abaixava pra servir a comida. Pude reparar no belo par de seios que já se formavam em minha filha. Reparei também, quando ela se virou para colocar a panela em cima do forno, em como suas curvas estavam realçadas e bem desenvolvidas. Minha filha estava se tornando uma mulher. E que mulher...
-´...mas você não acha, Pai?´
-´Hã?´- disse eu.
-´Pai, você é muito distraído!! Tou falando há mó tempão...´
Rimos juntos. Minha filha estava com um sorriso lindo mesmo. E um rosto maravilhosamente bem desenhado. Um charme mesmo, os meninos da escola deviam todos cobiçá-la bastante. Ela nunca me falou de menino nenhum em quem ela estivesse interessada, apesar de que eu também nunca a pressionei em relação a isso. Rosinha sabia que eu não era seu pai biológico, sabia que havia sido deixada na porta de minha casa, fiz questão de nunca esconder isso, desde sua infância. O fato dela saber disso parecia só aumentar seu amor por mim. Naquela noite, sentado na cadeira de meu laboratório, não conseguia, não sei porquê, tirar da minha cabeça a imagem de minha própria filha, que estava virando uma mulher linda. Linda.
Olhei para meu traje temporal. Há um bom tempo eu não viajava no tempo. Sorri com malícia.

***

O tiro varou o peito de Getúlio, e ele foi ao chão.
- ‘ O senhor precisa morrer, acredite. Será melhor assim’. Ninguém tem idéia de como é difícil convencer uma pessoa de que ela deve morrer. O velho presidente Getúlio Vargas passava por maus bocados: Sua imagem no país já estava indo por água abaixo, e com a propaganda armada depois daquele incidente todo na Rua Toneleiro as coisas apenas pioraram. Um suicídio e uma carta dramática, dessas bem piegas, seriam uma estratégia, uma última tentativa de salvar sua imagem com o populacho. Mas quem disse que o velho queria se matar?
- ‘ Essa idéia é estapafúrdia! Quem me garante que isso que você diz poderia ter sentido?’
- ‘Essa é uma pergunta que a História irá responder, Sr. Presidente.’- e disparou o gatilho. O tiro varou o peito de Getúlio, e ele foi ao chão. Vi tudo, escondido atrás de uma cortina. A escuridão me auxiliou não ser notado.
O assassino de Getúlio Vargas olhou ao redor. Foi até a porta e sinalizou para alguém lá fora. Ouvi-o conversar com uma pessoa.
-´Está feito. Vou deixar a carta agora. Quando eu sair, a gente estoura a notícia.´
Ele tirou do bolso a famosa carta e deixou próxima do corpo do presidente Colocou a arma na mão de Getúlio, de modo como se ele tivesse apertado o gatilho. E saiu. O que veio depois todo mundo conhece: A histeria coletiva, o choro pela morte do grande populista, o amor eterno ao pai dos pobres.
Foi assim que suicidaram Getúlio Vargas.

***

O velho Joaquim José da Silva Xavier embarcava em um navio na véspera de seu enforcamento.
Rio de Janeiro, 21 de Abril de 1792. Tiradentes, famoso mentor da Inconfidência mineira é enforcado e mutilado, após passar por um processo de devassa que durara três anos. Tiradentes negara três vezes sua participação no movimento, mas no fim confessou tudo e foi condenado. Seus companheiros de Revolução, burgueses e ricos proprietários, o abandonaram. Tiradentes, o único pobre do movimento, foi sentenciado. Um bode expiatório. Seus restos mortais seriam depois enviados e expostos em Minas Gerais. Isso é o que aprendi nos livros de História. A coisa não foi bem assim.
Certa feita um amigo meu teorizava que Joaquim José da Silva Xavier não era um miserável alferes, arrancador de dentes como todos diziam. Ele fazia parte da lendária organização secreta político-burguesa conhecida como Maçonaria. Na época, não acreditei em sua teoria louca de que ele fosse maçom.
-´Acredite em mim, companheiro! Você acha mesmo que um miserável alferes arrancador de dentes seria plenamente aceito como o mentor ideológico de uma Revolução assim? A Inconfidência Mineira foi um movimento da elite para a própria elite, só havia membros das classes médias urbanas envolvidos nisso: padres, poetas, militares, estudantes e proprietários de terra. Você acha que esse tipo de gente seguiria e daria ouvidos para um pobretão? Ele fazia parte da maçonaria, que, como você sabe, era uma sociedade secreta de ordem burguesa. Muitas coisas da História foram diferentes por causa dos maçons, e essa é uma delas. Acredite: Tiradentes era maçom, e fugiu. Quem morreu foi um outro qualquer.´
Agora, com minha capacidade de viajar no tempo, pude ver que meu amigo tinha razão. Vi Tiradentes ser retirado da cadeia na véspera de sua morte e ser substituído por um pobre-coitado qualquer. Tudo sob o devido consentimento das autoridades locais, compactuadas com a conspiração. Um acordo: Poupariam a vida de Joaquim José da Silva Xavier, afinal, o movimento já estava baratinado de qualquer jeito. Pelo menos naquele momento.
Acompanhei secretamente o trajeto de Tiradentes. O velho Joaquim José da Silva Xavier embarcava em um navio, na véspera de seu enforcamento. Era escoltado por seus colegas de seita. Para onde ele ia, eu nunca soube, e a História, muito menos.

***

Eu sabia que minha máquina do tempo um dia me levaria longe demais.
Não vou me alongar, prometo. Não dessa vez. Sei que meus relatos são chatos. As histórias em si que conto são interessantes, mas minhas narrativas são por demais alongadas. Sempre gosto de dizer como cheguei ç uma determinada época, sou detalhista, assumo, isso é um velho cacoete de cientista...todavia, dessa vez, tentarei ser breve.
Suíça. Abril. 1945. Um frio do cão.
Um pequeno campo de pouso vigiado por vários homens armados. Um avião pousa. Um pequeno grupo de militares sai do avião. Identifiquei logo que eram americanos, tanto pelo inglês que eles falavam entre si quanto pela pequena bandeira americana estampada no ombro de suas roupas.Um segundo avião chega. A suástica imensa estampada em sua couraça já me deu todas as respostas que eu queria.
Eu sabia que minha máquina do tempo um dia me levaria longe demais.
Também não vou entrar em detalhes em como consegui me esconder dentro do galpão onde a conversa seria realizada. Toda a conversa foi realizada em inglês- no caso dos alemães, em um inglês carregado, arrastado, cheio de sotaque, mas compreensível.
O gelo foi quebrado por um dos generais nazistas:
-´Que acharam de nossa proposta?´
-´Bastante interessante.´- respondeu, após alguns segundos de silêncio.
A sala estava repleta de soldados de ambos os lados. A tensão era evidente. Somente os dois generais alemães demonstravam alguma calma, e, até um certo bom-humor.
-´Senhores americanos, nossa proposta é irrecusável. Vocês viram nossos esquemas, nossos planos. Armas biológicas, químicas, bombas, foguetes...temos os melhores cientistas, os melhores cérebros.sabemos como fazer, só não temos efetivamente como fazer.´
-´...Por pura falta de recursos.´- completou o general americano, antes de acender um charuto.
-´Precisamente. Recursos estes que, pelo que nos constam, não faltam para vocês americanos.´
Silêncio mortal. O porco nazista deu uma longa olhada nos olhos dos milicos americanos e retomou a fala:
-´O trato é simples: Ordenamos nossa rendição em todos os territórios que mantemos. No Leste, continuamos a lutar contra os soviéticos. Resistiremos contra os vermelhos até que vocês possam tomar essas posições. Estamos lhe dando uma chance para cagar na cabeça desses comunistas malucos, e sabemos que é isso justamente que vocês mais desejam nesse momento.´
-´E o que vocês querem exatamente em troca?´
O general alemão deu um gole d’água, olhou ç sua volta, e continuou:
-´Queremos lhe ceder todos esses benefícios em troca de um pequeno beneplácito.´
-´Qual?´
O nazista olhou no fundo dos olhos do general americano. Seu olhar era frio como a neve que caía lá fora.
-´Queremos nos realocar. Uma parte qualquer da América do Sul seria bastante satisfatória para nossos interesses. Os E.U.A podem supervisionar nossas atividades, ou, até mesmo, trabalhar em conjunto conosco. Tenho certeza que essa última hipótese lhe seria mais interessante, afinal, podemos nos ajudar mutuamente de muitas formas.´
-´Deixe-me ver se entendi bem...´- disse o americano- ´Vocês alemães nos cedem todos esses benefícios de sua ciência e pesquisa e vocês criariam um novo “Estado Nazista” na América Latina? é isso?´
O alemão sorriu.
-´Podemos colocar vocês americanos na Lua em 1949, ou até antes, se for o caso.
Podemos ensinar a vocês como criar o soldado perfeito, imune ç dor e ç tudo, todo criado em laboratório. Podemos lhes dar nas mãos a arma perfeita. O mundo pode ser nosso, americanos. Todo nosso.´
Eu cronometrei, fiz questão de fazê-lo: 45 segundos e sete centésimos sem ruído algum antes do militar americano abrir sua boca cheia de merda e dizer:
-´é um plano interessante. Há mais alguma cláusula?´
-´Sim.´- disse o alemão.- ´O próprioführer vem conosco.´
-´O quê?!´- o espanto foi geral. –´Mas isso...´
-´Pense bem, meu caro amigo americano. O mundo não precisa saber que ele está vivo. Pelo menos não por enquanto. Hitler não se importa de dar as ordens por trás dos panos.´
Os ianques se entreolharam. O general americano que tinha mais estrelas se levantou e estendeu a mão ao comandante alemão. Um aperto de mãos selou o pacto. Foi por muita sorte nossa que os americanos falharam em um ponto: Em nenhum momento os aliados ingleses foram notificados do sinistro plano. Os americanos não cogitaram que os aviões alemães pudessem ser interceptados e abatidos por forças da RAF. E foi justamente o que houve. Se não fosse por caças ingleses tê-los encontrado, um temível quartoreich teria se estabelecido na América do Sul, sob o comando do próprio Hitler. E com o total apoio e auxílio dos EUA. Eu sabia que minha máquina do tempo um dia me levaria longe demais.
Quando voltei ao presente, por uma triste coincidência, minha filha estudava História na sala-de-estar. Quantas mentiras poderiam haver naqueles livros? Queria naquele momento cuspir na cara de todos os historiadores: Ingênuos, pretensiosos, tolos...pobres-coitados.
-´Tudo bem, papai?´
-´Sim filha.- respondi.-Só um pouco cansado.´
Minha máquina me deixava amargurado com o tempo.

***

Minha filha fazia dezessete anos, e estava se tornando uma bela moça. Sua aparência e maturidade remetiam facilmente ç de uma moça de vinte ou vinte e um anos. Realmente encantadora. Eu não podia negar que cada vez mais via minha filha como uma mulher. Aquilo me perturbava. Talvez o fato de saber que ela era apenas adotiva me tirava um pouco a culpa, mas ainda assim eu não me sentia bem. Era como um incesto, ou quase isso.
-´Papai, estou pronta.´
Sairíamos para jantar, comemorar seu aniversário. Minha filha tinha poucos amigos.
Era muito educada e simpática com as pessoas, porém, reservada e solitária. Um paradoxo interessante realmente. Eu entendia disso muito bem, pois sempre fui exatamente assim. Aliás, era muito curioso como éramos parecidos em diversos aspectos. Já havíamos conversado a respeito desse assunto. As pessoas em geral já diziam que éramos pai e filha só de olhar para nós: Até a cor do cabelo e dos olhos era parecida. Se eu não tivesse tanta certeza de minha vida sexual, a qual nunca foi muito movimentada, até poderia suspeitar que fosse minha filha mesmo, deixada em minha porta por algumaex minha. Mas era impossível, por sua idade. Quando ela chegou até mim ela era recém nascida, e já há um bom tempo eu não tinha contatos mais íntimos com alguma mulher. Nos últimos anos meu único amor tinha sido minha máquina do tempo. Mas tudo isso mudou depois que Rosa chegou em minha vida. Em minhas viagens, eu sempre pensava nela. Queria levá-la para todo lugar, para toda época que eu fosse, queria sempre voltar para casa são e salvo...perdê-la era uma idéia que me fazia quase chorar de medo.
-´Feliz aniversário, Rosa!´
-´Feliz aniversário, Pai!´
Fizemos um brinde e ficamos conversando por um bom tempo. Rosa estava linda naquela noite com aquele vestido preto. Peguei em sua mão e disse:
-´Eu não sei o que seria de mim sem você, minha filha.  Eu amo você, Rosa.´
-´Eu também te amo, Cláudio.´- disse, olhando em meus olhos. Meu espanto foi inevitável.
-´Rosa...você me chamou pelo meu nome...?´
-´Chamei...?´- disse ela, como que acordando de um transe.
-´Sim...é a primeira vez que você me chama pelo nome...você sempre me chama de Pai
Rosa olhou por alguns segundos, meio sem-jeito, até que enfim, disse-me:
-´Ora...mas isso não quer dizer nada, não tem nada de mais...tem?´
Para mim tinha. Muito mais do que ela poderia imaginar. O que poderia acontecer se as palavras Pai e filha fossem abolidas de nosso vocabulário? Rosa já tinha ido deitar-se há um certo tempo. Eu estava sentado na cozinha, pensado nisso.
-´Ainda acordado?´
Fui surpreendido com a entrada de Rosa na cozinha. Linda, como sempre.
-´é...insônia.´
Rosa sentou-se ao meu lado. Seu perfume era delicioso. Senti um calafrio quando ela olhou com aqueles olhos azuis.
-´Pai, você ficou chateado comigo?´
-´Por quê?´
-´Por eu ter te chamado pelo seu nome lá no restaurante...´
-´Não, não...´- tratei logo de me retratar-´Claro que não, meu amorzinho...foi só um susto, você nunca tinha me chamado assim antes. Eu me espantei, só isso.´
-´Eu te amo.´– disse-me ela, olhando em meus olhos.
-´Eu também, Rosa. Tenho que te dizer uma coisa muito importante...´
-´Diga.´- Falou, segurando minha mão.
-´...Uma das coisas que mais tenho medo em vida é do dia que você arrumar um homem, se casar e sair de casa. Eu não sei como viveria sem você.´
Rosa riu aquele riso gostoso que ela sabia dar.
-´Eu tenho que te confessar uma coisa...eu também penso nesse dia com medo.´
-´Medo?´-indaguei, sem entender.
-´Sim, medo. Eu também não sei como viveria sem você.´
Nos olhamos por alguns segundos, olhos nos olhos e nos abraçamos forte. Eu amava Rosa mais que tudo nessa vida.

***

O fogo consumia tudo ç minha volta. A fumaça me entorpecia, mas eu precisava pegar o livro. Eu precisava.
A Idade Média foi mesmo um período negro em nossa História. A Igreja, em nome de Deus, cometeu as maiores insanidades que se um ser humano pode ser capaz de cometer. E uma delas foi a destruição do conhecimento. Bibliotecas repletas de Livros ditos “perigosos”, “proibidos”  tinham dois destinos: Ou eram confiscadas ou então queimadas. Quanto menos exemplares de uma mesma obra censurada existissem, melhor. Estava numa busca louca, insana, há semanas, e tudo que eu tinha era uma suspeita e um palpite. Após muita pesquisa, acionei minha máquina do tempo para aquela que seria, talvez, uma de minhas mais perigosas viagens. Os loucos da Igreja ateavam fogo naquela biblioteca fantástica localizada numa longínqua parte da Espanha. Os árabes, sob a influência  dos egípcios e chineses, trouxeram a Alquimia para o ocidente ao redor do ano de 950, inicialmente para a Espanha. Construíram-se escolas e bibliotecas que atraíam inúmeros estudiosos. Eu estava em uma delas. Diversas culturas e ciências poderiam ser encontradas nos quilômetros e mais quilômetros de livros ali presentes: Alquimia, Astronomia, Astrologia, Matemática, Filosofia, História...Tomos e mais tomos de diversos assuntos. Todos sendo devorados pelo fogo.
Eu não tinha muito tempo. Havia um livro em especial que eu não poderia deixar ser consumido pelo fogo. A fumaça era espessa, eu quase não via nada, o calor era inumado...mas eu não podia desistir. O fogo consumia tudo ç minha volta. A fumaça me entorpecia, mas eu precisava pegar o livro. Eu precisava. A prateleira que eu queria era uma das últimas, só para meu azar. Assunto: Filosofia. Autor: Aristóteles. Título: A Comédia.
O lendário livro perdido do grande pensador grego, na palma de minha mão. Precisava fugir dali. Comecei a sucumbir, a ver tudo escurecer. Não, eu não podia morrer. Não ali, não ali. Pensei em Rosa. Rosa, Rosa, meu amor. Ajustei a minha máquina do tempo, e, enquanto desvanecia com o Livro em meus braços, cheguei ao Presente. O raro tomo de Aristóteles estava a salvo comigo. Mas eu estava em péssimo estado. Caído no chão, eu apenas balbuciava com voz sôfrega:
-´Rosa...´
Não se ela ouviu minha voz ou o som de meu corpo despencando rumo ao chão, mas Rosa, em desespero, veio me ajudar. Ela não sabia de minhas viagens temporais, o que na certa deve ter deixado-a ainda mais preocupada. Ela me tomou em seus braços, com lágrimas nos olhos. Minhas roupas estavam enegrecidas. Eu estava em um estado lastimável, fraco e com falta de ar.
-´Rosa...eu vou morrer...´
-´Não, não, eu não vou deixar!´
-´Eu te amo, Rosa...te amo mesmo...´
-´Eu também te amo...Cláudio.´
E o que eu mais ansiava e ao mesmo mais temia ocorreu. Foi preciso minha quase morte para que Rosa e eu compreendêssemos o peso das palavras Pai e Filha, o quanto elas podem ou não influenciar nossas vidas, o quanto elas podem ou não refrear nossos sentimentos. Mesmo com minha visão enturvecida e meus sentidos debilitados, pude sentir os lábios de minha filha, Rosa, minha filha adotiva, irem de encontro aos meus. é quando estamos prestes a perder alguém que entendemos por completo o quanto essa pessoa nos é importante. é quando estamos prestes a perder alguém que percebemos por completo o quanto realmente amamos alguém. Foi preciso eu me arriscar, eu quase perder a vida por causa de um maldito livro para que eu e ela percebêssemos que nos amávamos não mais como Pai e Filha, mas como homem e mulher.

***

O tempo passou como uma brisa.
Rosa e eu já não mais nos lembrávamos das palavras Pai eFilha. O fato dela ser adotiva não trouxe culpa nem a mim nem a ela. Depois de minha quase morte graças ao livro de Aristóteles, passamos a nos amar como um casal de namorados.
Nosso amor era puro, verdadeiro e completo. Desejo e paixão, corpo e alma. União. Eu me sentia rejuvenescido com aquilo. Parecia que todos os meus quase cinqüenta anos de vida haviam sido apenas uma preparação para este momento. A semelhança física que antes nos era aliada passou a ser uma inimiga: Precisávamos guardar segredo daquilo. Como as pessoas reagiriam ao saber que um Pai e uma filha, mesmo sendo esta uma filha adotiva, eram agora marido e mulher? Numa noite, após horas de amor intenso, olhávamos um para o outro.
-´Sabe...´- disse ela-´Foi o destino que nos uniu.´
-´Concordo.´- respondi.-´Você chegou ç minha porta há exatos dezenove anos, do nada. No começo achei que foi algum azar meu...agora vejo que foi um presente. Eu amo você, Rosa.´
-´Eu também te amo, Cláudio.´
E nos olhamos com nossos olhos azuis. Naturalmente Rosa agora sabia de minhas Viagens e me acompanhava em muitas delas. Vimos muita coisa juntos. Vimos a lendária Atlântida ser inundada por completo e riscada do mapa. Vimos o monstruoso conde Vlad Tepes empalar mendigos após dar-lhes quilos e mais quilos de comida. Vimos os deuses astronautas vindo em seus discos voadores para erguer obeliscos na América Latina. Vimos gigantes caminharem por esse planeta. Vimos o fascínio, o medo e o mistério do incrível povo que habitou esse planeta muito antes dos homens, muito antes dos dinossauros, vimos o que existirá depois do fim do mundo, vimos nascer a primeira rosa que floresceu no solo deste planeta. Colhi-a e dei para minha amada. Foi nessa terra verde e maravilhosa que Rosa deu-me a notícia:
-´Cláudio, meu amor, você vai ser Pai.´
O tempo passou como uma brisa mesmo, Rosa, meu bem. Você, agora, com vinte e dois anos, esperando um filho meu. Um filho nosso. Minha vida tinha um sentido, afinal. Eu era o homem mais feliz de todos os tempos.

***

Eu não podia crer no que tinha acabado de ouvir.
Estava uma pilha de nervos. Em total desespero, quase em colapso nervoso. Rosa tinha começado a sentir as contrações, mas estas vieram acompanhadas de uma dor inexpugnável que apenas aumentava mais e mais. O parto demorava demais, há horas que toda a equipe médica tentava seu melhor naquela sala. Eu chorava de nervoso. Não havia nada que eu podia fazer para ajudar a mulher que eu amava! Nada! Eu, viajante do tempo, gênio, cientista poderoso, nada podia fazer para ajudar a mulher da minha vida e meu filho.
-´Sr. Cláudio Santos ?´
Levantei-me ao ouvir meu nome sair da boca do obstetra.
-´Sou eu...´
-´Sr. Cláudio, nós fizemos o máximo que pudemos...As complicações no parto Foram muito graves. O senhor é pai de uma linda e saudável menina, porém...não conseguimos salvar sua esposa.´
Eu não podia crer no que tinha acabado de ouvir. Ela estava morta. Morta. Sentei-me e fiquei um bom tempo a olhar para o nada, sem reação alguma. Depois caí em prantos.
Rosa...morta. Eu teria que aprender a viver sem Rosa.
-´Eu tenho uma filha...´ -falei para mim mesmo, baixinho, enxugando as lágrimas.
Sim, Rosa havia partido, mas eu tinha uma filha agora...mais uma vez, uma filha para criar. Dessa vez, não uma adotiva. Eu criaria nossa filha com todo o amor e carinho do mundo. Por Rosa, por mim e por Rosa, eu iria criar nossa menina e faria dela uma mulher tão maravilhosa quanto Rosa fora.
Fui até a maternidade. Precisava ver minha filha. Depois de alguma insistência, a enfermeira me autorizou a segurar meu bebezinho. Não pude conter as lágrimas ao ver seu pequenino rosto.
Ela era linda. Tão linda quanto Rosa.
Seu rosto rosado, seu tamanho, suas mãozinhas...era incrível o quanto ela me lembrava Rosa, o quanto ela era parecida com Rosa quando esta chegou até mim em um cesto, naquela noite fria, décadas atrás, em 15 de Maio de 2002. Foi quando o bebê incrivelmente abriu seus olhinhos para mim e sorriu. Seus olhos eram azuis, como os de Rosa, como os meus. E seu sorriso me fez lembrar o primeiro sorriso que Rosa me deu na noite que ela chegou a mim. Minha filha era idêntica ç sua mãe, ela era idêntica ç Rosa...
Foi então que tudo parou ç minha volta. Não, não podia ser.
-´Não, não...´- eu balbuciava, atônito, branco como uma folha de papel. Não podia ser...mas era. Tudo fazia sentido agora. Tudo. Fiquei tonto, enjoado...desesperado. Corri para fora daquela maternidade, fui para a rua. Tudo parecia girar ç minha volta. Ajoelhei-me no meio da calçada, sentindo aquela chuva forte cair em meu corpo, paralisado. Fiquei um bom tempo naquela posição, tentando negar a mim mesmo o que eu havia descoberto. Mas não havia como.Era a mais pura e sórdida verdade. Tudo fazia sentido agora. Tudo. E eu sabia exatamente o que deveria ser feito.

***

Como estava frio naquela noite! Eu quase não me lembrava mais disso.
Era uma noite de 15 de Maio de 2002. A data eu jamais me esqueceria.
Olhei no relógio, meia noite e meia em ponto. Era essa a hora, eu ainda me lembrava. Eu o vi, indo a pé para sua casa, totalmente agasalhado. Eu me lembrava exatamente o que ele vestia: duas camisas, um casaco jeans bem grosso...ele estava ansioso, muito ansioso. Não via a hora de chegar em casa, afinal, seu experimento estava prestes a ser concluído. é, eu lembro dessa ansiedade.
Ele girou a chave na maçaneta com certa violência, e entrou. Mesmo da esquina, eu sabia o que ele iria fazer: passaria como um furacão pela sala e correria em direção de seu porão. Acenderia a luz, contemplaria o maquinário que estava construindo. Colocaria em cima da mesa o seu motivo de chegar em casa tão tarde da madrugada: uma caixa cheia de coisas miúdas que para leigos seriam apenas um monte de parafusinhos, fiozinhos e trequinhos eletrônicos. Porém, para ele, poderiam significar a realização de um dos maiores sonhos da humanidade. Eu tinha que esperar ainda: sabia o quanto demoraria para ele instalar tudo. Às quatro da manhã olhei para o cesto enorme, coberto por um paninho colorido que tinha minha filhinha recém-nascida dentro. Ela dormia um sono tranqüilo, enrolada em diversas camadas de uma colcha de lã. Tentei não chorar.
Caminhei até a frente da casa e deixei o cesto junto do bilhete na porta. Olhei no relógio: quatro e quinze da madrugada. Toquei aquela escandalosa campainha e fui embora.
 Eu sabia o que aconteceria agora, mas mesmo assim, da esquina, fiz questão de observar. Sabia que ele subiria as escadas com pressa, atravessaria a sala de estar com impaciência, e olharia pelo olho mágico da porta. E não veria ninguém. Ouvi a voz dele perguntando imbecilmente ‘Quem é?’. Ele abriu a porta, enraivecido. Olhou para os lados e não viu ninguém. Idiota. Eu me lembro disso. Idiota. Imbecil. Xingou uns dois palavrões, desses mais comuns, que todos xingam quando se sentem enganados. Burro. Eu lembro disso. Agora está imaginando que algum cretino desocupado tocou a campainha e foi embora, só pra fazê-lo atender a porta e não encontrar ninguém. Foi aí que ele percebeu o cesto que deixei em sua porta.. Era um cesto enorme, coberto por um paninho colorido. Quando ele olhou para dentro e viu que tinha um bebê dentro, se assustou e levou para dentro de casa. Fechou a porta, mas eu sabia o que iria acontecer. Ele agora pensaria no criminoso que é capaz de abandonar uma criança em tais condições, arriscada a contrair uma pneumonia, ou até mesmo a morrer. Ele acharia dentro do cesto o  bilhete que eu havia digitado no computador e impresso:
O nome desse bebê é Rosa. Você saberá cuidar dela melhor do que eu.
 No começo, em desespero, Cláudio Santos não saberá o que fazer. Mas no momento em que Rosa começar a acordar, espreguiçar-se tão sutilmente parecendo uma florzinha desabrochando e abrir seus olhinhos, aí tudo mudará. Ele notará que o azul dos olhinhos da menina é coincidentemente idêntico ao dos seus.
Nesse instante ele abençoará o fato de existirem seres que, cientes de sua própria irresponsabilidade e falta de amor ç vida, dão a outros uma chance de terem uma razão de viver. Naquele instante a máquina do tempo de Cláudio Santos não será mais sua única razão de viver. Sua paixão, seu amor e sua devoção terão agora um segundo alvo: Rosa. Rosa, sua filha.
-‘Rosa, minha filha, meu amor, adeus’- dizia eu, baixinho, sentindo as lágrimas esquentarem minhas faces, enquanto acionava minha máquina do tempo e partia.

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