A Garganta da Serpente
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Flaveus van Neutralis saiba mais sobre o autor

Boa noite, meu amigo
(Flaveus van Neutralis)

Arregacei a manga do meu casaco para poder ver a hora. Tinham se passado apenas cinco minutos desde a última vez que eu havia checado. O tempo passava de forma muito, muito lenta. Pelo menos para mim. Não importa onde eu estivesse, o que eu estivesse fazendo: Eu poderia estar me divertindo com a mais voluptuosa das prostitutas, ou estar sentado numa missa de sétimo dia (como era o caso naquele instante), o tempo sempre passava muito, muito devagar para mim . "À medida que os anos passam, a vida se torna mais tediosa" - matutei comigo. A capela estava lotada. Almeida era meu melhor amigo, e, muito provavelmente, era o melhor amigo de muita gente também. Olhei para os lados: muita gente chorando. Eu ficava bobo como era popular e querido esse Almeida. Carmem minha namorada, apertava minha mão com força enquanto chorava. Ela havia prometido a Almeida que ele seria o padrinho do primeiro filho que ela tivesse em vida. Promessas não passam de promessas, é o que eu sempre digo. Palavras são como o vento, palavras são como a flatulência de anjos caídos, ou seja, nada importante. Atos contam, pesam. Palavras não. Eu estava muito mal-humorado. Todos se levantaram quando o padre assim pediu, fizeram as últimas orações em coro, e foram dispensados. Senti-me mais aliviado quando saí daquela capela. Não que eu fosse anticristão ou algo do tipo, mas as imagens dos santos me perturbavam. Lá fora, conversávamos eu, Carmem, Maurício, Antônio, José e Flavio.

-'Uma fatalidade.'- lamentou Maurício, enquanto limpava os óculos e as lágrimas.

-'Pois é.'- disse Antônio.- 'Logo o Almeida...um cara tão saudável. Não bebia álcool, não fumava, não comia carne vermelha, malhava, tinha um cuidado todo especial com a saúde...vítima de câncer.'

-'A vida é ingrata.'- murmurou Flavio com aquela voz grave e quase gutural que ele sabia fazer quando falava sério.

-'A vida não é justa, Flavio.'- disse eu para o mais jovem de nosso grupo, com discreta e quase imperceptível rispidez.- 'Cabe a nós fazer dela alguma coisa justa, mudar o que pode ser mudado.'

-'A morte não pode ser mudada.'- respondeu-me ele, enquanto o vento frio emaranhava seus cabelos compridos cor de mel.- 'É o que sempre dizem: A morte é a única certeza que temos em vida.'

-'Pois é.'- Concordou José. Os demais concordaram em seguida, balançando a cabeça.

Calei a minha boca. Estava de mau-humor, e não tinha porquê entrar em certas discussões com os rapazes. Despedi-me deles, e saí junto de Carmem. Quando fui deixá-la em casa, ela me beijou, olhou para mim com aqueles olhos cor do oceano, e perguntou:

-'Você tem estado estranho esses dias. Aconteceu algo?'

-'Estranho como, Carmem?'

-'Estranho, irritado...um pouco distante.'

Carmem tinha muita empatia. Especialmente para perceber o óbvio. Em vão, menti dizendo que estava tudo bem, me despedi e fui para casa. Chegando na minha rua, vi uma ambulância na esquina de minha casa. Um monte de gente que não tinha mais o que fazer em volta, olhando. Passando por perto, vi o que havia acontecido: Um carro havia batido num poste. Um homem e uma mulher estavam sendo levados. Pela barriga daquela mulher, julguei estar ela grávida. O estado deles era péssimo, estavam muito feridos, e havia sangue por todo o lugar. Ela estava desacordada. Ele, desesperado. Passei rapidamente pelo local, fui logo cuidar da minha própria vida. Dirigi-me para minha casa, Tomei um banho, comi um sanduíche de queijo, e fui dormir. Não consegui dormir naquela noite. Rolei na cama a madrugada toda, ouvindo o tiquetaquear do relógio da minha parede. O tempo passa mais lento ainda quando se tem insônia.

***

Toquei a campainha daquela casa de subúrbio. Flavio morava numa casa grande em uma rua bonita, ainda que próxima a uma favela. Eu não sei como ele conseguia viver ouvindo tiros quase todas as noites. A mãe dele atendeu a porta, me cumprimentou com um sorriso, e pediu que eu entrasse. Eu me impressionava como ele era parecido com ela fisicamente. Entrei em seu quarto e vi aquele bagaço em forma de gente deitado na cama, cochilando.

-'Acorda, Flavio.'- disse rindo, cutucando seu ombro. Ele escancarou aqueles olhos verdes para mim , e sorriu. Abriu a boca e falou com voz rouca:

-'Fala cara...'

Flavio estava com uma gripe muito forte. Pegou muito frio numa noite dessas, e, por azar, estava sem agasalho. Resfriou-se, piorou, e ganhou uma gripe de presente. Flavio tinha muita facilidade para pegar gripes. Devia ser por causa das alergias dele. O cara era alérgico a três tipos diferentes de ácaro. E levando-se em consideração que ácaros estão em todo e qualquer lugar, meu amigo tinha constantes problemas com sua imunologia.

-'Vim te ver.'- falei.- 'Como 'cê tá?'

-'Melhorando.'- disse.- 'Não estou tendo mais febre. Os antibióticos tão fazendo efeito.'

Ficamos conversando. Flavio ficava muito deprimido quando se adoecia, se sentia um pedaço de merda, o último dos homens. Eu sempre o achei meio melodramático, exagerado demais nesse ponto, mas respeitava, afinal, devia ser um saco ficar gripado quase de dois em dois meses. Num momento, ele comentou:

-'Queria ter a sua saúde. Nunca te vi doente!'

Olhei para ele e sorri com desdém.

-'Sorte. Pura sorte.'

-'Sorte o cacete!'- ele riu.- 'Você tem uma saúde de ferro, Renato. Te conheço há cinco anos, e nunca te vi com um resfriadinho sequer. Me lembro aquela vez, no ano passado, que todo mundo tava na sua casa e comeu aquela pizza estragada. Todo mundo passou a noite vomitando, menos você! Porra, teu estômago deve ser todo forrado com couro por dentro!'

Ri muito. O Flavinho me matava de rir quando dizia que eu tinha "estômago de couro".

-'Teve vezes que a Carmem pegou gripe e você, mesmo vendo ela sempre e estando perto dela, não pegou. Teve uma vez que ela me contou que foi foda: O pai dela pegou uma virose sinistra e passou pra mãe dela, pra ela e pra irmã dela...todo mundo teve que ficar se entupindo de antibiótico por umas duas semanas. Você, mesmo freqüentando a casa dela, beijando e abraçando ela, não se contagiou. Você tem uma saúde sinistra, 'cê sabe disso. Você sempre foi assim?'

-'Não. Quando eu era criança, adoecia facilmente. Pra ser honesto, quase morri ao cinco anos, por causa de uma pneumonia.'

-'Cacete...'- exclamou, impressionado com o tom sério de minha resposta - 'Deve ter sido algo absurdo então. E você teve essa fragilidade até que idade, mais ou menos?´

-´Depois desse lance da pneumonia eu nunca mais tive nada.´- falei, secamente.

-´A vida é engraçada mesmo... E agora você tem esse corpo fechado.'

Olhei sorrindo para o rosto branquelo e jovenzinho de Flavio. Disse que estava apenas de passagem, e fui embora. Enquanto eu conversava com ele, havia começado a cair um temporal. A mãe dele quis me emprestar um guarda chuva. Agradeci, mas não aceitei. Eu não tinha medo da chuva, nem medo de me molhar enquanto esperava meu ônibus no ponto. Podia cair a chuva que fosse. Como Flavio havia dito, eu não iria me resfriar. Nunca. Quando cheguei na minha rua, ouvi uma voz chamando meu nome. Era a minha vizinha, Dona Maria.

-'Renatinho! Você não sabe da maior...'

Dona Maria havia me visto crescer, e gostava muito de mim . Eu a achava uma boa pessoa, mas ela era chata pra caralho, além de muito fofoqueira. Na certa iria me contar mais uma fofoca, algum comentário inapropriado sobre a vida pessoal alheia. Eu imaginava o que aquela velha coroca não falava de mim pros outros.

-'Sabe aquele cara que se acidentou aqui na semana passada?'

Eu não lembrava. Que cara?

-'Quem, Dona Maria?'

-'Aquele Corsa vermelho que bateu na esquina, lembra?'

Lembrei do casal que havia visto no dia da missa de sétimo dia do Almeida.

-'Ahn sei...Quê que tem?'

-'Morreu hoje. Ficou uma semana sofrendo na CTI.'

Mas por curiosidade infantil do que por interesse ou preocupação, perguntei da mulher.

-'Ela morreu no mesmo dia do acidente. Tava grávida, coitada...'

-'Na certa bateram porque o cara tava bêbado.'- resmunguei.

-'Nada! Ele tava correndo muito com o carro porque a mulher tinha entrado em trabalho de parto. Tava levando ela pro hospital, pra ela dar a luz. Perdeu com o controle do volante naquela velocidade toda e entortou o poste.'

Olhei para Dona Maria e lamentei o fato com ela. Em casa, olhando-me no espelho, não sei porquê, não conseguia parar de pensar no destino daquele casal. Pobre criança que foi privada do direito de nascer, do direito de fazer escolhas certas ou erradas em vida, do direito de ser uma boa ou má pessoa. Doentio.

-'Doentio...'- falei sozinho.- 'O destino é doentio mesmo.'

Fiquei alguns segundos olhando para meu reflexo no espelho, olhos nos olhos. Senti-me esquisito, como se não fosse eu no espelho, e sim outra pessoa, me imitando. Por um segundo, cheguei a sentir medo de meu próprio olhar, como se ele fosse me contar algo que eu não soubesse, ou que eu soubesse e não tivesse coragem de admitir. Apaguei a luz do banheiro e resolvi ir ler um livro, para tentar lutar contra a insônia. Sentei num sofá minha sala de estar, acendi a luz, e pus-me a ler Fausto, de Goethe. Era a sétima vez que eu iria ler aquele livro, e parecia ainda que eu jamais havia o lido. Era como se eu quisesse extrair algo a mais a cada vez que eu o lesse, entender por completo por que o pobre doutor vendeu a alma para Mefistófeles. Que satisfação plena era essa que o doutor tanto queria? Ser Deus? Ser capaz de fazer tudo, mudar tudo, escrever tudo e ser tudo que quisesse ser? Era uma explicação convincente para a negociata com o Demônio, mas, algo me dizia que havia algo mais. Era como se o livro rosnasse para mim, me desafiando, guardando seu grande segredo, como uma grande Esfinge a encarar-me, Decifra-me ou Devoro-te. Abri a primeira página, e comecei a devorar o livro de novo. Quando dei por mim , já havia amanhecido. Havia chegado a hora de sair para o trabalho, e eu havia chegado ao fim do livro. Ah, Doutor Fausto...quão distante seu gênio realmente está do gênio daqueles que atiram pedras em seu nome? Esses pobres coitados nunca perceberam que o doutor na verdade era tão humano quanto eles, senão a mais humana das personalidades mitológicas e literárias já existentes. Arrumei-me com pressa, com medo de chegar atrasado no trabalho mais uma vez. Antes de sair, olhei para o livro em cima da mesa, e, sabe-se-lá-porquê, li o título em voz alta:

-'Fausto.'

Bati a porta de casa e corri para o ponto de ônibus.

***

Me partia o coração ver Carmem chorar, mas era preciso fazer isso.

-'Estamos juntos há sete anos! Não me deixe assim, não me deixe.'

Ela implorava, suplicava para que eu ficasse, para que eu desse alguma explicação daquele término repentino de nosso noivado.

-'Carmem...eu não amo mais você. Me perdoe, mas não amo...'

Cada palavra saía rasgando pela minha garganta. Cada sílaba parecia uma lâmina, cada pronome era feito de metal, cada verbo, uma bola de espinhos. Como me doía falar aquelas coisas, como me doía vê-la chorar.

-'Bem que eu estava notando que você estava cada vez mais distante!'- acusou ela.

Verdade. Eu estava mesmo mais distante, cada vez mais e mais distante.

-'Olha nos meus olhos e diz que não me ama mais! Olha e diz, olha!'

Olhei para aqueles olhos azuis imersos em lágrimas. E disse, com a frieza de uma rocha:

-'Eu não te amo mais.'

O que se seguiu foi desesperador. Em prantos, nem falar ela conseguia direito. Resolvi reduzir aquilo, e fui-me embora de sua casa e de sua vida. Em casa, Fiquei olhando para fotos que ela me deu ao longo desses anos, fotos de viagens que fizemos juntos, cartões de dias dos namorados passados...num instante, reparei que ainda tinha no dedo a aliança de noivado. Guardei-a numa gaveta, junto de tudo mais que tinha dela.

-'Carmem...'- suspirei, com dor no coração.-' Eu te amo, Carmem. Não sei se vou te amar para sempre, mas agora, nesse instante...eu te amo, Carmem.'

Foi melhor assim. Tinha que ser assim. A coisa estava ficando séria, e não podia ir a frente. Ela vai achar um homem melhor, um cara bem diferente de mim , um sujeito normal, que ela possa amar sem medo, sem riscos. Uma pessoa com quem ela possa casar, ter filhos, envelhecer junto...enfim, satisfazer a todas aquelas fantasias romântico-burguesas as quais eu realmente não seria capaz de satisfazer.

Sentei no sofá da sala. Tinha vontade de gritar, de chorar, de me matar. Mas fiquei apenas na vontade. Não queria sentir as lágrimas escorrendo por meu rosto, apesar da dor imensa que me consumia, apesar da dor imensa que eu havia causado em minha vida. Sempre assim. Eu era meu pior inimigo. Ninguém havia causado mais dor em minha vida que eu mesmo. Um homem é responsável por suas escolhas, por seu destino, e pelos caminhos pelos quais percorre. Lembrei daquele casal que havia morrido no acidente de carro na esquina da minha rua há seis anos atrás, lembrei da criança que morreu antes mesmo de nascer. Ainda bem que você não nasceu, infante. Ainda bem que você não nasceu, não cresceu e não viveu para desgraçar sua própria vida. Ainda bem que você não existiu para construir um lindo castelo de sonhos, e, depois derrubá-lo como se ele fosse feito de cartas. Ainda bem que você não fez a idiotice de nascer, agradeça a Deus por isso. Agradeça por agora estar vagando nesse lugar frio e escuro que é o limbo, criança, pois lá pelo menos você está a salva de si mesma. A morte é muito melhor do que uma vida que você mesmo destrói. Morrer...

-'Como eu queria morrer!'- exclamei, em agonia. E pensar que em minha infância eu morria, morria de medo da morte. Quantas noites eu chorei em pânico absoluto ao imaginar, aos meus cinco anos de idade, que eu poderia morrer por causa da enfermidade crônica que me acometia. Jamais imaginei um dia desejar a morte. Jamais.

Olhei para a minha secretária eletrônica, e resolvi checar algum recado.

-'Fala Renato, é o Flavio! Quanto tempo...'cê tá sumido, cara! Me dá uma ligada!'

Flavio.

-'E aí, Renato? É o Maurício. Quanto tempo, desde aquele Natal de dois anos atrás que não te vejo...me liga contando as novas, mano! Valeu...'

Maurício.

-'Ficou metido, Renatão? Me liga, sumido.'

Antônio.

-'Meu filho, você deixou de gostar de mim e do seu pai? Tenho te visto tão pouco...me procura, filho!'

Minha mãe. A última vez que vi meu pais foi numa visita rápida na última Páscoa. Fui ver a caixa de correio...tinha uma carta do José. Só pelo envelope, deduzi que era um cartão. Na capa do cartão, tinham dois personagens de um desenho animado muito antigo rindo e se abraçando. Abri.

-'Feliz dia do amigo, Renato. Você some, mas eu não esqueço de você! Abraço, paz e saúde. José.'

Ri, comovido. Nem lembrava que o dia do amigo era naquela semana. José era muito legal, sentimental que só ele.

Saudade. Que saudade sentia de Carmem, dos meus amigos, dos meus pais... Respirei fundo, mordi os lábios. Eu não ia chorar. Não ia.

-'Eu prometi que não choraria nunca mais em vida.'- exclamei.

Apaguei os recados da secretária, guardei as lembranças de Carmem e guardei o cartão de José numa gaveta. Tomei uma dose de calmantes e deitei na cama. Quando apaguei a luz, senti o calor de uma lágrima me esquentando as faces. Promessas não passam de promessas, palavras ao vento. Promessas não são nada mesmo.

***

O sol nasceu, enchendo minha sala de estar de luz e me enchendo de mau-humor. As pessoas em geral gostam de ver o sol nascer. Eu detesto, não há coisa que eu odeie mais em vida do que ver o sol nascer. Especialmente depois de uma noite em que não preguei o olho. Deitado no sofá da sala, de olhos bem abertos e cabeça cheia de estresse e cansaço. Estava cheio de dívidas, cheio de desgraça, e precisava fazer reformas em minha casa. Ela estava cheia de infiltrações, precisava de nova pintura...quando chovia, era uma tristeza. Liguei a televisão e fiquei vendo o telejornal da manhã. Mais uma guerra estava estourando no mundo, e a imprensa trazia mais um informe do campo de batalha. Eu estava cagando e andando para aquela porra toda, por mim o mundo todo podia se foder, podia ter uma guerra nuclear e acabar o mundo. Pronto, acabou tudo, e daí? Eu tava de saco cheio da vida mesmo. Não tinha mais paciência para viver.

Fui tomar um banho demorado. Enquanto tomava um copo de leite na cozinha a campainha tocou. Não estava com a menor vontade de falar com ninguém, mas fui atender. Era um senhor calvo, com um pouco de barriga, bem vestido.

-'Pois não?'- atendi, doido para despachar aquele indivíduo inconveniente.

Ele me olhou com olhos arregalados e um sorriso de orelha a orelha.

-'Renato!'

Quando ele disse meu nome, reconheci a voz, olhei para o rosto mais uma vez, e gritei:

-'José!'

Escancarei a porta e nos abraçamos. Há anos não o via! Convidei-o para entrar.

-' Renato, que milagre te encontrar depois desses anos todos! Você se mudou daquele seu velho endereço, nem disse para onde tinha ido, sumiu...a gente perdeu contato! Você sumiu!'

-'Como você descobriu meu endereço?'- perguntei, curiosíssimo.

-'Cara, eu tou passando o feriadão aqui em Petrópolis com minha esposa...vi você ontem por acaso, de longe, nessa padaria que tem aqui no fim da rua, sabe? Te reconheci na hora! Perguntei pro padeiro onde você morava, e ele me disse seu endereço.'

-'...Esposa?'- exclamei, espantado.

Ele riu, e me contou que estava casado há dez anos., e que tinha um filho de seis anos de idade. Comecei a perguntar de todo mundo, faminto por notícias.

-'O Maurício, 'cê tem que ver o cara! Ele era meio gordo, lembra? Tá magrinho, virou um coroa esportista. Tá namorando uma mulher vinte anos mais nova. Agora tá fazendo tratamento contra calvície, cismou que ficar jovem!'

-'E o Flavio?'

-'Flavio tá bem de vida! Tá dando aula na UFRJ já há alguns anos. Ele terminou no ano passado a segunda faculdade dele, pouco depois de ter concluído o Doutorado. A saúde dele melhorou bastante nos últimos anos, ele tem feito regularmente um tratamento antialérgico muito bom. Ele ainda tá tocando com aquela banda de heavy metal que ele tinha nos tempos de garoto, lembra? Cara, você acredita que ele ainda tem aquele cabelão? Só que os primeiros fios brancos já tão começando a aparecer, né...'

Rimos muito. Perguntei do Antônio, e o riso dele se cessou.

-'Renato...'- Pausou- 'Antônio morreu.'

-'Morreu?!'- exclamei.-' De quê?'

-' Tiro. Bala perdida. Estourou a cabeça dele.'

Eu estava atônito com aquela notícia.

-'Quando foi isso, José?'

-'Ahn, isso foi...deixa eu ver...'- parou para pensar por um instante e teve um estalo.- 'Eu me lembro, eu lembro...eu tinha um ano de casado...isso foi há nove anos atrás.'

Antônio havia morrido, e eu só fiquei sabendo disso agora...quase uma década após.

-'Te procuramos, mas você havia se mudado e nem nos passou o endereço! Além do que, todos tavam meio putos com você, achando que você tava de sacanagem com a galera. Só eu que pensei que talvez você estivesse com problemas...senti saudades suas, amigo.'

-'Também senti, José.'- disse.- 'E ainda sinto...'

Ficamos alguns segundos em silêncio. Fiz a pergunta da qual queria tanto fugir:

-'E a Carmem?'

-'Tá casada, e já tem dois filhos. Tá trabalhando numa firma de administração.'

Fiquei em silêncio. Já não era mais apaixonado por ela há bastante tempo, sequer pensava nela...mas me sentia perturbado. O futuro de Carmem poderia ter sido diferente. O futuro dela poderia ter sido comigo.

-'Renato...posso te fazer uma pergunta?'

-'Faz.'- suspirei.

-'Por quê você largou a Carmem?'

Demorei a responder, e quando o fiz, foi de cabeça baixa.

-'Por que eu havia deixado de gostar dela.'

José ficou me olhando, como se quisesse ler meus pensamentos. Então, sábio e perspicaz como ele sempre fora, disse:

-'Não mente pra mim .'

Ele sempre sabia quando alguém mentia para ele. Mesmo assim, continuei mentindo:

-'Não tô mentindo.'

Ele fingiu que acreditou. Mudamos de assunto. Inventei mil e uma desculpas para explicar meu desaparecimento absoluto nesses anos. Será que ele acreditou em alguma? Sempre fui péssimo com desculpas esfarrapadas, e José, ótimo em descobri-las. Conversamos sobre mil e uma frivolidades, relembramos os velhos tempos...ficamos a manhã toda nessa farra. Perto da hora do almoço, olhou para o relógio, e disse-me:

-'Tenho que ir. Minha mulher e eu vamos embora depois do almoço, o Marquinho não tá passando bem. Acho que ele pegou alguma gripe aqui, sei lá...bom, vou indo nessa.'

Nos abraçamos, e nos despedimos. Quando estava acompanhando-o até a porta, ele me disse:

-'Ahn cara...me diz onde fica a fonte!'

Olhei com estranheza.- 'Que fonte, homem?'

-'A fonte da juventude!'- riu.- 'Você ainda tá com a mesma aparência de vinte anos atrás! Não perdeu cabelo, não engordou, não ganhou uma ruga...eu queria ser bem conservado assim, sinto falta de meu cabelo.'- passou a mão na cabeça.

Ri. Fiquei na porta até que ele entrasse em seu carro e se fosse, e entrei em casa. No espelho de meu banheiro, eu podia ver um homem de quarenta e cinco anos com aparência de vinte e cinco, vinte e sete no máximo. Minutos, gastei minutos que mais pareciam horas somente fitando meu rosto naquele quadro reflexivo. Tantos, tantos anos haviam se passado...passei a mão no meu rosto, e não senti apenas minha pele lisa e jovial, mas parecia que eu sentia as lembranças passarem por entre meus dedos. As alegrias, as tristezas, os altos porres que tomei na adolescência com Maurício, os shows insanos e intensos da banda de Flavio, As longas conversas com José, o dia em que Almeida me arrumou a oferta de meu primeiro emprego, as piadas engraçadíssimas do Antônio, a festa de ano novo em que conheci Carmem...num acesso de raiva, quebrei o espelho com um soco. Quando olhei para minha mão intacta, sem um corte sequer, comecei a chorar compulsivamente. Peguei um pedaço e o segurei com força, até abrir um corte na palma da minha mão. Lembranças eram como cacos de um espelho quebrado em minha vida: Se eu as tocasse, fariam-me sangrar.

***

-'Aqui está, senhor Antônio.'

Peguei minha identidade de volta, e assinei o papel. Uma pequena burocracia dos correios em entregar certas encomendas: Checar o número da identidade e o nome da pessoa que recebeu a mercadoria. Agradeci ao carteiro, e fechei a porta. Ainda não estava acostumado ao sotaque dos mineiros, mesmo estando já há tantos anos morando em Belo Horizonte. Também não estava acostumado com meu novo nome, com minha nova carteira de identidade. Não mais Renato, e sim Antônio, um nome que escolhi para homenagear meu amigo, meu velho amigo morto. Sentei-me à mesa, e abri o pacote. Era um volume de Fausto, de Goethe, original em alemão. Custou caro, mas valeu a pena. Eu folheava o livro como se fosse feito de ouro. Quantas vezes já havia lido aquele livro? Tinha perdido a conta já...coloquei o volume num plástico e o pus em minha estante, junto dos meus outros tantos volumes de Fausto. Depois de tantas e tantas leituras, já estava me sentindo quase como o próprio Doutor Fausto, desesperado, arrependido, implorando pelo perdão de Deus, o Altíssimo. Sentei na cozinha de minha casa, e voltei para meu serviço de tradução. Meu emprego de tradutor de textos em uma firma de informática me dava uma boa grana, e me dava a vantagem de poder trabalhar no aconchego de meu lar. Passaram-se os minutos, as horas, de forma lenta e tortuosamente. O livro que eu estava traduzindo era muito chato, eu detestava aqueles livros complicados de computação, repletos de termos específicos, linguagens de programação e outras chatices. Apesar disso, eu tinha um certo poder de concentração no que eu fazia. Parei quando comecei a sentir fome, já eram quase nove da noite, e nem tinha jantado ainda. Esquentei um macarrão do dia anterior, e me servi. Antes de matar minha fome, fui até a sala, apanhei o livro que havia chegado a mim naquele dia, e pus-me a folheá-lo enquanto comia. Tomava todo o cuidado do mundo para não deixar que o molho de meu spaguetti respingasse nas páginas. Quando estava na metade de minha janta, a campainha tocou.

-'Já vai!'- exclamei. Olhei pelo olho mágico. Era ele.

Senti um calafrio correr pelo meu corpo. O que fazer? Não abrir a porta? Eu podia não abrir, deixá-lo lá fora...de repente me ocorre que ele poderia entrar de qualquer forma. Ele poderia fazer o que ele quisesse, a hora que quisesse...ainda mais comigo. Senti um medo incontrolável de irritá-lo. Abri a porta. Ele não havia mudado nada desde a última vez que havíamos nos visto. Muito bem alinhado, perfumado, vestindo um terno preto de puro linho, cabelos compridos da cor do mais brilhante ouro, lisos, olhos que oscilavam entre o verde-esmeralda e o azul-claro...um homem muito bonito, muito bem aparentado e elegante. Sorriu para mim.

-'Pensei que não fosse me deixar entrar!'

Cínico.

Ele entrou em minha casa. A primeira coisa que fez foi olhar em volta de minha sala, e dizer:

-'Muito bonita sua nova casa! Quanto tempo vai ficar aqui em Belo Horizonte?'

-'Eu não sei'- disse, secamente, enquanto batia a porta.

-'Hmn...sei.'- olhou para a estante.-' Para onde vai quando enjoar daqui? Fortaleza? Rio Grande do Sul? Ou para fora do país? Você fala inglês muito bem, seu chefe até lhe aumentou o salário...'

-'Você está muito bem informado.'- tentava disfarçar o medo com frieza.-' Para quê

veio aqui?'

-'Para pegar um livro seu emprestado!'- disse, e pegou um de meus volumes de Fausto.- 'Adoro, adoro esse livro...posso levá-lo emprestado?'

-'Pode.'- respondi, com vontade de enfiar aquele livro no rabo dele.

-'Ahn, muito obrigado.'- pôs o livro dentro do paletó do terno.-' Quando te devolvo?'

-'Não tem pressa.'- respondi.- 'Veio só para isso?'

-'Vim botar o papo em dia também.'- disse, com um sorriso irritante.- 'Vamos até a cozinha, seu macarrão vai esfriar...'

Fomos. Ele se sentou à minha frente. Remexi na comida, sem fome alguma. Ele havia me tirado o apetite. Depois de um certo silêncio - afinal, eu não tinha nada a conversar com aquele homem- ele exclamou:

-'Antônio...muito belo esse seu novo nome.'

-'Escolhi-o em homenagem a um amigo.'

-'Eu sei.'- disse.-' Outro dia desses esbarrei com ele.'

Arregalei meus olhos. Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele me interrompeu.

-'Eu disse que apenas esbarrei com ele, calma. Nada mais. Não precisa se desesperar. Ele está bem, e está muito preocupado com você.'

Senti vontade de chorar, mas jamais choraria na frente daquele...ser.

-'Antônio'- disse, e repetiu o nome mais umas seis vezes.-' Onde está sua carteira de identidade?'

Peguei-a. Por um acaso, estava próxima de meu material de tradução, e pus na mão dele, sem encostar minha pele na pele dele. Ele olhou a foto, e disse:

-'Você está bonito nessa foto.'

-'Obrigado.'- agradeci, enojado.

-'Quantos anos você tem nessa carteira de identidade?'

-´Quarenta.'- respondi.

-'Ahn...'- pausou.- 'Então Antônio tem quarenta anos...e Renato? Quantos anos Renato tem?'

Fechei os olhos.

-'Você sabe muito bem.'

Ele riu. Eu odiava a risada dele.

-'Eu esqueci...me deu um branco de repente, sabe...'-disse-me, com todo o cinismo do mundo.

Respirei fundo. Fitei-o no olhos, e sussurrei, com raiva.

-'Noventa e oito'

Eu era um homem condenado a envelhecer num ritmo extremamente lento. Minha

saúde era indestrutível. Minha memória, fotográfica. Meu coração, imortal.

-'Sabe a Carmem? Foi enterrada ontem.'

Aquilo foi uma facada no meu peito. Fiquei paralisado, não esbocei reação alguma.

-'Estive no enterro da menina...quer dizer, menina não: senhora. Morreu de velha, em sua casa, muito feliz. Os filhos, netos e os bisnetos estavam em seu enterro. Você teria sido muito feliz com ela, muito feliz mesmo, Renato.'

Joguei meu prato no chão e me levantei. Dei um soco na mesa.

-'Cala a boca!'- gritava, furioso. -'Sua voz me irrita, você me irrita...você destruiu minha vida!'

Um suspiro. Um suspiro e um bocejo foram suas respostas à minha explosão. Ele pôs os pés na mesa, da forma mais abusada do mundo, calmamente abriu o volume de Fausto que havia pegado em minha estante, e, da forma mais serena do mundo, disse, enquanto folheava-o:

-'Você quis isso. A escolha foi sua.'

Aquilo calou fundo, porque era a verdade. A escolha foi minha. Só minha.

-'Flavio morreu há um ano. Maurício se foi há cinco anos. José, há dois anos e meio. Todos morreram, meu querido. E todos já sabem da verdade.'

Silêncio. O monstro me olhou com o canto dos olhos.

-'Todos já sabem que não te verão tão cedo, e, talvez, jamais vejam.'

Era impressionante como uma pessoa podia ser tão irritante falando de forma tão suave e calma. O desespero tomou conta de mim. Em prantos, ajoelhei-me a seus pés, e, segurando em seus joelhos, disse:

-'Pelo amor de Deus...Me diz quando eu vou morrer? Quando?'

Sem pressa alguma, ele fechou o livro e colocou-o em cima da mesa. Sacou um baralho de seu bolso.

-'Façamos o seguinte: Apostemos. Se você me vencer num jogo de cartas, eu lhe digo o dia que você vai morrer. Senão...'- riu.-' Fica na curiosidade. topas?'

Olhei-o com espanto e medo.

-'Tenho medo de fazer acordos com você.'- disse, enxugando as lágrimas.

-'Você já fez um antes.'- jogou na minha cara.-' Você não tem mais nada a perder.'

Olhei no fundo de seus olhos. Levantei, sentei-me no outro lado da mesa, e dividi o baralho. Começamos a jogar buraco. A primeira partida foi rápida, ele me venceu facilmente. Antes que eu tivesse tempo para me agoniar, ele disse:

-'Te dou outra chance. Vamos!'

Dividi o baralho novamente, e batemos outra partida. Perdi.

-'Você tem a madrugada toda para tentar me vencer. Se você conseguir me vencer até antes do amanhecer, não apenas lhe digo o dia de sua morte como ainda deixo você escolher esse dia, e, de quebra, ainda te devolvo o que você me ofereceu naquele nosso pacto.'- propôs.- 'Aceitas?'

Era a minha chance de me salvar, de morrer e salvar minha alma. Num respaldo de medo, perguntei:

-'E se eu não conseguir?'

Um sorriso maligno foi sua resposta. Uma resposta silenciosa, que me valeu mais que mil palavras.

-'Aceito seu desafio.'- falei, arrogante.

Partidas e mais partidas seguiram pela madrugada. Muitos foram os jogos que jogamos. Todos eu perdi. Havia partidas em que ele me vencia de forma como se estivesse jogando contra uma criança, e, em outras, ele permitia que eu fizesse algo. E alguns instantes eu quase acreditei que tinha chance contra ele. Houve uma partida que estive bem, bem perto da vitória...mas ele deu uma reviravolta triunfante com uma carta de coringa. O maldito mostrou a carta para mim e disse:

-'De todas as cartas do baralho, essa é a minha predileta.'

As horas passavam. Não me sentia cansado, nem um pouco. Jogamos mais e mais partidas, o tempo se esgotava, e nenhuma vitória eu havia tido. Suava muito, estava agoniado. A segurança dele, a calma que ele expressava no falar, sua ironia fina...sua certeza implícita de vitória me dava agonia. Ele sempre vencia, sempre!

-´Sabe...´-disse-me ele, numa de suas vitórias-´Mesmo após tanto tempo, você ainda tem aquele mesmo olhar de pânico que você tinha em seus tempos de moleque, sabia disso?´

Ele tinha razão. Eu ainda conhecia bem o arder do pânico em meus olhos. No final de um dos jogos, olhei para a janela, e os primeiros raios de sol expulsavam a madrugada e devoravam minhas esperanças. Eu tinha só mais uma carta a jogar, ele também. Olhei para ele.

-'Jogue.'- ele disse.- 'É sua última chance.'

Virei a carta. Ele olhou, e mostrou a dele. Ele havia vencido de novo.

Eu perdi, eu havia perdido tudo de vez. Meu mundo havia desabado, caído...aquilo era como uma morte para mim ...não, minto pior: era muito pior que uma morte. Olhei desolado para a mesa, em silêncio. Não falava, não me movia. Era como se o planeta tivesse se tornado preto-e-branco para mim . Ele se levantou, foi até a janela, e disse:

-'Gosto muito do nascer do sol. Me traz boas lembranças.'

Olhei para ele. Os primeiros raios de sol do novo dia faziam os fios de seu cabelo loiro brilharem ainda mais.

-'Se as pessoas contemplam o amanhecer hoje, decerto devem agradecer a mim'- disse-me ele.

-'Você já me contou isso. Tem a ver com um de seus nomes, não é?'

Olhou para mim -'Sim.'- respondeu. Ele foi até a minha geladeira, abriu-a, e começou a olhar dentro dela. Pegou uma garrafa d'água, pôs em cima da pia, abriu um armário e pegou um copo de vidro. Encheu o copo e justificou-se, secamente:

-'Jogar me dá sede.'

Entre uma golada e outra, comentou:

-'Engraçado... Você sempre dizia que palavras são como o vento, que palavras são como a flatulência de anjos caídos. Palavras, segundo você, não eram nada importante. Atos contam, pesam. Palavras não. Era o que você sempre frisava, não é?'

-'Sim...'- respondi, sem olhar diretamente para ele.

-'Pois é.'- terminou de beber, e lavou o copo -' É irônico perceber que foi justamente a sua palavra que selou esse seu destino.'

Tal verdade fez com que eu me calasse profundamente. Ele ficou me olhando por alguns minutos, como se esperasse que eu dissesse algo, depois pegou o volume de Fausto em cima da mesa, pôs debaixo do braço, e começou a se despedir de mim . Peguei em sua mão, e disse:

-'Espere...por favor...'

-'O que é?'- perguntou, impaciente.

-'Que dia eu vou morrer?'

-'O dia que eu quiser.'- falou sério, como se suas palavras fossem feitas de puro concreto.

Separou minha mão da sua, e pôs-se a ir embora. Não o acompanhei até a porta, imaginei que ele soubesse o caminho. Da sala ouvi sua voz dizer:

-'Cheque seu calendário. O dia de hoje não é um dia qualquer.Boa noite, meu amigo.'

A porta bateu.

Fiquei muito, muito tempo sentado, sem conseguir esboçar uma reação sequer, sem conseguir com que um pensamento sequer passasse por minha cabeça. Ele venceu, ele sempre vencia. No fim das contas, Ele sempre vence.

Levantei-me, fui ao calendário. Era o dia de meu aniversário. Era o dia de meu aniversário, e eu não tinha nada a comemorar. Mais um de muitos anos. Mais um de muitos que certamente viriam. O tempo passava muito lentamente para mim. Muito, muito lentamente, cada vez mais e mais lentamente, arrastando-se e aprisionando-me como uma corrente. O tempo passava muito lentamente para mim . Só para mim , e mais ninguém.

(22/10/2001- das 00:02 até as 3:08 da madrugada)

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