| Fabiana Miraz |
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Boneca de pano
(Fabiana Miraz)
Apagou a luz e subiu as escadas. Já em seu quarto, estendeu um acolchoado
sobre o colchão e sentou-se na cama. Parou os olhos por um instante,
suspirou retirando os óculos e os colocando sobre o criado mudo. Deitou-se
e cobriu-se automaticamente com o velho acolchoado cor de vinho. Os olhos pareciam
fechar-se por conta própria. Mas esqueceu-se de fechar a janela. Levantou-se
deixando escorregar e cair o acolchoado sobre o chão gelado. Calçou
os chinelos. Somente alguns passos dera, pois foi necessário interromper
a lenta caminhada para olhar de volta para a cama. Em seu colchão, ressonando
sobre o lençol amarelado, havia uma menina dormindo. O acolchoado sumira
e em seu lugar um tapete de crochè cru acomodava uma boneca de pano.
As cortinas, sisudas e de um claro amarelo, tingiu-se de vermelho e conforme
olhava, surgiam nelas pequenos ursos pendurados em coloridos balões.
Aproximando-se mais da cena, viu a cama de imbuia escura com cabeceira torneada.
Os cabelos negros e encaracolados da menina estendidos sobre o travesseiro,
seu vestido xadrez, marrom de golas brancas, meias brancas, joelhos rechonchudos,
sapatos pretos de verniz. Num canto do quarto, uma bicicleta cor-de-rosa metálico
e almofadas gigantes. A escada sumira e a porta estava entreaberta. A luz amarela
que entrava pela fresta vinha de um corredor e dele vozes distantes. Esgueirou-se
pela fresta da porta, atravessou-a, seguiu pelo corredor amarelado que desembocava
numa cozinha anoitecida. Conseguia ver, escondendo-se na ponta do corredor,
o perfil de um casal que tomava café em volta de uma mesa, pronunciando
nomes esquecidos. Como estavam jovens! O cheiro do café que estavam bebendo
chegou ao seu nariz, o açucareiro em cima da mesa a fez inclinar mais
ainda seu corpo para frente, queria enxergar e gravar aquele cenário.
O homem, descuidado de tantos zelos de silêncio, deixou cair uma colherinha
prateada que tilintou e fez remexer a menina adormecida. Seus olhos estavam
tão grudados que era quase impossível abri-los. Sentia frio, seu
corpo congelava, parecia estar nua. Enfim, os olhos se estalaram. Era o despertador
que chamava. O acolchoado havia caído no chão.
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