| Fabiana Miraz |
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A Barbaria alimentada
(Fabiana Miraz)
À memória de meu avô Alfredo Nogueira (1921-
2005).
Que palavras nunca encontrarão poesia ou justiça para lhe descrever.
A todos os idosos que tiveram seu direito à velhice roubado pela barbaria.
E à minha avó Laura.
O velho despertador redondo, vermelho e com os números já amarelados
me acordou. Levantei. Calcei os chinelos que minha filha me deu de presente
no meu aniversário, fazia um mês. Fui ao banheiro. Ainda dormiam.
A casa silenciosa. Penteei os cabelos. Troquei as roupas. Tirei os chinelos
e os guardei. Juntos, um ao lado do outro, no guarda-roupa. Não esqueci
a carteira com o dinheiro para o pão. No caminho para a padaria, um dia
aberto de julho. Não levei minha bengala. A rua da minha casa. No que
penso eu? Vou à missa. Eu e a Laura íamos à missa. Nem
senti a volta para casa, imerso no meu silêncio e em meus pensamentos.
Sentei. Do pão que comi, os farelos ficaram deitados ali na mesa. De
súbito a estupidez de mãos vadias e sem histórias cortou
meus pensamentos. Meus olhos invadiram a despensa, tão ali perto da mesa
grande, onde desta vez só eu estava. Aquela salinha nunca tinha sido
tão escura e interrogativa. O que fazem esses seres humanos? Insanos.
Humanos? Meus olhos não acompanhavam a violência a que se abandonou
meu corpo, pelos golpes daquelas mãos. Pensava na Laura. Logo ali, com
minha filha. Nos nossos anos juntos, uma vida quase inteira. Na rua da minha
casa. No ir e vir da bicicletaria. Nos meus netos e bisnetos. Ali, naquelas
paredes já de sangue meu, via a estante repleta de refrigerantes que
eu buscava para eles. Todo almoço naquela mesa. Nos beijos e nas palavras.
Na rua da minha casa, no caminho das discussões sobre política
com os amigos. No dia em que cheguei a esta cidade. No meu passado lá
em Sarutaiá e Piraju. No filho que ficou lá. Nos que vieram. No
dia do meu casamento, com a Laura. No meu pai. Minha mãe. Seus rostos
e atitudes gravados naquelas horas. Meus olhos de sangue viram, através
da porta, agora aberta, a mesa onde meus filhos serviam seus filhos. As comidas
todas que a Laura fazia. E ela de pé, olhava e chamava: "Alfredo"!
Fecharam a porta, tinham saído. A dor se escondia nas minhas lembranças.
Meu corpo cai, mas as levo todas comigo. As minhas histórias, as minhas
certezas, o meu amor, as minhas lutas, a minha integridade humana. A minha velhice
interrompida. Os momentos de me conhecer velho. Aquelas mãos vadias e
sem histórias ficaram com as migalhas do pão da mesa, com a moeda
de suas próprias mortes. Com o vazio de suas vidas inúteis e o
desespero de estarem trancadas em mentes inumanas. Levaram só a minha
carteira, com o dinheiro para o pão de amanhã.
(06 de julho 2005)
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