A Garganta da Serpente
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Semblante
(Fernando Cappelli)

Foi um casamento à moda antiga. Daqueles em que a hora do 'sim' era considerada um ato de sintonia cósmica incomensurável. O noivo fazia pose para foto em preto-e-branco com terno estilo risca de giz alinhado, bigode a la Clark Gable e cabelo engomado com brilhantina. A noiva, toda orgulhosa, tinha o rosto coberto pelo véu, e ainda guardava algum resquício sólido de uma suposta 'pureza', traduzida em uma pele alva e cabelos lisos, muito lisos...nada muito ousado.

Abreu e Lucinha se uniram oficialmente em 1950, passaram a lua-de-mel em Santos e ficaram juntos mais de 45 anos. Momentos intensos e de descobertas foram a tônica nos primeiros meses dos primeiros anos juntos. Mas nunca se entregaram completamente, porém, ao tão esperado jogo do amor.

Timidez, hesitação, insegurança ou pura comodidade? Viviam pelo básico e com o básico de cumplicidade, em um ciclo metódico cada vez mais engessado pela ação do tempo.

O amor, então, terminou com o nascimento do segundo filho. Daí pra frente, a convivência lasciva se resumiu a meros carinhos ocasionais, que se concretizavam na forma de um quase frio agradecimento por algum presente de aniversário, e em algumas tentativas vãs de conseguir algo mais íntimo. Dádivas e conformismos. Devaneios e desilusões não- declaradas.

Abreu nunca deixou faltar nada para sua família. Mas também não era o que se poderia se chamar de 'marido ideal'. Nas rodinhas de amigos, gabava-se de nunca ter precisado trair a mulher para ser feliz. Suas escapadas noturnas constantes se resumiam a rodadas de cacheta e de cachaça, nos fundos do bar do 'seo' Pedro. Lucinha ficava em casa todas as noites, e se contentava com seu papel de submissão não-declarada.

Filhos criados, missão cumprida. Abreu adoeceu aos 60 e faleceu um ano depois, quando sucumbiu a um enfisema pulmonar, causado pelo tabagismo de muitos anos. O velório foi aquela coisa de sempre. Um misto entre sentimentos de alívio, momentos do mais puro pastiche e sonoros reencontros de entes familiares há tempos distantes.

Como foi dito, Lucinha tinha dois filhos e, posteriormente, dois netos. Firme de suas convicções e munida de um senso ainda imaturo de independência e solidão, após o enterro preferiu viver sozinha, em um pequeno conjugado alugado próximo à casa de sua filha primogênita.

- Mamãe, tem certeza disso? Não acho uma boa idéia. Posso acomodar o Marcelo

nosso escritório. A senhora fica com o quarto dele. Não tem problema.

- Claro, filhinha. Vai ser melhor pra mim. Não quero me tornar um estorvo.

- Mas, mãe, isso não tem nada a ver.

- Shhh...se aquiete, menina, sei o que faço...já falamos sobre isso. Tchau. E vê se cuida direito daquele meu neto bonitão.

E assim foi. A porta da pequena nova casa se fechou pela primeira vez com Lucinha dentro. O ar ainda guardava um cheiro acre típico dos lugares que passam muito tempo fechado. A casa havia sido adquirida às pressas pela recém viúva. Os primeiros cinco minutos duraram horas, e as primeiras horas, dias. Ela tentou chorar e não conseguiu. Passou um café bem forte e ligou a televisão, para assistir mais um capítulo da novela de sempre.

Às dez horas, Lucinha fechou a janela, vestiu sua camisola e se deitou. Pensamentos mil. Tentou se ajeitar, sem sucesso, em todos os lados da cama. Parecia que buscava um novo ângulo para o que, dali pra frente, se tornaria um velho dilema: o de quem fica.

Após finalmente conseguir entrar nos primeiros estágios do sono, diversas vezes sussurrou o nome do marido. De repente, uma luz de consciência em seu estado de torpor a fez sentir os pés frios. Percebeu que havia mais alguém ali junto ao seu corpo, na cama. Não abriu os olhos, e mesmo assim conseguiu enxergar apenas um contorno familiar, que há mais de quatro décadas estava acostumada a contemplar...mesmo que de longe. Sussurrou mais algumas vezes o nome do marido, e finalmente apagou.

No dia seguinte, Lucinha acordou bem disposta. Atendeu ainda diversos telefonemas de condolências. De tarde, visitou a filha, o filho, e deu um beijo nos netos. Negou com veemência que se sentia sozinha. À noite, repetiu o mesmo ritual 'café-televisão-camisola', mas desta vez, adicionou uma boa quantidade e variedade de pílulas calmantes e coloridas na sua rotina de todas as noites. Deitou-se e esperou pelo sono. Não se achou egoísta, nem tão pouco inconseqüente pelo ato. Queria continuar seu padrão de felicidade. Tinha certeza de que, dali pra frente, ainda iria descobrir o amor, alimentado e desenvolvido do mesmo jeito durante toda sua vida...apenas por um semblante...

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