A Garganta da Serpente
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Brinco de pérola

(Elson Alegretti Rodrigues)

Como estivesse saciando sua fome, observava gravuras, fotografias, lia reportagens sobre arte, não perdia a oportunidade de estar em grandes exposições e perder-se diante da profusão das cores, formas e mergulhar nas diferentes propostas das telas ou esculturas. As cores pareciam sair das pontas dos seus dedos então era plena satisfação ver na tela o movimento mágico da cópula das cores.

Diante da amplitude e perspectiva que as formas e o conjunto de cores, projetavam-se expostas, sentia forte inquietação dominando sua lucidez, só desejava viver as cores, as pessoas próximas no começo brincavam com Pablo, dizendo que ele era o verdadeiro Picasso. Seu pai amante das artes tinha tanta admiração pelo pintor espanhol que batizou o recém-nascido de Pablo. Desde menino começou a paixão pela arte, começou a desenhar grandes borrões coloridos, depois foi adestrando seu talento sempre buscando a vibração pela vida, sem contornos, muita energia! A arte com o tempo tornou-se obsessão.

Colecionava revistas de arte, lia tudo o que podia, quando começou a trabalhar como office-boy, adorava sair para a rua e aproveitar para observar, entrar em exposições grátis, museus, muitas vezes chegava tarde ao escritório e sempre era advertido até o dia em que o senhor Diógenes um advogado rançoso, o demitiu.

Adorava as mulheres de Modigliani, sempre projetou nas mulheres que amou as figuras delgadas do pintor. Sempre vivia uma nova fase como se fosse um artista buscando traduzir uma nova proposta estética. Adorava a irreverência e criatividade dos modernistas, a arte abstrata, a geometria de Lígia Clark, a biografia de Frida Kahlo, o comovia, por que também fora um deficiente físico como ele.

Como estivesse saciando sua fome, despia com o olhar as mulheres nos ônibus, metrô, pelas calçadas, algumas percebiam e gostavam, outras indignavam-se, as colocava em telas imaginarias, plenas e nuas, era uma realização incompleta. Não passava de um razoável pintor, era autodidata. Sua deficiência nunca o impediu de nada, o garoto talentoso, transforma-se num jovem crítico, ácido por vezes, buscava seu espaço, mas muitos empecilhos, principalmente, a precoce morte dos pais, o financeiro, foram distanciando-o do "mundo da arte" precisou trabalhar cedo e sobreviver. Trabalhava na compensação de cheques, adorava encontrar os colegas para as festas na quadra dos bancários, na rua Tabatinguera, e lá conheceu Heloísa, uma garota irreverente, gostava de arte e de Trotsky, sua alegria pela vida contagiava, diferente dos outros pedantes trotskistas, ele começou a encontrá-la, ela parecia com a modelo do quadro: "a garota com brinco de pérola" de Vermeer, isso o deixava excitado, confidenciou a Heloísa, o que sentia, ela satisfeita com a analogia, deixou-se levar na fantasia de Pablo, que a presenteou com um par de brincos de pérolas. Era difícil, ficar sem pensar em Heloísa, ele começou a frequentar seu apartamento, tornaram-se furiosos amantes.

Pablo parecia um sonhador, outras um cético, descia os sete círculos do inferno ou subia os círculos do paraíso, então desenhava freneticamente, tinha pastas e pastas com desenhos a carvão, e pastel. Depois de algumas doses de vodca, autodenominava-se "anjo barroco despudorado" e então ria de si mesmo. Fazia analogia com o barroco e a atualidade. Perpétua dualidade, conflitos, nada muda na essência humana continuamos a ser anjos e demônios, buscando insana liberdade. O país é um suculento fruto para as potencias capitalistas. Resta então encher a cara nas sextas-feiras!

Heloísa gostava de Campari com gelo, era gracioso ver seu sorriso largo, sua voz rouca, arrepiavam os pelos ! Olhar malicioso, provocante, ficavam horas conversando, divergindo, ria alto, parecia que iria salvar o proletariado naquele instante, Pablo só ironizando os salvadores da "causa operária", entretanto, a luta de classes, a construção da quarta internacional, ficavam bem resolvidos, entrelaçados e saciados de prazer debaixo dos lençóis.

Pablo apaixonado por Heloísa, produziu melhor sua arte, conseguiu expor seus quadros até conseguiu ganhar uma grana. Começou a vender uns quadros, fazia presentes para os amigos, sentia pleno prazer com alguns e angustia com outros.

Heloísa era livre, nunca aceitou ser cooptada por qualquer facção, livre também em relação a Pablo, queria viver plenamente sem ter apegos, sem posses.

Viveram juntos, regados de vodca, cerveja, sedução, paixão pela vida, fizeram greves juntos, levaram porrada da polícia, militantes ativos no sindicato, viveram felizes até que um terceiro personagem surgiu entre os dois.

Como estivesse saciando sua fome Pablo entregava-se as cores, magma de emoções explodindo no papel, nas telas, a rotina do trabalho ficava perdida, em algum compartimento de sua angústia, a linguagem da sua criatividade o mantinha lúcido, quase virava um "maluco beleza" depois retornava a luz da realidade. Então sorria tresloucado, conversava com vozes que surgiam em sua mente, uma mistura furiosa surgia na superfície da tela, sentimentos estranhos de posse, ódio, multiplicavam figuras medonhas, que cada vez mais o vampirizavam e o torturavam, a plena satisfação de criar, torna-se furiosa angustia, mas sempre foi capaz de encarar o abismo e não cair. Essa fase piorou, começou a faltar no emprego, ficava sem comer, não atendia telefones, ficava horas petrificado olhando da janela a cidade lá fora, Heloísa buscou intervir, queria leva-lo ao médico, a algum lugar, mas ele ficava agressivo, dizia que estava enfrentando o encantamento das serpentes!

Heloísa não esperou, providenciou sua internação, foi levado à força, ficou uma temporada em uma clínica, não pintou mais, passava os dias entorpecido de medicamentos, e com o tempo as vozes sumiram, sumiram os amigos, parentes não tinha, Heloísa também acabou sumindo, ficava vagando no pátio da clínica, estava no fundo do abismo que tanto resistira, não sentia mais fome, só o vazio, o nada...

Semanas passaram, meses passaram, dois anos. Heloísa cortou o cabelo, tingiu de vermelho, mudou a maquiagem, trocou os quadros do apartamento, tornou-se dançarina de strip de uma boate sofisticada, nada mais lembrava Pablo. Ela agora saia com um cara casado, muito mais velho, frequentador da boate, gostou de assumir o papel da outra, divertia-se com o novo relacionamento.

Numa tarde de verão, apertam a campainha do apartamento, Heloísa estava com seu amante, nus, trocando carícias, não pararam, era Pablo do outro lado. Tinha saído da clínica, foi procurar por Heloísa. Cansou de tocar a campainha então, desceu as escadas, foi para o hall de entrada do prédio e ficar esperando, talvez ela não estivesse no momento. Estava muito magro, barba por fazer, roupas doadas pela clínica, uns trocados no bolso e o rg.

Heloísa não costumava descer para despedidas na portaria do prédio, resolveu descer de braço dado com seu amante, Pablo estava na calçada e ficou muito chocado com Heloísa de braços dados com um outro homem. Irado ele gritou, falou palavrões, Heloísa surpresa, disse que não podia parar no tempo, afinal não eram casados ! Humberto, seu amante já foi empurrando, intimidando Pablo.

De repente um minuto de lucidez pairou entre os três, Pablo aquietou seu ciúmes, a raiva,e pediu a Heloísa explicações. Ela foi direta, não sentia mais nada por ele, fez o que pôde fazer e fim, cada qual que segui-se sua vida. Humberto, ou dr. Humberto, retira-se de fininho, não podia aparecer em escândalo passional.

Pasmo, sem saber o que pensar, Pablo pediu que ela devolvesse os seus pertences e as chaves do seu apartamento que iria embora. E assim aconteceu, subiram, ela começou a reunir algumas peças de roupas, quadros, alguns livros, pegou as chaves, quando viu Pablo sair da cozinha com a faca de cortar carne e desferiu-lhe vários golpes sobre seu corpo. Transtornado Pablo era ódio puro, depois do ato ensandecido, todo manchado de sangue, ainda beijou Heloísa desfalecida, foi no quarto, achou o bauzinho de joias, encontrou os brincos de pérola, chorou, desvairado saiu correndo porta a fora, só quer correr, fugir, atravessa a avenida na contramão e e´atingido violentamente por um caminhão, seu corpo é arremessado num muro desfalecendo imediatamente.

Jornais, televisão, revistas, noticiaram por vários dias, o crime, a paixão de um artista alienado e a dançarina de boate, seus quadros, os poucos encontrados ganharam notoriedade finalmente....

(10/02/2011)
  • 216 visitas desde 18/05/2017
  • Publicado em: 18/05/2017
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