A Garganta da Serpente
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Remorso
(Eiras Leal)

Dona Alzira morava naquela rua havia muitos anos. Era uma doce senhora, contanto que não pisassem nas margaridas que plantara rente à muretinha antiga; uma cerquinha modesta, mas condizente com as noites tranqüilas do lugar. A paixão da velhinha era um gato gordo de muitos anos de casa. Um bichano cinzento de olhos amarelos que, como Dona Alzira, dormia a tarde inteira.

As coisas seguiam assim, adequadas às vidinhas simples dela e do bicho, ambos desobrigados de possuir algum propósito.

Mas um dia apareceram uns ratos na casa e dona Alzira pôs veneno nos cantos mais prováveis e os camundongos passaram a passear pelo quintal durante o dia, cambaleantes, à morte. Com a facilidade de quem apanha frutas caídas do pé, a velhinha pegava os ratos pelo rabo e dava ao gato, que não perdoava. Três dias depois foi a vez do bichano andar cambaleante pela casa. Morreu. Dona Alzira sentiu muito e, não se sabe bem por quê, passou a pensar no filho, cujo destino não colaborou e a vida tinha se tornado um fardo. Pensou nas vezes que esteve dando a ele pequenos prazeres perigosos, como os ratinhos estufados de chumbinho. Pensou, pensou e foi se deitar amuada para sempre.

No outro dia, pediu ao vizinho que enterrasse o animal. Arrancou depois todas as suas margaridas e as depositou sobre a cova, mas não acreditou que aquilo pudesse reverter o quadro e mudar o rumo das coisas.

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