| Erika Hirs |
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Despecado
(Erika Hirs)
"With a young beauty sporting in deep love play;
We sit in the pavilion, a pleasure girl and this Zen monk.
Enraptured by hugs and kisses,
I certainly don´t feel as if I am burning in hell."
Ikkyu, monge Zen do século XV, trad. John Stevens.
Não foi por falta de aviso, a mãe já a tinha alertado
sobre o efeito benéfico do pudor na escrita. Desde o primeiro dez em
redação, soube dos perigos que a safadeza representava no ofício:
seus terrores não eram mãos peludas.
Com a fé das filhas, avirginou-se para as letras. Escondia os seios por
trás do coração, este à mercê da cabeça.
Era vestal de deuses literatos, escrevia em pergaminho cor de palha, lia o Kama
Sutra para pesquisar as raízes sânscritas, e estudou as prostitutas
chinesas de caverna intacta, sem marcas escuras de falo. Acontece que funcionava:
a angústia da falta de coito era matéria prima para sua escrita,
caldo lamacento de onde seus personagens brotavam. O vapor fervia-lhe as entranhas,
e ela oferecia-se em banquete para a língua escrita.
Não foi por falta de aviso, ela sabia dos perigos das secreções
quando enrolou-se nele, sinuosa, e abocanhou-lhe a maçã, recriando
o mito.
Para quem pariu Deus, o que sobra de energia? A ressaca não foi moral,
foi criativa. Só sorriso de silêncio pós gozo - e que gozo,
coisa que escapa das letras. A mãe tinha razão, afinal, a razão
dos antigos: prender os titãs uterinos era caminho para o Olimpo.
Mas, ah... mas é que a mãe não conhecia Henry Miller.
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