A Garganta da Serpente
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A segunda opção II
(Daniela dos Santos)

Sempre gostei de mulheres mais velhas. Talvez por ter perdido a virgindade aos quinze anos com uma das amigas do meu pai. As mulheres mais velhas fascinam-me. São idependentes, experientes e mais sábias. Sempre senti que tinha muito a aprender com elas. E aprendi. Uma das primeiras coisas que elas me ensinaram foi como agradar bem a uma mulher na cama e eu, claro, tornei-me num óptimo aluno.

No liceu chamavam-me D. Juan e perguntavam-me qual o segredo do meu sucesso. Geralmente ficava lisonjeado, mas às vezes sentia-me embaraçado com a alcunha. Nunca foi preciso esforçar-me muito para conquistar a atenção do sexo oposto. Sempre fui um rapaz com bom aspecto, com estilo e com um enorme sorriso. No fundo, acho que sou um sedutor nato.

Detesto que me chamem mulherego. Prefiro considerar-me um eterno admirador das mulheres. Gosto de apreciá-las, acarinhá-las, protegê-las, amá-las e fazê-las felizes. Mas com tantas mulheres à minha volta, nunca me pareceu justo mostrar o meu desempenho a uma só. Apaixono-me facilmente, dou o meu melhor, e penso que cheguei a pedir em casamento todas as minhas namoradas, geralmente na segunda noite que passávamos juntos. Sempre me entusiasmei com facilidade.

Também era frequente as namoradas ou as ex-namoradas, as amigas ou as ex-amigas, as amantes ou as ex-amantes, as irmãs ou as primas, as tias ou as mães dos meus amigos apaixonarem-se por mim. Eu era incapaz de ficar indiferente. Sempre atencioso, prestável, amável, simpático, compreensivo, altruísta, doce e atrevido, mais tarde ou mais cedo, a troca de fluidos era inevitável. Eu era incapaz de dizer não. Uma noite, quando eu e os meus amigos já tínhamos bebido muito para além do suposto, comecei a contar com quantas mulheres já me tinha envolvido. Perdi-me na matemática e na memória. Tudo o que estiver relacionado com sexo, eu já experimentei: posições, locais, durações, estimulantes, filmes, contraceptivos, parceiras e drogas.

No último ano do liceu, costumava assistir às aulas da rapariga com quem andava na altura. Como não éramos da mesma turma e até tínhamos amigos em comum, era uma forma de passarmos mais tempo juntos. Foi uma das melhores decisões que tomei na vida ou provavelmente nunca teria conhecido a Mara.

Mara Maldonado era o nome imponente de uma das professoras. Apesar de ser cerca de dez anos mais velha do que nós, era liberal, comunicativa, simpática e identificava-se bastante com os alunos. Mais do que isso, era uma bacana. Fumava connosco, ia aos jantares de turma, às viagens de finalistas e, mesmo depois de eu ter desistido do liceu, continuámos a falar. A Mara é uma das pessoas mais inteligentes e talentosas que eu conheço, embora o temperamento instável dela nem sempre permita mostrar em plenitude as suas capacidades.

Ao longo dos anos a nossa amizade tornou-se mais forte e, sempre que eu tinha um problema, a Mara estava lá. Pronta a aconselhar-me, a ajudar-me, a apoiar-me. Ouvia os meus atrofios com as namoradas, com a família, com o trabalho e com os amigos, e fazia-me sempre sair de casa dela com a cabeça erguida, pronto para encarar o mundo. Ela era - e é - fantástica!

Quando tinha vinte e poucos anos, passei por uma fase bastante triste da minha vida. Apaixonei-me realmente por alguém, mas o fim foi demasiado drástico. Nunca esperei que um desgosto de amor me deixasse assim tão miserável. Parecia que estava a pagar pelos erros cometidos no passado. A auto-estima desfeita, o orgulho ferido e o ego espezinhado. A Mara ajudou-me a levantar, a viver novamente e voltei a estudar.

Passávamos muito tempo juntos, relacionávamo-nos na perfeição, abrimos um atelier de trabalho no qual éramos sócios e tornámo-nos amantes. Era inevitável. O capital do negócio era dela, assim como a maioria dos contactos que tínhamos. Nisso ela era óptima - e é! Passei a dormir em casa dela, partilhávamos o gosto pelo mesmo restaurante japonês e eu adorava os croissants com fiambre que comia ao pequeno-almoço, num café perto da casa dela. Às vezes a Mara emprestava-me dinheiro. Para comprar tabaco, ou droga, ou livros ou CDs. Ou só porque eu precisava. A generosidade sempre foi uma das suas qualidades.

Se algum dia tivesse de apontar a mulher que está mais perto da perfeição, sem dúvida que indicaria a Mara. Adoro o sorriso dela. Nota-se que é sincero e simpático. Gosto da maneira como ela me abraça, do olhar, do toque das mãos, da perspicácia, da sabedoria, da sensatez e da justiça. Acima de tudo, gosto da maturidade. Aprendi muito da vida com ela e parte do homem que hoje sou é graças a ela. Ficar-lhe-ei eternamente grato.

O nosso romance nunca foi público, mas muitas pessoas sabiam da nossa relação. Eu sentia-me cheio de energia e com vontade de recomeçar a minha vida. Tinha a certeza que a Mara era a pessoa que me faria feliz. Mas ela tinha dúvidas. Incertezas que cresciam. Apesar de todas as coisas que nos uniam, a Mara não conseguia ultrapassar o pormenor da idade. "Dez anos, o que são dez anos?" Perguntava-lhe eu. "Já ninguém liga a isso!". Mas ela ligava e eu sabia que existia mais qualquer coisa para além disso. A idade era uma desculpa.

Acabámos a nossa relação mais ou menos na altura em que acabámos com o negócio do atelier. Os anos foram passando, a nossa amizade nunca esteve em perigo, e a minha esperança de que um dia ela chegasse ao pé de mim e dissesse "Fica comigo" foi-se desvanecendo. Mas continua a existir qualquer coisa por explicar. Não sei o que é. Quando estamos juntos continuo a sentir o seu olhar quente, o desejo, a tristeza e a alegria de me encontrar. A Mara fez e faz coisas por mim que nenhuma mulher apaixonada jamais faria. A última coisa que eu quero é decepcioná-la ou vê-la sofrer, sobretudo se for por minha culpa.

A Mara incentivou-me a recuperar o projecto do atelier, mas desta vez preferiu ficar de fora, apenas como conselheira. Nestes negócios, o melhor é trabalhar com alguém que já se conheça. Por isso, decidi convidar algumas pessoas das minhas relações. Pouco tempo depois, juntaram-se ao meu atelier duas das minhas ex-namoradas que também trabalham na mesma área, a ex-namorada de uma amigo meu com quem eu, por coincidência, já andei enrolado, a ex-melhor amiga de uma das minhas ex-namoradas com quem eu tive um "deslize" de uma noite (ou duas?), e uma antiga amiga colorida do meu primo com quem, por acaso, "dormi" várias vezes. Tenho umas amigas, que já conheci no sentido bíblico, que trabalham em empresas úteis para o meu negócio e sei que elas me vão facilitar a vida. O nosso relacionamento é estritamente profissional. Somos todos bons amigos e gostamos de recordar os velhos tempos. O meu sorriso sedutor e este charme nato é que nunca me largam. Adoro que elas me adorem. Adoro derreter-me com elas só para as ver derreterem-se comigo e depois ainda me derreto mais e elas também... Isto é um ciclo vicioso!

À noite, quando chego a casa, o silêncio só é quebrado pelo som de um CD e do meu filho que se agarra ao meu pescoço aos beijos. A Carla já não vem a correr para mim, nem me arrasta para o quarto para fazermos amor, exibindo a nova aquisição em lingeries. Estamos casados há treze anos e, cada dia que passa, sinto-a mais distante. Deixou de discutir comigo por eu chegar tarde a casa, ou por não lhe telefonar, ou por me derreter com tudo quanto é saias e calças, ou por ir a correr atrás da Mara sempre que ela faz um ai ou um ui, ou porque estou sempre a arranjar pretextos para ter uma reunião de trabalho com alguma das minhas ex-quecas, ou porque cada vez que saímos juntos eu levo os meus amigos de atrelado sem a consultar. Não. Nada disso. A Carla nunca mais discutiu comigo. Fica em silêncio. Não percebo porquê, mas ainda não tive interesse em perguntar-lhe. Talvez por ser mais nova do que eu, há coisas nela que me escapam totalmente.

Hoje saí mais cedo do emprego para não chegar atrasado à nossa festa de aniversário de casamento. Bem, para ser sincero, saí mais cedo para ir ao supermercado comprar o vinho tinto que a Mara gosta. Aquele que ela costumava aquecer junto à lareira, para depois o bebermos à temperatura certa. Comprei duas garrafas, assim fico com uma de reserva para lhe oferecer na próxima vez que a Carla e o miúdo forem passar o fim-de-semana fora e eu for jantar com ela.

A rua onde moramos está cheia de buracos, por isso conduzo devagar pois não quero que a garrafa se parta com os solavancos. Ligo o pisca e procuro no porta-luvas o comando para abrir o portão da garagem. Cassetes. Canetas que não escrevem. Recibos do combustível. Onde raio está o comando? Um isqueiro que a Mara me deu e que eu pensava ter perdido. Mais cassetes. Outra vez os recibos. Lixo, lixo, lixo. Tenho a certeza que guardei aqui o comando. Oiço um carro buzinar. Estou a impedir uma faixa de rodagem. Olho pelo retrovisor. É um táxista. Ele que espere. Tenho que limpar este porta-luvas. Estas cassetes já devem estar desmagnetizadas.... Ah, encontrei!

Começo a entrar na garagem e o táxi arranca com uma mulher que saiu do meu prédio. Parece a Carla. Que ridículo. Que estaria ela ali a fazer com duas malas de viagem na mão? São sete horas, óptimo. Ainda tenho tempo para tomar um banho antes dos convidados chegarem.

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