| Daniela dos Santos |
  |
A segunda opção I
(Daniela dos Santos)
Às seis e meia da tarde, o rapaz da pastelaria veio a casa entregar-me
o bolo e aconselhou-me a guardá-lo no frigorífico para a cobertura
de chocolate não derreter com o calor. O bolo era pouco original, em
forma de coração, e tinha escrito com letras desenhadas a chantilly
"Feliz aniversário António e Carla". Aposto que era
o último que tinham e despacharam-no para mim. Nem reclamei, era tarde.
Hoje, eu e o António fazemos treze anos de casados e ele quis comemorar
a data. Convidou cerca de vinte pessoas para virem jantar a nossa casa e eu
que me desenrasque a metê-los numa sala minúscula e a preparar
a festa. Como se o meu tempo fosse elástico, como se eu não trabalhasse
como ele.
Guardei o bolo no frigorífico, seguindo o conselho do rapaz, e provei
o chocolate com a ponta do indicador. Estava bom. Pena que não tencionava
comê-lo. Nem hoje, nem amanhã. Assim como não tencionava
comer os pastéis de bacalhau, nem os rissóis, nem o leitão
assado, nem a tarte de amêndoa, nem o doce de ovos da tia Conceição.
Talvez leve comigo o camarão tigre, que foi caríssimo, e o champanhe
francês. Sim, o champanhe de certeza que levo. Para festejar o fim de
treze anos de sapos engolidos. Já me imagino num quarto de hotel a beber
o espumante enquanto o António lê o bilhete que lhe vou deixar
colado no espelho do corredor: "Fui-me!".
Ele vai arrancá-lo e lê-lo várias vezes, apesar de eu ter
sido bem clara ao escrever "Fui-me!". Vai chamar pelo meu nome, ouvir
o silêncio como resposta e depois verá os armários do quarto
vazios. Só então perceberá. Fui-me mesmo. Passados trinta
minutos começarão a chegar os convidados e não saberá
como explicar. É um marido dedicado, um pai extremoso, um bom profissional,
é saudável, desportista e com uma situação financeira
estável. Acrescentando que possui o dom da inesgotável simpatia,
até parece perfeito.
O António ficará triste, decepcionado, talvez perdido, no entanto
de todos os convidados há alguém que o saberá confortar.
Alguém de confiança e intocável. Alguém já
com experiência no assunto, especialmente na arte de bem agradar. A Mara.
Ele correrá para ela, como uma criança corre para o colo da mãe
quando uma brincadeira lhe corre mal, e perguntar-lhe-á por que me fui
embora. Ela saberá a resposta, mas ficará em silêncio. Pelo
menos enquanto os convidados ali estiverem.
Mara Maldonado, nome pomposo e sonante da melhor amiga do António. Ex-companheiros
no liceu, ex-colegas de trabalho e ex-amantes. Actualmente "bons velhos
amigos", como ambos gostam de referir. Sabem tudo um do outro e, ao fim
de treze anos de casamento, ela continua a conhecê-lo melhor do que eu.
Quando eu e o António nos casámos, eu e a Mara já nos
conheciamos. O António apresentou-nos muitos meses depois de começarmos
a namorar, de eu ouvir as maravilhosas aventuras do duo e de saber as qualidades
incomparáveis da Mara. Afinal, a deusa terrestre, musa de todas as artes,
e provavelmente do Camões numa outra encarnação, era baixa
e rechonchuda, com as madeixas do cabelo a cairem-lhe nos olhos.
Todas as segundas-feiras almoçam juntos, tradição do tempo
em que eram sócios no atelier (há mais de catorze anos), e aos
primeiros sábados de cada mês o António ajuda-a a levar
os seis gatos siameses ao veterinário. Aliás, nessas alturas não
passamos o fim-de-semana fora. Às vezes, o António sai depois
do jantar para ir a casa dela arranjar-lhe o computador que bloqueou ou instalar
uns programas novos que ela provavelmente nunca irá utilizar. Nas férias
de verão, recentemente no Brasil e na Tunísia, ele compra postais
para a famíla, porque nunca tem dinheiro para lembranças mais
caras, e oferece colares de prata trabalhada à mão à Mara,
porque ela faz colecção, diz. No Natal, para além do nosso
filho, só eu e ela recebemos presentes. O meu é comprado no dia
24, ao fim da tarde, mesmo antes das lojas fecharem. Geralmente é alguma
coisa que eu ando há um mês a dizer que gostaria muito de ter,
porque já sei que ele não acerta nos meus gostos ou oferece coisas
tão inúteis que acabarão por ocupar espaço numa
gaveta qualquer. O presente da Mara é comprado com uma semana de antecedência
e o António é capaz de levar horas numa livraria, lendo todos
os prefácios e contra-capas, folheando página a página,
para se certificar de que aquele é mesmo o livro certo para ela.
Ao telefone, oiço a voz dele amaciar-se quando fala com ela. Voz derretida,
melancólica, carinhosa, embora agora raramente falem por telemóvel
quando estou presente. O António telefona-lhe do trabalho porque sai
mais barato, diz. E quando precisa de ir buscar alguma coisa a casa dela, e
tem sempre alguma coisa por lá, não precisa de a avisar, pois
tem chave. Talvez ainda da época em que foram colegas do liceu, ou sócios
ou amantes, não sei.
Com quarenta e seis anos, a Mara é o que a juventude de hoje chama "uma
bacana". Foi ela que arranjou todos os empregos que o António teve
nos últimos dezasseis anos, ajudou-o a encontrar um comprador para o
Fiat Uno velho dele e a procurar a casa onde vivemos. Muitos dos projectos extra
que ele faz são conseguidos através dos conhecimentos dela. Como
a Mara não é casada nem tem filhos, mas adora crianças,
o António convidou-a para ser madrinha do nosso filho. Ela aceitou, feliz,
juntando assim mais um título ao de madrinha de casamento do António.
Raramente estou com a Mara, mas o António visita-a nos fins-de-semana
em que eu e o nosso filho estamos fora. Ela é uma cozinheira brilhante
e o António costuma trazer as receitas escritas num papel para eu "um
dia destes tentar fazer". Em geral, o António só toma decisões
profissionais depois de se consultar com ela e eu já sei que, sempre
que eles se encontram, ele chega a casa e é capaz de alterar um projecto
quase inteiro: cores, formas, perspectivas, dimensões. Se uma urbanização
está planeada para ser branca, ele não tem problemas em pintá-la
de vermelho, por ser a cor preferida dela.
Hoje de manhã, telefonei à Mara e pedi-lhe que fosse buscar o
nosso filho à escola depois das aulas. Foi passar a tarde com a madrinha,
porque não quero que me veja a ir embora de casa. "A mãe
adora-te, nunca te esqueças disso", foi a última coisa que
lhe disse.
Acabei de fazer as malas às sete da tarde e sei que o táxi já
está à minha espera à porta do prédio. Não
olharei para nenhuma das divisões da casa antes de partir, nem para as
nossas fotografias espalhadas pelos cantos em molduras oferecidas. Vou à
tua sala e procuro um post-it amarelo e um marcador preto. Rabisco uma despedida.
Risco. Rasgo. Lixo. Escrevo outra vez. Hesito. Rasgo. Lixo. Não vale
a pena. Oiço o táxista apitar, impaciente. Escrevo à pressa
e colo o papel no écrã do teu computador, mesmo antes de sair
e de bater com a porta. Sinto uma mistura de tristeza com alívio e não
percebo de onde vem esta lágrima que me rola pelo rosto. À saída
do prédio, vejo o teu carro entrar na garagem e tremo. "Fui-me,
por saber que nunca compreenderás".
526 visitas desde 8/07/2005
|