| Daniela dos Santos |
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Surpresas de um judeu russo em Lisboa
(Daniela dos Santos)
Espreitou pela porta semi-aberta da cozinha e viu a mulher a preparar o almoço,
de mangas arregaçadas e de avental às flores apertado na cintura.
Cortava hortaliça para a sopa e tinha o rádio ligado numa estação
mal sintonizada. Ela não deu pela sua chegada. Cantarolava qualquer coisa
e atirava as folhas cortadas para uma panela. O marido sorriu, fechou a porta
sem fazer barulho e escondeu-se na sala a preparar a surpresa.
O homem trazia um pinheiro grande, comprado no mercado, e três sacos com
enfeites coloridos de Natal. Pousou-os junto ao sofá e, entre a janela
e o móvel da televisão, colocou um balde de plástico com
areia. Lá dentro espetou o tronco da árvore, que tinha uma copa
verde tão alta que se a coroasse com a estrela dourada esta bateria no
tecto.
Decorava o pinheiro à pressa, fazendo o mínimo de ruído
para que Ivanna não o ouvisse. Ela era uma mulher atenta e controladora,
embora se abstraísse de tudo quando se concentrava numa tarefa. Pelo
menos era isso que Yakov esperava. Colocou as fitas brilhantes nos ramos da
árvore, juntando nos intervalos bolas e sinos de cores diferentes. Uma
fita vermelha, uma bola verde, uma fita azul, um sino dourado, uma fita amarela,
uma bola prateada. Aos poucos, a árvore foi ficando mais alegre, tal
como o rosto de Yakov que ao colocar o último sininho soltou um suspiro
de alívio. Faltava apenas o toque final, as luzes. Ligou-as à
electricidade e ficou a observá-las, sentado no sofá em frente
à árvore.
As luzes piscavam. Vermelho e verde, amarelo e azul. Pensou em chamar a mulher
para ver aquela beleza, mas quanto mais fixava o olhar no pisca-pisca, mais
a tristeza o invadia. Viera-lhe à memória a noite do Natal anterior.
Ivanna e Yakov Gurvich eram judeus russos e moravam em Lisboa desde o fim da
União Soviética. Ao contrário da maioria dos imigrantes
vindos da Europa de Leste que moravam em Portugal, os Gurvich tinham uma boa
situação económica e eram donos de dois restaurantes russos
na cidade. Fora graças aos cozinhados de Ivanna que conseguiram abrir
o negócio, sustentar a única filha que tinham, Anastasia, e alugar
um apartamento de quatro assoalhadas numa rua perpendicular à Avenida
de Berna. Viviam bem, mas Yakov nunca deixara de se sentir forasteiro numa terra
alheia. Duplamente estrangeiro. Como judeu e como russo.
No ano em que abriram o segundo restaurante, Yakov decidira começar a
celebrar o Natal. A mulher e a filha protestaram. Os Gurvich eram judeus pouco
praticantes, cépticos em alguns aspectos, mas celebrar o Natal como os
cristãos já era demais! Pensaram que Yakov iria desistir da ideia,
mas não. Em meados de Dezembro apareceu em casa com a árvore,
as decorações e o presépio. O cenário passou a repetir-se
todos os anos. Ivanna e Anastasia a criticarem a figura ridícula de Yakov
e este a defender a sua decisão como sendo uma forma de integração
no país acolhedor.
Poucos anos depois de ser instaurado o novo ritual na família Gurvich,
o supermercado que ficava ao lado do segundo restaurante de Yakov fechou. Ali
abriu um restaurante chinês, vulgaríssimo, igual a todos os outros
restaurantes chineses espalhados por Lisboa. A mesma comida, os mesmos caracteres
mandarins e as mesmas alusões à Grande Muralha da China. Era o
Restaurante Zhang, a desgraça dos Gurvich, como mais tarde passou a acrescentar
Yakov. Não que o novo estabelecimento prejudicasse o restaurante da família.
Nada disso. Era uma questão pessoal.
Os Zhang eram seus vizinhos de negócio há quase dez meses quando
Anastasia lhe comunicou que decidira casar-se. Yakov escutou a filha, adivinhando
que outra revelação se aproximava. A rapariga gaguejava e gesticulava
nervosamente, até que lançou a bomba. Namorava com Chen, o filho
mais velho do Sr. Zhang e era com ele que queria passar o resto da vida. Ao
contrário do que Anastasia e Ivanna previam, Yakov não explodiu
de raiva. Explodiu sim, mas de riso. Um riso sarcástico, sádico.
Subitamente fez cara séria e fitou os olhos decepcionados na filha. "Diz
a esse chinoca que Yakov Gurvich não gosta de comunistas", e não
fez mais comentários sobre o noivo da rapariga. Pelo menos directamente.
Sempre que surgia oportunidade, Yakov fazia questão de relembrar o quanto
não gostava de comunistas, especialmente dos chineses. Falava do tempo
em que era estudante e do quanto sofrera por causa do comunismo na União
Soviética. Ivanna e Anastasia já sabiam todas aquelas histórias
do princípio ao fim e, quando Chen ia a casa dos sogros, o patriarca
limitava-se aos cumprimentos cordiais, olhando-o sempre de soslaio.
O pisca-pisca das luzes continuava, vermelho e verde, amarelo e azul, enquanto
Yakov se perdia nas recordações. No ano anterior, mais uma vez,
a família teve de celebrar a festividade, mas a grande novidade era a
presença do marido de Anastasia. Depois da ceia, quando toda a família
estava reunida à volta do pinheiro de Natal, Yakov disse que ia buscar
os presentes e saiu da sala. Voltou passados quinze minutos, com um kimono vermelho
vestido, os olhos pintados de forma a ficarem rasgados como os dos chineses
e tinha um bigode preto fino com as pontas a cairem-lhe sobre o peito. Yakov
saltitava de um lado para o outro, sorridente, e gritava: "Eu sel o Mao!
O Mao Tsé Tung... e este ano não havel plesentes de Natal pala
ninguém! Não havel plesentes! Não havel plesentes!"
E insistia em chamar a atenção da família, exibindo um
saco vazio. "Mao fical com os plesentes só pala ele!".
Chen Zhang emudeceu. Ivanna corou e Anastasia começou a chorar envergonhada.
Agarrou no marido pelo braço e arrastou-o consigo para fora de casa.
Desta vez o pai fora longe demais e a noite em família terminara ali.
Uma semana depois, e a pedido de Ivanna, Yakov desculpou-se à filha e
durante todo o ano não voltou a desrespeitar Chen Zhang. Todos se surpreenderam.
O russo estava diferente. Mais simpático e compreensivo com o genro.
Quando se encontravam falavam sobre o negócio dos restaurantes, sobre
futebol e às vezes até contavam um ao outro histórias dos
seus países.
De repente, Yakov ouviu um barulho que o distraiu dos seus pensamentos e olhou
na direcção da cozinha. A porta continuava fechada. Por isso,
levantou-se e foi espreitar pelo buraco da fechadura. Ivanna estava junto ao
fogão, onde a tampa de uma panela balouçava com a pressão
do vapor da água a ferver, mas não fora esse ruído que
ele ouvira. O homem regressou à sala e, afinal, o barulho era de uma
bola dourada que tinha caído no chão. Yakov apanhou-a e colocou-a
de novo na árvore. Ao lado do sofá ainda estavam os sacos onde
trouxera os enfeites e de um deles tirou uma caixa rectangular, forrada com
papel de embrulho e um enorme laço. Sorriu e olhou à sua volta,
certificando-se de que ninguém o observava. Então, colocou o presente
debaixo do pinheiro de Natal e murmurou: "Eles que esperem até ver
o kimono que comprei este ano!".
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