| Daniela dos Santos |
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O coleccionador de letras
(Daniela dos Santos)
Alberto Góis detestava pessoas. Odiava os seus sorrisos vagos, as conversas
fúteis e as palmadinhas nas costas. Não suportava sequer os cumprimentos
cordiais. Bom dia, Sr. Góis. Como está?, perguntava sempre a dona
Teresa da papelaria, puxando uma ponta do xaile que lhe caía do ombro.
Não é da sua conta, pensava. Pedia os jornais matutinos e um maço
de cigarros, enquanto a mulher lhe falava do mau tempo, do reumatismo e das
proezas do neto. Pagava e saía. Até amanhã Sr. Góis,
dizia a senhora antes dele bater com a porta de vidro. Que velha chata, resmungava
Alberto sabendo que ela já não o poderia ouvir.
Góis morava ao fundo da rua, num edifício quase tão degradado
por fora como por dentro. A porta da rua estava partida e alguns cães
vadios aproveitavam o vão da escada para se abrigarem quando chovia.
Mas os animais faziam demasiado barulho e Alberto não conseguia concentrar-se
na leitura. Uma vez, sem ninguém ver, deixou-lhes um prato com comida
e veneno. Resultou. Os cães nunca mais o importunaram.
O apartamento de Alberto era pequeno e escuro. Embora as janelas dessem para
uma rua, esta era pouco iluminada pelo sol e à noite a luz dos candeeiros
era fraca. Pousou os jornais no sofá verde escuro, acendeu um cigarro
e foi à cozinha preparar café. Passaram alguns minutos até
se sentir o aroma a café preto pela casa.
Na sala, as paredes exibiam prateleiras atulhadas de livros. Havia-os por todo
o lado. Escondidos nas gavetas, em caixotes e aos montes no chão. Centenas
de livros de todos os tamanhos, sobre todos os temas, com capas de todas as
cores. Desde encadernações de luxo a folhetins de cordel. Em alguns,
o pó já nem deixava distinguir o título da ilustração
da capa.
Alberto Góis tinha 37 anos e passara toda a sua vida a ler, sempre com
mais fervor e dedicação, reduzindo ao indispensável o contacto
com as pessoas. As idas à rua, as compras, os transportes públicos,
eram sacrifícios que fazia para satisfazer as necessidades básicas.
Quando acabou o liceu, decidiu dedicar-se a tempo inteiro à leitura.
Arranjou um emprego como guarda nocturno numa fábrica e fazia as rondas
de hora a hora. Isso permitiu-lhe passar quase todo o tempo a ler.
Góis raramente dormia e quando sonhava lia livros ainda por escrever.
O seu ar sombrio escondia um homem culto, com conhecimentos aprofundados em
todas as matérias. Sentia-se o mais sábio de todos e o desprezo
pela multidão aumentou.
Bebeu o café e leu os jornais da manhã, sublinhando palavras e
desenhando setas nas páginas. Quando terminou de ler o último
artigo, pegou na tesoura e recortou todas as letras das palavras que havia sublinhado.
Recortou-as calmamente, uma a uma, com o mesmo cuidado de um ourives que trata
as suas jóias.
Pegou nas letras e subiu para cima da mesa mas, sem querer, tombou uma pilha
de livros no chão. Alguns abriram-se, deixando a descoberto páginas
esburacadas, em branco, com a ausência de letras. Alberto Góis
só deixava intactas as capas e, no tecto da sala, colava milhões
de letras, de todos os estilos e línguas. Essas letras, assim sobrepostas
caoticamente, formavam uma espécie de cúpula celeste que o protegia
da sua imensa solidão.
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