A Garganta da Serpente
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Noite de bruxas
(Daniela dos Santos)

O fato era desconfortável e volumoso. Só andara dois quarteirões e já se arrependera de ir à festa de Halloween mascarado de caixa de antrax. O fato nem era original. Uma caixa gigante, inspirada nas embalagens de detergente, com a palavra antrax escrita a vermelho e em maiúsculas. Essa fora a parte mais difícil de fazer, pois não sabia se se escrevia anthrax ou antraz. Optou pelo estrangeirismo, mas acabou por dispensar o "h" porque desenhara as letras demasiado grandes, não havendo espaço para todas.

Chovia e a caixa de cartão começara a desfazer-se. Irritou-se, tentou despir o fato, rasgou-o e deixou-o derreter-se nas poças de água à beira da estrada. Como sempre, Luís chegou atrasado à festa.

A casa ficava numa colina junto à zona industrial e estava rodeada de automóveis mal estacionados. Lá dentro, os convidados dançavam, vestidos de feiticeiros, vampiros, serial killers e bruxas. Quase todas as mulheres se tinham mascarado de bruxas e todas elas o faziam lembrar-se de Rita, a pessoa com quem passara seis anos da sua vida e com quem pretendia casar-se. Depois de saber que ela o traíra com metade dos amigos, todas as mulheres lhe pareciam assim, desprezíveis como bruxas.

Vítor, o dono da casa, vestido de extraterrestre verde, aproximou-se dele com duas garrafas de cerveja. Estava visivelmente bêbedo e ria. "Quero apresentar-te uma amiga", disse. Fez sinal com a mão e do outro lado da sala apareceu uma rapariga a endireitar a peruca cinzenta. Depois, Vítor trocou-os por uma loira com dentes de vampiro e não o viram mais nessa noite.

A música tinha cada vez mais ritmo e muitos dos convidados perdiam adereços dos fatos quando dançavam. A rapariga chamava-se Ana. Ou seria Andreia? Falava imenso, bebia ainda mais e soltava gargalhadas estridentes quando ria. Enquanto falavam, Luís imaginava-a a despir-se mas, sob a túnica larga, não conseguia adivinhar se era gorda ou magra.

A meio da noite, Luís já estava eufórico e falava com a cara a aproximar-se da dela. Beijaram-se. Uma hora depois, estavam em casa dele, a despirem as roupas à pressa e a atirarem para o chão as almofadas do sofá. Afinal, ela era mais magra do que parecia e tinha um escorpião tatuado ao fundo das costas.

Amaram-se como se fossem apaixonados. Mas não eram. E como em todos os encantamentos, o feitiço quebrou-se. "Amo-te", sussurrou-lhe ela ao ouvido. Luís empurrou-a e gritou. "Estúpida! Não sabes o que é o amor!". Continuou a insultá-la e a empurrá-la. Ela tentou defender-se, mas ele agarrou-lhe os braços. "És completamente doido! Larga-me!", suplicou.

Luís continuou a empurrá-la, em direcção à porta, "Rua! Rua!", enquanto ela, nua, tentava apanhar as suas roupas do chão. Mas ele não lhe deu tempo para apanhar todas. Ela tentava vestir-se. "Rua! Rua!". Tentava não tropeçar em si própria, "Rua!", mas tropeçou e caiu. Luís não parou de gritar, arrastou-a pelos cabelos até à porta e fechou-a rapidamente antes que ela tentasse entrar.

Fez-se silêncio. Levantou uma ponta da cortina e espreitou-a pela janela. Ela continuava lá fora, à chuva, semi-nua, sem saber onde estava, numa zona onde não passavam táxis às cinco da manhã e chorava. Luís acendeu um cigarro e fumou-o sorridente. Aquela Ana, ou seria Andreia?, era mesmo parecida com a Rita, a bruxa a quem um dia chamara "sua".

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