| Daniela dos Santos |
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Anjo sem asas não voa
(Daniela dos Santos)
Numa tarde de Inverno, um anjo foi empurrado pelo vento e caiu da nuvem em que
se aconchegava. A nuvem estava pendurada lá no alto, no topo do céu,
onde o azul mais escuro recebe as nuvens cinzentas.
O anjo ainda tentou agarrar-se, mas o vento era demasiado forte. Aos poucos,
a mão foi deslizando até se soltar completamente e arrancar um
pedaço daquele algodão flutuante. Caiu. A uma velocidade tão
grande que não lhe permitiu distinguir formas nem sombras. Temeu o vazio.
Tentou voar, bateu as asas, esperneou, bracejou, gritou por socorro. Nada. Deixou-se
cair, mas a queda foi terrível. Longa. Tão longa que demorou seis
dias a atingir o chão. Depois, o embate foi estrondoso. Toda a Terra
tremeu. Como se um gigante apertasse e abanasse uma esfera nas mãos.
Estruturas anti-sismo ruíram, cadeias montanhosas perderam encostas,
mares calmos geraram enormes vagas e terrenos férteis tornaram-se áridos.
Na natureza nada permaneceu igual.
Quando recuperou os sentidos, o anjo estava desfeito em dor. A seu lado, uma
asa branca ensopava-se no vermelho, dilacerada. Ao aperceber-se que estava sem
uma das asas, o anjo chorou. Como iria voltar a casa?
Ao longe, uma mulher ouviu as lágrimas do anjo pingarem no pó
da terra. E sempre que uma lágrima caía, uma planta nascia. Aos
poucos, a planície foi se enchendo de árvores e lagos, como nunca
fora visto. Eufórica, a mulher correu para a aldeia e anunciou que a
seca acabara. Que presenciara um milagre. Os habitantes quiseram ver com os
próprios olhos e foram em busca do anjo. Caminharam horas ao calor e
continuaram rodeados por uma paisagem inanimada que os fazia desejar, bem lá
no fundo da alma, que a mulher falasse a verdade.
Quando já estavam a perder a esperança, avistaram uma árvore.
E depois outra. E mais outra. Muitas árvores e plantas, arbustos e pequenos
animais. Ficaram maravilhados. Alguns até esfregaram os olhos, mas quando
se aperceberam que era mesmo verdade deram gritos de alegria. Calma, calma!
Gritava o chefe da aldeia erguendo o cajado negro. Ainda falta encontrar o anjo.
Então, continuaram a busca, procurando em todos os recantos e sombras,
sob as indicações da mulher testemunha. Estavam ansiosos.
Entre o verde das plantas, o anjo adormecera cansado de chorar. A seu lado,
jazia a asa partida e ensanguentada. Os habitantes aproximaram-se dele e observaram-no
silenciosos, pois era a primeira vez que viam um anjo. Logo depois, começaram
a sussurrar sobre a situação da criança. Era pequena e
indefesa, perdida numa terra estranha, amputada para poder regressar sozinha
a casa. O que fazer? Deixá-la ali? Levá-la para a aldeia? As opiniões
divergiam.
O chefe da aldeia ergueu o cajado, como costumava fazer sempre que pretendia
chamar a atenção do seu povo, e ordenou que se calassem e afastassem
um pouco. Tanta exaltação poderia acordar o anjo. Assim, fez-se
um momento de silêncio. O velho coçou a barba, acariciou-a, fechou
os olhos e, quando os voltou a abrir, dirigiu-se ao anjo. Com a ponta dos dedos,
tirou-lhe o cabelo dos olhos e viu uma lágrima a deslizar nas pestanas.
O anjo salvara a aldeia e o velho queria salvar o anjo. Então, aproveitou
o sono profundo da criança e tatuou-lhe uma grande asa nas costas, no
lugar da que se tinha partido.
Na manhã seguinte, os primeiros raios de sol acordaram o anjo, ainda
atordoado pela dor. Sentiu a tinta fresca na pele e não percebeu que
tatuagem era aquela. Quem a teria feito? Olhou à sua volta, mas estava
sozinho. Voltou a tocar nas linhas negras gravadas nas costas e sentiu que o
desenho se avolumava. Ganhava novas formas, como se crescesse. Era uma asa mágica,
enorme, que o levou de regresso a casa nesse mesmo dia.
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