A Garganta da Serpente
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Armando
(DRB)

Já me chamaram de bruxo, virgem, ateu, e de muitas outras coisas que não vêm ao caso. A partir de hoje todos se lembrarão de minha pessoa ao ouvirem um único nome. Serei um só substantivo. Estou feliz! Acho que nunca senti tamanha excitação; estou feliz e pronto, caminhando sossegado com a minha sacola de compras dependurada nas costas, numa avenida onde acontece de tudo.

Quando tinha cinco anos de idade roubaram a minha bicicleta naquele lugar. Também já derrubaram a minha irmã na calçada e levaram a sua bolsa, na mesma altura em que vi um acidente entre um bêbado e um moleque que não tinha habilitação. Depois de muitos anos, dei o meu primeiro beijo sob o barulho dos motores dos veículos que trafegavam naquela avenida.

Mas hoje é diferente! Abro um sorriso porque pela primeira vez tenho a certeza de estar agindo corretamente seguindo na direção a mim predestinada. E pensar que dois dias antes eu queria ser médico, ou melhor: pretendia ir à prova num vestibular de medicina.

"É uma pena Armando, mas se você pensa assim...", disse o meu pai.

Uma pena coisíssima nenhuma! Ele tá pouco se importando, o que me livra de um monte de obrigações. Não que a medicina me desagrade, mas para mim, da forma como as coisas são colocadas, segundo os "valores" da "vida moderna", qualquer coisa acaba soando como uma imposição.

Tudo te impõem a vida que você leva, o mundo te obriga a aceitar os seus padrões, nada é você quem escolhe, então decidi agir por mim mesmo e desisti de tudo e de todos. Agora só o que desejo é caminhar até o cinema, tranqüilo com a minha sacola de compras.

Adoro o cinema. Tenho várias lembranças de momentos vividos enquanto projetavam alguma fita. Duas semanas atrás, por exemplo, a minha noiva terminou o nosso relacionamento de três anos na mesma hora em que o galã magricela tentava escapar do vilão armado, numa reprise de Titanic. Ela disse que sou "meio mórbido" só por que acho idiota comer pipocas assistindo remakes.

Em primeiro lugar pipoca tem gosto de sal. Em segundo, não consigo acompanhar legendas enquanto mastigo. Além do mais detesto ouvir o barulho que faço e as casquinhas que sempre ficam entre os dentes. Mas ela não compreende, diz que sou mórbido. Que desculpa esfarrapada! Melhor assim: posso caminhar sozinho em direção ao cinema.

E nem os comerciantes tentando passar o golpe nos consumidores, os supermercados e lojas que há pelo caminho, os carros volantes berrando as promoções, são capazes de estragar o meu humor. Caminho indiferente a todas as coisas, inclusive às pessoas com quem cruzo, consumindo e se consumindo sob o sol cada vez mais escaldante que conseguiram com a fumaça de suas indústrias. Estou feliz por me sentir afastado de tudo, andando lentamente e segurando a minha sacola nas costas, o braço em v.

Chego no cinema, tiro a sacola das costas e abro o zíper. Apanho e destravo a metralhadora, comprada dois dias antes num camelô, e começo a atirar contra as trinta ou quarenta pessoas que estavam sentadas. Na verdade são apenas sombras que caem ou saem correndo e emitindo ruídos. Depois que consegui acabar com a gritaria, desci o assento de uma poltrona e me sentei. É muito bom o cinema, a escuridão toda e um filme interessante na tela.

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