A Garganta da Serpente
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Visita Posterior

(Diego Hang Borges)

Nunca imaginei que hoje eu seria quem eu sou; essa carcaça de ossos que se desfazem na chuva. Esse corpo fétido que exala odores mortais, como um gás venenoso que toma o andar de um prédio.

Pensava que, quando eu morresse, minha pele fosse virar pó, fosse desaparecer estranhamente, como se tivesse sido teletransportada para uma outra galáxia. Minha pele não virou pó, ela apodreceu e fedeu durante dias, até quando todo o meu corpo começou a feder, e aí os vermes se alimentaram sem pressa alguma da minha pele.

Quando dei por mim meu corpo já estava todo esburacado; fora outrora um corpo forte e viril, e agora, não passa de alimento para decompositores de cemitério.

Eu fora outrora, uma pessoa que nÃo suportava ver a vida, não conseguia ver o lindo vermelho do sangue, nem mesmo o azul dos olhos de uma mulher; uma mulher que eu sabia que a amava, e que ainda convivia comigo, mas que houvera, um dia, optado por uma decepção para minha vida, e fez com que meu último e mórbido desejo, antes de ser entregue aos vermes do cemitério, eu pedisse que antes que me pusessem embaixo de seus pés, retirassem meu coração e mandassem a loja de joias para que lhe fosse gravado: "Eu te amo", e que subissem a mais alta serra para que lhe fosse entregue meu coração, que somente a ela pertencia.

Logo não me notei mais no mundo que eu conhecia. Eu estava em meio a loucuras e absurdos que em nada me faziam lembrar as loucuras e absurdos que eu já havia passado.

Me liguei que ali eu nunca havia estado antes na vida; mas ao mesmo tempo eu conhecia todos que ali estavam, mas que me deixavam sozinho, isolado como na minha época de colégio.

Minha vida toda se passou e eu sangrei sozinho por cada erro meu, e todos nós sangramos quando o erro era coletivo. Foi nessa hemorragia que encontrei meus pais, que me levaram até um buraco e me arremessaram. Nunca mais ouviu-se falar de mim.

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