| Diego André Gorla |
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Mergulho íntimo
(Diego André Gorla)
É noite como aquelas em que fico a pensar em tudo o que não
é desse mundo. Física, Matemática e outras dessas matérias
(literalmente, pois tratam do material) me incomodam por impedir-me a loucura.
A música combina com o uísque e o cigarro sendo consumidos como
qualquer outra droga da vida contínua. Todo esse descritivismo toma meus
pensamentos e faz o clima em que vivo.
Minha cabeça formula frases, descobre palavras e constrói teorias
indiferentemente de como é no dia. E como ela pensa... seria impossível
colocar em palavras a metade de todas as loucuras e sanidades que passam por
ela; algumas dessas são constantes e imutáveis como a idéia
de que tudo é loucura e de que a sanidade não é de usufruto
dos sãos, como a ânsia de escrever, como o instinto de ser um observador
de outro mundo, e minha capacidade de perceber o duplo sentido de tudo e perceber
que todos os sentidos podem ser verdadeiros. Minha cabeça racional é
inseparável e me fascina ao mesmo tempo que me separa da minha parte
mais gostosa e completamente irracional.
Tudo em ambigüidade e duplo sentido. Muitas vezes até o contraditório
se torna lógico e forma uma idéia que, não tem forma, mas
é completamente formal e verdadeira em qualquer sentido.
E enquanto todos esperam viver pra sempre, eu já sou eterno e espero
minha morte para começar minha vida de um jeito mais doce. Doce como
nas noites em que morro e vivo num constante sentir irracional o qual amo, no
qual entendo tudo o que a racionalidade me impede. Racionamento de compreensão
é usado por tantos que se corroem... e eu me corroo com venenos corporais
sem destruir sequer um pedaço do que sou. Nesses atos meus, que sigo
cegamente a observar, sustento dúvida que deve ser o preço a ser
pago pela certeza da eternidade.
"Âncora ou Vela? Qual me leva? Qual me prende? Mapas e Bússolas
ou Sorte e Acaso?"
(Isso é do Humberto Guessinguer, mas parece ser meu)
Mas aprendi a tê-la (a dúvida) com conformação pois
"a dúvida é o preço da pureza e é inútil
ter certeza"(isso também é dele e já faz parte de
mim).
A contradição da vida me atordoa e eu a amo. Deve ser propriedade
do amor amar o que "dói e não se sente". A arte me comove,
me põe em prova, me faz sentir até o que é triste, me toma...
e eu continuo a vivê-la como a coisa mais importante do Tudo. O que pago
por isso é o não entender aquela Física e Matemática
desimportantes a mim e tão importantes ao mundo que raciocina (ou seria
raciona?) e me atordoam mesmo sendo inúteis ao que a humanidade nem conhece
e vive a todo momento.
Tamanho desassossego faz parte da contraditória vida (já disse
Pessoa) que apesar de dolorida é maravilhosa. Mas o que seria da perfeição
se não fosse o defeito? Passar-te tudo isso é tão importante
(pois cultura é essência de ser humano) quanto inútil (pois
esquecerás e não usarás para fazer parte do teu mundo).
Mas a inutilidade disso é o que o faz digno de boa Arte. Talvez só
seja Arte por ser-te inútil. E o gastar teu tempo lendo tal inutilidade
enquanto poderias estar vivendo tua vida racional normalmente, faz-te como criança
arteira.
Quantas crianças vivem em tua memória? Tudo o que ocorre já
ocorreu antes assim como o meu escrever de agora. Tua infância te criou
(assim dizem psicólogos) e agora crias o mundo e novas pessoas que continuarão
com a criação. Será possível, assim, qualquer mudança?
Tanto faz! Aliás, te perguntar isso continua sendo inútil! Tanto
faz se tu vais compreender a importância disso. Mesmo que compreendas
irá ignorá-lo num futuro próximo.
O uísque que me leva ao lúdico seca nas cabeças que vagam
pelos compromissos cotidianos tão sóbrios que são completamente
alienados, incertos, loucos e mais contraditórios que o próprio
Amor. E enquanto os cotidianos apagam os humanos e pedem o amor como ópio
anestésico, também escondem o verdadeiro Amor e o transformam
num simples amor ideal, que todos sentem certos de estarem sentindo o Amor real,
que por sua vez, só é real por não existir nessa realidade
imediata a qual todos os que estão mergulhados na ilusão do mundo,
pensam ser a realidade real.
E minha cabeça continua a ser limitada pelo racional. Mas o maravilhoso
é que ela consegue entrelaçar o racional e o lúdico para
criar pontes de passagem entre os mundos. Falta nela, agora, a capacidade de
transformar o que é considerado lúdico em realidade para todos,
e o que é considerado realidade por todos naquilo que não é
visto por ninguém em fase adulta(erada) mas existe em todos e está
no Tudo mais que tu próprio, que já não sabes no que pensar,
sentir ou falar.
(set/2000)
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