A Garganta da Serpente
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Animula Vagula Blandula
(Charlene Cristine Weiss)

Seus olhos são a cegueira de minha alma…

Cegueira das flores do amanhã a cada vez que acordo e vejo você respirando ao meu lado. Fico calado, fecho meus olhos para encontrar o olhar que se perdeu numa simples noite de outono. Como é difícil conquistar o brilho da luz de nossos olhos e tão fácil a se apagar. Basta uma noite, um suspiro. Não é à toa que o olhar vale mais que uma palavra…

Talvez partiremos, talvez acordaremos juntos. Talvez próximos, mas possivelmente distantes. Distantes da matéria, do corpo, dos nossos cabelos, dos nossos cheiros.

A cegueira de minha alma enxergou além do que meus olhos possam ver. Além do que querem ver. Além do fingir que não vê.

A cegueira de minha alma pressentiu você desde o início, desde o princípio que não chegou a existir, mas devido àquela noite de outono, tornou-se minha pior amiga e melhor inimiga.

Sinto-me anestesiado quando me enxergo no escuro. Não me sinto perdido, na verdade não sinto as coisas que gostaria de sentir. O medo anda comigo de mãos dadas. É educado, diz-me bom-dia, até logo e, como vai você? Já está preparado?

A cegueira de minha alma foi criada por meus olhos. Criada pelo vulto atrás da árvore seca de ramos caídos. Criada pelo riso triste do palhaço num circo sem platéia. Criada pela dor da saudade que não se sente. Criada pela angustia por não saber o que há por detrás das nuvens.

Quero acordar deste sonho. Quero sorrir sem dentes, quero viver, mesmo à sombra da morte vaga e contente. Não quero ouvir novamente essa verdade simplória que me assombra a mente. Preste atenção antes que eu vá descobrir o outro lado. Não quero caminhar sozinha na floresta. Acreditei ouvir sua voz a me chamar. Não me deixe ir também. Será que corro para dentro das árvores?

Não importa o que eu faça. Há corações partidos e mundos doloridos. Há uma menina que me puxa para baixo e outra que me puxa para cima. E o rosto que eu quis me olhou de volta. Permaneci de pé com meus olhos arregalados. Não pude esconder minhas lágrimas. Meus sonhos quebraram, minhas promessas secaram, mas assim mesmo consigo agir como antes. Isso se esvai entre meus dedos fechados.

A cegueira de minha alma acreditava que suas lembranças eram reais. Ainda vejo você me esperando na chuva enquanto eu corria para perto do seu coração e me perdia no meu. Você foi o maior, o mais brilhante, pois me fez acreditar que há um céu e que nesse céu há estrelas que nos espera ansiosamente. E eu encontrei coragem para deixar tudo, tudo, tudo…

Fui clara de pedra corajosa. Caí em seus braços e chorei pela morte de nossos corações. Você sempre se perdeu na escuridão de meu quarto vazio e com quadros pendurados na parede colorida.

Seremos, então, duas figuras pálidas em silêncio no solo seco? Você moveu sua estória num passado sem fim e desconhecido.

Nada eu sou, nada eu sonho. Nunca senti tanto frio naquela noite de outono. Eu nunca tentei exatamente ser tão fácil. Tudo o que eu tenho, tudo o que eu digo, tudo o que eu perdi, tudo o que eu falei, tudo o que eu sorri, tudo o que eu chorei, tudo o que mantenho, tudo o que está errado, costumava ser mais fácil.

Nunca senti tanto frio naquela noite de outono…

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