| Cortuska |
  |
Memórias do vidente Antunes
(Cortuska)
Por aquele então eu estava a aprender o trabalho de ladrão. O
Lobo, o meu querido mestre, colocava-se acima do andar onde íamos roubar.
Os telhados eram quase transparentes para a sua vista: tudo abaixo dele emitia
uma tênue luz que lhe servia para saber onde colocar o raio da sua peculiar
invenção. Eu esperava ao pé da porta e quando escutava
o sibilo de ave rota que ele emitia, entrava através duma nuvem feita
de escuridão. Naquela dimensão de silêncio, além
de ir metendo os objetos preciosos por baixo da minha roupa, podia escutar um
rumor ao redor de mim: os amantes gemendo pausados para não acordar as
crianças, os cães sonhando sem sonhos e a luz repousada atrás
dos meus passos. Quando tinha terminado a faina voltava para a porta e quase
sempre chocava defronte da face do Lobo que me esperava impaciente. Saíamos
a correr e chegávamos ao esconderijo que há aquém da parte
nova da cidade. O Lobo ficava com o saque que estava por cima de qualquer interesse.
Para com os meus, passava-me a noite inteira a lembrar os sonidos escutados
e a adivinhar os corpos que podia olhar então perto da minha boca
745 visitas desde 3/01/2006
|