| Célia Demézio |
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A garota que queria ser Beat
(Célia Demézio)
Chove lá fora e aqui faz tanto frio...Peguei a garrafa e tomei um gole
de conhaque pelo gargalo. Procurei me concentrar, mas não conseguia ter
nenhuma idéia original. Tomei mais um gole de conhaque. É, as
coisas estavam começando a ficar complicadas. Liguei para o editor e
ele estava em reunião. Liguei de novo e ele continuava em reunião.
Na terceira ligação a secretária me disse que o editor
havia mandado eu me fudê. Bem, em resumo era isso mesmo que eu tinha entendido,
antes da secretaria desligar o telefone na minha cara, e eu pudesse lhe dizer,
muito obrigada. Eu estava atrasada e o negócio editorial possuía
suas normas rígidas. Quinze páginas em branco, e só faltava
preenche-las com alguma estória impressionante, fascinante ou mesmo interessante.
Pensava em uma história simples, porque afinal de contas, não
iriam me pagar tanto. Mas, nem o simples se alcança tão facilmente.
Comecei a picotar papeizinhos enquanto tentava raciocinar com o feixe do meu
sutiã. O tempo passou e nada. Devo ter picotado justamente quinze papéis,
pois havia um morrinho branco à minha frente. Espalhei o morrinho branco
como fosse uma espécie de deus destruindo o mundo com minhas próprias
mãos. Passei três horas olhando para as minhas unhas e nada. Na
minha gaveta encontrei uns pincéis atômicos. Comecei a escrever
nas paredes: "era uma vez um burro chinês", "oito horas
de sono", "uma colher de açúcar", "legalize
já", "coca-cola é isso aí!". Queria ter
uma idéia com aquela loucura toda. Mas nada. Resolvi então mandar
tudo a merda e viajar para São Luís do Maranhão. Mas as
coisas nunca são o que a gente deseja. Isso faz parte do Mundo. É
simples, você se fode sempre. Antes de viajar o meu editor me ligou pedindo
que eu lhe devolvesse o dinheiro que ele me pagara adiantado, pois tinha contratado
um escritor beatnic para a sua coluna "A Hora e a vez dos Marginais".
Mas isso não me afeta, em nada. Quando cheguei em São Luís
do Maranhão, logo no terceiro dia, caí de cama com uma intoxicação
aguda. Foram os malditos caranguejos. Eu havia comido pelo menos uns quinze
e os filho-da-puta me detonaram.
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