A Garganta da Serpente
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A velha

(Bayard Fornazier)

Subia as escadas devagar, pensativo, com a cabeça ainda atacada pela dor de cabeça de dias. Só poderia desejar naquele momento sua cama. Abriu a porta do quarto cuidadoso para que ninguém na casa acordasse com aquele ranger assombrado, aquele alarme que sempre dizia que ele estava voltando de mais uma noite desgarrada. Procurou o interruptor meticuloso com os olhos nas pontas dos dedos. A lâmpada queimara. Foi andando devagar na direção do abajur. Acendeu-o. Um susto o fez saltar para trás. Segurou a boca para não gritar. Uma mulher velha, de pele vincada, cabelos brancos, com os olhos estatelados nos dele estava deitada em sua cama. Surpreso? Quem é a senhora? Não interessa. Eu vim buscar você. Buscar para onde, minha senhora? Não faça perguntas tolas. Ela saltou da cama leve. Vamos. Não posso esperar. Ainda tenho que visitar muitos quartos estúpidos como o seu. Espera aí! Eu não vou a lugar algum. A senhora sabe que horas são? Eu não uso relógios, garoto. Não preciso disso. Então por que tem pressa? Quem lhe disse que estou com pressa? A senhora mesmo. Eu não disse nada. Você já está tendo alucinações. Realmente, chegar em casa e encontrar uma velha decrépita como a senhora deitada na minha cama me olhando nos olhos e sorrindo como uma louca só pode ser uma alucinação. Eu não sou uma alucinação. Então o quê é? Eu não estou aqui para responder às suas perguntas. Eu preciso levá-lo embora. Para onde? Não estou autorizada a dizer. Pois eu não vou. Como não vai? Você tem que vir. Eu não posso não executar o que me mandam. Quem mandou a senhora aqui? Você vai saber na hora certa. Eu estou sendo preso? Ora, rapaz, não me faça perguntas idiotas. Me dá um cigarro. A senhora fuma? Não. Estou pedindo um cigarro para limpar meus pavilhões auditivos. Anda logo. Me dá um cigarro que essa conversa está me deixando nervosa. Nervosa por que? Toma. Obrigada. Nervosa porque você está se comportando como um menino que parece não conhecer a vida. Olha aqui, eu não estou entendendo nada. Mas você não tem que entender nada, apenas vir comigo. Quem deixou a senhora entrar? Ninguém. Como assim "ninguém". Ninguém. Eu não uso portas. Sei, sei. E a senhora chegou aqui como? Chegando. Apareci no seu quarto. Me deram o endereço e apareci no seu quarto. Só isso. Assim naturalmente? E a senhora acha isso normal? É. Normalíssimo. Agora chega de papo, rapaz. Não. Chega de papo, uma pinóia! A senhora vai me escutar. Eu ainda tenho o meu direito de expor minha opinião. Esse aqui é um país livre, pelo que me consta. Puta merda! Será que a cada cem anos me mandam um idiota como você? Idiota não! Vê lá como fala! Está bem. Senhor Idiota. Anda logo, seu porra! Vamos embora. Daqui a senhora não me tira. Eu estou começando a ficar irritada. Quero que a senhora se foda! Além de sumir daqui, é claro. Pois eu só vou com você. Então ficaremos aqui até o dia raiar, olhando um para a cara do outro. Mas que boçal! Está bem. Eu fico. Senta aí. Senta aí você também e me dá outro cigarro. Não vou ficar alimentando vício de velha mal educada. Dá um cigarro aí e não enche o saco.

Mas chegou um momento em que ele não agüentou e tombou na cama, mordido pelo sono de três dias em claro.

E na manhã do quarto dia duas manchetes no jornal foram comentadas no mundo todo:

1 - Finalmente, depois de três dias, amanhece em São Paulo.
2 - Mais um mistério! A cidade de São Paulo não registrou nenhuma morte nos três últimos dias.

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