| Bayard Fornazier |
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O tom sépia de nossas vozes
(Bayard Fornazier)
E quando o telefone toca, temo que seja mais uma vez a tua voz que irromperá o meu silêncio cotidiano. Simplesmente porque sei que não saberei o que dizer. Sei que ao ouvir-te, minha voz enternecer-se-á e nada mais poderei fazer a não ser aceitar tocar tua mão e embeber-me em teus olhos que pedem perdão. E eu também faço a ti este apelo. Também porque sei que não consigo perdoar-me. E nem mesmo me sei culpado e tampouco te vejo culpada. Apenas levados a acreditar em memórias que, mesmo que ainda vivas, já foram gastas pelo uso incorreto do tempo.
Ah, o tempo! O que fizemos com ele? O que nos fez tão absortos na nossa realidade construída sob palavras descartáveis? Não sei se tenho a resposta, mas arrisco-me em dizer, já a essa altura, sem medo de parecer irônico ou dono da verdade, que nos fundamentamos em nossa nostalgia sádica de trazer de volta os anos perdidos num quando ainda éramos ingênuos. Olha para nós e responde-me: o que tu vês? O que tu procuras quando devassas nossas fotografias? O que tu vês quando mergulhas nas taciturnidades do fundo dos meus olhos? O que tu vês quando te encontras parada diante do espelho? O tempo nos foi usurpado levianamente por nossas próprias mãos marcadas pela agonia de um dia ainda ser possível encontrar nas páginas ainda em branco de nosso livro as personagens já em linha decadente de inocência. As personagens que tão somente seguiram suas trajetórias díspares e incoerentes.
Se ainda te amo? Eu acho que sim. Essa dor empírica que me liquefaz a pele não advém de não te amar. Vem de que me percebi incapaz de levar adiante um amor anacrônico. Nossos olhos anacrônicos, nossas mãos trêmulas e ensopadas de suor, nossas carnes cheirando a mofo. Nosso trem passou. Nós o perdemos numa caminhada calma. Quando chegamos à estação, só folhas secas e portinholas fechadas. E os ponteiros do tempo acumulavam o pó da inércia. Do desterro em nosso próprio país.
Digo-te ainda que nos sabíamos blefando. Que se tu te consideras a blefar sempre com tua vida, anuncio-me também um péssimo jogador. Blefei com a tua e com a minha. E agora, neste momento de impasse, denuncio também nossa falta de escrúpulos. Se te culpas, também me culpo. Embora acredite cegamente que não há culpados. Há apenas o sonho de dois jovens idealizado num tempo remoto. Há apenas a inconsistência do se achar invulnerável às agruras do tempo. Se tu te lembras, sim, nós nos amávamos com a incondicionalidade que o amor exige. Pensávamos da mesma forma? Não. Absolutamente. Mas esses sonhos foram construídos em uníssono. E hoje se tentássemos, uma vez que fosse, não conseguiríamos tocar um acorde sequer. A orquestra foi-se há muito. Os músicos abandonaram o palco e só restou uma nota ou outra esquecida nas paredes do teatro.
Não quero aqui vender apologias, e tampouco eximir-nos de qualquer responsabilidade. Mas já não podemos esconder de nós mesmos a grande mentira na qual se transformou nosso amor acadêmico. Nossa teimosia em acreditar que tudo poderia ser diferente, que poderíamos lançar mão de nossos valores em prol de um amor ainda nunca realizado. Ainda nunca vivido na sua plenitude. Não te posso presentear com mimos que te enganem que me pedes tão sofregamente. Não quero fazer-te mais penitente.
Se ainda te amo? Acho que sim. E podes ter a mais absoluta certeza de que te amarei ainda por uma longa eternidade. E se te vejo chorar, não penses que me afasto de tuas lágrimas porque não posso dividi-las, mas apenas porque talvez a matéria da qual são feitas seja diferente da matéria da qual se fizeram as minhas ao longo de todos esses anos. E esse tão famigerado tempo ainda há de erodir os vales cavados em nossas faces e fazer-nos sorrir diante daquelas fotografias sépia que guardamos com o zelo de quem ama.
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